Plebe Rude

Correio Braziliense - 18/09/2006
Por Carlos Marcelo

Crítica - R ao Contrário ****

Às vezes tenho medo de ouvir discos novos de bandas velhas. Especialmente quando são grupos que integram a história de uma geração: no caso, a minha. Não é fácil o confronto com o próprio passado – ainda mais no caso da Plebe Rude, que já começou pelo topo: o mini-LP O concreto já rachou é invariavelmente incluído, com justiça, nas listas dos melhores discos do rock-Brasil dos anos 80. Por isso, de cara, um aviso: quem, como eu, procurar hinos do calibre de Johnny vai à guerra e Até quando esperar na primeira audição de R ao contrário vai se decepcionar. Em vez da contagiante urgência adolescente, o que a Plebe tem a oferecer hoje para todas as gerações (Coca-Cola, Diet Coke, Pepsi twist, Red Bull), são músicas menos taquicárdicas e mais cadenciadas, arranjos trabalhados, cantos de desilusão. Coerência e consistência.

O discurso juvenil do contra-todos-e-contra-ninguém ainda está presente ("religião não importa/opinião não importa/instituição não importa/eu juro que vou embora/se esta porra não engatar", vocifera a faixa-título), mas a banda parece ter a consciência de sua posição singular no cenário anoréxico do pop-rock brasileiro. Eles, que nunca foram tão brasileiros assim ("alguém", na voz do brazilianista Philippe, vira algo como "halkain"), desistiram de vez do flerte com o regionalismo – o único instrumento folclórico utilizado aqui vem da Grã-Bretanha, a gaita-de-foles à Big Country (quem lembra?) de O que se faz. Tampouco tem vocação para freqüentar as festinhas revivalistas desmioladas: até porque os anos 80 da Plebe não foram coloridos como os da Blitz ou do Balão Mágico, mas cinzentos e ásperos como um LP do Gang of Four.

A mistura do inconformismo com o desencanto move todo o disco, e só por esse combustível R ao contrário já seria altamente recomendável: sintoma de sua época, carrega nas letras as contradições ("Raiva mostra a direção/ eu me rendo à falta de opção", "Inverta toda a ordem, antes desordem do que a rendição", "nunca se renda") de uma banda – e de uma geração – que tenta retomar a guerra, mas tem dificuldades de reconhecer as feições do inimigo, pois parece que todos estão "dançando no vazio/ olhando para o vazio", como afirmam na versão em português para música do obscuro grupo punk The Ruts.

Mas a Plebe ainda é punk? Pelo oportuno resgate do brado pueril "seja alguém/vote em ninguém" de Voto em branco, e pela presença do ex-Inocentes Clemente (apesar de ele, aparentemente, ainda estar preso a desempenhar como vocalista às funções de contracanto do antecessor, Ameba), pode-se dizer que sim. Mas, se punk for sinônimo de tosqueira, nada mais falso. Esse é um disco de produção esmerada, com guitarras, violões, baixo e bateria captados com precisão, pontes bem construídas entre diversas partes de uma mesma composição (ouça O que se faz), e pelo menos duas músicas – Discórdia e Remota possibilidade – com musculatura suficiente para rivalizarem com os clássicos da banda. Tudo isso, em setembro de 2006, não é pouco. Muito pelo contrário.

R AO CONTRÁRIO
Novo disco da Plebe Rude. 12 faixas. Produção de Philippe Seabra. Lançamento encartado com a revista Outracoisa. Preço da revista com o CD: R$ 14,90.

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Correio Braziliense - 18/09/2006
Por Daniela Paiva

Plebe Rude, em nova formação, lança álbum em que mostra evolução sonora – sem deixar de reafirmar a condição de banda essencial dos anos 80. Em R ao Contrário, exibe cuidadoso trabalho de produção e mantém a postura inconformista em faixas como Voto em branco e Dançando no vazio

A saga folhetinesca chega ao fim. E, sim, tem final feliz. Afinal, anuncia seqüência da história da Plebe Rude com a chegada às bancas de R ao contrário, encartado na revista Outracoisa. O vai-não-volta, afirma Philippe Seabra, ficou nas páginas do passado. "A volta da Plebe é definitiva", garante, escorado pelo parceiro André X e os (já) plebeus Txotxa e Clemente. O disco, o primeiro de estúdio desde Mais raiva do que medo, de 1993, não joga fora a caminhada feita até aqui. Tampouco pretende situar-se como arremedo de si mesmo. "Não queremos escrever outra Até quando esperar, Proteção, mas mostrar como a Plebe evoluiu todo esse tempo", aponta André.

O novo passo tem como objetivo, acima de tudo, seguir com a coerência no percurso da Plebe, iniciado em 1981. A trajetória da banda divide-se em dois ciclos. O primeiro rendeu os EPs O concreto já rachou (1985) e Nunca fomos tão brasileiros (1987), o álbum homônimo de 1988 e Mais raiva do que medo (1993), o último antes da dissolução, em 1994.

O segundo ciclo começa com o retorno provisório, em 1999, da formação original, com Jander Bilaphra (guitarra e vocal), Gutje Woorthman (bateria), Philippe (guitarra e vocal) e André X (baixo). Eles gravaram, ao vivo, Enquanto a trégua não vem, em 2000. A partir daí, a Plebe penou com a deserção gradativa. Em 2002, Gutje abandonou as gravações do disco novo, que só sai agora. Dois anos depois, foi a vez de Jander pedir as contas. O destino iminente estava longe do sonhado final feliz. "O que outra pessoa faria? Colocaria qualquer um para tocar e lançava um caça-níqueis", afirma Philippe.

A história, porém, transcorreu de forma diferente. Philippe e André aliaram-se a Txotxa (ex-Maskavo Roots) e Clemente (Inocentes), numa formação que só se concretizou definitivamente em 2004. E, desde então, tomam extremo cuidado para não deturpar o passado ou borrar o futuro da Plebe Rude. O entusiasmo, demonstrado nas apresentações da banda ao longo do processo de incubadora, como no Porão do Rock em 2005, permanece aquecido como em outros tempos. "Estou com 44 anos, mas ainda amarradão, sarado e com muito gás", diverte-se André.

R ao contrário reúne 12 músicas inéditas da Plebe compostas em fases diferentes – de Philippe na carreira como Daybreak Gentleman, após o retorno da formação original, e da parceria de Philippe e André durante a etapa de reformulação. A essência dos plebeus aqui é o fio da meada. Voto em branco, por exemplo, que encerra o álbum, mantém acesa a chama do manifesto. "Vimos a democracia se formar e o que a gente fez? Nada", analisa André, que escreveu a música nos anos 80. A música, porém, visa a estimular o eleitor a exercer a sua voz, avisa Philippe. "Prega o voto consciente. O brasileiro ainda está aprendendo a votar".

Atitude genuína

Voto em branco conta com a participação de Fê Lemos, do Capital Inicial, na primeira parte da bateria. Um detalhe: ele usou instrumentos da época do Aborto Elétrico. "Na segunda parte, tinha que ser o Txotxa", explica Philippe. "Esse disco começou a ser produzido há 10 anos, quando mudei para os Estados Unidos (onde ele nasceu e morou). Por isso, a influência predominante é a história da banda mesmo", emenda o vocalista. "A Plebe é uma banda tão honesta que torna-se uma extensão do que somos."

