Plebe Rude

Showbizz - 10/10/1999
Por Carlos Marcelo

O baixista da Plebe Rude mostra os discos punks e pós-punks que abasteceram de informação a turma que recolucionou o rock nacional nos anos 80

Em uma daquelas festas estranhas com gente esquisita que rolavam em Brasília no início dos anos 80, Renato Russo se aproxima de um sujeito muito alto, vestido no melhor estilo dos punks londrinos, e pergunta: "Ei, não é você que tem o Metal Box, do PIL?". "Sou eu, sim. Mas agora não tenho mais!", responde André Mueller, momentos antes de quebrar em mil pedaços o vinil - importado - da banda de John Lydon (ex-Sex Pistois). A atitude punk pode ter impressionado o futuro vocalista da Legião Urbana, mas o autor da bravata logo se arrependeu.

Demorou um ano para que o baixista da Plebe Rude conseguisse novamente uma cópia do disco, um dos títulos raros da coleção que mantém em seu apartamento na Asa Norte, Plano Piloto do Distrito Federal, onde mora desde 1994.

Além de livros do escocês Irvine Welsh (autor do cultuado Trainspotting) e do inglês Ian Fleming (o criador de 007), a estante de André X (como ficou conhecido na Plebe) abriga 400 CDs, 500 vinis e sessenta compactos separados por gêneros e por ordem alfabética. Mas nada de obviedades, como a discografia completa dos Beatles ou Rolling Stones; a discoteca de André Mueller tem poucas coletâneas (NewHaveHits, darbino, é uma delas) e multas bandas punks britânicas. Herança do período - 1978/980 - em que ele morou em Sheffield (a cidade onde se passa o filme Ou Tudo ou Nada). "Cheguei no dia em que Sid Vicious morreu e me espantei com aqueles discos de cores e formatos diferentes de bandas como Undertones, Stiff Little Fingers e Dickies. Vi o Joy Division abrindo para os Buzzcocks. Gostei tanto que voltei para o Brasil com o Closer embaixo do braço", lembra.

Os discos que trouxe depois do primeiro período na Inglaterra impressionaram os amigos brasilienses. "Virei o gravador oficial de fitas da turma. Eram três a quatro discos por semana", revela. Entre as raridades compartilhadas com a turma de amigos que depois formaria bandas como Legião Urbana, Escola de Escândalo e Capital Inicial, compactos do comecinho da carreira do CLash (Mdte Ríot, 1977), Siousxie & The Banshees (Hong Kong Carden, 1978) e Buzzcocks (Spiral Scratch, ainda com Howard Devoto, que depois se tornaria vocalista do Magazine). Mas nada de emprestar as relíquias. "Toda vez que emprestei, me arrependi. Ninguém devolvia."

Se há uma marca pessoal na coleção de André X é a preferência pelo experimentalismo. "Dos quatro (da Plebe), eu era o que curtia coisas mais estranhas: os primeiros discos do Cabaret Voltaire e do Human League, só instrumental, nada pop." Ainda no setor "esquisitices anos 80", André tem carinho especial pelas bolachas de bandas como Zodiae Mindwarp, That Petroi Emotion e o primeirão de Adam & The Ants. CDs de artistas nacionais, ele tem poucos, muito poucos: Gangrena Gasosa, Violeta de Outono, Secos e Molhados e, claro, os três da Plebe (duas coletâneas, Portfólio e Preferêcia Nacional, e o último, Mais Raiva Do Que Meclo). Nada de Chico, Milton, Bethania, Gal... "A MPB nunca me interessou. Cheguei a comprar discos de Caetano e Gil, mas não bateu. Acho que é porque, para mim, letra de música não diz absolutamente nada", diz o autor dos versos de "Este Ano" e "Johnny Vai À Guerra".

No caminho para o trabalho no Banco Central, onde se ocupa diariamente com o desenvolvimento de projetos para o Banco Mundial ("não é um emprego burocrático, nem um sacrifício, como muita gente acha"), André abastece o som do automóvel com indie rock e tecno dos anos 90: CDs de Red Snapper, The La's, Mega City Four, Mercury Rev, Chaser e ReftiedFood, do Dj Food ("esse é ótimo para viagens, como a que eu fiz recentemente para Trancoso").

A coleção eletrônica do baixista da Plebe Rude não pára de crescer. "É o que mais me interessa no momento, resgata o faça-você-mesmo do punk. É música sem face, sem nome, sem imagem, sem letra. Recuperou minha vontade de descobrir novidades - que eu tinha perdido depois do grunge e do modelo de rock que foi ditado pela MTV", explica Mueller, enquanto retira da embalagem o novo single - em vinil - do Coldcut.

PRATELEIRA ESPECIAL

PIL Metal Box (1981)
"John Lydon em seu auge: quebrou o padrão punk e mostrou que não é preciso ser especialmente talentoso para experimentar. Minha preferida é "Swan Lake", dedicada ao Sid Vicious. Tenho a primeira edição, de 1981, na caixa que parece de rolo de cinema; a Second Edition, de 1987, em vinil; e a versão em CD."

THE DAMMED Damned (1977)
"Muitos preferem os Pistols, mas o Damned era mais anárquico e não pregava feito o Clash. Era pura diversão. Não tem capa melhor do que esta. Acho que sei tirar quase todas as faixas no baixo. A Plebe chegou a tocar 'New Rose'.'

CABARET VOLTAIRE 2x45 (1982)
"Minha iniciação na música eletrônica não foi com o Kraftwerk e sim com o Cabaret Voltaire, que era da cidade onde eu morei na Inglaterra, Sheffield. Eu tinha tudo deles, mas me forçava a gostar até o 2x45. São só cinco faixas, mas é absolutamente fantástico."

ANTONIO CARLOS & JOCAFI O Primeiro Amor (trilha sonora) (1972)
"Quando eu era criança, achava fantásticas as músicas dessa novela. Sempre tentei achar o disco, até que em 1986, numa loja (Eric Discos) de São Paulo, consegui uma cópia. É maravilhoso! Tem uma música, 'Hey Shazam', que eu tentei convencer a Plebe a fazer uma versão ska, mas não deu certo."

LEFTFIELD Leftfield (1995)
Foi com este disco em que eu me achei na música eletrônica - porque percebi que dava para ouvir em casa, não era bate-estaca. Este tem a participação do John Lydon, mas o mais legal são as músicas que têm traços de outras etnias, corno 'Afroleft', que não chega a ser world music, e 'Inspection Check One'.'

