Plebe Rude

suaturma.com - 17/10/2006
Por Welbert Rabelo

Desde o nosso último bate-papo com o vocalista da PLEBE RUDE, Philippe Seabra, com a promessa de que um novo álbum seria lançado em abril de 2003, os fãs da banda ficaram em estado de alerta. O tempo passou, mas a espera valeu, pois finalmente chegou o novo trabalho do grupo, intitulado R ao Contrário, lançado pela Revista Outracoisa, de LOBÃO. O material não só trouxe o conjunto com uma energia renovada, mas com uma nova cara: o vocalista e guitarrista Philippe Seabra e o baixista André X (remanescentes da formação original), o guitarrista e vocal Clemente (também integrante do grupo INOCENTES) e o baterista Txotxa (ex-MASKAVO ROOTS). Em entrevista exclusiva com o líder da PLEBE RUDE, Philippe Seabra, no Daybreak Studios, onde ele nos conta tudo sobre o que rolou com a banda neste período, algumas curiosidades do rock de Brasília e até mesmo experiências pessoais bem engraçadas... Ficou curioso? Então, está esperando o quê? Está tudo nas linhas a seguir...

Depois da nossa entrevista em 2002, muita coisa mudou, o lançamento do disco foi adiado algumas vezes, mas saiu recentemente, ocasião em que ele traz a banda com uma cara nova. Conte-nos um pouco sobre essas mudanças que a PLEBE RUDE sofreu neste período...

Philippe Seabra: Na época, estávamos programados para gravar o novo disco, só que faltando 8 horas para começar a gravá-lo, o nosso baterista aprontou de novo. Então, eu e o André, faltando 8 horas para gravar o novo disco da Plebe, resolvemos puxar a tomada. Sempre houve uma pressão sobre a volta da Plebe e, depois que puxamos a tomada, eu resolvi a me dedicar mais a minha "carreira solo" e na continuação da obra aqui no estúdio. Acabou que passamos a fazer shows mais esporádicos. Eu e o André estávamos meio desanimados com a banda, o Jander não estava mais muito afim e não queríamos mais saber de baterista. O primeiro show com o Txotxa foi no encerramento da Exposição Renato Russo, na área externa do Centro Cultural Banco do Brasil e foi quando o Jander já sinalizava que não estava muito afim de continuar. Em 2004, o Clemente foi fazer uma participação no show cover do THE CLASH em São Paulo. Achei muito bacana e, na hora, fiquei lembrando de todas as histórias entre a PLEBE RUDE e os INOCENTES. As bandas sempre foram meio irmãs. Começamos na mesma época do pós-punk, não seguíamos a onda do mercado, não tínhamos letras que falavam de amor. Quando conquistávamos a mídia, brigávamos com as gravadoras (risos). A nossa história sempre foi parecida. Então, quando chamei o Clemente para entrar na banda, acabou sendo algo natural.

Neste período, acompanhamos algumas curiosidades de vocês, como uma apresentação da banda na FESTA FANTASY; depois uma participação de você, André X e o Rogério Flausino do JOTA QUEST no BMF 2003, sendo uma com o CAPITAL INICIAL e outra com o ULTRAJE A RIGOR; e, por fim, uma participação sua com o vocalista do ECHO & THE BUNNYMEN, Ian McCulloch, que se apresentou em Brasília. Como foram essas experiências?

Esse foi um período engraçado. O show do BMF foi meio esquisito para mim. O show da Fantasy foi um pouquinho antes do BMF. Chegamos até ser escalado para tocar no BMF, mas como já tínhamos um contrato assinado com a Fantasy, a organização ficou dizendo que os shows iriam ser muito colados um no outro... (N.R.: Particularmente eu acho que não iria atrapalhar, pois os eventos trariam públicos bem diferentes...) É verdade, mas se realmente quiséssemos tocar, poderíamos ter tocado no BMF. Só que eu resolvi puxar o freio de mão. Eu não faço droga e, na boa, eu gosto muito da Plebe e como a banda não estava bem, eu não queria mostrar uma banda fraca no palco... Eu não queria mostrar má vontade... Eu não queria mostrar insegurança... Eu amo tanto essa banda que prefiro deixar ela morrer do que aparecer com ela ruim, pobre, fraca ou algo assim. Essa fase da Plebe foi bem difícil pra mim. Passei uma fase frustado, mas tudo bem... (N.R.: E o lance com o Ian McCulloch? Foi um lance engraçado, não?) Pois é... (risos). Foi um lance tão diferente, mas foi muito legal!!! Eu não falei isso para ele na hora, mas eu usava um "topetão" que nem o dele na época, em 83 ou 84... (risos). Eu vi essa foto pela primeira vez com a Fernanda, atual esposa do Dado (N.R.: ex-LEGIÃO URBANA). Era engraçado... Era tipo um cabelo comprido, meio crespo, mas só que ao contrário... Peguei a idéia em cima de uma capa do disco dos caras (risos). Então, de repente, eu estava no palco ao lado do cara... (risos).

Antes de vocês lançarem o álbum R ao Contrário, a galera de Brasília pode conferir as novas músicas ao vivo na 20ª Noite do Senhor F, sob o nome EDUR EBELP, bem como a nova formação no Porão do Rock 2005, ocasião em que vocês tocaram "Até Quando Esperar" com Marcelo Yuka. Qual a avaliação de vocês quanto a receptividade do público nestas oportunidades?

O EDUR EBELP foi uma maneira de testarmos as novas músicas. E foi muito engraçado esse lance de EDUR EBELP (risos). E quando alguém perguntava para o Fernando Rosa (N.R.: Conhecido também como o Senhor F): "Quem é o EDUR EBELPE?". Ele dizia que era uma banda que tinha um americano, um gaúcho que era o Iuri Feiberger (risos). O Iuri também até ter sido o baterista da Plebe e chegou até gravar algumas músicas, mas só que ele mora em Porto Alegre e sua prioridade é o TOM BLOCH. Era para ter sido uma apresentação surpresa, mas a imprensa de Brasília acabou que furou o lance. Na capa do jornal, veio estampado com algo assim "PLEBE RUDE se apresenta com outro nome" (risos). De qualquer forma, a experiência foi ótima. Foi legal testar as músicas, pois já tínhamos muita coisa finalizada e pudemos tocar músicas como "Katarina", "R ao Contrário, além de que foi a primeira vez que tocamos "O Que Se Faz" que é a música que abre o disco, por exemplo. Tocamos como um trio e ainda o Clemente não estava na banda. Nesta época, eu e o André não sabíamos muito o que fazer e estávamos mais compondo do que em exercício. Nós não queríamos que a Plebe ficasse toda hora trocando de músico ou tivesse músicos contratados que nem os ENGENHEIROS DO HAWAII. O legal é que o que estava me ajudando muito nesta época é que eu não estava com foco na Plebe, o que, ao contrário da época do auge da Plebe, o meu foco era apenas a Plebe... Eu era meio que infeliz. Passado essa turbulência, em 2004, o Clemente passou a se apresentar conosco cuja história foi amplamente documentada. O primeiro show foi no Circo Voador no Rio e em Brasília foi na Concha Acústica, onde tivemos o aval da galera daqui. A segunda apresentação com o Clemente foi no Porão do Rock e o lance com o Marcelo não foi nada armado. Eu encontrei com ele no hotel, durante o jantar. Dei um abraço nele lá e fiquei sabendo que ele gostava da Plebe. Foi uma grande idéia tê-lo conosco em "Até Quando Esperar", pois o Yuka deve ter ouvido muita Plebe quando criança para conseguir expressar tanto ódio daquele jeito (risos). Lembro que ficamos enrolando em "Até Quando Esperar" até ele chegar ao palco, pois teria que subir a rampa corretamente e, quando ele chegou, foi uma sensação muito legal mesmo.

O álbum R ao Contrário saiu pela Revista Outracoisa do LOBÃO, que é bastante respeitada pelo público independente. Como foi que rolou esta parceria com ela?

O disco já estava pronto desde o ano passado e eu estava atrás de alguma proposta para lançá-lo. As propostas das gravadoras eram risíveis. Eu acho ótima a mudança da cena independente que vem crescendo mais rápido do que esperávamos. Para se ter idéia, os caras da gravadora não garantiam a tiragem, não garantiam a divulgação... Enfim, não garantiam nada!!! Então, como é que nós iríamos levar nosso trabalho para lá já que as gravadoras estão afundando. Era ridículo!!! Eu até esperava por uma proposta melhor da gravadora que detinha os direitos dos outros discos, mas nem isso também aconteceu. Elas não nos respeitam mesmo que você já tenha uma obra. O respeito é bom e a gente gosta!!! A proposta da Revista Outracoisa foi bem legal!!! Eles garantiram a divulgação... Eles garantiram uma tiragem fantástica. Sentimos muita a diferença de se lançar por uma gravadora ou não. Claro que tudo aconteceu pelo nome da banda que abre muitas portas, mas tudo foi feito na base do respeito. Por isso que sempre falo com as bandas que eu produzo: "Galera, vamos fazer um trabalho sério, pois mesmo que seja difícil e você acaba se prejudicando, a longo prazo vale à pena você fazer isso. É assim que constrói uma carreira".

Apesar de saber que você já tinha bastante coisa pronta, com a PLEBE RUDE reformulada, como foi o processo de gravação e composição, escolha do repertório e encarte do álbum, que também ficou muito bonito?