Duas canções simbolizam bem essa atitude genuína. O primeiro single, O que se faz, agrega na introdução gaita de foles em homenagem ao Big County (grupo escocês cujo líder, Stuart Adamson, morreu em 2001). "Sempre gostamos de influências exóticas, como no cello de Até quando esperar", lembra Philippe.

Mais uma marca de outros carnavais é Dançando no vazio, versão para a música Staring at the rude boys, da semi-desconhecida banda punk inglesa The Ruts. "É a boa e velha Plebe, e ajuda o fã a entender o universo da banda", explica Philippe. Essa tal boa e velha Plebe mantém as referências no pós-punk, em bandas como The Clash e Stiff Little Fingers, mas se permitiu crescer e amadurecer.

A produção coube ao próprio Philippe, que atua no ramo com afinco há cerca de cinco anos. O lançamento do disco está programado para a próxima sexta-feira, no Circo Voador, no Rio de Janeiro, e contará com a abertura de Dado Villa-Lobos e participação de Herbert Vianna (produtor dos dois primeiros EPs e do ao vivo) e Marcelo D2. A verdadeira prova da química entre os novos e velhos plebeus será realmente testada no próximo disco, quando Clemente e Txotxa devem contribuir para as composições. Uma coisa é certa: "É a mesma banda. E mais importante: são as mesmas posturas, atitudes e convicções", salienta Philippe. C de coerência.

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Jornal de Brasília - 18/09/2006
Por Guilherme Lobão

Novo CD da Plebe Rude, R ao Contrário, chega hoje às bancas de Brasília, encartado na revista Outracoisa, incluindo a música Vote em Branco, inédita em disco e que levou a banda à prisão em 1982

Antes de rachar o concreto, há 26 anos, a Plebe Rude profetizava a implantação de um regime democrático com o devido anarquismo que regia a rebeldia punk da época. Philippe Seabra atacava nos vocais os versos escritos pelo baixista André X: "Imagine uma eleição onde ninguém fosse eleito/Já estou vendo a cara do futuro prefeito/Vamos lá, cara, seja franco/Use o poder do seu voto/Vote em branco/Seja alguém, não vote em ninguém." A poesia punk descrita nas linhas de Vote em Branco, nunca foi registrada em disco e ainda foi banida do repertório da banda assim que fora reimplantado o voto para presidente no Brasil, em 1989. "Com a abertura democrática achamos que não tinha mais sentido. As pessoas precisavam era votar", relata Seabra.

Às vésperas das eleições (1° de outubro), os plebeus originais Seabra e X unem-se ao ex-Maskavo Roots Txotxa (bateria) e ao ex-Inocentes Clemente (guitarra e vocal) para entoar mais uma vez o hino de protesto "vote em branco". A música ganha o primeiro registro de estúdio no novo disco do quarteto brasiliense, R ao Contrário, que chega hoje às bancas da cidade, encartado na revista Outracoisa, do também roqueiro Lobão. "Estamos gravando a música nesse disco novo porque, de repente, não vemos mais tanto sentido (em votar)", disse Seabra em entrevista recente ao Jornal de Brasília.

Mas, a canção entra como "bônus" no novo trabalho da banda, como André X prefere chamar. "Essa música não é a característica do disco. A gente faz uma linha com grande influência do pós-punk", resumiu o baixista. Segundo X, a banda começa uma nova carreira com R ao Contrário, com novos integrantes, novas músicas e novo show (a turnê começou no sábado pelo Rio de Janeiro, depois segue para Curitiba e São Paulo). "É como se estivéssemos começando do zero", sublinha.

A nova formação da Plebe começou a ser moldada em 2004, quando Philippe Seabra e Clemente se viram dividindo o mesmo palco num tributo à banda inglesa The Clash. Quase um ano mais tarde ocorria o primeiro show, no Circo Voador, no Rio de Janeiro. Para a bateria foi recrutado o potente Txotxa, que fez parte da formação clássica do Maskavo Roots, grupo de pop e reggae destaque no cenário brasiliense dos anos 90.

O disco sucessor de Mais Raiva do que Medo (na discrografia de estúdio) também será distribuído pela gravadora Tratore a partir do próximo mês. O disco atual reúne 12 músicas, todas inéditas, com exceção de Vote em Branco, composta em 1980 e agora gravada pela Plebe com a participação de Fê Lemos (Capital Incial) na bateria.

Sem realizar qualquer lançamento em CD desde 2000, quando ensaiou retorno ao mercado fonográfico com o ao vivo Enquanto a Trégua Não Vem, a Plebe Rude volta à cena com inéditas 20 anos depois do lançamento de seu primeiro álbum, O Concreto Já Rachou (1986), considerado, com justiça, um dos trabalhos mais emblemáticos do rock brasileiro dos anos 80.

R ao Contrário foi produzido pelo próprio Philippe Seabra, no Daybreak Studios, montado por ele no Lago Norte, e traz 12 músicas com as características básicas da Plebe Rude: melodias inspiradas no pós-punk e a verve política que deu ao mundo Proteção, o hino da abertura política brasileira dos anos 80, e o clássico duelo vocal antes feito com Jander Bilaphra (o Ameba) e hoje complementado por Clemente.

O Que Se Faz, o primeiro single, abre o disco com acordes grandiloqüentes que homenageiam o Big Country, grupo escocês contemporâneo da Plebe que teve o líder Stuart Adamson morto em 2001. Na introdução foram usadas até gaitas-de-foles. Outra faixa inquieta é Mil Gatos no Telhado, cuja letra instiga o ouvinte a se indignar, de uma forma menos didática e mais inteligente.

A faixa-título, por sua vez, é quase uma incitação pública para que se "pense ao contrário", onde o rádio e a TV são novamente colocados na berlinda. Mas fica para o final a cereja do bolo, com a gravação da "inédita" Vote em Branco. A música foi responsável pela detenção da banda no histórico show de Patos de Minas, em 1981, com o pessoal da Legião Urbana, que tocou Música Urbana 2 e também foi em cana. O charme a mais foi dado pela interpretação de André X, que pela primeira vez gravou os vocais, e pela participação de Fê Lemos, que usou a mesma bateria dos primeiros ensaios da Plebe, nos anos 80.

Uma das mais importantes bandas do afamado rock de Brasília da década de 80 que revelou, entre outros, Legião Urbana e Capital Inicial, a Plebe Rude foi a que conseguiu estourar mais faixas de um mesmo disco. Com o EP O Concreto Já Rachou, nada menos que seis das sete músicas se transformaram em hits nas FMs do País. Puxado por Até Quando Esperar, o disco superou as 250 mil cópias, e é considerado uma das melhores estréias de uma banda nacional em todos os tempos.

R ao Contrário – Novo CD da banda Plebe Rude, encartado na revista Outracoisa. 12 faixas. Produzido por Philippe Seabra. Preço: R$ 14,90.

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chorosoulpop.blog.terra.com.br - 18/09/2006
Por Flavio Monteiro

Formação atual da Plebe RudeR ao Contrário é o novo CD de inéditas da Plebe Rude. São 11 faixas inéditas mais a gravação da música Voto em Branco, composta em 1980. Essa faixa, que contou com a participação de Fê Lemos das bandas irmãs da Plebe em Brasília, Capital Inicial e Aborto Elétrico,e é um presente da banda a todos os fãs fiéis da Plebe. Junto com a execução pública de Música Urbana no primeiro show da Legião Urbana, Voto em Branco rendeu a prisão da Plebe Rude mais os conterrâneos da banda nova de Renato Russo em 1982. R ao Contrário, é a estréia, em disco, da formação que vem tocando pelo Brasil desde 2004. Além de Philippe Seabra (vocal e guitarra) e André X (baixo), remanescentes da Plebe original, estão na banda Clemente (guitarra e vocal), também integrante do Inocentes, outra lenda do punk rock nacional, e o baterista Txotxa, ex-Maskavo Roots. Entre as inéditas, destaques para O que se Faz com letra e música poderosa de André e Philippe, Mero Plebeu lembra a acidez das canções do antológico O Concreto já Rachou, album clássico do rock nacional lançado pela Plebe em 86. Outra letra poderosa e desconcertante é Remota Possibilidade.

