Plebe Rude

www.blogdomauroferreira.blogspot.com - 18/11/2006
Por Mauro Ferreira

Resenha de DVD
Título: Botinada - A Origem do Punk no Brasil
Artista: Gastão Moreira
Gravadora: ST2
Cotação: * * * *

Em 1982, quando entraram num sonhado estúdio de oito canais para gravar a seminal coletânea Grito Suburbano, músicos das bandas Cólera, Inocentes e Olho Seco se depararam com a ignorância do técnico de som sobre o rock que já explodia nas periferias de São Paulo sob a ideologia punk. O técnico implicou com chiado que, a rigor, era o som distorcido das guitarras dos grupos. O episódio é relembrado com bom humor em Botinada - A Origem do Punk no Brasil, documentário produzido e dirigido por Gastão Moreira sobre a geração punk que se formou (sobretudo) em São Paulo na virada dos anos 70 para os 80.

Com entrevistas inéditas e farto material de arquivo, o filme rebobina a (des)articulação de um movimento que precisou aparar as próprias arestas para se firmar. "A maioria queria saber de farra e treta", dispara João Gordo, pioneiro militante punk que migraria para o metal ao ingressar no grupo Ratos de Porão. "No começo, punk rock não era movimento. Era gangue. Que era contra o sistema e até o cara do outro bairro", corrobora Clemente, líder do Inocentes que atualmente se reveza entre seu grupo mais famoso e o posto recém-adquirido de vocalista da Plebe Rude, banda nascida em Brasília também sob a influência do punk.

A propósito, a primazia de ter semeado o punk em solo brasileiro é reivindicada no filme tanto por paulistas quanto por brasilienses. Botinada foca seu olhar terno, mas imparcial, sobre a geração de São Paulo, sem deixar de citar a desgarrada Banda do Lixo, nascida em Minas Gerais, e a cena gaúcha, representada no filme por Wander Wildner, líder do grupo Os Replicantes.

Entre imagens inéditas (como a apresentação do Cólera no Olimpop, programa da TV Tupi) e depoimentos reveladores, o documentário historia a aglutinação dos punks no Metrô de São Bento e a rivalidade com as gangues do ABC que resultaria em conflitos sangrentos e acabaria triunfando no emblemático festival O Começo do Fim do Mundo, que deu em 1982 repercussão internacional a um movimento ainda desconhecido pelo próprio Brasil.

A riqueza do material de arquivo - que inclui trechos de corajosos documentários da época como Garoto de Subúrbio e Punks - contribui para atestar a veracidade dos depoimentos e fatos. É possível ver a banda Lixomania em show feito no Circo Voador (RJ) em 1983 e imagens da apresentação nada amistosa de grupos punks na boate Gallery (SP), reduto da elite burguesa, um dos alvos preferenciais da revolta disseminada no repertório das bandas.

Botinada lembra ainda que, impulsionada pela violência que insistia em se alastrar no universo punk, a incompreensão da mídia elitizada a respeito da ideologia dos grupos geraria desfocadas reportagens no jornal Estado de São Paulo e no programa Fantástico (da Rede Globo) que, em maior ou menor grau, contribuiriam para a diluição do movimento, cuja semente ainda germina em corações e mentes como a de Pádua. "Sou punk e vou morrer punk", diz o músico, que perdeu uma mão ao manusear bomba caseira em conflito com gangues rivais. O depoimento firme de Pádua encerra o filme, sinalizando que a história continua...

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Revista Bizz - 10/11/2006
Por Carlos Eduardo Oliveira

- Leia a matéria completa na edição 207 da Bizz, já nas bancas! -

O líder da Plebe Rude assa uma costela e fala do retorno da banda, da utopia comunista em Brasília e de frustrações musicais

Depois de 20 anos, ainda há espaço para a Plebe no rock brasileiro?

Pelo tipo de som que fazemos, sim. Até porque a atual leva do pop é muito calcada nos anos 80. Caras como Toni Garrido (Cidade Negra), Marcelo D2, Falcão (O Rappa), a galera do Jota Quest e do Pato Fu já me confessaram ser fãs da Plebe. O D2 usou até sampler nosso em seus discos! Também tem o fato de eu indiretamente participar da cena alternativa, produzindo bandas.

Do que mais você sente falta da época em que a banda surgiu?

Da inocência. Não é à toa que as pessoas hoje vêem os anos 80 com uma nostalgia exagerada. Tudo era inocente e novo. Ninguém pensava em carreira, tocávamos por urgência. Não havia música feita por jovens para jovens. A gente ia para São Paulo tocar para dez pessoas, muitas vezes sem lugar pra ficar. Fazia o show, pegava o ônibus de volta, tomava remédio para dormir na viagem, chegava de manhã e ia direto pro colégio. Sem cachê, sem ninguém de gravadora para ver o show. Nada.

Em algum momento bateu o feeling de que a cena de Brasília se tornaria um movimento?

Só sentimos que a coisa ia mesmo pegar após o famoso show da Plebe, Legião e Paralamas no Circo Voador. Mas, ainda assim, era tudo muito inocente, eu ainda estava no colégio. Hoje o rock de Brasília é analisado como movimento, mas na época era apenas minha adolescência!

Como você entrou na música?

Aos 12 anos, ouvi uma fita de punk rock que o André me mandou de Londres. Aquilo mudou minha vida. Aos 13, montei minha primeira banda, Caos Construtivo, que fazia covers de Undertones e Stiff Little Fingers, bandas importantíssimas para mim. Às sextas à noite, o programa da turma era ir a bares e a shows do Aborto Elétrico. Um dia, o André me convidou para formar uma banda, que resolvemos batizar a partir de uma expressão - plebe ignara - que o tio dele usava. Nesse tempo era tudo muito incestuoso em Brasília, todo mundo tocava com todo mundo.

Essa era uma característica da "turma de Brasília"...

Sempre foi. Tudo girava em torno das bandas. O primeiro show da Plebe foi com o Aborto; o último show do Aborto foi com a Plebe; o primeiro show da Legião foi com a Plebe, e o primeiro show do Capital foi com a Plebe. Todo mundo andava junto, foram os anos dourados da minha vida. Fui abençoado, esse alto-astral moldou meu caráter. Inclusive, o Renato Russo chegou a me convidar para entrar na Legião Urbana. Por isso, mais tarde, quando pintou essa coisa de "religião urbana", eu achei tudo bem esquisito, afinal eles eram apenas nossos amigos. Eu não conhecia o "Renato Russo"- conhecia o Renato Manfredini.