Esta parte de design ficou mais com o André. Ele que ficou vendo isso junto com o Eye Design. Eu estava tão ocupado com música, gravação que nem participei desse processo. O André também já havia participado e trabalhado em algumas artes da Plebe antes, como no single de "A Ida" que foi para as rádios e na capa do álbum Nunca Fomos Tão Brasileiros. Dentro da PLEBE RUDE, o legal é que o Clemente também é produtor e já trabalhou com bandas e, então, está ligado no que está rolando. Na verdade, foi até bom que rolou o problema com o baterista, sabia? Toda vez que a Plebe ia gravar acabava rolando um clima ruim, infelizmente... O Jander também não estava mais afim. Eu nunca tive uma boa experiência com gravação e foi algo que só tive com este disco. Acho que as coisas não acontecem por acaso. Quando eu compus esse disco com o André aqui, deixamos toda esta parafernália do estúdio aqui desligado. Eu fiquei sentado aí onde você está com um violão e um caderno. O André ficou ligado num amplificador de baixo pequeno. Foi só isso!!! Porque é aí que está a faísca!!! Se não tiver a faísca, não adianta nada esta parafernália. As pessoas ficam muito preocupadas com timbre, com a sonoridade, com a afinação disso e daquilo. Então, quando alguém chega com o papo de sonoridade para mim, eu já fico de mau humor. É por isso que tem essa coisa exagerada dos anos 80, mas eu sei da onde vem isso. Eram canções sem pretensão alguma. Era tudo tão simples na época que ninguém pensava em viver de música... Ninguém pensava em fazer música para as gravadoras... Ninguém fazia música para tocar em rádio. É por isso é que as músicas daquela época estão aí até hoje!!! Isso foi um erro veio da geração 90 que se preocuparam mais com a forma, com a imagem do que o conteúdo. Na boa, com exceção do mangue beat, o que rolou nos anos 90? Nada!!! É um pouco triste isso... Não é que eu pense: "Isto é o legal dos anos 80? Foi isso o que eles fizeram? E a geração do anos 90? Foi só isso que vocês fizeram? Porra, isto é o melhor que vocês conseguiram fazer?". Eu voltei para o Brasil e vi os TITÃS fazendo playback em um programa de televisão que tem um papagaio falando. Daí eu pensei: "É isto que vou ter que fazer para ter uma carreira no Brasil???". Então, eu vi que seria muito difícil ver a Plebe neste contexto e isto foi em 99. Por isso, só depois de 4 ou 5 anos, que pude dizer que a Plebe está de volta em definitivo, mas que novela que foi... (risos).

Lembro que naquela nossa última entrevista, você disse que os fãs não iriam decepcionar com o novo disco, pois ele iria manter o estilo da PLEBE RUDE. Realmente, para a alegria dos fãs, depois de 13 anos sem ouvir nenhum material novo de estúdio, R ao Contrário está mais Plebe do que nunca, mesmo ele tendo um lado mais melancólico em algumas de suas letras, refletindo os altos e baixos que vocês passaram. Como vocês conseguiram conciliar tudo isso?

Acho que a maior inspiração da Plebe é a própria Plebe. E não foi por nada e isto que é o legal do rock de Brasília. As nossas influências eram mais na base da atitude. Legião não sofre com nada... O Capital não sofre com nada... A Plebe não sofre com nada... Ninguém tocava cover em show e não tinha esse negócio de tocar cover em show. Ninguém pensava nisso!!! Nós tocávamos nossas próprias músicas. Então, eu vejo assim: "É o mesmo cara, com a mesma raiva, com a mesma mão direita, com a mesma guitarra, na mesma cidade e na mesma casa. Então, tinha que ter soado como Plebe" (risos). É muito legal e importante você ter essa identidade de imagem e musical.

Naquele mesmo bate-papo, você me disse que depois que viu o Paulo Ricardo cantando "Alvorada Voraz" na televisão, iria explorar muito mais temas sócio-políticos do que a política em si. As músicas "Discórdia", "Mil Gatos no Telhado", "Katarina" e "R ao Contrário" me parecem que resumem bem este lado, você concorda?

Sim. É bem mais abrangente!!! Acho legal isso!!! "Discórdia", por exemplo, pode ser entre duas pessoas? Governo e Povo? Entre duas entidades? É legal ter essa abertura assim. Eu fico feliz que as letras estão mais abrangentes, mas não menos incisivas. Hoje, por exemplo, aconteceu uma coisa muito engraçada. Eu estava ouvindo uma pessoa na CBN lá do norte, analisando o disco e ele dizia que "Katarina" fala sobre os partidos brasileiros. "Mil gatos no telhado" fala sobre a passividade perigosa. Então, é muito legal ver o disco tomar vida própria. Para mim, particularmente, este disco foi um parto de 10 anos. Nele está a primeira música que escrevi nos Estados Unidos que foi "E Quanto a você?", onde até o seu refrão ainda continua em inglês I'm alright, OK. Eu a escrevi há 10 anos!!! Então, o disco completa um arco e é muito mais emocional para mim do que as pessoas imaginam.

R ao Contrário tem muitos momentos fantásticos e curiosos, como as faixas "O que se faz" (uma homenagem ao BIG COUNTRY e que conta com a participação excepcional de William Barbosa e Marcelo Mendes na gaita de foles) e "Mero Plebeu" que traz o Clemente cantando sozinho. Comente um pouco sobre essas músicas...

Eu havia comentado sobre o BIG COUNTRY para o Marcos Bragatto que acabou colocando isso no release. Eu sempre gostei do BIG COUNTRY e mais ainda do THE SKIDS. Eles tinham esse lance de guitarra e esse tipo de gaita é o único instrumento de sopro polifônico. Há bandas como NEW ORDER que também tinha esse lance da guitarra, onde tinha esse tipo de som em cima com o pedal... (N.R.: Nesta hora Philippe começa a fazer o som como se fosse da introdução da música "O que se faz") . No final, acabou sendo uma homenagem ao BIG COUNTRY (risos). Eu acho que a depressão deve ser uma merda... O Stuart Adamson apareceu enforcado num hotel no Hawaii e tem certos tipos de suicídio em que fica claro que o cara realmente quis fazer isso. O Kurt Cobain se não tivesse dado um tiro na cabeça teria morrido com uma dose letal de heroína. O Michael Hutchence do INXS também quis fazer isso, enquanto o da Janis Joplin foi mais acidental. Então, você fazer isso tendo uma filha e nem isso serve como motivo para viver é porque você deve ser bem perturbado. É aí que você vê que a depressão é uma coisa química mesmo e, às vezes, tem que ser tratada como tal. Só Deus sabe os demônios que esse cara tinha, mas, pelo menos, ele deixou um legado fantástico e inspirou muita gente, inclusive a Plebe. Em "Mero Plebeu" é legal o Clemente cantar também, mas, na verdade esse disco é uma grande homenagem ao Clemente e ninguém percebeu isso... (risos). Se você pegar o encarte, na foto com os quatro, quem é que aparece primeiro? Essa foto que você está vendo, ela foi tirada no Porão do Rock e quem aparece primeiro? É o Clemente... (risos). Ele é quem deu a possibilidade da Plebe voltar. O Clemente sempre foi uma figura sensacional e que sempre admirei. Curiosamente, ele foi o primeiro cara a nos receber em São Paulo. Foi ele que nos buscou na rodoviária em 83, quando fomos tocar numa casa punk chamada Napalm. O nosso primeiro contato com o punk paulista foi através do Clemente que é um cara batalhador pra caramba. Quando fizemos o primeiro show com ele no Circo Voador em 2004 não teve ensaio, passamos o som meio que na hora. Então, eu não sabia o que esperar. O legal é que o primeiro show com ele foi no mesmo Circo Voador em que a 22 anos antes a Plebe tinha estreado no Rio pela primeira vez junto com Paralamas e Legião ainda sem disco também. Na hora do show, eu olhei para o lado e pensei: "Vamos nessa!!!". Nós abrimos com "Brasília" e quando Clemente entrou, logo na primeira estrofe eu disse: "Nós já temos um novo plebeu" (risos).

Outro momento legal do disco é você dividindo os vocais com o Clemente em "Dançando no vazio", uma versão para a música "Staring At The Rude Boys" do grupo de punk inglês THE RUTS. Aliás, vocês já tinham explorado este lado no álbum Mais raiva do que medo (1993) com "Mundo Real", uma ótima versão de "Clampdown", do THE CLASH. De onde surgiu a idéia para esta versão?

Na verdade, eu tinha feito esta versão para o meu disco solo que devo lançar no ano que vem, mas adianto que será todo em inglês senão vira Plebe (risos). Eu senti a necessidade de completar o arco e mostrar um pouco do princípio da Plebe, de onde veio a nossa inspiração dos anos 80 que é o pós-punk da Inglaterra que é bem mais elaborado. O engraçado é que a diferença da gente para as bandas dos anos 80 é que, enquanto o pessoal imagina paquitas, bermudão de praia, camisas da Company, da Ratos de Praia, a gente aqui corria da polícia, apanhava, tinha censura no Brasil inteiro, Newton Cruz de cavalo... (risos). Nós tínhamos que levar música para a censura para poder tocar ao vivo. Então, isto era os anos 80 para gente. Agora, joga tudo isso num caldeirão, e você vê que Brasília era um tédio, mas não era um "tédio" assim, senão fica repetindo o que o Renato disse. Era sim, uma manifestação. Acho que a falta de recursos aqui em Brasília fez com que as pessoas daqui criassem a sua própria cultura: "Não tem música legal? Então vamos criar uma banda. Não tem roupa legal? Então vamos pintar nossas camisas. Não tem o que fazer? Então vamos estacionar o nosso carro numa quebrada, abrir as portas e o capô e vamos fazer uma festa". Hoje eu sinto uma certa passividade, pois temos tantos recursos nas pontas dos dedos e as pessoas estão ainda mais dispersas. Você tem DVD caseiro, internet em casa, jogos eletrônicos e um monte coisas, mas ainda assim as pessoas se acomodam e não correm atrás de suas próprias coisas.