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www.descubracuritiba.com.br - 17/09/2006

Plebe Rude volta a gravar disco inédito

Nesta quinta-feira, a Plebe Rude faz o primeiro show do lançamento do novo álbum "R ao Contrário". Depois da volta da banda, com a gravação de um cd ao vivo, em 2000, os fãs aguardavam um disco de músicas inéditas, que só agora está sendo lançado. O show será no Jockers Pub Café, a partir das 22 horas.

A banda surgiu no começo dos anos 80, ao mesmo tempo em que Paralamas do Sucesso, Capital Inicial, Legião Urbana e Aborto Elétrico começavam a tocar os primeiros acordes. Em 1986, a Plebe lança seu primeiro disco, "O Concreto Já Rachou", que fez sucesso imediato. Um ano depois, lançavam mais um disco, "Nunca Fomos Tão Brasileiros", considerado por muitos fãs como o melhor do grupo. Naquele momento, os meninos de Brasília eram a sensação do punk rock. Logo depois do lançamento do Plebe Rude III, a banda deixa a gravadora EMI e dois dos integrantes, o baterista Gutje Worthmann e o vocalista Ameba. Philippe Seabra e André Mueller resistiram às retiradas e lançaram, em 1993, um disco independente, o "Mais Raiva do Que Medo". Nos cinco anos seguintes, a Plebe Rude ficou em silêncio.

Em 1998, o grupo volta a ensaiar e faz um grande show em Brasília. O cd ao vivo, em 2000, foi conseqüência da repercussão dos shows que a banda vinham fazendo. O cd "Enquanto a Trégua Não Vem" reuniu antigos sucessos da banda e reanimou o punk nacional. Hoje, a banda tem uma nova formação: o guitarrista Clemente e o baterista Txotxa (ex-Mascavo Roots) se juntaram a Philippe Seabra e André X. Assim, gravaram o "R ao Contrário". O novo disco tem onze músicas inéditas e a regravação de "Voto em Branco", música que em 1981 levou a Plebe Rude para a prisão, depois de um show em Minas Gerais. Muitas participações especiais incrementam o disco.

O estilo Plebe Rude continua lá: críticas à situação política, melodias trabalhadas, o vocal em dueto e a maturidade musical. O show no Jockers marca um recomeço da banda, uma retomada, com novos integrantes, novas músicas e também novo site. Os ingressos custam R$25,00 antecipado e R$30,00 na hora.

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www.beatrix.pro.br - 16/09/2006
Por Rubens Leme da Costa

"A Plebe tá de volta!"... Os gritos dos fãs agora irão ecoar mais fortes, porque a volta é definitiva, boys and girls! E essa entrevista já está sendo esperada desde fevereiro deste ano (hoje é dia 16 de setembro!), desde que Philippe me mandou um email dizendo que tinha achado uma matéria minha sobre eles e queria publicar no novo site do grupo (que está para entrar no ar em breve...). Foi a deixa para pedir uma entrevista, que ele topou, mas pediu para esperar o disco novo, que sairia "no máximo em março ou abril"... Sei... Fui confiar num punk, deu nisso, sete meses (quase uma gravidez)... Mas, bendito seja, Philippe cumpriu a promessa e trocamos dezenas de emails desde então e ele falou de muitas coisas bacanas: a saída de Jander, Renato Russo, Capital, Aborto Elétrico, Gang of Four e essa besta perigosa chamada futuro. Eu sei que o site tem uma sessão de entrevistas, mas tantas já viraram colunas e por que não mais uma? Sendo assim, a volta da melhor mão direita (músicalmente ou não) do rock brasileiro, Mr. Seabra e seus Plebeus... "A Plebe tá de volta!!!!!"

Philippe, fale um pouco sobre a volta da Plebe Rude e do disco novo. Como surgiu a idéia e o que vocês estavam fazendo após o final da turnê do disco ao vivo?

Philippe Seabra: - Desde a volta "temporária" da Plebe em 1999, circularam boatos que a Plebe voltou para ficar. Mas nunca declaramos isso, muito pelo contrário. Eu estava morando fora do Brasil e o André estava em Brasília. Depois da excursão do disco ao vivo Enquanto a Trégua Não Vem, cada um foi para seu lado, mas eu resolvi voltar ao Brasil e investir no meu estúdio e na carreira solo. A Plebe fazia shows esporádicos, mas sem a real perspectiva de voltar, apesar de toda a pressão em volta. E mais, o Jander não estava muito afim. Em 2002 tentamos gravar algumas músicas inéditas, que eventualmente poderiam virar um disco novo da Plebe, mas faltando 8 horas para o inicio da gravação, no meu estúdio, o baterista aprontou mais uma, das inúmeras "aprontadas", forçando eu e o André a puxarmos a tomada. Incrível, faltando 8 horas... mas foi até bom, porque com o clima entre os membros originais, não poderia sair coisa boa. As coisas acontecem por um motivo...

Como foi a entrada do Clemente?

Philippe Seabra: - Em 2004, fui convidado pelo Mingau (Ultraje) para participar de um tributo ao The Clash em São Paulo, junto com Nasi e Redson, do Cólera. Foi ótimo ter visto Clemente de novo. Afinal, foi ele quem buscou a gente na rodoviária no primeiro show da Plebe em São Paulo, em 1983, pois trabalhava no Napalm, lendária casa punk que estava fechando. Olhei para o lado na hora do show e pensei, como o Clemente é fantástico no palco, sem mencionar um ótimo guitarrista. Voltei a Brasília e mencionei ao André. Como tinha surgido um convite para fazer um show no recém re-inaugurado Circo Voador no Rio, porque não tentar como Clemente, só para ver o que rolava... Mesmo com duas semanas de antecedência apenas, ele topou, mas a logística impossibilitaria ensaios. Mandei as cifras e os Cds para ele, e no dia, passamos o som no palco do Circo, num breve ensaio. O resto é história. Nos primeiros acordes do show, não sabíamos exatamente o que esperar, mas ele tomou o palco com uma garra e vimos ali que poderíamos continuar com a banda.

Se a geografia não estiver me traindo, você vive no Rio de Janeiro e o Clemente, em São Paulo (ao menos ele era meu vizinho quando morei no Bexiga). Vocês moram hoje todos na mesma cidade? Se não, como fazem para ensaiar, e escrever?

Philippe Seabra: - Eu, o André e o Txotxa (baterista) estamos em Brasília. O escritório da Plebe fica no Rio, e o Clemente fica em São Paulo. Em Brasília, nós três ensaiamos regularmente (mas nem precisa tanto, pois modéstia a parte, somos muito precisos ao vivo... já está no sangue, sabe?) enquanto que o Clemente ensaia sozinho ouvindo os CDs. Nas passagens de som passamos algumas músicas, mais para tirar dúvidas. É claro que na véspera de shows mais importantes, voamos o Clemente para cá para trabalharmos. O estúdio Daybreak, que é meu estúdio particular, também tem estrutura de ensaio, que uso quando pré-produzo algum artista. Mas ensaio mesmo, só para a Plebe... Como estamos lançando disco novo, não estamos pensando em composição por hora, mas quando for a hora, voaremos o Clemente de volta e mãos à obra...