UNDERWORLD Dubnobasswithmyheadin (1994)
"Saiu um ano antes do Leftfleid, mas eu só conheci depois e é muito bom. As músicas têm vocal, mas como instrumento; não dá para cantar junto. As faixas são longas, mas sem ser coisa de rock progressivo. Vi um show deles em Nova York e foi hipnotizante: fiquei mais de três horas em pé e não senti."

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O Estado de São Paulo - 25/09/1999
Por Mauro Dias

Livro do jornalista SÌlvio Essinger trata da gênese e do futuro do movimento

A palavra punk é usada, coloquialmente, para definir o que é feio, esquisito, grosseiro, agressivo, sujo, desagradável, violento, fedorento. Pode-se dizer que uma festa foi punk porque só tinha gente feia ou que um parque de diversões é punk porque os brinquedos estão quebrados. Punk, a palavra, foi usada por Sheakespeare para designar prostituta, informa Silvio Essinger no livro Punk: Anarquia Planetária e a Cena Brasileira. "Policiais (da televisão) como Kojak (a) usavam para chamar os bandidos insignificantes, ou os professores para ralhar com os alunos imprestáveis", escreve Essinger. Ainda nas palavras do autor, que é reporter do Jornal do Brasil e correspondente da revista International Magazine: "Tudo o que a maioria hipócrita considerava errado era punk." A última frase indica como deve ser olhado o livro de Essinger. Quando fala em "maioria hipócrita" está fazendo referência ao sujeito que não sobe em palco para jogar fezes na platéia, não usa camiseta com os dizeres "Mate-me", não se droga até cair na sarjeta e (de preferência) morrer. Quase todos nós, enfim.

Punk: Anarquia Planetária e a Cena Brasileira é um livro interessante. Traça a história do movimento que eclodiu na Inglaterra, em 1977, e faz um mapa minucioso, exaustivo, de seus ecos em nossas terras tropicais. Por outro lado, È um livro deslumbrado com o movimento de que trata. Todas as opiniões do autor são para glorificar o movimento punk e os punks, justificar seus atos absurdos (tratados como gritos de re ser lido como livro da história do movimento punk. Nesse sentido, éinstrutivo. Começa a história lá atrás, nos anos 60, com os que chama de pré-punks - The Who, Jimi Hendrix, The Kinks, The Trashman, The Dead Boys. Elege três heróis definitivos: Sid Vicious (do Sex Pistols), Darby Crash (do The Germs) e Kurt Cobain (do Nirvana). Vicious morreu de overdose: "Vinte e um anos de idade e se tornava um mito do rock - se não o maior, certamente o mais autodestrutivo deles." ... um elogio. Crash morreu de overdose, aos 22 anos: "Só não teve a chance completa de virar mito porque, dois dias depois, John Lennon era assassinado em frente ao edifÌcio Dakota, em Nova York." Cobain viveu mais, mas foi "derrotado pelas fobias do estrelato" aos 27 anos, misturando revólver e heroína. O autor tem mais heróis: Iggy Pop, Velvet Underground ("Havia em Nova York quem estivesse mais interessado na vida das ruas, em tudo o que a decadente sociedade poderia oferecer de melhor e de pior - drogas pesadas, rock barato, crime, pornografia, paranóia, homossexualismo"), New York Dolls, Neon Boys etc.

A primeira banda punk, na história contada por Essinger, foi a Ramones, que estreou no disco em 1976, nos Estados Unidos. Na Inglaterra, o publicitário e comerciante Malcolm McLaren inventou os Sex Pistols (Sex era o nome da grife de McLaren), escolhendo os componentes da banda (Sid Vicious foi o líder; outro chamava-se Joãozinho Podre) por serem feios, drogados e pela incapacidade de produzir música. ... a tese do quanto pior, melhor. McLaren vendia roupa feia e esquisita para jovens rebeldes. Passou a vender também música feia e esquisita, para o mesmo público. Essinger diz que ele era "ambicioso" - e raciocina na base do não importam os meios, importam os fins: o comerciante McLaren foi necessário para o surgimento do Sex Pistols; então, tudo bem. O jovem Sid Vicious morreu, mas punk é para morrer, mesmo, ou deixaria de ser punk.

Piores são as tentativas de análise sociológica do autor. Para justificar a "urgência" do movimento, em Londres, diz que a cidade, nos anos 70, estava "econômica e socialmente falida, com brigas de gangues e explosões de intolerância racial e social alimentadas pelo reacionarismo dos tablóides sensacionalistas." O livro éapologético com os "desastres musicais"( é mais um elogio) dos Sex Pistols e de outros grupos. Um dos integrantes perguntou ao público, depois do show: "Não somos a pior coisa que vocês já viram?" ... o que o autor considera uma "sarcástica e antológica frase", típica dos punks de verdade. Vindo para o Brasil, analisa a "extrema politização" de uma banda como a Plebe Rude, de BrasÌlia, conta quem foram os punks do Rio, São Paulo, Brasília, Porto Alegre etc. Cita os prediletos - Ratos de Porão, Replicantes, Legião Urbana, Capital Inicial. Inventaria a rivalidade entre os punks da periferia e da capital (em São Paulo e no Rio), dá nome a quem pertenceu ao movimento, até o ano passado. Nesse sentido, faz história. Mas o autor endossa a pregação infantil contra "velhos" e "caretas" e comete outros erros graves, como a tentativa de expandir o universo punk até o terreno da canção de protesto ou de dor de cotovelo: Maria Bethânia, cantando Carcará, era punk, Noel Rosa era um punk espiritual, Nelson Cavaquinho um pré-punk, como também Jards Macalé, Araci de Almeida, Maísa, João Gilberto - e até Juca Chaves. O que deve ser algum tipo de piada punk.

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Folha de S.Paulo - 22/09/1999
Por Rodrigo Dionisio

Philippe Seabra diz que banda não volta e que sua prioridade é o Daybreak

Desde o começo de agosto há uma dúvida no pop nacional: o Plebe Rude volta ou não? A banda fez uma apresentação, com seus membros originais, no festival Porão do Rock, em Brasília, e os fãs começaram a comemorar.

Mas os próprios integrantes da banda não deixaram claro se o show marcava um retorno ou se era só um revival nem assumiram a possibilidade de voltar a gravar um disco.

Em entrevista à Folha, Philippe Seabra, vocalista e líder do Plebe, falou sobre o futuro e o passado da banda, as negociações com gravadoras para um novo trabalho e sobre seu grupo em Nova York, nos EUA, onde mora, o Daybreak Gentlemen.

Folha - Como estão as negociações do novo disco do Plebe?