Como nos dois últimos trabalhos da PLEBE RUDE, Enquanto a trégua não vem (2000) que trouxe "Voz do Brasil" e Mais raiva do que medo (1993) que mostrou a antiga "Pressão Social", em R ao Contrário vocês gravaram a clássica "Voto em Branco" que era da antiga banda de André, OS METRALHAS, onde ele inclusive canta pela primeira vez, bem como Fê Lemos (CAPITAL INICIAL, ex-ABORTO ELÉTRICO), que usou a mesma bateria dos primeiros ensaios da Plebe. Como foi a escolha desta faixa para entrar no disco, que inclusive já virou videoclipe?

Nós tentamos ressuscitá-la no disco ao vivo, mas não rolou. O clima da banda na época estava péssimo. Chegamos até ensaiá-la, mas não saiu legal, não tinha clima. Vou ser bem honesto contigo, não sei como ela apareceu (risos). O André deu a sugestão, resolvemos tocá-la e ficou engraçado. Então, acabamos incluindo ela no disco. (N.R.: A escolha foi legal, pois trouxe a sonoridade e o clima da época de 1981, quando vocês foram presos junto com o pessoal da LEGIÃO URBANA em um show de Patos de Minas, justamente por causa desta canção. Deve Ter sido uma situação inusitada, não é mesmo?) Em Patos de Minas foi o primeiro show da Plebe fora de Brasília. Lembro que quando chegamos lá era muito engraçado, pois tudo era Patos... Drogaria Patos... Padaria Patos... (risos). Lá foi o primeiro show da LEGIÃO URBANA. O ABORTO ELÉTRICO tinha sido convidado, mas o Renato disse que tinha uma banda nova. Ele disse também que tinha outra banda maior aqui em Brasília e perguntou se a gente podia tocar também. O cara lá disse que tudo bem. Então, fomos com eles tocar lá, sem cachê e sem aquela mentalidade de ir para criar uma base de público... (risos). Nós fomos tocar porque tínhamos que fazer isso, era uma urgência mesmo. A LEGIÃO URBANA tocou "Música Urbana" que falava dos PMs e nos cantamos "Voto em Branco". Eu lembro que era moleque e que fizemos alguns discursos inflamados, mas que não me lembro muito bem. Depois do show, nós fomos para o camarim, inclusive eu e o André ficamos discutindo se era um camarim ou um refeitório, mas para mim era um refeitório (risos). Fomos andando pelo Parque de Exposições de Agropecuária e pensamos que tinha algo pegando fogo, pois tinha um monte de bombeiros atrás da gente, mas mal sabíamos que a roupa do policial de lá parecia com a roupa dos policiais daqui. Eles efetuaram a nossa prisão e separaram os dois grupos. Levaram a gente para uma sala. Eu lembro que fiquei olhando para a bota do cara e ali era bota de um motociclista que tinha visto na praça central. Eu lembro que a bota ia até o joelho e que eu estava vendo ela de novo depois de 18 horas na minha barriga!?! Parecia aqueles filmes de faroeste... (risos). Eles ficavam perguntando um monte de coisas e acharam muito estranho eu ser menor de idade e de estar com passaporte americano, pois eu ainda não tinha a identidade brasileira. Eu era moleque e não tinha muita necessidade, mas o havia levado pois era de menor e precisava de autorização dos pais para viajar, apesar do Renato Russo ter sido meio que responsável pela gente. Eu tive a felicidade de ter três tutores, mentores em minha vida: o André X da Plebe, o Renato (N.R.: da LEGIÃO URBANA) que me adotou como o caçula da turma e, alguns anos mais tarde, o Herbert (N.R.: dos PARALAMAS DO SUCESSO). Então, muito do que eu sou é por causa disso. No final, depois de muito "blá-blá-blá" acabamos sendo liberados e fomos embora para casa...

Por falar naquela época, o CAPITAL INICIAL lançou pela MTV um CD e DVD, que conta um pouco sobre o ABORTO ELÉTRICO. No DVD, tem até um depoimento seu e do André sobre aquela época. Você gostou do resultado deste registro?

Eu achei válido e gostei de ter participado do registro. Eu sempre digo que o Renato Russo nunca gravou aquilo foi por um motivo, mas acho necessário esse registro. O Renato estava se encontrando como compositor e percebemos que temos algumas músicas fracas ali, mas é importante para você ver o arco da história do Renato aqui em Brasília e, consequentemente, uma parte muito importante da história do rock brasileiro. No local, onde foi gravado o nosso depoimento, é uma casa onde teve o primeiro ensaio da Plebe e onde tinham os ensaios do ABORTO ELÉTRICO. Eu lembro que e a gente costumava ir lá... A gente ficava do lado de fora ficava desligando as coisas, sabotando os ensaios do Capital e do Aborto... (risos). Para se ter idéia, foi naquela casa em que eu dei meu primeiro beijo... (risos). Então, ter ido lá com o pessoal foi um momento muito especial...

Ainda sobre projetos e vídeos, como anda o documentário sobre a volta da banda e o média metragem Ascensão e Queda de Quatro Rudes Plebeus ? O Bruno Gouveia (BIQUINI CAVADÃO) continua trabalhando neste material?

Não, por causa de problemas com a antiga gravadora este projeto acabou não acontecendo ainda. Agora que estamos com a banda viável novamente estamos com vários planos, inclusive mostrar o making of do Concreto Já Rachou. Na semana passada, quando lançamos o novo álbum no Circo Voador no Rio, pudemos reunir um monte de material e foi fantástico. Conseguimos pegar o material registrado no programa Perdidos na Noite, clipes, coisas na TV Manchete ao vivo. O legal é que até o Faustão, no Domingo passado, falou no ar sobre o lançamento do nosso disco e que, em breve, estaremos lá no programa. Disse que éramos sócios dos Perdidos na Noite e é verdade, pois realmente nós íamos muito lá (risos). Acho legal isso, pois para ele isso não é nada. Era muito legal naquela época, pois a gente mandava em São Paulo... (risos). Então, queremos reunir todo esse material para lançar num DVD e a idéia é colocar o Herbert para narrar.

Paralelamente você tem o estúdio Daybreak, aqui em Brasília, por onde já passaram várias bandas da cidade e do país, além de ser sócio do Fernando no selo Senhor F Discos que lançou os CDs das bandas SUPERGUIDIS e VOLVER. Agora que você está mais de perto da cena independente, como está sendo trabalhar com este lado do rock nacional atual?

Eu acho bacana sem dúvida. Eu gosto de fazer isso, pois tento ajudar a cena, mas ultimamente eu trabalho com algumas bandas esporadicamente. Quanto à produção, já até me perguntaram um outro dia sobre o meu trabalho com as bandas de Brasília. Na verdade, no início elas foram cobaias (risos). O 10ZER04 foi a primeira delas e foi uma experiência fantástica. Eu aprendi muita coisa e, hoje em dia, não vejo mais como uma cena de Brasília. Os meus olhos estão mais voltados para o Brasil e, através da parceria com o Senhor F, estamos produzindo muita coisa bacana. Como VOLVER, LOS PORONGAS, STEREOSCOPE, SUPERGUIDIS e o BETO SÓ que é daqui e Brasília. Então, eu e o Fernando estamos fazendo o que der. Estamos oferecendo para as bandas pelo menos as condições mínimas de gravação.

Estando do "outro lado", qual a sua opinião sobre a nova cena musical com o advento do mp3 e pirataria, pois muitas bandas e gravadora começaram a se sentir lesadas?

Eu gosto sempre de fazer a analogia do gato: "O gato já saiu do saco. Você já tentou colocar o gato de volta no saco??? O gato não vai entrar no saco mais. Não tem volta isso!!! " Não é consenso ainda de como vai se comercializar a música daqui uns dias, mas que mudou, mudou. Eu acho que foi ótimo isso. Deve ser engraçado ver um monte de diretor artístico ficar sem emprego (risos). É muito engraçado ver isso acontecendo porque, mesmo com a falência desse mercado de como conhecemos, o pouco que resta dela foi reduzido para uma sala na Praia do Botafogo (N.R.: Rio de Janeiro) com apenas 10 funcionários e, mesmo assim, eles continuam cometendo os mesmos erros de não constituir catálogo, não nutrir artistas, não investir na música de verdade... Então, eles têm é que se fuder mesmo!!! (risos). O Lobão tem razão: o comércio de discos e o lucro das gravadoras em cima dos artistas, que era talvez de 92 ou 95% acho que só perde para o tráfico de drogas. É verdade... (risos). Os discos não têm uma numeração e não tem como controlar, mas sabemos que vendemos mais de meio milhão de cópias só não temos como provar. É uma merda isso!!! É roubo isso!!! Então, está mudando, mudou e bem feito!!! O incrível é que mesmo com o advento do CD que é mais leve, mais barato, mais fácil de transportar e de produzir do que um vinil que é pesado, que é frágil, que é grande e ocupa espaço, ninguém abaixa o preço. Elas continuam a não abaixar os preços, então: "Não quer dançar conforme a música? Olhe a GOL, olhe a TAM, agora olha a VASP, a VARIG, a TRANSBRASIL. Quem está rindo agora???". Não aprendem!!! Não aprendem!!!