A Plebe está levantando a bandeira do Vote em Branco. Não seria mais útil anular o voto, já que se uma eleição quase 90% dos votos anulados, seria necessário outra com candidatos diferentes? Os votos em branco não permitem isso... Ou seria apenas uma maneira de atualizar a clássica canção de vocês de mesmo nome e agora presente no novo disco?

Philippe Seabra: - Pois é, a música foi feito mais como chacota durante a ditadura em 1980!!! Isso antecede a Plebe. O André tocava isso com a sua primeira banda, Os Metralhaz. Tocamos "Voto em Branco" durante o comecinho da Plebe, entre 1981 e 1983, mas com o repertório que aumentava, com músicas mais sérias como "Censura" e "Minha Renda", ela ficou de lado. Em 1982, no primeiro show da Legião, a Plebe e a banda nova do Renato foram presas por causa dela... e ela voltou ao repertório 23 anos depois!! E mais pertinente do que nunca. Não é um endosso ao voto irresponsável, ela clama "use o poder do seu voto". É para cutucar mesmo, e tendo sido escrito durante o governo Figueiredo, o sarcasmo é mais evidente ainda.

Voltando à política, como você se define?

Philippe Seabra: - Bem, nos EUA (sou meio-americano) sou Democrata registrado. Aqui no Brasil, sou meio descrente, como a maioria da população. O PT foi uma grande decepção para todos, mas cá pra nós, nunca foi santo. Era só uma questão de tempo que o PT se corrompesse com o poder. Muito triste. É o jogo que está errado, as leis até existem, mais tem que ser cumpridas. A quantidade de políticos com o passado sujo ainda no poder é estonteante. Isso tem que mudar, e quando voce vê um Quércia, Barbalho e Collor perdendo eleições recentes, de repente, existe alguma esperança. Se aprende a votar exercendo o voto, e o brasileiro não teve tanta experiência assim. Espero que isso aos poucos vá mudando...

Eu gostaria que você falasse um pouco da relevância da Plebe Hoje em dia. O André X fez um post muito bom no blog dele (Cães velhos não mordem!, dia 14/02), falando sobre a relevância (ou não) de bandas como Stones e questionando se os grupos dos anos 80 ainda sabem ou têm algo a dizer aos jovens do novo século. Você acha que o discurso da Plebe (e não o som) ainda é relevante e está antenado com essa nova geração?

Philippe Seabra: - A Plebe não faz mais músicas didáticas como "Proteção", mas a raiva e o inconformismo de antes continuam intactos. Isso que importa; ser fiel ao que você é. Crescendo em Brasília em plena ditadura, não podia ser de outra maneira. Os temas do disco novo, o "R" ao Contrário são mais sócio-políticos e, sim, temos MUITO a dizer ainda, especiamente se você prestar atenção na música "jovem" que está na rádio, temos o dever de dizer...

Falando em nova geração: essa meninada de hoje me parece muito mais alienada do que aquela que era muito criticada nos anos 80. Hoje os valores são completamente diferentes, deturpados e grande parte se deve à mídia eletrônica, que boicotou a boa música. Quando você conversa com as bandas da moda de hoje em dia, sente alguma afinidade ou você acha que eles apenas querem fazer barulho, ficar falando palavrão?

Philippe Seabra: - Quase todas as bandas, como você colocou, "da moda" com que já conversei são fãs da Plebe. Bem, tem algumas que não prestaram muita atenção nas letras (risos), mas mesmo assim ficamos lisonjeados em saber que fomos parte de suas influências. Mas, sim, sinto uma certa acomodação. A internet, ferramenta inimaginável na nossa época parece que, ao invés de inspirar as pessoas, acomoda pela facilidade e imediatismo. Tudo é tao fácil, por que vou me esforçar... É claro que isso é um tema mais complexo, mas não sinto aquela faísca nas bandas de hoje como sentia há vinte anos. Talvez pelo fato de não ter existido mercado, estrutura, perspectiva de viver de música. Na verdade, não existia nada, só uma urgência em querer fazer alguma coisa, uma inquietação de uma geração tentando se expressar. É claro que tem muita banda ligando o "foda-se" e mandando ver, e como produtor, fico feliz em ver isso. Mas tem muita gente que quer mesmo é tocar na radio, faz música pensando no cara da gravadora, etc... Mas o espaço está se diminuindo para esse tipo de som "palpável". Cada vez mais, as pessoas são forçadas a encontrar o seu som, fazer algo único e legal, e através do selo do qual sou sócio, Senhor F estimulamos isso. Boa música sempre foi boicotada pela mídia e hoje não é diferente... O público brasileiro não é burro, é mal informado para caramba, mas burro não é...

Praticamente todas as grandes bandas da sua geração se "reabilitaram" com um acústico MTV. Você se imagina nesse formato? Já foram convidados?

Philippe Seabra: - Não fomos convidados e se fôssemos, teríamos que pensar a respeito. Mas de qualquer jeito, violão é meu melhor instrumento. Pensando bem, creio que os únicos da minha geração que ainda não a fizeram somos nós... (risos) O problema não é o formato acústico, mas o que você faz com ele...

Fale um pouco das gravações do disco ao vivo. Como ele se processou? Qual foi a recepção que teve?

Philippe Seabra: - O preparo desse disco foi muito tenso, durante três semanas. Imagine juntar uma banda que já saiu no tapa (com o baterista) depois de 10 anos na formação original para gravar um disco... não gosto nem de lembrar... Mas a recepção foi incrível. Dê uma olhada no acervo da Plebe no nosso site no ano de 1999 e 2000. Respeito não tem preço e fico feliz que a Plebe ainda cause boa impressão. Afinal, reputação é tudo, ainda mais com uma banda como a Plebe, que tenta ser coerente em tudo que faz, mesmo que isso a prejudique... Sou meio idealista sim, mesmo soando ingênuo...

Fale um pouco de como está o Herbert após o acidente. Você ainda se falam? Pensaram em convidá-lo para produzir o disco novo?

Philippe Seabra: - Alguns anos depois do acidente passamos a nos ver com mais freqüência nos bastidores de shows, especialmente de festivais onde ambas as bandas estivessem. Ele fala comigo com muito carinho e até me deu uma guitarra Gibson de presente, recentemente. Ele vai participar do lançamento do disco novo no Rio (junto com o D2, Plebeu de carteirinha) como convidado mais que especial. O rock brasileiro deve muito ao Herbert, e eu devo minha carreira tambem. É um exemplo de perseverança a ser seguido. Sempre que vejo aquele comercial na TV com ele "sou brasileiro e não desito nunca", fico emocionado...

Uma pergunta bem antiga e talvez chata: fale um pouco das idas e vindas de Jander, particularmente na saída no início da década de 90 e depois do disco ao vivo?