Philippe Seabra - Por essas semanas nós vamos definir uma gravadora. Depois do show de Brasília todo mundo começou a correr atrás para querer lançar a volta do Plebe. Até o pessoal da EMI, que era a nossa gravadora e que tirou nossos trabalhos de catálogo, quer nos contratar.

Folha - Mas, afinal, a banda volta ou não?

Seabra - Não. Ninguém vai largar seus empregos, suas famílias, para voltar para a estrada. Nós vamos gravar esse CD, provavelmente ao vivo, fazer alguns shows, já está quase certa nossa participação no Abril Pro Rock do ano que vem, e só. Eu mesmo não vou voltar para o país. Nova York é a minha casa por opção. O Plebe é um caso de amor mal resolvido, mas minha prioridade é a minha banda nos EUA, o Daybreak Gentlemen.

Folha - E qual é a história do Daybreak?

Eu saí do Brasil em 1994 revoltado com tudo. Tinha 26 anos e a imprensa me chamava de dinossauro do rock. Desde os 14 anos minha vida era o Plebe e eu não aguentava mais aquilo. Eu fiz um último show do Plebe, junto com o Ira!, no Rio, fui para Brasília me despedir de algumas pessoas e embarquei para os EUA. Durante os dois primeiros anos por lá, eu não quis saber nada de música, nem ouvia rádio. Mas, em 1996, eu mudei para um apartamento novo e, no primeiro dia lá, sentei e comecei a escrever. Acabei compondo uma letra em inglês chamada "Daybreak Gentlemen". Tirei a guitarra do armário, ainda com as cordas daquele show com o Ira!, e fiz a melodia. A partir daí eu não parei de compor, devo ter umas 25 canções. Gravei as primeiras sozinho, tocando todos os instrumentos. Logo depois surgiu um convite para tocar numa casa de shows que se chamava Shine. Eu reuni alguns músicos às pressas, por telefone, e surgiu o grupo, assim, meio no improviso.

Folha - E como vai a carreira do Daybreak?

Nós tocamos mais ou menos uma vez por mês, sempre para umas 100, 200 pessoas. Já temos até um público fiel. Eu assinei contrato com a T.E. Savage, da Inglaterra, que está negociando a banda. A idéia é lançar no próximo ano o nosso primeiro trabalho.

Folha - Alguma chance de a banda tocar por aqui?

O meu guitarrista, Kyle Kelso, vai co-produzir comigo esse primeiro trabalho do Daybreak. E eu também quero que ele co-produza o CD do Plebe. Se isso rolar, estando nós dois no Brasil, metade do Daybreak também está. Então, eu pretendo fazer alguma apresentação por aqui sim.

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O Globo - 18/09/1999
Por Arthur Dapieve

A explosão de vendas de axé, pagode e música sertaneja era uma daquelas distorções criadas pelo Plano Real, na linha do consumo de frango ou da âncora cambial. Dava ao país - ou a parte dele - uma ilusão de prosperidade, de mobilidade social. Com a crise, quem continuou comprando CDs foi a jovem classe média urbana, que, na segunda metade do século XX, teve como trilha o pop-rock. Ou seja: essa volta às paradas não tem a ver apenas com qualidade. Os anos 80 foram melhores que os anos 90 para essa turma?

Certamente. Quando nada porque o vento soprava a favor. O Plano Cruzado fez pelo BRock o mesmo que o Plano Real fez pelo pagodaxé: foi um coração de mãe - sempre cabia mais um. Assim, se surgiram na mesma geração bandas como Titãs, Legião, Barão e Paralamas, tivemos que aturar Absyntho, Muzak, Metrô e Dr. Silvana, tão descerebrados quanto os animadores de trio elétrico. O tempo, graças a Deus, se encarrega de fazer uma triagem darwinista. Nos anos 90, alguns dos melhores vendedores pop-rock pouco diferem, em termos de (má) qualidade, da música popularesca. Os fracos Jota Quest, Charlie Brown Jr. e Nativus não pagariam nem placê nos anos 80. E quando os Raimundos pretendem fazer piada posando como pagodeiros na capa de seu último CD, "Só no forevis", o tiro sai pela culatra e acaba realçando sua semelhança com a baixaria reinante. Afinal, versos como "homem, essa mulher me deu uma canseira/ Que eu até hoje não descansei/ E passa a 5ª , é mão aqui e ali/ Apressadinha, quer engatar de 1ª " ("Carrão de dois") poderiam estar de verdade num disco dos Morenos.

As letras, por sinal, são a grande diferença entre as duas últimas décadas. No terreno da malícia, um Roger Rocha Moreira, que voltou a fazer sucesso com o Ultraje a Rigor, ainda não encontra paralelo entre as novas gerações. Também não surgiu um novo Cazuza, um novo Renato, um Arnaldo, nem um Humberto Gessinger, letrista subestimado. O que os anos 90 têm de melhor são as fusões, sobretudo dos pernambucanos, com outras formas de música brasileira, coisa que só os Paralamas se preocuparam em fazer nos anos 80. E, embora o Skank continue lembrando demais o grupo de Herbert, Bi & Barone, Minas tem no Pato Fu um brilhante curto-circuito com os Mutantes. No Rio, há o Rappa. Mas a volta do pop-rock ao combate - do qual ele havia sido alijado pela mentalidade monocultora de nossa indústria fonográfica - pode e deve destacar o peso-romântico de Los Hermanos, a metabossa nova do 4-Track Valsa ou o pop-porrada dos Autoramas, os três de boas letras e personalidade forte. Pois bem. Se as vendas já atestam que o pulso ainda pulsa, agora está na hora de mostrar que o cérebro também não foi afetado pelo coma mercadológico.

Atenção para o 'movimento das ruas'

Por Antonio Carlos Miguel

Chutado para escanteio das rádios e TVs nos anos 90, o pop-rock brasileiro sobrevivia como exceção ou resistia no underground. Com o esgotamento do axé, a indústria volta a apostar no gênero. Para André Calainho, diretor geral do selo Epic (que concentra a vertente mais pop da Sony e lançou uma das revelações do rock, a banda baiana Penélope) a tendência é clara e atende a um pedido do público: - Assim que terminou o último carnaval a onda baiana caiu muito - diz Calainho. - A rádio Jovem Pan, em São Paulo, fez uma pesquisa com seus ouvintes e identificou que o axé e o pagode chegaram a um nível de saturação. Eles pararam de tocar axé e abriram espaço para o pop.