Você já havia se apresentado como banda solo em Goiânia e agora à pouco nos disse que pretende de lançar um trabalho. Como está este projeto?

É um projeto meio paralelo e devo fazer tudo em inglês. Na verdade, já está quase tudo pronto gravado lá em Nova Iorque. O som será uma Plebe bem mais sofisticada e o legal que quando canto em inglês, minha voz fica quase que irreconhecível, pelos eu acho... (risos) (N.R.: Mas o legal do trabalho solo é exatamente isso, é você fazer coisas diferentes do que você faz na sua banda principal...) É verdade. Apesar de ser próximo à Plebe, mas como é inglês e tem um instrumental mais bem trabalhado, é tranquilo. A idéia é lançá-lo no segundo semestre do ano que vem.

Agradecemos por ter concedido essa entrevista e pedimos que deixe uma mensagem para os nossos leitores e que curtem bastante o trabalho da PLEBE RUDE...

Valeu!!! (N.R.: Brincando...). Falando sério... Eu acho legal essa entrevista porque dá para comparar a psique da banda nas duas entrevistas. A primeira já está no nosso site o www.pleberude.com.br. Posso afirmar que tentamos de todas as formas viabilizar a Plebe com a formação original e os plebeus mais afoitos são testemunhas disso, mas não deu. E o legal é que agora com a entrada do Clemente a Plebe finalmente está de volta. É muito legal ver a reação das pessoas, inclusive do próprio Faustão que ficou eufórico falando no seu programa. Foi bem legal, pois foi algo bem espontâneo!!! É legal saber que podemos contar com essa força!!! É legal saber que a banda ainda é respeitada!!! É legal, pois agora eu posso dizer em alto e bom tom: "A volta da Plebe é definitiva, mesmo!!!".

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Rock Press - 17/10/2006
Por André Luiz Azenha

Nem Capital Inicial, nem Legião Urbana. Segundo o próprio Renato Russo no começo dos anos 80, a melhor banda de Brasília surgida naquela leva foi a Plebe Rude. Forjando um som que pagava tributo ao Clash (inclusive na mistura dos vocais grave e agudo, à maneira de Joe Strummer e Mick Jones), o quarteto estreou com um mini-LP que até hoje é considerado um clássico do rock nacional.

O Concreto Já Rachou (1985), produzido por Herbert Vianna, surgia com sete faixas que bradavam sobre assuntos recorrentes dos tempos de abertura política como "Até Quando Esperar", "A Minha Renda", "Sexo e Karatê" e "Censura". O sucesso veio (250 mil cópias vendidas) e mesmo com uma boa seqüência (Nunca Fomos Tão Brasileiros, de 1987), a banda acabou perdendo a carona do sucesso e ainda que tenha colocado na praça mais dois lançamentos (Plebe Rude III, de 1989, e Mais Raiva Do Que Medo, como duo em 1992), cessou as atividades com a ida de Philippe Seabra para a terra do Tio Sam.

O retorno foi ensaiado algumas vezes ao longo dos anos e em 1999 a formação original (Philippe Seabra, Jander Ameba Bilaphra, André X e Gutje Woortman) se reuniu para a gravação de um novo álbum, inicialmente planejado para ser de inéditas, e que acabou como um CD ao vivo (Enquanto a Trégua Não Vem, lançado em 2000), reunindo sucessos e tendo como carro-chefe a música "Luzes", da também candanga Escola de Escândalos.

Uma turnê aconteceu, inclusive com uma apresentação no Rock in Rio III, e de novo a Plebe sumiu, deixando a impressão de que definitivamente havia acabado. Mais algum tempo se passou e eis que de repente, o grupo se reúne outra vez, dessa vez com Toxtxa (ex-baterista da formação clássica do Maskavo Roots) e Clemente (líder dos Inocentes) nos lugares de Gutje e Ameba.

Chega 2006 e o quarteto, solta na praça R ao Contrário em parceria com a revista Outracoisa. O trabalho de doze faixas, produzido pelo próprio Philippe Seabra no Daybreak Studios (montado por ele mesmo) se não acerta a mão por completo, possui ao menos uma canção obrigatória para tempos de eleições: "Voto em Branco", composta em 1980 (dois anos depois chegaram a ser presos ao executarem a música num show em Patos de Minas, quando tocou também a Legião) e que continua atual, é cantada por André e finaliza com um trecho apropriado para mentes acostumadas a emos, funks e pagodes.

Em entrevista à RP, André afirmou que essa volta é definitiva, analisou algumas letras, comentou a saída de Jander e a chegada de Clemente e disse ter esperança no país. Philippe aproveitou para falar das bandas que fazem parte do seu selo, Senhor F, e Clemente se disse realizado ao tocar com os caras.

Abaixo a letra de "Voto em Branco"

"Imaginem uma eleição em que ninguém fosse eleito
Já estou vendo a cara do futuro prefeito
Vamos lá chapa, seja franco
Use o poder do seu voto, vote em branco

Vote em branco!

Seja alguém, vote em ninguém
Seja alguém, vote em ninguém
Seja alguém, vote em ninguém

Esquerda direita, em cima em baixo
Você assim e eu assado
Quando vamos para de tomar lados?
Quando vamos parar de ser enganados?

Enganados!"

Trecho final cantado por André:

"Você está sentado no bar, num happy hour tomando um choppinho no fim de tarde, quando entra um cara cantando 'Seja alguém / Vote em ninguém'. Você olha pra ele, não presta atenção, acha que é um louco. Agora, duas pessoas. Duas pessoas entrando no mesmo bar cantando 'Seja alguém / Vote em ninguém'. Vão achar que são dois palhaços, ainda não vão prestar atenção. Mas agora são dez pessoas em volta do bar marchando e cantando 'Seja alguém / Vote em ninguém'. As pessoas vão colocar os seus chopps na mesa e vão prestar atenção. Elas vão achar que é uma gang. Agora temos cem pessoas andando pela rua e cantando 'Seja alguém / Vote em ninguém' atraindo mais e mais pessoas. As pessoas vão ver que é um movimento, elas vão aderir. E é isso mesmo. Elas querem mandar uma mensagem. E a mensagem é essa: Estamos de saco cheio de não sermos representados. Estamos de saco cheio de só sermos lembrados de quatro em quatro anos quando vocês querem nossos votos. Vocês não nos representam, por isso vamos ser alguém e votar em ninguém".

A seguir, a entrevista completa.

Pra começar, a Plebe volta com um álbum de inéditas produzido pelo próprio Philippe e sem apoio de major. Essa volta é definitiva e o que os fãs podem esperar da banda?

André - Essa volta é definitiva. Agora que sabemos o caminho das pedras para lançar discos de qualidade sem a cobertura de grandes corporações, outros virão. O que os fãs podem esperar é a consolidação dessa formação, com mais contribuições do Txotxa e do Clemente.

Como foi o processo pra gravação desse novo trabalho, desde as composições até a parceria com a Outracoisa?

André - A maioria das músicas veio da mente brilhante do Philippe. Ele gravou algumas numa tentativa de lançar um disco solo (ou como Daybreak Gentlemen?) e outras a gente compôs no seu quarto, como antigamente, e ainda outras surgiram de uma jam session com o Jander e o Philippe. Na verdade, houve pouca contribuição do Clemente, pois ele entrou para a banda quando já estava tudo definido e gravado; faltando somente a sua parte. Mesmo assim, ficou arrasadora sua participação. O processo mais chato foi negociar com todas as gravadoras - pequenas e grandes, até acertar com a Outracoisa. Isso chega a desanimar.

Aqui se faz, aqui se paga, como diz a letra de "O Que Se Faz"?

André - Esperamos que sim! Pô, se não, a roubalheira come solta! A música tem essa lado político-social, mas por outro lado, pode ser vista como uma quebra de relação entre duas pessoas, com promessas não cumpridas e pessoas machucadas.

A Plebe sempre é lembrada e reconhecida por ter feito canções que colocavam o dedo na ferida, numa época complicada para o Brasil. Dizer "eu me rendo à falta de opção" (trecho de "Discórdia") não pode ser um pouco frustrante para quem espera da banda uma postura mais radical e crítica?

André - Ou então pode provocar justamente essa reação, igual a sua, e dizer: claro que não me rendo, vou lutar!

Ainda há espaço pra críticas políticas no rock? E essas críticas ainda são capazes de mudar algo no público?

André - Quando as pessoas vêm as letras da Plebe, podem achar que somos um bando de chatos, caga-regras, como a Heloísa Helena. Na verdade, as letras surgem naturalmente e muitas nem são sobre temas políticos no grande termo da palavra, mas sim sobre a política pessoal, do dia a dia, da pessoa com a pessoa.

Clemente faz bem as partes vocais que Jander fazia e vem de uma banda punk. Houve a tentativa de trazer Ameba de volta à banda e há algum contato com ele?

André - O Jander saiu justamente na hora que estava tudo pronto para ele fazer a sua parte. Foi opção dele, comentada entre lágrimas em reunião comigo e o Ivan, nosso empresário. O Clemente entrou, fez todas as gravações e ainda conseguiu dar um toque pessoal às partes que nem foram escritas com ele em mente. Isso é prova de que é um grande músico.