Havia uma liderança na turma?

Ao contrário do que se acredita, o Renato não era líder, era apenas mais um. A gente freqüentava a casa dele, e só. Como tudo girava em torno das bandas, se houvesse alguma hierarquia, seria delas. É por isso que o Dinho Ouro Preto era louco para entrar em uma. Ele era doido para ser mais aceito. Já andava com a galera da Legião, mas entrar numa banda dava um status a mais.

Qual foi o primeiro show da Plebe fora de Brasília?

Foi com a Legião, em Patos de Minas (MG), em 1982, por sinal a estréia deles. Depois do show, todo mundo foi preso porque o Renato cantou "Os PMs armados/vomitam música urbana", e a gente cantou "Seja livre, vote em branco" - música que, aliás, está no nosso disco novo. A polícia se sentiu ultrajada.

E como se livraram? Como filho de diplomata, você "carteirou"?

Estava com meu passaporte americano, mas nunca tive mamata. Fui dispensado do Exército brasileiro por causa da minha visão. Os PMs não entendiam o que um americano estava fazendo ali. O Renato perguntou o signo de um PM e tomou um tapão na cara. Só nos soltaram depois de horas de interrogatório.

É verdade que uma vez você trouxe pedais dos EUA que nem sabia usar, aí o Herbert Vianna te apelidou de "Fifi Pedalada"?

(Risos) Meu apelido era esse, sim, eu tinha pedais pra caramba. Claro que sabia usar, mas no fundo nunca gostei muito. Tanto que hoje não uso nenhum. Com exceção do The Edge, quanto mais pedal, mais o guitarrista é bundão.

Em sua avaliação, qual a maior contribuição do rock de Brasília?

Adicionar inteligência ao rock brasileiro - e nisso o Renato agregou muita substância e densidade. Havia o punk paulista, didático, e o "rock de bermuda" do Rio, tipo Blitz. Brasília chegou com um som lúcido, diferente, e as três frentes se complementaram.

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PUNKnet - 07/11/2006
Por Pedro De Luna

A Plebe não morreu, mas continua rude, pelo menos no discurso contra a burguesia dominante. Em clima de lançamento do seu novo disco de inéditas, R Ao Contrário, lançado junto da revista Outra Coisa e vendido em bancas, o vocalista e guitarrista Philippe Seabra fala a Punknet. Não estranhe em ver o Clemente, da banda punk paulista Inocentes, aí na foto. Ele é uma das várias surpresas que você terá ao ler esta entrevista. Confira!

A febre das festas "Ploc80" (RJ) e "Trash 80" (SP) aliada ao revival de bandas dos anos 80 como a Blitz e do sucesso de bandas tributo (como Perdidos na Selva), deixou um clima de desconfiança no ar, de oportunismo barato. Onde a Plebe Rude se encaixa neste cenário?

Philippe - Odeio cheiro de mofo. Não há futuro no passado. Não é que eu rejeite as nossas origens, mas a renovação dentro da Plebe, em termos musicais, criativas e ideológicas são tantas, que não quero ficar atrelado a uma imagem do que foi, mas sim deixar no ar a pergunta: como será? Respondendo a pergunta, não nos encaixamos. Quando estava nos anos 80s, queria logo que passasse: ditadura, roupas horríveis, pouca informação, inflação, repressão. Porra, não dá prá ter saudade disso.

As letras do novo disco continuam questionadoras e até mesmo pessimistas em relação ao futuro, mas a sonoridade parece mais pop - para não dizer "comercialmente acessível". Afinal, a Plebe ainda é rude?

Philippe - Gozado, não me parece muito pop. A percepção de cada um varia, a gente ouve cada interpretação para nosso som! Somos rudes? Sim. Mas não somos burros, nem trogloditas. Diria que temos uma rudêz (existe essa palavra?) intelectual, he he he.

Após a dissolução da banda original, quando André voltou pra Brasília e Philippe foi para Nova Iorque, marcou também uma lacuna no rock brasileiro. A partir dali vivemos uma fase horrível com sertanejos, pagodeiros, cantoras "infantis" (Xuxa, Angélica, etc). Hoje as atenções são divididas também e principalmente com funkeiros, rappers e DJs de música eletrônica (verdadeiros pop stars). Para vocês, o momento atual é diferente ou mudaram apenas os personagens? Onde está a Plebe no meio disso tudo?

Philippe - Mudaram apenas os personagens. A mídia adora criar e ter controle de seus astros. Quanto mais players, melhor! E a Plebe no meio mandando ver, com nosso som, sem agressões ou ofensas alheias. O Jander sempre falava, e eu acho legal isso: ame ou odeie, mas não nos comprometa!

Ainda sobre aquela fase, comentava-se que "o André X saiu da Rock It por que passou num concurso público em Brasília". Esse boato deixou todo mundo intrigado por que o selo que ele mantinha com o Dado Villa Lobos era um dos ícones da independência perante o mercado fonográfico. André, agora na era do mp3 e dos vídeos na internet, como você faria se retomasse o projeto do selo? O que seria diferente?

André X - Totalmente! Iria para outro meio, outros formatos. Acho que o que o Philippe está fazendo junto com o Senhor F resume tudo. É por aí!

Philippe, nos últimos anos você se dedicou bastante a carreira de produtor musical. Não foram poucas as bandas que gravaram contigo, e de estilos bem variados. Gostaria que você citasse algumas boas experiências atrás da mesa de som e como isso se refletiu na gravação de "R ao Contrário".

Philippe - É muito legal poder participar no desenvolvimento de certas bandas, trabalhando nos bastidores. Mas não posso fornecer a faísca nem o conceito. Isso as bandas tem que ter. Minha função é viabilizar a transposição disso para o CD e tentar maximizar as canções, e consequentemente, o repertório. Mas não no âmbito comercial. A música tem que ter a letra afiada, o arranjo perfeito, a pegada certa e por fim, o timbre próprio. A canção tem que estar perfeita dentro dos moldes e proposta da banda, não para o que o "mercado" pede. Uma vez que a banda encontra sua cara e isso é passado ao público via CD e show de maneira honesta e forte, o resto fica fácil. Sou um pouco romântico nesse aspecto; a canção sempre em primeiro lugar.