Diretor-artístico da principal gravadora do axé, a Universal, Max Pierre concorda com a volta do pop-rock mas nega que o ritmo baiano esteja saindo de cena: - Essa barriga sempre acontece depois do carnaval. Daqui para fevereiro a expectativa é que voltem a tocar as músicas carnavalescas, que sempre foram de verão - acredita Pierre. - A diferença é que em 99 o samba baiano ainda não decolou. Para Calainho, o movimento na noite é outro termômetro: - A partir da 1h só entravam axé e pagode, hoje não tocam mais. E as micaretas, o carnaval fora de época que se espalhava pelo Brasil, não se repetiram este ano.

Atento ao crescimento do pop, Max Pierre investiu este ano em discos como os de Cássia Eller, Wilsom Sideral, Papas da Língua e Engenheiros do Hawaii: - Já percebemos uma resposta favorável, enquanto os artistas do pop que lançamos no ano passado, Squaws, Berro, Virgulóides e Karnak, não venderam nem tocaram nas rádios - diz. Diretor de marketing da Abril Music, Alexandre Ktenas acompanhou o crescimento do axé quando trabalhou na PolyGram (hoje, Universal): - O gênero não vai sumir, mas, como aconteceu com o sertanejo depois da era Collor, só vão ficar os bons - diz. Mesmo alertando que executivo de gravadora é "uma raça boa para errar previsão", Ktenas diz perceber um movimento vindo das ruas: - Não adianta inventar movimento musical se não tiver autenticidade. A tendência é axé e pagode dividirem espaço com o pop. Por sermos uma gravadora caçula, tentamos descobrir o que vai acontecer e apostamos no pop.

Mutações do mercado por 'Marylin Hanson'

Por Lulu Santos

Quando escolhi "Hiperconectividade" como single do "Ligalá", é porque achei que, como diz o Carlini desde antes do dilúvio, o rrrrock está(va) voltando. Era ruim de aquilo entrar no paradão da 98 na época ou de qualquer rádio popular. Deu um nó na cabeça da divulgação, que só sabia um truque. Às vezes, evoluo rápido demais, meio que como um alien e acabo ficando isolado. Quando propus à BMG o Jakaré de graça, eles fizeram "t'esconjuro", preferiram me pagar um CD "convencional". O paradoxal mesmo é o caminho de, digamos, dispersão do negócio. Começa com algumas rádios mais radicais, que apostam mesmo na setorização e focam seus playlists com maior exclusão. Isto começa a ganhar força e acaba vazando para os outros setores que por sua vez acabam sancionando o menos radical da cena para consumo fenomenológico, invertendo o processo,como um parafuso. Parece que já vi este filme.

Sobre "Certas coisas" (que Lulu fez uma versão neopagode em seu último show), seguinte: o primeiro destes pagodes que chamou minha atenção pela insistência com que ouvia pelas ruas de Olinda foi a versão de um grupo raça alguma coisa, de "Será", da Legião Urbana. De fato, eu estava almoçando uma moqueca-d'arraia no Mercado Modelo e, do andar de baixo, vinha esse som de algum rádio, com as pessoas cantando aquele refrão que, na realidade, soava como cera... Minha versão neopagode de "Certas coisas" remete a esta história, afora a vontade de reinventar a canção num ano em que foi tão regravada. Marylin Hanson.

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O Globo - 18/09/1999
Por Mario Marques

Em abril, a banda Sheik Tosado se apresentou em Garanhuns, em Pernambuco, para um numeroso público de axé e forró, e fez, em cima de um trio elétrico, o público do lugar se esbaldar com seu crossover de hardcore-frevo-coco. Wilsom Sideral, irmão de Rogério Flausino (Jota Quest), pôs 11 mil pessoas no lançamento do CD de estréia, "1", na Fábrica Vide Bula, em Belo Horizonte. Na segunda edição do Porão do Rock, festival realizado em Brasília, 25 mil pessoas assistiram à volta da Plebe Rude, expoente da cena roqueira dos anos 80.

Na outra ponta, os skatistas do Charlie Brown Jr. já chegaram às 700 mil cópias do último (e bom) CD, "Preço curto, prazo longo"; o Pato Fu passou pela primeira vez das cem mil com seu "Televisão de cachorro"; e o Jota Quest permanece absoluto nas rádios. Os indícios são visíveis: na próxima década o rock quer dar o troco à hegemonia do axé e do pagode. - Chega de bunda music! - brada o jovem China, vocalista do Sheik Tosado. - Agora é hora de pogar.

Segundo dados da Crowley Broadcast Analysis do Brasil, empresa de rádio-escuta informatizado que monitora a programação das emissoras do país, a ascensão do rock nas rádios coincide com a queda do axé. De acordo com a empresa, o axé chegou ao pico de exposição nas rádios do eixo Rio-São Paulo, em dezembro de 98, com 13.991 execuções. Em junho deste ano, caiu para 2.817. A volta de grupos dos anos 80, como o Ultraje a Rigor e o Capital Inicial, a multiplicação dos festivais, a penetração de artistas em programas de TV populares, os novos pólos de resistência no underground e a criação de departamentos dedicados ao gênero nas gravadoras fortalecem tal tendência. - A mudança de mercado é clara para a indústria - confirma Tom Capone, diretor artístico da WEA, citando o êxito do CD dos Raimundos, "Só no forevis". Mais informações: Após namorar o techno, rock busca as origens Atenção para o 'movimento das ruas' Os anos 80 foram melhores que os 90 Mutações do mercado por 'Marylin Hanson'

Após namorar o techno, rock busca as origens

Depois de atravessar, nos últimos três anos, uma previsível crise de identidade, ao tentar se antenar com a estética techno para manter-se atual (vide Barão Vermelho, Squaws etc), o rock brasileiro acordou no foco criativo dos Los Hermanos e dos Autoramas, na fusão do Cascabulho e do Sheik Tosado e no sotaque teen da Penélope. Em vez de chafurdar nos recursos da tecnologia, uma nova geração passou a se preocupar mais em chegar à massa, em tocar mais em mais lugares e a soar original. - Há dois anos a gente tinha dificuldade de fazer show porque as casas noturnas só escalavam grupos de axé. - conta o mineiro Wilsom Sideral. - Agora é diferente. - Já não era sem tempo - acrescenta Rogério Flausino, cantor do Jota Quest. Para Falcão, vocalista do Rappa, que lançou recentemente o surpreendente "Lado B lado A", a volta do rock ao mainstream indica mudança de mentalidade: - Com o tempo, o povão acaba sacando que está sendo enrolado - opina Falcão.