Clemente, como está sendo tocar com a Plebe, que também tem temática punk, mas que ganhou uma maior notoriedade nos anos 80? E como você está fazendo pra conciliar os dois trabalhos (com os Inocentes)?

Clemente - Tocar na Plebe é uma honra, já que é uma das bandas de que eu mais gosto desde a década de 80. Então a coisa fica fácil, pois existe o prazer em tocar com amigos. E todo mundo na banda faz um monte de coisas. O Philippe tem um estúdio e o selo Senhor F, eu toco no Inocentes e faço um programa de entrevistas no showlivre.com, o André ainda tem um trampo normal assim como o Txotxa. Antes de tudo, tocamos por prazer, é mais cansativo, mas vale a pena.

André, como surgiu a idéia de assumir o vocal em "Voto em Branco"? Você ficou satisfeito com o resultado?

André - Fiquei muito satisfeito. A idéia veio naturalmente, não imagino o Philippe cantando algo tão simples como "Voto em Branco". Eu escrevi, deixa que eu assumo os vocais. Antes de gravar, fiquei ouvindo um CD do Cockney Rejects. Me inspirou, gravei de primeira.

Todos na banda votam realmente em branco? Se não votam em branco, votam em quem? Nada mais propício que uma música assim em tempos de eleição. Gostaria de saber de vocês se o Brasil tem jeito, já que uma música feita tanto tempo atrás ainda soa atual?

André - Não sei sobre os outros. Eu só anulei o meu voto para governador do DF, não havia opção viável. A música tem mais o objetivo de fazer as pessoas pensarem do que realmente votar em branco. É o famoso senso de humor da Plebe. O Brasil tem jeito. Veja países como a Coréia do Sul, a Irlanda. Estavam mais fudidos que nós, em termos de corrupção e ineficiência do Estado. Deram a volta por cima. Basta fazer o óbvio.

O trecho final da música ("Você está sentado no bar, num happy hour tomando um choppinho no fim de tarde, quando entra um cara cantando 'Seja alguém / Vote em ninguém'. Você olha pra ele, não presta atenção...") foi improvisado?

André - Foi, mas foi bastante inspirado em Alice's Restaurant, do Woody Guthrie, que ouvia na casa do meu tio quando criança.

Philippe, você tem um estúdio e é sócio do Senhor F. Tem algum projeto de produzir alguma banda e o que está rolando de bacana na música de Brasília atualmente?

Philippe - Meus olhos estão virados mais para o Brasil do que para Brasília. Não vejo mais cenas "locais", mas sim uma grande cena nacional com excelentes artistas despontando. No caso do Senhor F, estamos terminando a mixagem dos Los Porongas (Acre), o primeiro do Stereoscope (Pará) e preparando os próximos do Volver (Pernambuco) e Superguides (RS). Em Brasília, destaco Beto Só e a dupla Lucy and the Popsonics. Estamos fazendo as nossas partes e espero que as bandas correspondam. A maneira de comercializar e consumir música está mudando, mas sempre haverá a necessidade de boas bandas. Então que venham!

O que se destaca (sejam bandas, músicas, discos etc) no cenário roqueiro brasileiro atual?

André - A quantidade de bandas boas que tem surgido, apesar das enormes dificuldades de divulgação e espaço na mídia me lembra um pouco do estouro do "rock-br" nos anos 80, mas com mais qualidade e agressividade criativa. E tem a Tratore, uma distribuidora independente - também vale destaque -, pois está permitindo a logística de estocar as lojas com os mais diversos produtos independentes.

O caminho é ser independente?

André - Não necessariamente, mas é um caminho. Principalmente quando a gente vê que independente está virando sinônimo de qualidade.

Quais os planos para o fim do ano?

André - Quero um outro disco logo! Mas isso terá que esperar. Shows, shows e mais shows. Consolidar a Plebe ao vivo.

Fiquem à vontade pra deixar algum recado...

André - O sol nasceu para todos, a sombra só para alguns. Hey you, get off my cloud!

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Inconsciente e-coletivo - 17/10/2006
Por Eduardo Tetera

EMI - 1986
Produção: Philippe Seabra

Uma das grandes bandas do rock brasileiro na década de 80 jamais alcançou o sucesso merecido, numa daquelas grandes injustiças da história, ninguém sabe se por ironia ou por uma afronta do destino. A Escola de Escândalo, formada em 1983, é uma das grandes referências brasilienses no cenário do rock brasileiro, embora jamais tenha alcançado a projeção que suas bandas-irmãs tiveram - Legião Urbana, Capital Inicial e Plebe Rude.

O grupo, cuja "formação clássica" era Bernardo Mueller (voz), Geraldo "Geruza" Ribeiro (baixo), Luiz "Fejão" Eduardo (guitarra) e Eduardo "Balé" Raggi (bateria), foi um dos pioneiros na cena oitentista, fazendo um crossover maravilhoso entre o heavy metal e o punk - se é que isso existe. A banda nunca gostou de rótulos e se destacava pela brilhante cozinha de Geruza e Balé, a guitarra fenomenal de Fejão e a elegância da voz de Bernardo, que também era o responsável pelas letras da banda, outro ponto forte da Escola.

Passaram pela banda outros músicos locais, como Marielle Loyola, que dividia os vocais com Bernardo e, posteriormente, integrou outras duas importantes bandas brasilienses - Arte no Escuro e Volkana. Outros dois bateristas também fizeram parte da Escola, antes de Balé assumir as baquetas: Alessandro e Manuel Antônio Fragoso, o Totoni, que hoje trabalha como ator no Rio de Janeiro.

Antes de formarem o grupo, Bernardo e Geruza integravam, ao lado de Alessandro (bateria) e Jeová Stemller (guitarra) o grupo XXX, que liderou o movimento punk brasiliense ao lado da Plebe Rude no início dos anos 80 e realizou - junto com Legião Urbana, Capital Inicial, Banda 69 e a própria Plebe - a série de shows antológicos na Temporada do Teatro da ABO, em abril de 1983, já comentados aqui no blog.

Da banda XXX, que tinha o som mais pesado entre os seus grupos contemporâneos e que mais se aproximava ao punk feito em São Paulo e no Rio, a Escola de Escândalo herdou grande parte do seu repertório inicial, como Caneta Esferográfica e Menino Prodígio. A antiga banda de Bernardo e Geruza resolveu encerrar suas atividades quando o guitarrista Jeová saiu. Antes disso, o grupo conseguiu participar de um programa na televisão local, chamado Brasília Urgente.

Bernardo ainda atuou no lendário filme Ascensão e Queda de Quatro Rudes Plebeus, dirigido por Gutje Woorthman, baterista da Plebe Rude, e que ganhou o prêmio de um Festival de Cinema Super 8 de Brasília. Neste média metragem de aproximadamente 40 minutos, o jovem Bernardo, irmão de André [Diablo] X, da Plebe, protagonizava o vilão que roubava os plebeus no final do filme, que tinha a narração de Renato Russo. O líder da Legião Urbana também trabalhou como "ator" fazendo o papel de empresário inescrupuloso da Plebe.

Foi durante as apresentações no Teatro da ABO que Bernardo e Geruza conheceram Fejão, um guitarrista muito conceituado em Brasília e que tocava na banda Nirvana, liderada por Tadeu, futuro vocalista do grupo Beta Pictoris. Juntos, os três - mais o baterista Alessandro - começaram a ensaiar, trabalhando numa alquimia que refletia os gostos musicais de cada, algo que parecia impossível de ser tentado. As influências eram díspares: Van Halen, Led Zeppelin, Metallica, Echo and The Bunnymen, The Beat, Police, Talking Heads e Xtc, além de bandas de ska.

Naquele mesmo ano, o grupo saiu de Brasília para fazer suas primeiras apresentações no Rio de Janeiro, que há pouco tempo já tinha descoberto o rock brasiliense, pelas mãos de Herbert Vianna e Os Paralamas do Sucesso. A Escola fez o circuito das danceterias e casas de rock - Circo Voador, Noites Cariocas, Parque Lage, Mamão com Açúcar. Ali, trataram logo de encaminhar demos para as rádios Fluminense e Estácio, mostrando Luzes, que depois veio a constar do disco Rumores, lançado pelo Sebo do Disco em 1985. A música passou a liderar a parada de sucessos da maldita Flu durante um bom tempo.

Logo depois, o grupo entrou no pau-de-sebo Rumores, uma produção independente lançado pelo Sebo do Disco, ao lado das bandas Finis Africae, Detrito Federal e Elite Sofisticada. As duas músicas apresentadas neste disco da Escola eram Complexos e Luzes, que tiveram boa execução em Brasília e em algumas rádios do Rio. O disco foi gravado no estúdio Bemol, em Belo Horizonte, e hoje é peça de colecionador. A vocalista Marielle deixa o grupo em 1986. O sucesso Luzes foi relembrado pela Plebe Rude e consta do disco ao vivo lançado pela banda em 2000, "Enquanto a Trégua Não Vem".

O namoro com uma gravadora não demorou e pelo menos duas ofereceram assinatura de contrato e a gravação de um disco. A banda, prontamente, recusou. Os quatro optaram por aguardar um momento mais oportuno para gravar seu disco.