Já trabalho com produção há muito tempo e sempre estou estudando e pesquisando novas maneiras de capatacao de microfone. O meu estúdio vive sendo "upgraded" com equipamento novo, mas isso tudo não faz a mínima diferença se a canção não estiver no lugar. E mais importante, que a banda seja boa ao vivo. Parece-me que o formato CD esta virando mais um cartão de visitas do que qualquer outra coisa, então mais do que nunca um show no mínimo memorável é fundamental.

A produção do "R" ao Contrário deu muito trabalho, mas estamos todos muito felizes com o resultado. Não gosto da palavra "sonoridade" quando se trabalha num disco. Uso mais o termo "atitude", pois para mim a canção sempre estará acima da timbragem. A preocupação excessiva pela "sonoridade" pode travar um disco num conceito pré estabelecido, e nem sempre isso funciona. O que me importa mesmo é postura, pegada. Tudo isso estando certo, facilita muito meu trabalho. Aí sim, me preocupo, e muito, com os timbres. Microfonação é tudo, e aliada a uma boa pegada, é aí que a magia se completa. É um processo longo que começa com a pre-produção do repertório, sem dúvida o momento mais importante de uma gravação. Atualmente estou mixando o disco da banda Los Porongas, do Acre.

No dvd "Botinada", que conta a história do punk no Brasil, a Plebe marca presença com a música "Sexo e Karatê". No entanto o foco do movimento é mais na São Paulo de bandas como Cólera e Inocentes - cujo vocalista Clemente agora canta e toca na Plebe. Vocês ousariam dizer que, ainda hoje, a Plebe é uma banda realmente punk???

Philippe - Não. A gente bebeu muito na fonte punk, mas no punk original, de 1977. Bebemos mais ainda do pós-punk, a evolução natural do punk, com mais musicalidade e abrangência de estilos. O punk-SP teve outras influências, vindas principalmente da segunda onda punk, que nós nunca ouvimos, como Exploited, GBH, Discharge e outros. Mas a vontade de fazer algo diferente, de quebrar barreiras nos une. Respeito mútuo é o que temos. E ter o Clemente na banda é um sonho!

A cena independente vem crescendo ano a ano, mesmo com tanta falta de apoio público e privado. São poucos os festivais que contam com grandes patrocinadores - a exceção de Abril Pro Rock, Mada e Porão do Rock - e as centenas de bandas continuam tocando em pequenos bares e clubes. Vocês acompanham de perto esta movimentação? Vêem algum progresso nela? De quais bandas under vocês gostam?

Philippe - Estamos quase lá, me referindo ao movimento independente underground. Temos boas bandas, uma excelente distribuidora, os festivais, o público. Falta só uma peça da equação: a mídia. Infelizmente, uma peça fundamental. Não temos ainda rádios, tvs e meios de mostrar isso a um público maior. Mas chegaremos lá!

Quando o Lobão decidiu ir na contramão e fazer da banca de jornal a sua loja de discos, vendendo CD através de revista, muitos acharam que não dariam certo. O que vocês acham desta iniciativa? O que levou vocês a esta experiência inédita?

Philippe - Ele errou ao contrário, como cantamos no CD. Ele descobriu outro jeito de fazer, reverteu o processo, quebrou o paradigma, a despeito de opiniões contrárias. Que venham outros Lobões.

Religião e fé são temas recorrentes neste novo álbum. Percebe-se isso em Mero Plebeu ("as lágrimas não vão me converter // a cachaça para o santo já evaporou // assim como a fé"), Katarina ("seduzidos pela luz // oprimidos pela cruz"), O Que se Faz ("às vezes só do inferno é que se vê o céu") e na faixa título. O que incomoda vocês? A igreja de Bento XVI? Os bispos e pastores eleitos deputados e senadores?

Philippe - A idiotice de quem segue esses líderes. A falta de pensar por si próprio. A necessidade de sentir culpa e de culpar os outros.

E por fim, como não poderia deixar de ser: vocês realmente votam em branco?

Philippe - Tive que votar para governador do DF, não havia opção! Mas para os outros cargos, fiz minha pesquisa e achei candidatos compatíveis com minha visão. Tomara que, aqueles que foram eleitos, cumpram com o que prometeram!

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cancaopobre.wordpress.com - 30/10/2006
Por Jorge Wagner

Com pouco mais de 17 mil habitantes e aproximadamente 77,5 km² de área total, Mendes é um lugar onde, em pleno sábado a tarde, é possível encontrarmos um senhor de cabelos brancos e óculos fundo-de-garrafa, trajando uma camisa vermelha abotoada até o alto do pescoço, cantando bolero para uma praça vazia. Dona do 4º melhor clima do mundo – como gostam de repetir, com orgulho, os moradores –, é uma daquelas cidades do interior do Rio de Janeiro que não pareceriam deslocadas se fossem cidades do interior de Minas.

Roadie do Nando Reis, violeiro, fotógrafo amador, ex-engenheiro de som, ex-produtor e, é claro, ex-guitarrista da Plebe Rude, Jander Ribeiro, um sujeito grande e forte, de fala pausada e barba desgrenhada capaz de fazer inveja em muitos Hermanos, morou aqui por 16 anos. Não mora mais. Depois do término de seu casamento com a "menina mais bonita" citada na letra de "2ª feriado" (do terceiro disco da banda), mudou-se para São Pedro da Serra, em Nova Friburgo, mantendo assim a preferência por locais afastados dos grandes centros urbanos. Suas visitas à Mendes, hoje em dia, restringem-se a ocasiões esporádicas, como quando vem visitar as filhas Carina e Bianca, de 17 e 13 anos.

"Não fui eu quem escolhi morar em Brasília. Não foi vontade minha". Mineiro de nascimento, Jander, que já havia morado na capital por volta de 1974, mesmo sem querer, voltou à Brasília em 1980, período de efervescência de um cenário punk no país. Tornou-se amigo da "Turma da Colina", da qual faziam parte, entre outros, futuros membros de bandas como Capital Inicial, Legião Urbana e Escola de Escândalo, além de André Mueller ("a discoteca da turma, o cara que adorava gravar compilações em k7 com umas duas músicas de cada banda e distribuir para os amigos") Philippe Seabra e Gutje, a já formada Plebe Rude a qual "Ameba" ("isso é apelido de moleque mesmo, sem maiores razões") veio se juntar, ainda que não soubesse muito bem tocar guitarra. "Muita gente olha pra mim e pensa 'esse cara é o maior roqueiro', e eu nunca fui roqueiro! Eu nunca tive um disco rock, e muita coisa eu vim a conhecer bem mais tarde, com meu irmão Julian, que é uns 10 anos mais novo que eu. Eu nunca soube tocar guitarra e acabei tocando numa banda punk, já que pra ser punk não precisava saber tocar. Eu era punk não pela música, mas por questões ideológicas", garante.