Morando em Nova York há quatro anos, Philippe Seabra se surpreendeu com o que viu nos dois meses que passou no Brasil. Atração de dois festivais, o Porão do Rock, em Brasília, e o Pop Rock Brasil, em Belo Horizonte, o vocalista da Plebe Rude, que passou por São Paulo e Rio para acertar os detalhes do disco ao vivo da banda, tocou para 55 mil pessoas. - Sabia que porcarias como o Tchan estavam fazendo sucesso aqui - diz Seabra, que em Belo Horizonte tocou "Até quando esperar" ao violão. - Mas é certo que hoje a cena de rock está mais forte.

O produtor Ezequiel Neves vai fundo na questão e ataca a turma baiana do axé: - Sempre tive certeza de que isso aconteceria - diz Neves. - Ninguém em sã consciência iria agüentar essa coisa repulsiva que é o axé. Tudo passa, coisa que é fajuta e postiça passa. Fred, baterista dos Raimundos, acha que a banda não foi afetada pela explosão do axé. - O rock é como o personagem de "Sexta-feira 13". Ele sempre morre e sempre volta mais forte - diz o baterista. - As pessoas estão vendo que o rock também é MPB.

Pólo de lançamento de novas bandas, o Ballroom, assim como a Lona da Barra e o Garage, está fazendo o papel, nos anos 90, que o Circo Voador fez nos 80. Por ali passam todas as novas caras do cenário carioca. Luiz Fontana, programador do lugar, diz que, apesar de ter um dia fixo para o pagode no Ballroom, o rock é que manda. - A maioria do material que chega às minhas mãos nos últimos meses é de bandas de rock - atesta Fontana, que programou para amanhã shows de Devotos e Carbona, abrindo para Marky Ramone.

Os festivais, que começam a se firmar com parcerias fortes junto a patrocinadores, também migram para o rock. No Rio Grande do Sul, depois de uma edição com Cheiro de Amor e Banda Eva no começo do ano, os organizadores do Planeta Atlântida acenam com Raimundos, Charlie Brown Jr, Ultraje a Rigor e Capital Inicial, para a quinta edição, em janeiro de 2000. - Ano passado não prescindiríamos dos baianos no festival - diz Jorge André Brittes, gerente da RBS Discos e um dos organizadores do festival. - Mas hoje todas as evidências de mercado de consumo nos levam a trazer artistas do pop-rock para o evento. Humberto Gessinger, líder dos Engenheiros do Hawaii, que lançaram recentemente o CD, "!tchau radar!", diz que nunca se sentiu alijado. - Renovamos nosso público e isso é normal para a banda desde o começo - diz Gessinger.

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Hoje em Dia (BH) - 14/09/1999
Por Paulo Henrique Silva

PopRock: rebeldia não cedeu lugar para pagode e axé music

É curioso que, justamente no Estádio Independência e neste mês de setembro, o rock encontrou forças para dar o grito. A exemplo de um Dom Pedro II às margens do Ipiranga, os roqueiros que viviam à sombra de um mercado dominado por axé music e pagode oportunamente escolheram o campo do Horto para bradar sua independência. Evento único do Brasil por reunir os principais nomes do segmento, o Pop Rock Brasil 99, realizado no sábado e domingo passados, com 13 atrações, transformou-se em palco de resistência, estimulado pela presença de 64 mil pagantes nos dois dias.

"Não sou contra o axé ou o pagode. Mas viva o rock nacional!", gritou Bruno Couvêa, vocalista do grupo Biquini Cavadão, extasiado com a visão de uma massa de pessoas que não parava de cantar e pular, no sábado, mesmo após uma maratona de sete horas de shows. O discurso foi parecido entre todos os participantes, principalmente no domingo, quando entraram em cena os três lideres da "resistência": Barão Vermelho, Paralamas do Sucesso e Titãs. A troca de energia entre público e artistas rendeu momentos mercantes, com vários encontros improvisados.

Parece que ninguém queria perder esta revanche. O grupo Skank, que não estava na lista original de atrações, saiu direto do aeroporto para dar canjas nos shows do Pato Fu e do Barão Vermelho. A presença mais inusitada, porém, foi a de Philippe Seabra, vocalista da sumida banda Plebe Rude. Apesar do estranharnento de grande parte do público, que não o reconheceu, Philippe aproveitou um intervalo para tocar "Até Quando Esperar", clássico da rebeldia dos anos 80, no melhor estilo 'banquinho & violão'. E ainda anunciou a volta da banda. "Vamos fechar isso aqui no próximo ano", avisou.

Nos camarins, Herbert Vianna (Paralamas do Sucesso) elegeu o Raimundos como o melhor grupo na atualidade. Reverência estampada no show, quando chamaram a banda de Brasília para tocar "Quero Ver o Oco". Fernanda Takai (Pato Fu) também falou da responsabilidade de apresentar-se após o Raimundos. "Mas também sou uma mulher de fases. E estou numa fase boa", asseverou. Sideral celebrava o melhor momento de sua vida. "Há dois anos, não estava aqui, pois enfrentava uma barra pesada com drogas. Depois tudo ficou mais fácil".

Com o 10º Pop Rock sendo dedicado ao Legião Urbana (70% da preferência dos ouvintes da 98 FM, promotora do evento), cada atração foi obrigada a cantar uma música do extinto grupo.

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Revista de Domingo (Capa) Jornal do Brasil - 05/09/1999
Por Isabel De Luca

De Renato Russo e Cazuza todo mundo tem saudades. Herbert Vianna, Roberto Frejat, Arnaldo Antunes e Evandro Mesquita todo mundo sabe onde estão. Mas poucos seriam capazes de dizer por onde andam Virginie, do grupo Metrô; Guilherme Isnard, do Zero; Philippe Seabra, da Plebe Rude; Sérgio Abreu, o Selvagem Big Abreu dos Miquinhos Amestrados e tantos outros que marcaram a geração de ouro do BRock - naquela época, década de 80, ainda chamado de Rock Brasil. Quem já usou tênis Redley, calça carpinteiro, batom 24 horas e varou noites nas festas do Morro da Urca certamente se lembra dessas vozes. Quase 15 anos depois, os versos desse pessoal voltaram a animar as pistas mais descoladas da cidade. E trouxe a reboque a curiosidade: o que eles andam fazendo da vida? Uns continuam tocando. Outros viraram empresários, engenheiros, atores ou funcionários do governo federal - afinal, grande parte da turma era de Brasília, certo?

Também tem gente morando longe, muito longe. Como Virginie, a vocalista do Metrô (aquele do "coração ligado, beat acelerado"), que há três anos fez as malas e se mandou para a Namíbia, na África. Foi atrás do vice-cônsul francês Jean-Michel Manent, com quem se casou no último dia 18, dez anos e duas filhas (Marie Hélene, de 4 anos, e Mélanie, de 2) depois. O casal se conheceu no consulado francês em São Paulo, onde ela começou "colando envelopes", no fim dos anos 80, quando saiu da banda. Hoje, Virginie dedica seu tempo à rotina caseira. Cantar, só no chuveiro. Mas no balanço das horas tudo pode mudar. A começar pela casa da família, que deve embarcar de contêiner e tudo para Nantes, na França. Coisas de quem tem diplomata em casa.