Os amigos da Plebe e da Legião, juntamente com Herbert Vianna, pressionam a EMI-Odeon para um contrato com a Escola. A gravadora se dispõe a colocar os quatro no Estúdio 3 e Philippe Seabra produz as gravações para o disco, que seria lançado no formato de Mini-LP, tal qual a Plebe e a paulistana Zero haviam feito. As cinco canções registradas no que é chamado o "disco perdido" do Escola, são: Atrás das Palavras, Deuses e Demônios, O Grande Vazio, Pérolas Sem Valor e Só Mais Uma Canção. Infelizmente, o disco acabou não rolando.

Pouco tempo depois disso, a banda encerrou suas atividades, para desespero dos fãs e falta de percepção das gravadoras, que ajudaram a acabar com um dos mais dignos e inteligentes grupos de rock de todos os tempos. Bernardo Mueller, que virou economista, é hoje professor da Universidade de Brasília. Geruza tornou-se produtor de estúdio, tendo trabalhado durante muitos anos no famoso Artimanha, de propriedade do guitarrista Toninho Maia. Balé fez as malas, partiu para os Estados Unidos, onde trabalhou em artes gráficas e voltou para Brasília, onde montou a banda Resistores, com trabalhos gravados no estúdio Daybreak de Philippe Seabra e produção também do Rude Plebeu.

Já o guitarrista Fejão abraçou novo trabalho, mais calcado no heavy metal - com elementos do pós-punk -, liderando a banda Dungeon, que chegou a lançar um disco pelo selo Rock It! [projeto tocado por Dado Villa-Lobos e André X]. Morreu em 1995, em Brasília, sem ver a obra do Escola reconhecida no mercado fonográfico.

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Globo.com - 11/10/2006
Por Nathalia Birkholz

As memórias do dia 11 de outubro de 1996 ainda são nítidas para muita gente. Há dez anos, na madrugada deste dia, morria Renato Russo, grande expoente do rock nacional

Uma legião de fãs ficou órfã depois de anunciado que seu ídolo havia sido finalmente vencido pela AIDS. Mas, se o Brasil se mobilizou pela perda de um mito, Renato conseguiu o que queria: ser escutado. "Ele pretendia fazer com que sua música atingisse os corações das pessoas. Renato tinha um alto poder de persuasão, de contaminação", conta Dado Villa Lobos, ex-guitarrista da Legião Urbana. "Ele se destacava pela eloqüência", completa Philippe Seabra, guitarrista e vocalista da banda brasiliense Plebe Rude.

Tanto Dado quanto Philippe conheceram Renato quando ele ainda era o Renato Manfredini, um adolescente com tendências subversivas em uma Brasília erma dos final dos anos 70. Dado conta que "Renato tinha disposição e vontade de mobilizar as pessoas para fazerem alguma coisa acontecer por lá, e veio com a música. Ele queria que todos montassem uma banda para que aquilo virasse um centro musical".

E ele conseguiu.

Depois de Renato e sua tchurma (como ele se referia aos amigos) Brasília fez nascer um movimento musical dando à luz uma cena roqueira em uma época em que não havia rock ali. Sua primeira banda foi o Aborto Elétrico. "Nos conhecemos por meio do punk rock. Em 78 eu tinha acabado de voltar da Inglaterra. Fui a uma festa e vi discos do The Clash, Ramones, Sex Pistols. Eu já conhecia, mas aquilo era raro em Brasília. Adivinha de quem eram?", revelou Fê Lemos, o baterista do Aborto e que hoje toca no Capital Inicial.

Os ideais revolucionários do punk atraía os dois que, junto com André Pretorius, começaram a ensaiar como AE em 79. "Estávamos aprendendo a tocar, era uma banda punk e queríamos romper com o tédio e provocar as pessoas", conta Fê.

Em 1980, Renato começou a compor, largou o baixo e assumiu os vocais do grupo. Suas letras já eram geniais: "Geração Coca-Cola", "Conexão amazônica", "Que país é esse?" eram o repertório do quarteto, ainda sem destaque algum. Fê Lemos conta que "ninguém entendia nada da letra porque era tudo muito barulhento, as pessoas gostavam do agito".

Mas, deste jeito, Renato não estava sendo compreendido e decidiu criar uma banda menos barulhenta. "Ele percebeu que nada do que ele queria iria acontecer. Entre dezenas de teorias, para mim ele percebeu que o Aborto estava mais atrapalhando do que ajudando. Ele queria que escutassem a mensagem dele, que entendessem as letras", opina o baterista.

E assim surgiu a Legião Urbana, banda que o projetou nacionalmente – ao lado de Cazuza e Raul Seixas - como um dos maiores poetas da música do Brasil. Philippe Seabra sabe que Renato "tinha um nível poético mais denso perto do resto das bandas, que ele estava muito à frente do resto".

Clássicos como "Será", " Ainda É Cedo" e as canções do AE com releituras mais melódicas caíram na boca do povo. A banda se mudou para o Rio de Janeiro e começaram os excessos na vida do compositor: muito sucesso e muitas drogas. O lançamento do segundo disco da Legião, "Dois", levou Renato ao topo. Dado se lembra que "ele se viu realizado, mas continuou se mantendo em seus princípios. Eram outros tempos e não havia este culto sem escrúpulos às celebridades".

Mas é claro que o sucesso também lhe trouxe aspectos negativos. "Quando virou uma caricatura do rock, me afastei dele. Sempre fui o mais careta da turma e não gostava de drogas, mas a postura dele não mudou", explica Philippe.

Durante o sucesso, Renato se revelou homossexual em uma entrevista para o amigo e jornalista Arthur Dapieve. "Quando decidiu falar foi pra mim. Ele se sentia seguro o bastante, pois eu tinha coberto boa parte da carreira da Legião e estabelecido uma confiança com eles", revelou.

Depois de oito álbuns de sucesso na praça com a Legião e dois solo, Renato Russo faleceu no Rio de Janeiro em 1996, diagnosticado com HIV. Seus amigos mais próximos sabem que ele realizou seu grande sonho no momento em que ganhou o reconhecimento nacional, não pela fama ou status, mas por fazer o Brasil escutá-lo.

"Quando estava no auge, ele sentia muita saudade da época de inocência em Brasília. Os amigos mais próximos sabiam que ele estava doente e que ele não teria muito tempo para curtir. Ele procurava puxar o passado, de resgatar a tchurma", lembra Philippe, que até hoje mantém sua banda na ativa.

Depois que Renato Russo morreu, ainda foram lançados trabalhos póstumos do cantor e compositor, que continua influenciando a juventude brasileira. Cinco álbuns da Legião mais dois solo chegaram às lojas em homenagem a ele. Existem outros trabalhos que celebram a importância do ídolo.

Um perfil biográfico escrito por Dapieve foi lançado em 2000 e será reeditado este ano. "Ele era bem exigente porque era jornalista, sabia nossos truques e sabia o que dizer. Era muito engraçado e inteligente", lembra o repórter, fã e amigo de Renato.

Outra grande homenagem que ainda não saiu é o longa-metragem "Religião Urbana" que está sendo produzido por Luiz Fernando Borges, um grande amigo de Renato e dirigido por Antônio Carlos Fontoura. "Senti que ele precisava deste produto, é uma coisa que ele aprovaria. Pretendo passar a personalidade dele e dar a impressão ao público de ter tido sua companhia por uma hora e meia", conta Borges, que conseguiu o aval da família de Russo por ser muito próximo também de seus pais.

"Ele foi antes de tudo uma voz dissidente da caretice da época, uma voz contestatória que chamava atenção do jovem para não se tornar conformista", é o que alega o diretor Fontoura. O roteiro está pronto, e o filme vai abordar a vida de Renato antes do sucesso, quando ele ainda era Manfredini. "Vai terminar com o primeiro show", adianta Borges. O filme está em fase de captação de recursos e levantamento de elenco e deve sair ano que vem.

As histórias de Renato Russo vão além e continuarão repercutindo na cabeça de muita gente. Não é á toa que até hoje, a Legião Urbana é a banda de rock brasileira que mais vendeu no Brasil.

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Diário do Grande ABC - 07/10/2006
Por Dojival Filho

Poucos nomes na história do pop rock nacional conseguiram conciliar qualidade artística e popularidade como Renato Manfredini Júnior, ou Renato Russo (1960-1996), personagem que tornou o cantor nacionalmente conhecido. O próximo dia 11 será marcado pelo aniversário de dez anos da morte do músico e, ao contrário do que costuma acontecer no período que antecede a data de seu nascimento (27 de março), não foram divulgadas muitas homenagens em programas de TV e de rádio. Apesar disso, a obra do intérprete permanece influente e sua ausência continua sendo sentida por fãs e familiares

Amigo de adolescência de Renato, o cantor e guitarrista do Plebe Rude, Philippe Seabra, lembra dos conflitos entre sua turma, a dos punks, e os playboys, em Brasília, no início dos anos 80. "Teve uma vez que o Renato salvou a minha vida. Os playboys se juntaram para me pegar e eu me escondi dentro de um carro. Eles disseram que queriam pegar um Phillippe, daí o Loro Jones (ex-guitarrista do Capital Inicial) disse: 'Aqui, todo mundo é Phillippe'. Veio o Renato e falou para os playboys: 'A gente está lutando contra a pessoa errada. Vamos bater no sistema'. Os playboys responderam: 'Então, teu nome é sistema'", conta, aos risos, o guitarrista.

Família – Um líder nato, de atuação marcante e determinada, mas que sabia ser espirituoso com os familiares. Assim era Júnior, forma carinhosa pela qual o cantor era chamado pelos parentes, de acordo com a definição de sua irmã, Carmem Teresa Manfredini. Três anos mais nova que Renato, ela conta que, desde a infância, o vocalista do Legião Urbana já demonstrava inclinação para comandar.