Músicas como "Até Quando Esperar?", "Proteção", do mini-disco O Concreto Já Rachou (1985) e "Censura", de Nunca Fomos Tão Brasileiros (1987) tornaram a banda conhecida em todo país. Não repetindo o sucesso dos primeiros discos com Plebe Rude III (1989), repleto de experimentações como a mistura de ritmos regionais em faixas como "Valor" e "Repente", por exemplo, a relação entre os membros da banda se tornou tensa e Jander, já morando em Mendes e tendo sido pai há pouco tempo, acabou "convidado a sair". Pouco depois montou o Tira Saibro, grupo com o qual se apresentou durante 6 anos em bares, comícios e em "onde mais tivesse espaço", tocando o que pedissem. "No nosso primeiro show, em Valença, o cara que contratou teimou que queria ouvir só bossa nova, e foi lá a gente tocar bossa nova a noite inteira".

Fez direção de palco para Lulu Santos, trabalhou como roadie para Fernanda Abreu, Engenheiros do Hawaii, Pato Fu e Gabriel, o Pensador. É melhor estar à frente de um palco ou nos bastidores? Jander garante que não gostaria de estar nem em um lugar nem em outro. "Parei de estudar no 1º ano. Não me especializei em nada. Isso é o que eu sempre fiz, é só o que eu sei fazer. O showbussines é ingrato. Ninguém faz o mesmo sucesso por anos. Eu trabalhei com o Gabriel quando vendeu 1 milhão de cópias e... cadê ele?! Nem faz tanto tempo assim!(...) Se pudesse, estava fora! Quando puder... estarei. Já foi meu tempo!"

Em 1999 a Plebe Rude ensaiou um breve retorno com a formação original, que rendeu o disco ao vivo Enquanto a Trégua Não Vem, em 2000, e alguns poucos shows ("uma lona cultural sei lá onde hoje, uma outra daqui a 15 dias... uns poucos shows bons em Brasília onde deu pra tirar um dinheirinho..."), mas a participação de Jander ficou só por aí. "Eu era duro. No começo era só um projeto: a gente toca, grava um ao vivo, faz uns shows. E mesmo com as poucas apresentações dessa época, os caras teimaram que dava pra fazer coisa nova. Isso eu não quis. Saí fora.".

Há quem considere esse retorno da Plebe em 1999 como um dos primeiros sinais de um movimento de revival dos anos 80 no Brasil. "Eu acho muito estranho esses caras com seus 40 anos fazendo a mesma coisa que faziam aos 18, tendo a mesma atitude que tinham há 25 anos atrás. Pegam o que era pra ser anti-comercial na década de 80 e como não sabem fazer mais nada, tentam ganhar um dinheiro com isso agora.". Perguntado se aplica a mesma opinião à Plebe, pensa um pouco, olha para os pés, coça a barba e diz que sim, "com a diferença de que pelo menos eles tentam fazer alguma coisa nova".

Enquanto seus ex-companheiros batalham a divulgação de R ao Contrário (novo disco da Plebe que trouxe Clemente, dos Inocentes, no lugar de Ameba), Jander, que tem aprendido desenho e que, tendo a fotografia como hobby, recentemente vendeu alguns cartões-postais de Nova Friburgo ("Tem que ser hobby mesmo! Minha máquina está ruim e uma boa nova custa uns R$3000! Teria que vender uns mil cartões pra comprar uma máquina boa e poder levar a sério!"), diz que tem como plano montar um bistrô ("para vender artesanato e comidas típicas") ao lado da namorada, artista plástica, com quem passou as férias vendendo tapioca numa barraca montada nas ruas de São Pedro da Serra. "Sempre estive mais para 'Jander do interior' do que para 'Jander da cidade'".

Se o fato de não ter ouvido R ao Contrário pronto (e nem demonstrar qualquer pressa em fazê-lo) não chega a surpreender, os fãs mais radicais, aqueles mesmos que, ainda hoje, criticam Plebe Rude III, devem torcer o nariz ao descobrir as preferências musicais atuais de Jander: "O que eu tenho ouvido? Tonico & Tinoco! Conheço pouco mas acho maravilhoso! Os caras por aí endeusam... Chico Buarque, mas o cara hoje em dia está cheio de coisas que não dá pra ouvir! Tonico & Tinoco foram os maiores artistas brasileiros, com mais de... sei lá... 800 músicas gravadas!"

Ele tem fama de mal humorado, mas... desfrutando de um momento de sossego após três dias de estrada, talvez esteja cansado demais para demonstrar seu tão falado mau humor. Trabalhando muito desde agosto, quando começou a turnê de Sim e Não (disco mais recente de Nando Reis), "Jander do Interior" fez o trajeto Rio de Janeiro/São Paulo/Ribeirão Preto (onde Nando se apresentou na quinta-feira, 26 de outubro), foi para Recife (onde Nando tocou no dia seguinte, 27 de outubro) e então voltou ao Rio, para poder, finalmente, aproveitando a pausa para as eleições, visitar suas filhas em Mendes.

Alheio ao posicionamento político que consagrou a banda da qual fez parte durante a década de 80, Jander de hoje, na véspera das eleições de segundo turno, não sabe em quem vai votar. "Devo votar no Lula mesmo. Não sei ainda.", diz, deixando sua voz transmitir uma certa insegurança, comum a muitos outros eleitores.

Jander Ribeiro nunca foi tão brasileiro.

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www.ego.com.br - 29/10/2006
Por Nathalia Birkholz

Outubro de 2006 é uma data especial para o rock nacional. Há 25 anos, neste mesmo mês, surgiam três bandas compostas por baixo, bateria, guitarra e voz

O movimento punk que aflorava na Inglaterra e EUA nos final dos anos 70 e começo dos anos 80 servia de influência para os jovens músicos, que formaram suas bandas e agitam seus fãs até hoje. Ira!, Inocentes e Plebe Rude estão comemorando 25 anos de estrada, cada uma com seu público, seu som e a seu modo.