Philippe Seabra: - Pelo visto, o Jander estava num processo de perda de interesse pelo rock, já desde o Plebe III e respeitamos isso, mas tínhamos que continuar o nosso caminho. Infelizmente, músicalmente, nós dois nunca nos demos muito bem, mas apesar do som confuso das guitarras no palco, rolava uma sintonia em shows que não sei de onde vinha. O show sempre foi forte. Depois da "volta temporária" ele continuava não muito afim, e quando falou definitivamente que estava fora, em 2004 (apesar da banda se encontrar muito que raramente) não veio como uma surpresa para mim. Poucos meses depois chamamos o Clemente e o resto é história. Uma banda é uma caravana. Todos têm que estar em sintonia. Estou muito, muito feliz em ter essa "sintonia" de volta. Foi uma novela e tanto, mas as coisas são o que são, não?

Você me disse que até sonhou em convidar o Andy Gill para produzir um disco. Eu ouço muita influência do Gang of Four em algumas bandas novas, e ele me disse que gostou do disco de vocês que eu enviei. Eles continuam sendo relevantes para você? Aliás, o que ouve hoje em dia?

Philippe Seabra: - Até um amigo em comum me arranjou o telefone dele, mas como não estaríamos com verba para isso, não queria ser aquele "mala" ligando... A influência do Gang of Four mais do que nunca está por toda parte, e fico feliz em ver isso. Só não me peça para curtir da mesma maneira essas bandas; prefiro a matriz! Mais uma vez agradeço o seu envio do disco da Plebe para o meu "mestre", mas cá pra nós, se não tivesse gostado, será que falaria? (risos) Vi o Gang of Four semana retrasada em BH, na sua formação original, e fiquei de boca aberta, pulando e cantando a dois metros do palco como os Plebeus mais afoitos. Incrível, simplesmente incrível... Já tinha visto o Gang of Four em Nova Iorque na turnê do Shrinkwrapped e mais uma vez fiquei dois metros do palco. Curiosamente não estava muito cheio. Agora com esse auê em volta da banda (até a Sofia Coppola vai usá-los na trilha do seu novo filme Maria Antonieta) os shows do GOF devem ser mais disputados. Eles merecem. A sua trajetória me lembra muito o da Plebe. Uma banda mais política, com dois vocalistas (o Andy Gill canta muita coisa também) que estava à margem da grande mídia. Os shows que vi deles me inspiraram muito. Os shows da Plebe sempre foram fortes também, e não consigo aceitar que algumas das bandas que produzo façam shows inconstantes. Sempre tem que ser incrível. Sempre! É assim que se constrói uma carreira e reputação sólida. Não adianta ter um disco bom (provavelmente editado até a alma, um verdadeiro frankenstein de colagens) se a banda for ruim no palco. Tive que largar algumas das bandas que apadrinhei porque perdi o tesão mesmo. Tem que ter um pouco mais de respeito com o público, e comigo. Não tenho mais tempo a perder. Vou investir em quem vai levar à sério...

O blog do André é bem divertido. Já pensou em montar um seu?

Philippe Seabra: - Não. Não me exponho dessa maneira. Sou muito mais reservado do que pareço. Já me exponho o suficiente nas letras da Plebe pois eu que as canto. Às vezes queria que o André falasse um pouco menos das entranhas da banda (risos).

O que você acha das novas tecnologias e de ser "pirateado" via mp3?

Philippe Seabra: - O gato já saiu do saco. Já tentou colocar um gato de volta num saco?

Existe alguma chance dos primeiros discos da Plebe serem relançados? Como anda a relação de vocês com a EMI?

Philippe Seabra: - Volta em meia a EMI relança uma obra aqui e acolá, ou faz uma coletânea à revelia. Que azar que a gente deu com gravadora... Agora com o novo disco da Plebe, devem relançar alguma coisa.

O que achou do Capital Inicial regravar músicas do Aborto?

Philippe Seabra: - Bem, sempre falo isso. O Renato nunca gravou aquelas músicas por um motivo, mas acho necessário o seu registro. Não sei se o público da Legião aceitou muito bem, mas tinham somente duas pessoas que poderiam fazer isso, os irmãos Lemos. Mais um capítulo na história do rock de Brasília... Apesar do Capital e Plebe terem tomado rumos, e propostas, bem diferentes, fico feliz com o sucesso do Capital. Ralaram muito, muito mesmo. Ninguém pode dizer o contrário.

Sinceramente: qual foi o papel da Legião na vida de vocês? O mito Renato Russo foi benéfico ou opressor demais para a sua geração?

Philippe Seabra: - Renato foi um grande amigo na época de Brasília, mas a fama e as drogas afetaram o seu discernimento e acabei me afastando. O grande prejudicado pelo mito Renato Russo foi ele mesmo. Se ele levasse uma vida mais tranqüila e não tivesse tanto sanguessuga em volta, durante a sua vida no Rio, quem sabe não estaria vivo ainda? Mas também não teria sido o Renato. Afinal, letras daquele nível (alguns o colocam no panteão junto com Chico Buarque) só podem vir de uma alma atormentada. Que pena que ele não conseguiu encontrar algum equilíbrio (será que é dali que veio Equilíbrio Distante?). Ele queria amar e ser amado como todo mundo. Estava fora do Brasil quando ele faleceu, mas já sabia que tinha Aids há muito tempo, e com o abuso de substância, ele só apressou esse processo. Aids na época era decreto de morte, e só Deus sabe o que passava por sua cabeça. Tenho saudades daquele Renato que conhecia em Brasília, não do estereótipo, e às vezes caricatura, do "rock star".

Herbert Vianna disse que você é dono da melhor mão direita no Brasil (músicalmente falando...). Qual é sua relação com a guitarra? Pratica regularmente ou só quando está trabalhando?

Philippe Seabra: - Espero que ele tenha falando apenas "músicalmente"... (risos). Ele sempre gostou da minha pegada. Pegada é tudo. Não existe banda boa sem guitarrista com pegada... Se seu guitarrista não tiver pegada, esqueça. Vai estudar economia...(risos).

Engraçado, raramente me perguntam sobre técnica. Não treino guitarra, na verdade nunca treinei. Já estudei muito violão e piano, e toco bateria, mas o meu estilo guitarra para mim ninguém mexe. Aliás tive professores sim: Pete Townshend, Joe Perry, Andy Gill, Captain Sensible (The Damned), Johnny Thunders (me rendendo o apelido de "trovoada"), e a lista por aí vai. Sem falar no brasileiro Carlini, o mestre do qual tirei meu primeiro solo, ainda moleque, o de "Ovelha Negra" da Rita Lee. Tive a honra de conhecê-lo em São Paulo, num show que fizemos juntos ano passado. Nao é que ele tinha visto a minha apresentação no "Claro que é rock" (apresentado pelo Frejat), que tinha passado recentemente, tocando uma música antiga (mas bem rock) do Guilherme Arantes, "Coração Paulista"? Me falou que foi ele quem gravou a guitarra! E eu nem sabia! Muito engraçado. Temos que reverenciar esse pioneiros do rock no Brasil. Outro dia, também no "Claro que é rock", o Zé Rodrix falou que a banda brasileira predileta dele era a Plebe. Que honra! Para quem não o conhece, faca uma busca no Google. Esses caras pavimentaram o caminho do rock brasileiro, em condições BEM mais precárias do que a geração 80. Merecem todo nosso respeito.

Ainda sobre o líder dos Paralamas: certa vez li o Herbert criticando a postura de vocês com a EMI. Ele afirmou que vocês não precisavam ser tão "punks" no relacionamento com a gravadora e que se fossem um pouco mais flexíveis, teriam tido mais sorte. Você concorda com isso? E como anda o relacionamento de vocês com o mercado?