Os outros integrantes do Metrô continuam por aqui. O baixista, Zaviê, abriu um restaurante francês, o La Tartine, em São Paulo. Yann, o tecladista, mora em Ilha Bela, no litoral paulista, onde mantém (e se mantém graças a) uma créperie. Danny, o baterista, passou um tempo em Bruxelas e, há sete anos, já de volta ao Brasil, juntou os trapos com os da dramaturga Bia Lessa, com quem teve Clara, de quatro meses. Como sempre foi ligado a teatro - era ele o personagem principal daquele comercial de TV em que um cara mandava um "bonita camisa, Fernandinho!" -, Danny virou ator. Está em cartaz com a peça As três irmãs, de Tchecov, na capital paulista. Anda feliz da vida. "Na época do Metrô, o sucesso atrapalhava muito", confessa.

O guitarrista Alec Haiat, hoje com 36 anos, continua fazendo sucesso - só que promovendo jam sessions na casa de shows paulista Blenblen. Isso à noite. Durante o horário comercial, é empresário do ramo de importações com o irmão Freddy - que vem a ser o ex-tecladista do Zero, outro grupo antológico da Geração 80. Entre o Zero e o escritório, que abriu em 1992, Freddy (casado, com filhos de 10, 7 e 6 anos) trabalhou em uma corretora de commodities. "Ainda toco em casa, mas muito pouco", afirma, apesar de reconhecer que sente cheiro de revival no ar. "A geração que acompanhou a gente precisa ter uma referência do que eram aqueles anos", justifica. E conclui: "O que é bom a gente sempre ouve de novo."

O líder do Zero, Guilherme Isnard, já fez de tudo um pouco: montou a banda Roxy Nights; organizou noitadas no Maxim's, na torre do Rio Sul; fez shows em bares; gerenciou o restaurante Allons Enfants; trabalhou em uma firma de sonorização e iluminação de eventos e até criando e gravando serviços de telessexo. "Era engraçadíssimo. Achei que tinha encontrado o trabalho da minha vida", diverte-se. Hoje, aos 42 anos, Guilherme voltou aos palcos. Está correndo o Brasil com o musical Ô abre alas, sobre Chiquinha Gonzaga, interpretando Joaquim Antônio Callado. E tem feito shows do Zero de vez em quando, graças à onda de nostalgia que atingiu os cariocas. Há três semanas se apresentou no Hipódromo Up. Mas avisa: "Só vou chamar de 'a volta do Zero' quando fizer coisas novas. Não vou virar cover de mim mesmo."

O baixista do grupo, Rick Villas Boas, não participou: mora em Amsterdam, na Holanda, desde 1992. Lá, toca em bandas de diferentes estilos: numa de world music, noutra liderada por uma cantora que faz o estilo Björk, e na Fuzuê, de música brasileira. Está casado com a holandesa Sonia, com quem teve a filha Sofie Liana há um ano e meio. "A gente quer morar no Brasil um dia, mas ainda tem que se preparar para isso", diz. O guitarrista Eduardo Amarante há tempos se mudou para Aracaju, onde administra um bar e uma lancha de passeios turísticos. E morre de saudade dos ex-companheiros de banda. "Vivíamos juntos. Agora, estamos chegando aos 40 e nossos filhos nem se conhecem", reclama. O baterista, Malcolm, também mudou de ramo. Abriu uma produtora que faz efeitos especiais para filmes de publicidade.

Outro grupo em que cada um seguiu seu caminho foi a Plebe Rude. Mas os rapazes andam articulando uma volta. Em agosto, juntaram 20 mil pessoas na terra natal, Brasília. Aproveitando a maré, o vocalista e guitarrista Philippe Seabra, 32 anos, que mora há cinco em Nova Iorque, está fechando contrato para um novo CD da Plebe, em novembro. Quando desembarcou na Big Apple, "cansado da indústria da música no Brasil", Philippe trancou a guitarra no armário por dois longos anos. Passado o bode, partiu para um projeto solo, o Daybreak Gentlemen. O outro guitarrista da Plebe, Jander Ameba Bilaphra, vive na estrada como roadie dos Engenheiros do Hawaii. O baterista Gutje Woorthman trabalha com publicidade. Mas é a vida do baixista André Mueller que tomou rumos inesperados: de volta a Brasília, ele trabalha desde 1994 na área de projetos do Banco Central. "A Plebe acabou mais ou menos quando passei no concurso", conta. Aos 37 anos, ele não tem saudade dos tempos da banda. "Não acho ruim ter vivido isso, mas passou."

Também da turma de Brasília, José Flores, o guitarrista Zezinho do Finis Africae, hoje dá expediente no Senado. É ele o responsável pela home page do senador petista José Eduardo Dutra. Mas isso é de 13h30 às 19h30. Nas horas vagas, pode ser encontrado em seu ateliê de artes plásticas ou fazendo trilhas de animação para vídeo. De vez em quando, Zezinho marca um encontro com Neto, o baixista do Finis, que também voltou para a capital quando a banda terminou. "Abandonei tudo em 1988 porque parecia que não ia mais acontecer muita coisa", lembra. Neto, que já trabalhou com o pai em uma loja de materiais de construção, hoje coordena um curso de inglês.

O vocalista do Finis Africae, Eduardo de Moraes, andou pela Espanha e pela Suécia, onde estudava História das Mentalidades e ganhava a vida como webmaster. Voltou há dois anos. Hoje mora na Tijuca, trabalha com informática mas não esconde que está investindo para ressuscitar a banda, com o baterista original, Ronaldo Pereira. "Temos nos encontrado para ensaiar e nos chamam para fazer shows aqui e ali", conta. Ronaldo sempre esteve ligado à música. Montou, há alguns anos, o selo Groove, e mantém um estúdio no Rio Comprido.

Perto da música também continuam os meninos do Dr. Silvana & Cia., que acabam de comprar um estúdio na Glória para ensaiar as pérolas da banda. O vocalista Ricardo Zimmer e o guitarrista Cícero têm dedicado bastante tempo ao projeto de relançar o grupo. "Fomos procurados por uma gravadora do Rio. Vamos ver no que dá", revela Cícero. "A música está no sangue, fica difícil dizer não", diz Ricardo, que andava ocupado com seu restaurante de comida a quilo no Centro, o Yellow Submarine. A idéia é juntar músicas antigas do grupo a composições novas - e, se possível, os Silvanas originais. Só que Zulu, o baixista, anda meio sumido. "Há um ano soube que ele tinha inaugurado um bar perto de casa, no Grajaú", conta Ricardo.