A mais famosa no Brasil é o Ira!, formado por Nasi (voz), Edgard Scandurra (guitarra), André Jung (bateria) e Ricardo Gaspa (baixo). Criada em São Paulo por Nasi e Scandurra, o Ira! começou mais pesado, mas foi mudando sua sonoridade com o tempo e atualmente faz o chamado rock n´roll com pegadas pop. Os arranjos mais melódicos que a banda incorporou consagram-na como uma das mais importantes integrantes do pop rock nacional.

As outras duas começaram punk e até hoje mantêm este cunho na cena independente nacional. Mas os anos se passam e junto com eles os músicos optam por menos barulho. O Inocentes tocou suas primeiras músicas com um som bem podre e gritado, mas hoje já é mais fácil entender as letras. A Plebe sempre foi mais light. Além do ideal punk estas bandas atualmente têm um vocalista/guitarrista em comum: o paulistano Clemente Nascimento, que apareceu na cena musical junto com o surgimento do punk no Brasil. A Plebe, que não faz aniversário exatamente em outubro, mas já está comemorando os 25 anos, surgiu em Brasília formada por Philippe Seabra (vocal e guitarra) e André X (baixo), remanescentes da formação original, e o baterista Txotxa. Já o Inocentes, de SP, tem Ronaldo (guitarra), Anselmo (baixo) e Fred (bateria).

EGO convocou Nasi e Clemente, os vocalistas destas bandas que completam suas bodas de prata em 2006 para que se entrevistem. Confira nos links abaixo da foto o que um tem a perguntar e a responder para o outro:

Nasi, do Ira!, entrevista Clemente, do Inocentes

Nasi: Por que apenas Inocentes e Cólera sobreviveram no movimento Punk Paulistano

Clemente: Na verdade o Cólera e o Inocentes são as que têm mais espaço na mídia, mas outras bandas sobreviveram também como o Olho Seco e o Garotos Podres, mas acaba parecendo que é só a gente, por causa do fato de termos mais espaço na mídia.

Nasi: Por que praticamente não temos artistas negros no rock nacional?

Clemente: Essa é uma pergunta, que eu também me faço hahahahaha! Quando eu comecei a tocar tínhamos muito mais, principalmente no punk. Mas o rap veio substituir o punk na periferia o que contribuiu para o desaparecimento do negro no rock. Mas vira e mexe, encontro algum músico de rap que me confessa que ouvia Inocentes quando era garoto, gente como o Xis e o B Negão.

Nasi: Como está a Plebe Rude desde que você ingressou na banda?

Clemente: Melhorou muito hahahahahahahaha! Bem... Acabamos de lançar um CD encartado na revista do Lobão, a "Outra Coisa", o CD se chama "R ao Contrário", traz 12 músicas inéditas e já conta com minha participação. O CD, por enquanto é só achado em bancas, mas partir do final de outubro ele vai para as lojas de discos. E estamos em plena turnê de divulgação. E vamos estar em São Paulo nos dias 24 e 25/11 lá no SESC Pompéia.

Nasi: O que você acha sobre a polêmica questão de cotas raciais nas universidades?

Clemente: É chato ter que tomar uma atitude extrema como essa, mas no momento acho necessária, pois realmente a faculdade pública tem que garantir os estudos da população de baixa renda, composta na sua maioria por negros, na verdade, as cotas devem ser para alunos de baixa renda, negros ou não, é um projeto de inclusão social. Mas aliado a isso, temos que melhorar o ensino básico, para que os alunos de baixam renda tenham condições de competir de igual para igual pelas vagas. Mas pensando bem... O governo tinha que garantir ensino universitário para todos.

Nasi: Para que time você torce?

Clemente: Com todo orgulho, torço para o glorioso SPORT CLUB CORINTHIANS. É claro que todo são paulino adora fazer essa pergunta, por causa da atual situação do coringão. Mas faz parte do futebol hahahahahaha!

Clemente, do grupo Inocentes, entrevista Nasi, do Ira!

Clemente: Lá se vai um quarto de século, com o Ira! em ação. O que ainda lhe motiva a seguir em frente?

Nasi: Hoje não tenho as ilusões que tinha no passado, mas ainda adoro cantar e gravar discos. O que me motiva? Minha casinha em Curuípe e o que o futuro me reserva.

Clemente: É muito difícil conviver tanto tempo com os companheiros de banda, já que essa união está durando mais que muitos casamentos?

Nasi: Muito não... mas as turnês desgastam, você deixa para trás seus vínculos, relacionamentos, animais domésticos, etc.,...relacionamentos vivem altos e baixos e as férias são excelente remédio para isso.

Clemente: Eu sei que é difícil responder a essa pergunta, mas qual dos seus discos que você tem mais carinho?

Nasi: "Onde os anjos não ousam pisar".

Clemente: Essa pergunta é um tanto pessoal: li em uma entrevista na "Playboy" que você tinha "saído" com mais de 1.150 mulheres, número que já deve estar desatualizado. Como você encontrou tempo para compor, gravar seus discos, fazer shows? Hahahahahaha! Esse "negócio" de mulher toma um tempão né?

Nasi: Há um ano as pessoas só pensam nisso, né? As pessoas só falam isso e é por isso que me perguntaram e eu respondi. Sabia que ia gerar polêmica e se uma pessoa como eu (solteiro, cantor de rock...) não pode soltar uma bravata dessa, quem pode? Eu nunca contei, pode ser menos. E o que importa? Mas uma coisa é verdade, ninguém marcou mais gols no rock nacional do que eu.

Clemente: E quais seus planos daqui para frente? Tem disco novo do Ira! no forno? Tem disco solo novo no forno? Vai plantar uma árvore ou escrever um livro?

Nasi: Em novembro o Ira! entra em estúdio, no momento temos 80% do disco pronto. Gravaremos, mixaremos e sairemos de férias até o carnaval. Depois entraremos em turnê. Quero gravar um outro disco solo, daqui um ano, mas no momento o que quero mesmo é encontrar e viver um grande amor...

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A Notícia (Joinville) - 29/10/2006
Por Rubens Herbst

Documentário "Botinada" conta como o movimento punk confrontou a repressão militar e a sociedade brasileira nos anos 70 e 80

"A música precisa dar assistência a todo esse lixo. A música tem que mostrar saídas para se vencer a estagnação. Ela tem que ser verdadeira, mas também bem-humorada. E isso não é política". Esse era Johnny Rotten, sempre bocudo, explicando como a fúria dos Sex Pistols poderia ajudar a salvar a decadente sociedade britânica. Na verdade, o que a banda e todo o punk resgataram foi a visceralidade do rock'n'roll, corroído pela grandiloqüência do rock progressivo e a afetação de ídolos milionários. Uma volta assim, ao básico, à revolta, teria mesmo que mudar os rumos da música pop e ecoar pelo mundo afora. Pois o grito primal foi ouvido até no Brasil.