Philippe Seabra: - Talvez tivéssemos levado a letra de "Minha Renda" a sério demais. Fomos nos isolando dentro da gravadora, se recusando a fazer alguns programas de TV, brigando com a direção artística.... Isso deixava os executivos malucos. Se fosse a coisa mais estratégica a fazer, provavelmente não, mas a Plebe era a Plebe. Paciência... Mas mesmo se jogássemos o "jogo", a estrutura interna da banda não estava mais tão sólida, então... Temos a fama de ser muito "difíceis", mas sabe de uma coisa, quem nos conhece de perto vê que não é nada disso. Essa fachada punk nos persegue até hoje.

O que existe hoje em Brasília, em termos músicais?

Philippe Seabra: - Meus olhos estão voltados para o Brasil. Pensei que poderia ajudar a cena, mas não tem cena. Têm algumas bandas esporádicas que até conseguem causar algum rebuliço, mas devido a shows inconstantes e a falta daquela faísca, daquela urgência que nos movia há mais de vinte anos, não os vejo indo muito além, com raras exceções, é claro. Uma pena. Fiz o que pude através de produção, do estúdio e do selo Senhor F, mas pelo visto não foi o suficiente. Depende mesmo é das bandas. Mas estou eufórico com três das bandas do Senhor F, o Volver (Nordeste), Los Porongas (Norte) e Superguides (Sul). Tenho certeza que não vou me frustrar com eles.

Por onde anda o pessoal do Escola de Escândalos, do Arte no Escuro, do Detrito Federal, aquela turma toda que veio depois de vocês?

Philippe Seabra: - Tentei até lançar uma coletânea do Escola de Escândalos, mas eles não ajudaram muito, então deixei para lá. Uma pena... O baterista do Escola está de banda nova, que co-produzo, chamada Resistores. Arte no Escuro se debandou rápido demais, e o começo dos meus problemas com a direção artística da EMI foi quando eles optaram pelo Arte, ao invés do Escola. Escola era uma banda sólida, com um público bem grande. Teria sido minha primeira produção em disco (tinha produzido uma demo deles) e fiquei muito puto. A galera do Arte está por aí. O Pedro, baixista, grande amigo meu, está em Londres e a Marielle canta na banda Cores de Flores, em Curitiba. Produzo a banda do filho dela, assumidamente pop chamada Colina. Detrito está por ai, mas o PC Cascão agora é um respeitável advogado. Será que o punk morreu? (risos)

Como será a vida da Plebe em 2006? Irão cair na estrada? Alguma chance de shows pelo Norte-Nordeste fugindo do batidão Sul-SE?

Philippe Seabra: - Bem, a volta Plebe agora é definitiva. É claro que vamos ao Norte-Nordeste, que sempre recebeu a gente muito bem. Fizemos Bahia duas vezes esse ano... Aguarde!

Deixe uma mensagem final aos plebeus. Valeu pela chance! Abraço!

Philippe Seabra: - Muito bom fazer uma entrevista com quem sabe o que está perguntando. Valeu! Para os "Plebeus", dêem uma olhada no site da Plebe, o acervo de 25 anos da banda é uma coisa estonteante e vamos dar um chopp grátis a quem conseguir ler tudo. É isso aí. A Plebe tá de volta, quem diria...

Discografia

O Concreto Já Rachou (1985)
Nunca Fomos Tão Brasileiros (1987)
Plebe Rude (1989)
Mais Raiva Do Que Medo (1992)
Portfolio (edição contendo os três primeiros LPs, 1997)
Preferência Nacional (1998)
Enquanto a Trégua Não Vem - Ao Vivo (2000)
"R" ao Contário (2006)

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Revista Lembrança - 13/09/2006
Por Luciana Tibúrcio

A primeira vez da Legião Urbana

"Há tempos o instante está ausente e há ferrugem no sorriso." Mais precisamente fará 10 anos em 11 de outubro. Foi quando um dos poetas mais reverenciados do rock nacional sucumbiu à doença. Foi quando não mais foram escritos versos inéditos por Renato Manfredini Júnior. Assim como deixou fãs de todas as idades em toda parte do País, também na região há milhares de jovens/adultos/crianças que se deixaram contagiar pelos versos das letras escritas por Renato Russo. Mas a ligação da Legião Urbana com a região vai além de grupos de fãs. "Não consigo imaginar nada tão mágico depois de Patos de Minas! E olha que muita coisa rolou depois disso nas nossas vidas", declarou o baterista Marcelo Bonfá.

Mas como uma cidade no interior de Minas poderia ficar marcada na memória de um dos membros da Legião? Aqueles fãs fervorosos já sabem, mas para os que começaram agora a se encantar pelo rock da banda aí vai a resposta: foi em Patos de Minas, cidade localizada a 230 quilômetros de Uberlândia, que a Legião Urbana fez o primeiro show da carreira. Isto há exatamente 24 anos, a serem completados na próxima terça-feira. Foi em 5 de setembro de 1982 que a banda subiu num palco pela primeira vez. "A Legião tinha outra formação, com o Paraná na guitarra e o Paulista nos teclados e o som era alguma coisa meio rock progressivo. As músicas tinham uns nomes esquisitos tipo "O cachorro" e "Grande inverno na Rússia"", lembrou Bonfá.

Tudo começou numa estrutura totalmente improvisada na arena do parque de exposições. Como o palco de shows era muito alto e a arena enorme para um festival de bandas iniciantes, foi construído outro de um metro bem na poeira do chão de terra, sem cobertura nem nada. O som é uma história à parte: foi preciso reunir quase todos os equipamentos que existiam na cidade para realizar o evento. "Me lembro bem da forma como captávamos o som do violão. Era preciso soltar todas as cordas, colocar um microfone dentro do violão, afinar tudo de novo para depois começar a tocar", lembrou o técnico de som Marcos Amorim, hoje responsável pela sonorização de César Menotti e Fabiano.

A falta de estrutura fez entrar em cena um despojado poeta. Marcos Amorim precisava de um voluntário para ajudar a passar o som do violão e Renato, solícito, foi logo subindo ao palco. Afinal, desde que chegara à cidade pela manhã nada havia para fazer e o grupo estava "passando o tempo" pelo parque. Foi assim, no improviso, que a Legião Urbana abriu o "Festival Rock no Parque". "Nunca tinha visto uma coisa destas antes, começar o show durante a passagem de som. Mas Renato subiu ao palco e não parou mais de tocar. Nestes anos nem sabia quem ele era, pensava apenas que era um louco", apontou.

Renato Russo só desceu para, acreditem, ser preso. Se lembrem da época: 1982. O Brasil se preparava para as primeiras eleições diretas após anos de ditadura militar. A repressão era mais leve, mas não significa que não existia. Principalmente numa pequena cidade do interior de Minas Gerais. Que ousadia falar que "os PMs armados e as tropas de choque vomitam música urbana", como dizia "Música Urbana" do Legião. Ou mesmo declamar os versos de "Que País é esse?", assustadoramente atuais. Ou fazer apologia ao voto em branco como forma de protesto como bradava "Vote em branco" da Plebe Rude, principal atração do dia. Pior ainda: o discurso inflamado de Renato Russo defendendo a liberdade de expressão.