Um dos exemplos dessa liderança ocorreu quando a família Manfredini chegou a Brasília, em 1973, e o músico, então adolescente, foi o primeiro a escolher seu quarto, mais espaçoso que o de Carmem, episódio narrado no livro Renato Russo: O Trovador Solitário, do jornalista Arthur Dapieve. "Apesar de ter sido quieto, introspectivo, ele mandava em mim, me liderava. Tinha um embasamento teórico e ninguém conseguia argumentar contra. Sempre teve personalidade forte, talvez pelo Áries dele. Tinha orgulho de ser ariano".

Dono de uma extensa coleção de discos e clássicos da literatura mundial, Renato gostava de dar dicas culturais à irmã e aos amigos. Por conta disso, ela acabou conhecendo o trabalho de muitos ícones musicais dos anos 60 e 70, entre eles a cantora folk Joni Mitchell, um dos ídolos de Renato. No álbum Acústico MTV– Legião Urbana, lançado em 1999, o cantor dedicou a Carmem a versão que fez da canção The Last Time I Saw Richard, composta por Mitchell. "Eu sou a segunda maior fã da Joni Mitchell. O primeiro era o Renato. Ele me deixava pegar os discos, mas queria saber qual disco era e se eu tinha colocado na capa certa".

A maneira como o cantor conduziu sua carreira à frente da banda também comprova sua determinação e carisma. "No começo, quando eles gravaram o primeiro disco, a gravadora queria que mudassem o estilo. O Renato não aceitou e disse que não iria fazer aquilo. E eles não mudaram, o que mostra que estava certo", afirma a irmã do intérprete, que divide uma casa com a mãe Maria do Carmo e o filho de Renato, Giuliano Manfredini, 17 anos, no Lago Sul, região nobre de Brasília.

Memorial – Ela destaca ainda que a produção poética do cantor faz muita falta na cena musical. "Não é nem a questão melódica. Ele mesmo falava que a Legião não sabia tocar. Acho que o que mais falta no Brasil hoje são as letras, que continuam atemporais. Ainda bem que temos o Chico Buarque, que, para mim, é um grande poeta. Acho ele maior que o Renato, mas o meu irmão foi o poeta da geração dele", diz Carmem, que tem as músicas Giz, Acrilic on Canvas e Vamos Fazer um Filme como suas favoritas.

Para o futuro, ela planeja a fundação de um memorial em homenagem ao vocalista, que contaria com estúdio de ensaio para bandas iniciantes, biblioteca e um auditório. Entretanto, prefere esperar que Giuliano, herdeiro do espólio artístico e financeiro de Renato, atinja a maioridade e decida sobre o projeto.

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UOL Viagem - 06/10/2006

Sempre que o avião está para decolar, Philippe Seabra, guitarrista e vocalista do Plebe Rude, coloca para tocar a música "Rusty Cage", do Soundgarden. "É como se fosse um ritual. Essa música é perfeita para decolagens", diz em entrevista exclusiva para o UOL Viagem. "Escuto no walkman mesmo, uso fita cassete. Estou esperando a nova geração dos MP3 Players para aderir a essa tecnologia", brinca.

Seabra conta que gosta de ouvir trilhas sonoras de filmes em suas viagens: "Sou fã de James Horner, que fez a trilha do filme "Campos dos Sonhos". Infelizmente, ele é mais conhecido por seu trabalho em "Titanic".

A banda Plebe Rude surgiu em 1981 e ficou conhecida no meio punk rock em 1982. Seabra também tem dicas desse estilo para dar. "Cresci ouvindo pós-punk! Acho que um disco nesta linha que é legal para ouvir numa viagem é "London Calling", do The Clash. A música 'Revolution Rock' é minha favorita", indica. "Ainda sobre o pós-punk, a banda The Comsat Angels tem uma música muito bonita, se chama 'On The Beach', do disco 'Waiting for a Miracle', que vale a pena ter na bagagem", completa.

O músico completa sua lista de pós-punk com uma história interessante: "O Bruno, do Biquíni Cavadão, se desfez de sua coleção de CDs. Eu comprei todos os álbuns que ele tinha do XTC, banda inglesa que é uma espécie de evolução natural dos Beatles". Seabra recomenda a faixa "Mayor of Simpleton". Para terminar, ele indica "Requiem", da banda Killing Joke. "São as minhas bandas preferidas: Clash, XTC e Killing Joke", confessa.

Para quem gosta de ouvir um bom guitarrista em ação, Philiippe indica Led Zeppelin. "Quando viajei para o interior de São Paulo, escutei muito essa banda. Sou guitarrista, preciso dessas referências", justifica. E para os roqueiros, uma surpresa: Seabra vai de Elton John! "'Rock of The Westies' foi o primeiro disco de rock que ouvi. Recomendo a música "Street Kids" para quem quer uma aula de rock 'n' roll", diz com a credibilidade de quem já tocava guitarra aos 13 anos e aos 26 era chamado de "dinossauro do rock".

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Blog Bizz - 05/10/2006
Por Ricardo Schott

Plebe Rude- Circo Voador - 22 de setembro

O show da Plebe Rude no Circo tinha tudo para ser uma celebração do rock dos anos 80 - mas uma celebração diferente, distante do sorvete-na-testa típico dos revivals e da mesmice das bandas covers que atacam o repertório do período. Além do mais, Dado Villa-Lobos estaria abrindo o show, mostrando algumas músicas de seu trabalho solo, o ruidoso Jardim de cactus. Nada de celebrações idiotas, nada de papagaiadas para quem parou no tempo - eram dois artistas de vinte anos atrás com repertório novo na ponta dos cascos e recomeçando suas carreiras.

Sempre fui fâ da Plebe - que já foi citada algumas vezes desde que esse blog começou - mas sempre procurei ter distanciamento crítico com relação às bandas das quais gosto. Entendo perfeitamente quando alguém - já ouvi muita gente falando isso - diz que a Plebe Rude é mais mística do que música. O grupo tem uma discografia pequena e um tanto desequiibrada (O concreto já rachou é um puta disco, Nunca fomos tão brasileiros é legal mas poderia ser melhor, Plebe Rude é experimental demais, Mais raiva do que medo é ótimo mas foi pouco escutado), mas acertou na grande maioria das vezes. Mais: trata-se de uma banda que soube a hora de parar e atualmente, vem demonstrando que soube a hora certa de voltar. Mais ainda: levando em conta as bombas lançadas pelo Capital Inicial no fim dos anos 80 e os álbuns auto-centrados que a Legião soltou depois do V, a Plebe está bem no lucro. Os fâs - bastante fiéis - do grupo e o gás que a banda ganhou com a presença, no novo line-up, de dois nomes bacanas do rock nacional (Clemente, dos Inocentes, e Txotxa, da melhor formação brasiliense dos anos 90, o Maskavo Roots), além das boas músicas do CD R ao contrário, ajudam a preencher o resto.

Antes da Plebe, veio Dado Villa-Lobos e banda, apresentando as músicas de Jardim de Cactus. Coisa inédita em se tratando de rock nacional: um artista de gravadora grande abrindo para um de gravadora pequena. Levando em conta que a tal "gravadora pequena" tem o nome de Lobão por trás, o ineditismo só aumenta - a título de informação, pessoas da diretoria da EMI circulavam pelo show.

Jardim é uma (ótima) barulheira como talvez não se esperasse de um ex-Legião: duas guitarras, um violão, teclados, sons eletrônicos disparados e a presença algo dispersa de Dado, que aos 40 anos ainda mantém aquela pose de quem está eternamente aprendendo a tocar guitarra. E está mesmo: apesar de tocar bastante e fazer solinhos, o serviço pesado é feito pelos acompanhantes. Dado está cantando cada vez melhor - embora se embanane para cantar e tocar ao mesmo tempo - e encaminha o trabalho para um resultado experimental sem deixar de ser pop, o que alivia a barra para algumas deficiências técnicas. Só pecou pelo excesso de covers - "Rainy day women", de Bob Dylan e "Perfeição", da Legião, poderiam ser substituídas por material do disco (ainda apareceram "Conexão amazonica", também da Legião e "Guns of Brixton", do Clash, mas essas estão no CD).

Numa entrevista, a Plebe afirmou que ninguém fica assistindo ao show deles dizendo que o Jander faz falta. "Eles dizem 'ih, olha ali o Clemente!' ", disse alguém da banda. Clemente está à vontade no grupo, contribui com (boas) guitarras em várias músicas e canta bastante - em alguns momentos, dando a impressão de que sua garganta vai estourar, tamanho seu esforço para atingir os vocais graves de Jander. Vendo a coisa por esse modo, talvez seja legal a Plebe não esquentar a cabeça com a idéia de continuar o esquema voz-aguda-voz-grave - mudanças nesse setor já podem ser previstas ouvindo-se o material do CD novo. Os hits antigos vieram em belíssimas versões - em especial "A ida", "Bravo mundo novo" e "Este ano", talvez a mais bela música da banda. "Até quando esperar" voltou a ganhar gás, largando o tom meio caído da versão do ao vivo Enquanto a trégua não vem.

O show contou com alguns participantes. Herbert Vianna e Marcelo D2 participariam de "Minha renda" - o primeiro, devido ao verso-gozação "vou mudar meu nome para Herbert Vianna!", cantado por ele na gravação original; o segundo, por ter roubado versos da mesma música para colocar, na cara de pau, em "À procura da batida perfeita" (diga-se de passagem: bati papo com André X no camarim e ele disse que Plebe e Planet têm muito mais coisas a ver do que muita gente imagina - o baixista da Plebe chegou a tocar no projeto carioca Dash, capitanead pelo ex-Planet Formigão).