Mas a quem ele chegou primeiro, aos office boys de São Paulo ou à "turma da Colina" de Brasília? Quem primeiro lhe deu o sotaque nacional? Que impacto isso causou por estes lados? Essas e outras respostas estão em "Botinada - a Origem do Punk no Brasil" (ST2), documentário recém-lançado que mapeia, via depoimentos e imagens de época, a chegada do punk ao País e como sua magia incendiária tomou conta da mente de uma geração inteira de jovens revoltados. É a primeira vez que o movimento no Brasil - incompreendido e até ridicularizado em seu auge - ganha um raio X tão amplo, esperto e, ao mesmo tempo, didático.

O autor da façanha é Gastão Moreira, ex-apresentador da MTV e da TV Cultura, atual comandante do "Gasômetro" (Rádio Atlântida) e guitarrista da banda florianopolitana Kratera. Após passar quatro anos debruçado sobre o assunto, ele chegou a uma versão tupiniquim de "Mate-me, por Favor" - o célebre livro que mapeia a ascensão e queda do punk americano -, com os protagonistas dessa história relembrando os melhores (e os piores) momentos dessa história. O foco principal recai sobre a cena paulista, mas brasilienses, baianos, cariocas e gaúchos também contam sua versão dos fatos. Um CD com 15 faixas essenciais do punk brasileiro completa, furiosamente, a aventura arqueológica de Gastão.

Tudo começa com Sex Pistols, The Clash e Ramones

O início do movimento se deu em meados dos anos 70. Foi quando começaram a pipocar em São Paulo revistas (como a "Pop") com as primeiras reportagens sobre a tempestade provocada por Sex Pistols, The Clash e Ramones, e discos importados dessa turma, vendidos a peso de ouro nas lojas especializadas e imediatamente transformados em dezenas de fitinhas K-7.

Em pouco tempo, garotos da periferia paulista andavam pelas ruas com jaquetas de couro, jeans rasgados, correntes e moicanos, bradando contra tudo e todos. Mais do que isso, esse pessoal começou a montar bandas que primavam por velocidade, distorção e discurso ríspido. "Em plena ditadura militar, nós rompemos com uma estética visual, musical e comportamental", avalia Zorro, do M-19. "Você é subproduto dessa violência que te oprime, que te tira tudo o que você poderia ser. O punk é um espelho perverso disso". Entretanto, Clemente - que fez parte dos precursores Restos de Nada e Condutores de Cadáver, fundou os Inocentes e hoje toca na Plebe Rude - diz que também havia moleques querendo apenas tocar música não-comercial. "Tem gente que leva o punk muito a sério, como se fosse um movimento político de transformação. Acho que enquanto houver um moleque na rua a fim de fazer um som, o ideal punk nunca vai morrer", garante.

Mídia de massa logo toma uma posição

De qualquer forma, a novidade do punk não foi vista de forma tão inocente assim pela mídia de massa, como mostra o documentário. Com o número de bandas se multiplicando, os shows aparecendo e os primeiros registros vindo à tona - como o clássico "Grito Suburbano" (1981), com Olho Seco, Inocentes e Cólera -, os meio de comunicação começaram a tentar radiografar aquela gente de visual chocante e música raivosa. Choveram reportagens distorcidas que pintavam os punks como violentos, malcriados, sujos e outros conceitos pouco elogiosos. O livro "O que é Punk" (de Antonio Bivar) e o documentário "Punks" (de Sarah Yakhni e Alberto Gieco) foram ilhas de idoneidade nesse mar de lama difamatório.
Se bem que, aqui e ali, o pessoal também não colaborava. Havia o pogo, a dança típica dos punks que inclui socos e pontapés em quem estiver em volta. As brigas entre gangues rivais eram constantes, bem como entre jovens de bairros distintos. "A maioria só queria saber de farra e treta", lembra João Gordo, vocalista do Ratos de Porão.

O pior, no entanto, era o clima de guerra que existia entre os punks de São Paulo e do ABC paulista, considerados "mais podres" que os da capital. Numa das histórias narradas em "Botinada", Pádua, da banda Passeatas do ABC, conta como perdeu a mão: ele pretendia atirar uma bomba caseira em algumas pessoas que assistiam a um show, se assustou e largou o artefato, que explodiu entre o chão e seu antebraço.

Em outro episódio, Cólera, Verminose (o grupo de Kid Vinil) e o performer Patrício Bisso foram convidados para animar o lançamento da revista do Gallery, tradicionalíssimo reduto burguês paulista. Claro que os muitos punks que pretendiam conferir o show foram barrados. Os que conseguiram entrar horrorizaram os chiques do lugar, também esculachados pelas bandas no palco - até o som ser desligado.

O Começo do Fim do Mundo: o auge e o declínio do movimento

Em 1982, pouco depois de serem acusados de um incêndio na Universidade de São Paulo (USP), os punks tiveram seu momento (parcial) de redenção. Dois dias, 20 bandas, três mil pessoas para assisti-las, exposições, cobertura da mídia internacional - o festival O Começo do Fim do Mundo, organizado para selar a paz entre as facções, significou, ao mesmo tempo, o auge e o declínio do movimento. A festa corria bem até o batalhão de choque invadir o Sesc Pompéia e promover fugas, prisões e hematomas.

O pessoal estava acostumado com a truculência policial, só que daquela vez tudo foi devidamente registrado pela imprensa. O "Fantástico" aproveitou mais uma confusão para levar ao ar uma matéria sensacionalista sobre o movimento, sujando ainda mais a imagem dos punks perante a sociedade. O que se viu nos dias seguintes foi gente guardado jaquetas, cortando moicanos e observando de longe a poeira baixar. Fábio, vocalista do Olho Seco e dono da tradicional loja-gravadora Punk Rock, teve de mudar de ponto por causa da pressão dos vizinhos comerciantes. Punks viraram um perigo, mas também motivo de piada em novelas ("Champagne"), músicas (a ridícula "Punk da Periferia", de Gilberto Gil), quadrinhos (o Bob Cuspe, do Angeli) e artigos. Ainda assim, quase todos sobreviveram para seguir tocando, e para contar a história a Gastão Moreira.