Resultado: cadeia. Desceram todos, Plebe Rude e Renato Russo direto para a delegacia de polícia do próprio parque de exposições. "Tive sorte, pois no momento em que a Plebe estava indo em cana eu tinha saído para dar umas voltinhas e quando voltei eles já estavam cercados pela polícia", contou Marcelo Bonfá. Não foi brincadeira para Renato Russo. Mesmo algemado fazia questão de argumentar, dizer da liberdade artística e dos direitos à cidadania. "Entrei em pânico, porque saí correndo para a delegacia e o Renato lá, só contribuindo para aumentar a temperatura e o nervosismo das discussões. Nada que eu falava adiantava. Mas Renato era tão convicto do que defendia que conseguiu convencer o chefe de polícia a liberá-los sob uma condição: de sair da cidade imediatamente. Mas como, se o ônibus só saía de madrugada? Aí foi outra discussão. Assim foram os últimos momentos de um primeiro de milhares de
shows do Legião", relembrou Carlos Alberto Xaulim, produtor cultural responsável por fazer de Patos de Minas uma cidade inesquecível àquela que ainda é uma das principais bandas de rock do Brasil.

Abortaram o Aborto e nasceu a Legião Urbana

Dado villa-lobos, Renato Russo e Marcelo Bonfá, os dois últimos viveram as aventuras e a liberdade de viajar para MG, nos anos 80

E pensar que nem era para a Legião Urbana figurar entre as nove atrações no dia 5 de setembro de 1982 no parque! Porque a idéia do produtor Carlos Alberto Xaulim era trazer à cidade bandas inéditas ou pouco conhecidas dos patenses, mas já com nome pelo Brasil. Um festival como os alternativos atuais, que na época eram raros. Foi por isso que, como de Brasília emergiam várias bandas de rock, Xaulim logo convidou a Plebe Rude - que tinha mais sucesso na época - e o Aborto Elétrico - antiga banda de Renato Russo - para o "Rock no Parque". Detalhe: sem nem um centavo de cachê. Só ganhavam passagens de ônibus e comida. E a visibilidade de um festival. Oito dias antes do show, mais de mil cartazes impressos, liga para o telefone de Xaulim o próprio Renato Russo. Queria comunicar ao produtor que quem tocaria em Patos não seria o Aborto Elétrico, mas sim uma outra banda que formara poucos dias antes: a Legião Urbana. Quem conhece a história da banda se lembra do motivo: uma briga homérica com o baterista Fê Lemos cujo estopim foi a música "Química". "Tinha 27 anos na época e pensava que, sem desmerecer as bandas, não fazia a menor diferença para Patos se fosse o Aborto ou Legião. Só que o Renato fez questão de que mudasse o nome da banda até mesmo nos cartazes. Foi tão veemente que assustei", contou Xaulim.

Como na época tudo era impresso em silk-screen, era muito mais fácil corrigir problemas. Só precisou de o produtor ir à gráfica, mandar repintar tudo de preto e trocar o nome da banda naqueles cartazes que ainda não tinham sido distribuídos. Um destes foi entregue no ano passado à irmã de Renato, Carmem, para ser inserido ao material pessoal que, possivelmente, vai virar acervo de um museu sobre o músico. "O interessante é que foi o próprio Renato quem se lembrou do primeiro show, ao escrever no seu diário. E me lembro que na época ele foi incisivo dizendo que, mesmo que não conseguisse mudar os cartazes, ele fazia questão de dizer ao público que aquele era o primeiro show do Legião Urbana", relembrou.

As poucas lembranças

A lua cheia, linda, "um bolota abençoando público e bandas", como disse Xaulim, é a lembrança mais marcante daquele 5 de setembro. Dos shows, poucas pessoas conseguem se lembrar. Aliás, o tamanho da arena de rodeio faz a percepção de público ser ainda menor. Nas anotações de Xaulim, devia haver umas 1.500 pessoas. Nem mesmo Sérgio Moreira, que dividiu o palco com a Legião Urbana, consegue resgatar muita coisa de 24 anos atrás. "Lembro muito bem da atmosfera da época. Tinha uma energia incrível no público e uma sintonia benéfica entre as bandas. Todos no começo de carreira, tentando um espaço. Tempos depois que fui me ligar que aqueles garotos de Brasília eram os mesmos que estavam no auge do sucesso", contou Sérgio Moreira.

O lapso de memória é quase que um remorso para quem esteve no show e se tornou fã da banda anos mais tarde. Ou para quem quer contar às filhas e sobrinhas como foi a primeira vez que o Legião Urbana, banda venerada até os dias de hoje, subiu num palco. É o caso de Sônia Pereira, que diz só se lembrar de ter gostado muito do som, algo novo, diferente, exatamente o que os adolescentes da época estavam ávidos. "Não era muita gente, mas quem estava lá gostou demais de todos os shows. O interessante é que minhas filhas nascerem muito tempo depois e mesmo assim as músicas da Legião as conquistaram. E quando digo que assisti ao primeiro show deles, logo querem saber se tinha conversado com o Renato. Se soubesse quem ele se tornaria anos depois, faria questão de tietar", brincou Sônia Pereira.

A primeira viagem de Bonfá

"Foi uma viagem inesquecível com a turma. Fretamos um ônibus e junto foram outros amigos", contou Marcelo Bonfá. Se o próprio Renato Russo fazia questão de falar sobre este primeiro show, os outros integrantes também se lembram bem, mesmo sendo há 24 anos. "A verdade é que tenho especialmente todo aquele momento na minha memória, que me marcou para sempre e não sei por quê. Contrariando o que dizia John Lennon quando perguntavam a ele sobre os anos 60 e ele dizia que "...quem se lembrar de alguma coisa ou não estava lá ou estava mentindo...". Foi nossa primeira viagem com uma turma de amigos e músicos. Eu tinha uns 15, 16 anos e por aí dá para imaginar o deslumbre de toda esta liberdade naquela época maluca", lembrou Bonfá.

Quem também não esquece o início da própria carreira é Carlos Alberto Xaulim. O festival "Rock no Parque" foi um dos primeiros que produziu. Foi ele que buscou a turma de Brasília na rodoviária de Patos de Minas e a levou ao hotel. Ficaram pouco tempo no Hotel Magnífico, pois logo queriam conhecer a cidade. Só tomaram café da manhã, descansaram, almoçaram e já saíram direto para o parque. Ficaram lá o dia todo até a hora do show.

A importância deste início de carreira deverá ficar marcado para sempre: Luis Fernando Borges, que está produzindo um filme que contará a vida de Renato Russo, planeja incluir o show de Patos de Minas no roteiro. "Ele já me entrevistou para saber todos os detalhes do evento. Até que tive um certo prejuízo com o festival. O certo é que, finalmente, este início de uma das bandas mais representativas do Brasil vai ser recontado para que todos saibam como é sofrido o começo de uma carreira", finalizou Xaulim.

Vale a dica: o livro "Renato Russo: o Trovador Solitário", de Arthur Dapieve é uma obra fantástica e conta a história da Legião em Patos de Minas e fala sobre toda a realidade do rock no Brasil naqueles anos, além de toda a vida e carreira do poeta Renato.

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Inconsciente e-coletivo - 13/09/2006
Por Eduardo Tetera

Noite do dia 15 de abril de 1983. L2 Sul. Quadra 616. Quase meia noite. Cerca de 50 pessoas aguardam a abertura das portas do auditório da Associação Brasileira de Odontologia. Alguns garotos com roupas rasgadas e meninas de visual esquisito olham com cara blasé os cabeludos tradicionais. Começava ali a ganhar corpo o rock brasiliense da década de 80 que iria sacudir o país dois anos depois. Era a Temporada de Rock, a primeira iniciativa conjunta de cinco grupos seminais da cidade: Banda 69, Plebe Rude, Legião Urbana, XXX e Capital Inicial.