As participações não deram tão certo. Herbert Vianna demorou pra se achar na música e acabou nem cantando o verso - depois travou uma pequena disputa de solos com Philipe Seabra e até participou mais um pouco. D2 talvez tenha sido um erro - que revelou o quanto o rapper anda distante do seu público original e dos lugares que canta nos seus discos. O autor de "Qual é" nem sabia cantar a letra da música (só repetia "você me prometeu apartamento em Ipanema" e "ambição, grana, fama e você"). O público da Plebe, roqueiro empedernido, não perdoou e brindou o rapper com um "Marcelo D2, vai tomar no cu!". O cara saiu bolado do palco. No fim do show, uma participação mais amena: Lobão, que subiu ao palco para tocar (de improviso) "Should I stay or should I go", do Clash, na bateria.

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Pop Up! - 04/10/2006
Por Bruno Nogueira

O disco "R ao Contrário", que vem encartado na revista OutraCoisa deste mês, é o ponto certo para pensar em toda a carreira da banda Plebe Rude. Porque ele marca os 25 anos da banda. O mesmo tempo de punk, da liberdade de expressão, da formação do mercado fonográfico no Brasil e toda a história da música que andou junto de uma banda que mais transformou esse cenário. E é impressionante ver como tanta coisa mudou.

Philippe Seabra, fundador da banda e sócio do selo SenhorF (que lançou a pernambucana Volver), filtra essa história de uma maneira muito particular. "Os anos 80 foram cinzas, com repressão e ditadura, não tem nada dessa coisa colorida que aparece nas festas que lembram a época hoje", fala logo de começo. E se o país mudou muito positivamente nesse tempo, a temática de suas letras não perdeu uma virgula sequer.

O que mudou foi a visão de Seabra e companhia do mercado de música. "R ao Contrário" é exatamente o inverso da parte "rude" da plebe. Um disco super radiofônico e acessível; mas que tem uma energia punk bem forte. Por isso é também muito maduro, já que assume que pode ser um trabalho de protesto, sem perder o cuidado com a sonoridade e manter uma estética bem limpa.

Lançado em pleno momento de eleição, "R ao Contrário" também lembra como a banda sempre fez política no Brasil sem ser partidária. "Somente na época que o partido comunista foi legitimado no Brasil. Mas não foi pelo partido em si, mas pelo momento que era importante", explica Seabra. Quando o assunto é a presença da classe artística no horário político, ele é enfático, afirma que "a democracia foi entregue para gente de uma maneira condescendente e por isso o povo não valoriza".

Essa raiva sempre presente no discurso, o Plebe Rude canaliza em 12 faixas. E esse apelo sonoro mais forte que ele tem – nos anos 80, uma música assim dizer que é punk seria motivo de piada – só acrescenta pontos positivos para a banda. Vale destacar também a chegada de Clemente, das Inocentes, nos vocais do grupo. Reunião que dá força para mais 25 anos de protesto, já que a história ensinou que a situação sócio-política do país promete não mudar nem tão cedo.

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www.showlivre.com.br - 04/10/2006
Por Rodrigo Carneiro

Não é porque o Clemente esta na sala ao lado não. Mas ouço aqui ao novo álbum da Plebe Rude e, apesar da certa desilusão das letras afiadas escritas por Philippe Seabra (guitarra e voz) e Andre X (baixo), a sensação é que o dia vai ser melhor. Antes que me acusem de falta de distanciameto crítico ou objetividade jornalística em frangalhos, eu confesso: a Plebe Rude sempre foi uma das minhas prediletas e reencontrá-los assim em boníssima forma, com todas as intempéreis do rock nacional, da indústria, das relações interpessoais de um grupo "das antigas", é reconfortante.

O álbum, que levou seis anos para ser lançado e registra a chegada de Clemente (guitarra e voz) e Txotxa (bateria), é repleto de momentos certeiros. Do caráter subjetivo ao dedo na cara de filiação anarco-existencialista, passando por uma instrumentação beneficiada pela maturidade e pela consciência das próprias intenções, R ao Contrário é a plebe relevante e em riste.

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Correio Popular (Campinas) - 03/10/2006
Por Carlota Cafiero

Mais rude do que nunca, a plebe está de volta. Com o claro desejo de incomodar, em pleno ano de eleição presidencial, ela retorna gritando em ritmo de punk rock "Opinião não importa/Instituição não importa/Governo então me revolta". Sim, estamos falando da Plebe Rude, banda brasiliense dos anos 80 que voltou definitivamente e acaba de lançar o quinto álbum de carreira, prometido há seis anos: R ao Contrário . O CD chega em formato independente e encartado na edição 16 da revista Outracoisa , de Lobão, vendida nas bancas a R$ 14,90.

Um dos nomes primordiais do rock oitentista, a Plebe Rude voltou repaginada. Além da reconhecida carga política das letras e das guitarras pesadas aliadas ao vocais raivosos e melancólicos de Philippe Seabra, a banda ganhou ainda mais peso e atitude com a feliz entrada de Clemente (também integrante dos Inocentes) na guitarra e segunda voz, além de Txotxa (ex-Maskavo Roots) na bateria. Seabra era o único remanescente ao lado do baixista André X, e avisa: "Txotxa está proibido de tocar reggae".

Em entrevista ao Caderno C , por telefone, de seu estúdio em Brasília, o Daybreak (onde foi gravado o CD), Seabra é categórico: "Preferimos terminar a banda a transformá-la em projeto caça-níquel", referindo-se ao tempo em que a Plebe se separou e cutucando outras bandas dos anos 80 que continuaram na ativa, mas sem o mesmo teor crítico e de contestação do início — sem citar nomes.

Surgida em 1981, tendo na formação original Philippe Seabra (voz e guitarra), Jander Ribeiro (guitarra), André X (baixo) e Gutje (bateria), a Plebe se destacou na cena punk-rock nacional pela postura séria e letras contestadoras, em meio a uma cena roqueira bastante efervescente em Brasília. A aceitação se confirmou quando a banda lançou o primeiro disco, O Concreto Já Rachou , lançado em 1986 pela EMI, que vendeu cerca de 200 mil cópias, e que trazia as faixas Até Quando Esperar, Proteção, Johnny Vai à Guerra etc.

Ainda nos anos 80, a banda lançou mais dois discos (leia discografia nesta página) e sofreu a primeira baixa na formação, com a saída do guitarrista. Separaram-se por um tempo e voltaram em 1993, com o disco Mais Raiva do que Medo , pelo selo Natasha Records.

Com a saída do baterista, em 1994, a banda encerrou atividades. Seabra, que é "meio estadunidense" (pois é filho de pai nascido nos EUA e mãe brasileira), se mudou para Nova York, nos Estados Unidos, para se dedicar ao projeto solo Daybreak Gentlemen. Retornou ao Brasil em 1999 com o desejo de refazer a banda, reunindo novamente os antigos integrantes para show no mesmo ano, que resultou na gravação do CD ao vivo Enquanto a Trégua Não Vem , lançado em 2000 pela EMI, porém a sintonia entre os músicos já não era mais a mesma e o retorno não deu certo.

Cada um foi tocar projetos pessoais, mas Seabra e André X continuaram compondo juntos e fazendo shows esporádicos da banda com músicos convidados. Enquanto isso, o vocalista se dedicou à montagem do estúdio na própria casa, em Brasília, onde viria a gravar R ao Contrário, com Clemente e Txotxa como os novos integrantes oficiais.

O convite a Clemente veio logo após a participação em um show da Plebe no reinaugurado Circo Voador, em novembro de 2004. Sem ensaiar nenhuma música da banda, ele fez uma performance explosiva que contagiou os remanescentes. Clemente acompanha a trajetória da Plebe desde 1980, quando assistiu ao primeiro show do grupo na capital paulista, ao lado da também principiante Legião Urbana. Txotxa ganhou a vaga por morar em Brasília.

Na hora de entrar no recém-inaugurado estúdio, a banda estava com as 15 músicas compostas, sendo uma, Dançando no Vazio , versão para Staring at the Rude Boys , da banda de punk rock The Ruts, e outra, Voto em Branco, que fecha o CD, composição de 1980 da extinta banda Metralhas, da qual André X fez parte.

"Apesar de a Plebe ter chegado a acabar, nós nunca paramos de compor (ele e André X) ", conta Seabra, que ainda prepara o primeiro álbum solo, Daybreak Gentlemen , composto enquanto morava nos Estados Unidos, totalmente em inglês, e trabalha como diretor artístico do selo Senhor F, ao lado de Fernando Rosa, que lançou bandas como Los Porongas e Volver.

O vocalista lamenta que os antigos sucessos da Plebe — com letras que criticam as instituições falidas e a miséria social —, após 26 anos, continuem falando à nova geração. "Como artista, acho isso ótimo, mas como cidadão, não, pois significa que nada mudou no Brasil".

Discografia

Discos do grupo Plebe Rude

R ao Contrário (2006)
Enquanto a Trégua Não Vem (EMI, ao vivo, 2000)
Mais Raiva do Que Medo (Natasha, 1993)
Plebe Rude III (EMI, 1988)
Nunca Fomos Tão Brasileiros (EMI, 1987)
O Concreto Já Rachou (EMI, 1986)

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