Gastão Moreira

Músico e jornalista, diretor do documentário "Botinada"

A Notícia - Você chegou a acompanhar parte do movimento punk brasileiro de perto? Quais as suas lembranças desse período?
Gastão Moreira - Em 81, 82 sempre ia nas Grandes Galerias e acompanhava tudo perifericamente. Os punks me provocavam medo e fascínio.

AN - Realizar o documentário tem algo a ver com essa "memória afetiva"?
Gastão - Sem dúvida. A história do punk brasileiro não poderia escorrer pelo ralo. Tinha de ser registrada e contada

AN - Você conversou com 77 pessoas do movimento. Foi complicado achar parte desse pessoal? Alguém ficou de fora, que não quis se pronunciar?
Gastão - Foi como participar de uma gincana maluca repleta de pistas falsas, mas consegui entrevistar todos os punks relevantes.

AN - O punk no Brasil atingiu o auge quando a onda já tinha passado lá fora e tinha dado lugar ao new wave e pós-punk. Ele ter chegado aqui um pouco atrasado é a única explicação pra isso?
Gastão - Cada país teve seu período de maturação. No Brasil, a ditadura militar contribuiu para nosso atraso. O auge por aqui foi entre 81 e 83, época que coincide com a geração do Exploited lá fora

AN - A impressão é de que a matéria do "Fantástico", logo após o Começo do Fim do Mundo, foi o estopim para cena punk degringolar. Procede? A mídia de massa de fato "matou" o punk?
Gastão - Pense no poder da rede Globo na época! Uma matéria no "Fantástico" foi o suficiente como estopim da marcação cerrada. Eu lembro da minha família horrorizada com os punks. Eles passaram a ser tratados como bandidos e terroristas.

AN - Você concorda que a violência que permeava a cena (gangues, a rivalidade São Paulo x ABC) foi prejudicial ao movimento? Ou era um elemento? inerente ao punk?
Gastão - A violência era inerente aos adolescentes, inerente à repressão militar. O filme "Warriors" deu a cartilha. As gangues eram também questão de sobrevivência, já que muitas vezes os punks atravessavam outros bairros.

AN - Você percebe alguma particularidade do punk brasileiro, uma diferença, em relação ao punk americano ou inglês?
Gastão - Sim, acho que o punk brasileiro teve sua própria leitura. Talvez pela escassez de informação os punks brasucas trilharam um caminho próprio

AN - Há notícias de algo semelhante em Santa Catarina ocorrendo na época? Chegou a pesquisar isso?
Gastão - Perguntei sobre a cena de Santa Catarina, mas pelo que entendi os primeiros sintomas só vieram no meio dos anos 80, período que não abordei no "Botinada".

AN - Uma das primeiras questões colocadas no filme é: onde começou o punk, São Paulo ou Brasília...
Gastão - Em Brasília os LPs chegaram primeiro, mas foi o punk paulista que fez a história.

AN - Para você, qual, afinal, foi a grande contribuição do punk para o rock brasileiro que veio na seqüência?
Gastão - Os punks abriram as portas para bandas como Legião, Capital Inicial, Ira!, Titãs, que foram associadas ao punk num primeiro momento. Fora isso, acho que o "Grito Suburbano" é o primeiro lançamento realmente independente no Brasil. Então posso dizer que os punks criaram o manual para as gravadoras independentes na base do "faça você mesmo".

AN - Para fechar: o que o pessoal das antigas achou do trabalho?
Gastão - Falei com vários punks e até agora todos se mostraram satisfeitos. A primeira exibição na Cinemateca de São Paulo foi bastante aplaudida pelos punks presentes. É isso aí, fiz o "Botinada" com muito respeito a eles.

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Diário do Nordeste (CE) - 27/10/2006
Por Henrique Nunes

Com Clemente, dos Inocentes, em sua nova formação, a Plebe Rude volta à ativa

Com as entradas do guitarrista Clemente (Inocentes, no lugar de Jander "Ameba" Bilaphra) e do baterista Txotxa (ex-Maskavo, no lugar de Gutje), Philippe Seabra (guitarra e voz) e André X (baixo) renovam uma das mais importantes bandas brasileiras dos anos 80, a Plebe Rude. A volta, depois de 13 anos sem nada inédito, é marcada pelo lançamento de "R ao Contrário", encartado na revista Outracoisa de outubro. Entre as semi-anarquias da Plebe, destaque para "Voto em branco", literal e sonoramente a mais punk de todas, do tempo em que André X fazia parte da banda Os Metralhas e proibida pelos últimos suspiros da censura.

Vale dizer, de cara, que Clemente continua na Inocentes, que não acabou, como muita gente, como eu, pensava. Além de sua guitarra docemente "rude", ele ataca no contraponto vocal moderado que Jander fazia. O paulista já conhecia os "candangos" desde "aquela época" e se entendeu bem com os acordes abertos de Philippe, em 2004, num tributo ao The Clash, em Sampa. "Época" em que a execução de "Voto em branco" rendeu a prisão da Plebe, após um show em Patos de Minas em que a Legião também foi em cana depois de tocar sua, perdoem a rima, "Música Urbana".

Inspirada no pós-punk inglês, que André conhecera de perto, a Plebe já era sofisticada e não meramente iconoclasta, lado agora mais explícito em "Vote em branco". André ainda integrava a Os Metralhas, enquanto Philippe, no colégio, fazia versões de Clash e Ramones, na Caos Construtivo. Tempo em que Russo e Fê Lemos também vestiam de punk o DF com a Aborto Elétrico e a Blitx 64.

Então, pra contextualizar mais um pouco, a Plebe é uma daquelas bandas de Brasília, dona de velhos hits como "Proteção", "Minha renda", "Censura", "Até quando esperar", , "Johnny vai à guerra" e... "Brasília", d' "O Concreto Já Rachou" (1986). E ainda: "A ida" e a faixa-título de "Nunca fomos tão brasileiros" (1987).

Nada posso falar do "Plebe Rude", de 88, e do último registro inédito, de 1993, "Mais raiva do que medo". Nem do ao vivo "Enquanto a trégua não vem", de 2000. Nesse tempo, após uma temporada nos Estados Unidos, onde nasceu, Philippe parou a banda, produziu outras e seguiu carreira solo, vindo até tocar aqui, na Festa dos 20 e Poucos Anos. Animado com a volta, ele promete um álbum solo, em inglês, para 2007.