Se o Dr. Silvana continua na música, os três ex-Miquinhos Amestrados estão a léguas dela. Sérgio Abreu, o Selvagem Big Abreu, fez Pedagogia na PUC e montou o Centro Educacional Espaço Integrado, na Barra. Está casado, tem duas filhas (aguarda a chegada da terceira para breve) e vive em contato com Avellar Love, outro integrante da banda. Com o fim do grupo, Marcelo, o Bob Gallo, voltou a usar o que aprendeu na faculdade de Engenharia Mecânica. Mora na Barra, tem duas filhas e é funcionário da MRS Logística. "A última vez que subi num palco foi na festa de aniversário do Colégio Santo Agostinho, em 1997", lembra. Guarda um violão em casa, mas só arrisca novos arranjos de brincadeira. "Sem compromisso", jura.

Recomeçar é a palavra-chave dessa geração. E do cantor Silvinho, do Absynto, aquele que não saía das rádios com seu ursinho blau-blau. Depois de passar por uma fase "barra-pesadíssima", procurou a Igreja Pentecostal de Nova Vida, em Botafogo, e prometeu que iria começar de novo. Assinou contrato com a Indie Records e se prepara para lançar o CD Animal faminto. Está casado com Ana Paula, passista da Mangueira, e é pai de Maria Luiza, de 2 anos, e do recém-nascido Antônio. "Não sou radical, mas faço muitas orações. As coisas estão começando a se organizar", comemora. O Uns e Outros também está em fase de reorganização. Depois de um longo hiato, e com formação nova, o grupo que cantava a Carta aos missionários ("Missionários de um mundo pagão/ proliferando ódio e destruição/ vem dos quatro cantos da terra/ a morte, a discórdia, a ganância e a guerra") assinou contrato com o selo Seven, da Sony. Da formação antiga, só ficaram o vocalista, Marcelo, e o guitarrista, Nilo. Cal, o guitarrista, sofreu um grave acidente de carro em 1996 e perdeu os movimentos de uma das mãos. Chegou a dirigir um táxi de aeroporto, mas hoje mora em um sítio perto de Teresópolis.

Formação original é o trunfo do Biquíni Cavadão, que mantém os mesmos cinco integrantes do primeiro disco, Cidades em torrente, de 1986. Mesmo sem ter parado totalmente, o Biquíni andou em marcha lenta por um tempo, até que a música Janaína trouxe a banda ao topo da parada novamente. Desde essa época - e ainda hoje, prestes a entrar em estúdio, em outubro - seus integrantes desenvolveram atividades paralelas. O vocalista Bruno Gouvêa passa quatro horas diárias diante do Macintosh, criando e recriando websites para amigos. O baixista André Sheik está cursando o curso técnico em telecomunicações do Colégio Franco-Brasileiro e pintura no Parque Lage. Álvaro Birita, o baterista, produziu, no ano passado, dois discos de violão erudito. Coelho, o guitarrista, tem uma empresa de jingles, a Jingle Bells, e o tecladista Miguel, montou um estúdio na Barra em parceria com Leoni (ex-Kid Abelha) e o engenheiro de som Walter Costa.

A lista de músicos que fizeram sucesso na década de 80 e continuam no ramo não tem fim: Roberto Lly, baixista do Herva Doce (da debochada Amante profissional), tem um estúdio na Barra e produziu o primeiro disco de Vinny; Gustavo Corsi, guitarrista do Picassos Falsos, é o líder da Rio Sound Machine, banda de músicas dos anos 70; Marcelo Nova, vocalista do Camisa de Vênus (Eu não matei Joana d'Arc), nunca abandonou os palcos e estúdios de gravação, e foi o último parceiro de Raul Seixas, com quem fez várias turnês. Planos? "Tocar, sempre. Não sei fazer outra coisa", garante. A notícia é boa. Mas os eternos jovens da década de 80 torcem mesmo é para que todos os grupos de Rock Brasil aproveitem a onda de revival e continuem dando o ar da graça. Aí só vai ficar faltando o tênis Redley, a calça carpinteiro, o batom 24 horas e as noitadas no Morro da Urca.

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Showbizz - 10/09/1999
Por Carlos Marcelo

Fim da sessão de fotos da Plebe Rude na Concha Acústica de Brasília, às margens do Lago Paranoá, que cerca a cidade. Faltam poucas horas para a banda brasiliense voltar aos palcos com a formação original - pela primeira vez nesta década. Gutje tenta aliviar a tensão e se distancia de Philippe Seabra, Jander Ameba Bilapbra e André X. Um policial se aproxima do baterista. Pergunta se ele toca em alguma banda. Depois da resposta, pede autógrafo. Satisfeito, o soldado se identifica. Seu nome é Sérgio da Silva, tem 29 anos. É fã da Plebe desde os 15. Tinha os três discos lançados pela banda nos anos 80 - o mini-LP O Concreto Já Rachou, os LPs Nunca Fomos Tão Brasileiros e Plebe Rude -, mas não sabe onde foram parar. Também não sabia que a Plebe tinha acabado, muito menos voltado para encerrar o festival Porão do Rock.

Mas Paulo Sérgio lembra de sua música favorita: "Proteção", escrita em 1984 com o objetivo de criticar a repressão policial utilizada depois que a emenda Dante de Oliveira (a das Diretas Já) foi rejeitada pelo Congresso Nacional. "Eu curto as letras porque também sou contra a repressão, mas a favor da instituição. Até porque tem horas em que a gente tem que usar um pouquinho de força...", diz o policial.

Os tempos mudaram. A Plebe não escreve - nem escreverá - mais músicas de protesto político ou social. "Seria como escrever canções de amor sem estar apaixonado", compara André. Mas, para matar a saudade de Paulo Sérgio e outras centenas de fãs ("os plebeus", como diz o guitarrista Philippe Seabra), os quatro estão novamente juntos. Prometem deixar de lado as divergências pessoais que implodiram a banda para tocar novamente canções que fazem parte da memória do rock nacional dos anos 80, como "Até Quando Esperar" e "Minha Renda". O retorno não poderia começar por outro lugar - Brasília, onde o concreto rachou pela primeira vez no início dos anos 80, graças aos ruídos que um bando de moleques produzia nos quartos e garagens de casas no Lago Norte e apartamentos do Plano Piloto.