Durante três finais de semana, a sortuda molecada que botou os pés na ABO teve a oportunidade de presenciar o nascimento de lendas do rock nacional. Foi neste pequeno palco que Dado Villa Lobos estreou na Legião Urbana e que Dinho Ouro Preto ganhou confiança para cantar, embora não tenha participado do show. Ficou na mesa de som, assistindo à performance de sua futura banda, que tinha como vocalista a gostosa Heloísa, estudante de arquitetura da UnB e amiga dos irmãos Fê e Flávio Lemos.

A abertura ficou por conta da Banda 69, que naquele mesmo ano já tinha dividido o palco com a lendária Aborto Elétrico. A 69 tentaria cruzar o Brasil três anos depois com um disco lançado pela CBS debaixo do braço que teria a participação de Herbert Vianna em uma faixa.

Renato vinha do Aborto Elétrico e acabara de formar a Legião ao lado de Marcelo Bonfá. O duo tinha como parceiros de jornada os amigos Eduardo Paraná, guitarrista egresso do grupo Boca Seca, e o tecladista Paulo Paulista. Em dezembro de 1982, com essa formação, a Legião abriu o show para a carioca Blitz, no Clube dos Servidores. Os dois amigos saíram pouco tempo depois, dando lugar a Ico Ouro Preto, irmão de Dinho, que amarelou e não consigou segurar a onda. Dado entrou faltando duas semanas para o show da ABO. Uma estréia promissora.

Apesar dessa fauna punk riquíssima, a banda mais importante a subir no palco da ABO era, na verdade, a Plebe Rude que surgira já dois anos antes quando André X largara Os Metralhaz e havia se juntado a Philippe Seabra, líder do finado Cáos Construtivo. Os dois formaram a Plebe com Gutje, ex-Blitx 64 e Ameba (Jander Bilaphra) que fora convocado numa festa, bêbado e cantando com um copo de gim na mão. Ao lado das duas bandas irmãs estavam o Capital Inicial e o XXX. A banda nova dos co-fundadores do Aborto, os irmãos Fê e Flávio Lemos, tinha estreado pouco tempo antes numa festa promovida no ateliê do Departamento de Arquitetura da UnB. Enquanto o XXX era o embrião da Escola de Escândalos, ainda sem a guitarra endiabrada de Fejão e a batida correta de Balé. No lugar dos dois, atuavam Jeová Stemler e Alessandro.

Mas não deu pra Plebe. O show da Legião foi o marco. Pra outros foi um choque. Renato tinha empatia instantânea com o público e dominava a cena sem problemas. Logo de cara, a guitarra de Dado deu pane, e Renato nem teve dúvidas. Improvisou com o público, atacando um mantra maluco, a que ele sempre recorria, desde os tempos do Aborto, chamado 'Adhan'. Consistia num rock quatro por quatro, básico, em que o público gritava adhan progressivamente sob o comando do carismático líder da Legião.

As apresentações tornaram-se lendárias. Nem tanto pelo som, mas pelo que todas essas bandas se transformariam e acabariam representando alguns anos depois.

E do Punk brasiliense fez-se o rock nacional.

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www.revistaoutracoisa.com.br - 11/09/2006
Por Arthur Dapieve

revista Outracoisa"A Outracoisa traz nesta edição o CD que marca a volta da Plebe Rude, depois de 13 anos de espera. São 12 músicas inéditas num disco que é a Plebe de sempre, mas ao mesmo tempo renovada com temas atuais e em sintonia como as mazelas do Brasil de hoje. Além do álbum "R ao contrário" e de várias páginas com a banda, você terá as matérias que só encontra na Outracoisa."

***

"Nós poderíamos ziguezaguear nossos caminhos, entre o tédio e a dor, / Ocasionalmente nos vislumbrando no meio da chuva."

Antes que o Philippe Seabra cuspa na minha cara por eu ousar abrir o texto citando Pink Floyd, me explico: os versos do Roger Waters me voltam à cabeça cada vez que reencontro a Plebe Rude porque sinto, sem viadagem!, nossas vidas profissionais se cruzando.

Minha primeira reportagem publicada na chamada grande imprensa, no velho "Jornal do Brasil", foi sobre o lançamento de "O concreto já rachou", graaande EP de estréia dos brasilienses, no distante 1986. Além disso, os membros da Plebe de vez em quando se apresentavam como os Clash City Rockers, que tocavam covers de minha banda favorita.

Nosso último encontro já fazia seis anos: foi no disco ao vivo "Enquanto a trégua não vem", ao qual se seguiu um show no Canecão. A longa espera potencializou a ansiedade diante deste "R ao contrário". Altas expectativas = decepção ao ouvido? Não. Cada batimento cardíaco foi plenamente recompensado em cada batida de Txotxa, em cada grave de André X, em cada palhetada de Clemente e de Philippe.

Dos acordes gigantescos da faixa de abertura, "O que se faz", ao discurso anarquista com o qual eles atualizam a derradeira faixa, a lendária "Vote em branco", que lhes valeu detenção em Patos de Minas, no ainda mais remoto 1982... Também, imagina, cantar, em plena ditadura militar, "seja alguém, vote em ninguém!" numa cidade do interior mineiro? (De quebra, no primeiro show de sua vida, uma tal de Legião Urbana ainda atiçou os meganhas locais atacando "Que país é este". Pois é. Blitz, documentos.)

Entre uma e outra faixa, há outros momentos dignos do inédito the best of da Plebe Rude. "Mil gatos no telhado", por exemplo. Andamento ameaçador, guitarras roncando, letra que provoca o cidadão, "sempre de braços cruzados, anestesiados pela fé". Ou a faixa-título. Batida seca, jeitão de hino, mais minhoca na cabeça do eleitor: "Pense ao contrário, desligue o rádio, destrua a TV." Alguém aí disse que o rock politizado ficou demodê com a democracia? Além de mandar esse alguém se roçar nas ostras doze vezes em "R ao contrário", a Plebe Rude também presta um inestimável serviço à saúde auditiva. A banda continua louca pelo ideário punk - tanto o estético quanto o político - após todos estes anos. A única emoção externada no novo CD é raiva. Raiva das altas esferas, raiva de Brasília, raiva de nós mesmos, brasileiros molóides. É como se, numa nova ascendente, em pleno século XXI, os quatro rudes plebeus nos dissessem com sinceridade e tesão: "A luta continua."

Emo é o cacete. Punk, porra.

***

FAIXAS

1. O QUE SE FAZ
2. E QUANTO A VOCÊ
3. DISCÓRDIA
4. MIL GATOS NO TELHADO
5. SUFICIENTE POR UM DIA (OU DOIS)
6. TRAÇADO QUE PARECE MEU
7. MERO PLEBEU
8. KATARINA
9. R AO CONTRÁRIO
10. DANÇANDO NO VAZIO
11. REMOTA POSSIBILIDADE
12. VOTO EM BRANCO

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O Estado de São Paulo - 10/09/2006

revista Outra CoisaApós alguns anos a Plebe Rude volta com um CD de nome R ao contrário. O CD vem encartado na revista Outracoisa deste mês e conta com uma novidade: Clemente, cantando e tocando guitarra. Apenas pela história da banda, já vale a pena. R$ 14,90.

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