Ao "R". Os arranjos dosam bem a tradição punk da Plebe e seus requintes harmônicos bem definidos, até mesmo pela permanência do baixo, do vocal principal e das idéias. As letras são intrigantes, com abrangência política e subjetiva. Mesmo um tanto difusas, elas mantêm a velha contestação, conclamando a sair da passividade e a enxergar outras coisas.

Muitos riffs, elétricos e acústicos, remetem de cara ao velho estilo da banda. Seabra e André X não mudam mesmo. Txotxa toca quase o mesmo tanto de faixas do que o gaúcho Iuri Freiberger, amigo que só não ficou porque já tinha a Tom Bloch. Clemente só chegou no fim das gravações, só pra colocar voz e mais punch a um repertório burilado nos últimos dez anos.

"O que se faz", uma das três parcerias entre Philippe e André abre "R" com o timbre mais carregado do "Nunca fomos tão brasileiros", sobretudo pelos teclados de Philippe. Entre umas gaitas de fole distorcidas, tem aqueles lances falados, por Clemente, numa letra que desvenda comportamentos mais incoerentes. Cobrança que permanecerá ao longo do CD.

O clima de desilusão vai aumentando até "Voto em branco". André assume o vocal para mostrar sua cria punk. Com Txotxa e Fé Lemos, velho amigo do Capital/Aborto, nas baquetas, ele prega: "seja alguém, vote em ninguém"... Uma idéia estimulada por um trecho falado.

É onde a identidade da Plebe está mais evidente. Philippe, André e companhia merecem o voto, mesmo que a letra seja do ano de 80...

Hino da "Geração Coca-Cola" diante dos nossos abortos e assassinatos ideológicos? Daqui a quatro anos, talvez.

Pra enxergar outras coisas

Um vocal esganiçado e um violão, também típicos da Plebe, dão o tom de "Discórdia", logo embalada pela guitarra noise de Philippe. Letra mais objetiva, "convicta", assim como os riffs e a bateria de Freiberger. Bacanas, as três estrofes faladas marcialmente por Clemente. "Eu me rendo à falta de opção", é o verso mais marcante, mas, ainda assim, cobra atitudes.

"E quanto a você" mantém o "tom de ameaça", para estimular a enfrentar o cotidiano das "instituições". Pegada mais incisiva, de fato, na mais amarrada "Mil gatos no telhado", feita para despertar quem está "sempre de braços cruzados, anestesiado pela fé". Outra pra política e outras coisas.

Legais, sempre, os solos de X. Um violão e um vocal mais grunges tomam "Suficiente por um dia", com as baquetas moderadas de Txotxa. É outra letra intrigante de Philippe, entre seus samples, em harmonia com o cello de Augusto Guerra. Na balada "Traçado que parece o meu", Philippe cobra outra vez o bom senso. Ele rasga sua garganta, de leve, e volta a soltar sua guitarra melódica.

Philippe e Clemente se revezam depois nos vocais de "Mero Plebeu". Mais política e subjetividade, entre uma batida tribal em contraponto com a guitarra aberta de Seabra. Em nome do rock'n'roll, o velho plebeu enxerga longe, distorcendo mais seus acordes, falando da oprimida "Katarina", noutra com X, em belo dueto com o novo anti-inocente da banda.

Uma pegada mais crua é liberada em "R ao contrário", que tem a letra mais punk de todas. "Inverta toda ordem/Antes desordem que a previsão/Pense ao contrário/Desligue o rádio e destrua a TV/Veja, tem tantos outros/Com a mesma raiva que você". Segue "Dançando no vazio", versão para "Staring at the rude boys", do The Ruts. A postura anárquica vai se evidenciando. Em "Remota possibilidade", a melancolia chega como um último fio, amarrado e roto ante ao apagar dos sonhos. E aí, "Voto em branco".

SERVIÇO: "R ao contrário" - Novo álbum da banda Plebe Rude, encartado na revista Outracoisa, à venda nas bancas por R$ 14,90. 12 faixas com letras

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www.guitarplayer.com.br - 20/10/2006
Por Philippe Seabra

"Recomendo o disco Rock Of The Westies (1975), de Elton John. Esse trabalho mostra bem como os guitarristas Davey Johnstone e Caleb Quaye sabiam trabalhar juntos. Além disso, o entrosamento das guitarras com teclado, piano e percussão é perfeita: cada um no seu espaço. Uma verdadeira aula de como se dedicar à canção numa banda. Esse disco é da época mais roqueira de Elton John. Um grande registro! Com poucas audições, é possível entender a que estou me referindo. Sugestão de um bom começo: a música Street Kids".

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www.guitarplayer.com.br - 18/10/2006
Por Philippe Seabra

"Tenho uma Les Paul Custom Silverburst. Foi paixão à primeira vista. Tudo que gravei na minha vida foi com ela. Todos os meus heróis na guitarra usam Les Paul. Em 1982, consegui juntar dinheiro para comprar a minha primeira Gibson. Naquela época, tínhamos de importar os instrumentos, então, liguei para uma loja nos Estados Unidos. Lembro que o vendedor disse que não havia a cor de Les Paul que eu queria, mas me ofereceu uma outra e me convenceu a comprar. Era essa Les Paul Custom Silverburst 1982. Quando a guitarra chegou, fiquei tão impressionado com a beleza do instrumento que acabei quebrando meus óculos (acidentalmente sentando em cima). Logo no primeiro ensaio, sem querer, bati o headstock dela na parede e tirou uma lasca. Nossa, como doeu! [risos]. Essa guitarra é totalmente original, a não ser pelo captador do braço, que fiz a besteira de trocar pelo de outra Gibson. Mas, em termos de timbre, é quase imperceptível. Além disso, ao longo dessas mais de duas décadas, troquei os trastes duas vezes".

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O som do dia / Estadao.com.br - 18/10/2006
Por Guilherme Werneck

Como todo adolescente nos anos 80, ouvi até furar o EP O Concreto Já Rachou.... Agora, a Plebe Rude está de volta com o disco R ao Contrário, lançado junto com a revista Outra Coisa. E a boa notícia é que o Clemente, dos Inocentes, é o segundo guitarrista dessa nova formação, ao lado dos "originais" Philippe Seabra e André X.

Velhos hábitos punks nunca morrem e, das novas músicas, a que mais chamou a minha atenção foi "Voto em Branco", pelos motivos óbvios e por ser uma daquelas músicas que dão vontade de sair cantando junto.

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