Foi na casa de um deles, Fê Lemos (baterista do Capital Inicial), que nasceu em 1981 a Plebe Rude. O nome foi escolhido em ganhou de Quinta Coluna e Os Zulus. A formação incluía três veteranos de outras bandas punks: Philippe Seabra (Caos Construtivo) na guitarra, André X (ex-Os Metralhas) no biaxo e Gutje (ex-Blitz 64) na bateria e nos vocais. "Ninguém da nossa turma tocava cover. Isso ajudou os grupos a criarem rapi conceito próprio", lembra Philippe.

Filhos de diplomatas e de altos funcionários públicos, os brasilienses descobriram no início dos anos 80 as maravilhas pelo lema punk faça-você-mesmo. Pintavam as camisetas (André tem orgulho da que tinha a fiwe "Enforquem o Fábio Júnior!"), pichavam o nome de suas bandas nas das superquadras do Plano Piloto e na Universidade de Brasília, enquanto consumiam os últimos lançamentos do rock britânico. "Dos EUA, a gente só se interessava pelos Ramones. Nossas maiores influências sempre foram britânicas: Clash, claro, mas também coisas mais melódicas, como Stranglers, Undertones e Buzzcocks", enumera André, que tirou o X de uma carta enviada por uma certa Mary, que trabalhava com a banda inglesa Spizz. "A gente sempre ouviu as coisas mais esquisitas do que todo mundo, e o Spizz era dessas. Mandei uma carta para a banda, e quem respondeu foi essa tal Mary. Ela colocou a letra X no final, que é abreviatura de beijo, em inglês, mas achei que era o nome dela: Mary X. Decidi que eu seria o André X, olha que bobeira", ri o baixista.

"HOMENAGEM" A HERBERT

As duas primeiras músicas ensaiadas pela Plebe Rude foram "Pressão Social" (que seria registrada no último disco, Mais Raiva Do Que Medo) e "Nada". Um ano depois, com a dificuldade de Gutje em conciliar vocal e baquetas, foram procurar um vocalista. Por indicação de amigos, chegaram a Jander Ameba Bilaphra, nome decalcado de Jello Biafra, dos Dead Kennedys. Em 1982, depois do entra-e-sai de duas backing vocais (as plebetes Marta Detefon e Ana XYZ), estava fechada a formação do grupo. "A Plebe era a melhor banda da nossa turma", declarou Renato Russo, em 1996. "Eles sempre tiveram senso de humor ácido, muito divertido", analisa Herbert Vianna.

Foi o guitarrista dos Paralamas quem levou a Plebe Rude à sua primeira gravadora, EMI Odeon. Depois, produziu o mini-LP O Concreto Já Rachou e o disco seguinte, Nunca Fomos Tão Brasileiros. "Eles tocavam há muito tempo e muito bem, já tinham os arranjos todos prontos. Por isso, meu trabalho foi mais de técnico do que de produtor", lembra. Nem Herbert escapou do humor ácido da Plebe. Foi "homenageado" na faixa "Minha Renda", que enumerava os mecanismos para fazer sucesso na rádio: "já sei o que fazer para ganhar muita grana, vou mudar meu nome para Herbert Vianna". Detalhe: o próprio Herbert canta a faixa. "Os Paralamas só estavam num estágio mais avançado orque tinham contrato", justifica o paralama.

O mini-LP era um formato que estava sendo testado pela gravadora, que lançou no mesmo pacote as bandas Zero, Muzak e Lado B. O máximo eram seis faixas por vinil, mas a Plebe conseguiu emplacar sete porque "Brasília" (limada pela gravadora) continha a frase que batizava o disco. Apesar do sucesso (mais de 100 mil cópias vendidas), o formato não deu certo porque os lojistas vendiam o EP pelo preço de um disco normal.

A agenda lotada de shows, a maioria em danceterias, como era a onda da época, não deixou brecha para a banda compor repertório para o Nunca Fomos..., que foi quase todo preenchido com coisas antigas. "Esse foi nosso primeiro grande erro. Devíamos ter voltado a Brasília e se trancado numa casa para ficar quebrando o pau e fazendo músicas, como fizeram os Red Hot Chili Peppers no Blood Sugar Sex Magic", acredita André.

A não-ida ao Chacrinha

Mas foi com o Nunca Fomos... que a banda realizou a primeira turnê pelo Brasil, impulsionada pelo sucesso de "A Ida", considerada por Philippe Seabra sua "obra-prima". Depois, a Plebe recusou um convite para fazer playback no Chacrinha. "Isso criou tensão com a gravadora", lembra Philippe.

A escolha do nome do terceiro disco refletiu a divisão na banda: metade queria "Plebiscito", outra metade preferia "A Serra" - Gutje foi para a sessão de fotos da capa com uma motosserra. Acabou ficando o original Plebe Rude. A incursão por ritmos regionais em faixas como "Valor" e "Repente" tinha o dedo de Jander, cada vez menos ligado em Dead Kennedys e mais interessado na viola de Elomar e em Luiz Gonzaga. Mas o LP foi fracasso de crítica e de público.

"Era uma época muito ruim. Tinha muita briga interna, a gente nem se via, nem se reunia para compor. As composições nasciam isoladas, tanto que os dois vocais (marca registrada da banda) quase desapareceram. A gente devia é ter saído pra chutar lata junto, como era em Brasília", analisa André. Quando acabou o contrato com a EMI, a situação interna ficou insustentável. As brigas de Philippe e Jander terminaram com a demissão do segundo pelo telefone. "Eram diferenças musicais e pessoais", limita-se a comentar Philippe. "Desde o dia em que fui despedido da Plebe ou não tocava guitarra", comentou Jander, logo após o show em Brasília.

O próximo a sair - ou a ser saído - foi Gutje, dispensado depois de uma briga feia com André em um quarto de hotel em Foz do Iguaçu (PR). A dupla sobrevivente bem que tentou continuar, e até lançou pelo solo carioca Natasha o razoável Mais Raiva Do Que Medo. Porém a distribuição precária do selo e o péssimo momento da indústria fonográfica brasileira fizeram o disco passar batido. Philippe se mudou para Nova York e lá montou a banda Daybreak Gentlemen. André passou em concurso público do Banco Central e voltou a morar em Brasília.

Quase dez anos sem se falar

Depois que a série Portfólio resgatou em CD os três primeiro LPs do grupo e teve tiragem esgotada, começou a ser cogitada a volta da Plebe. Mas as conversas - todas por e-mail - entre Gutje, André e Philippe só evoluíram depois que surgiu uma proposta concreta: encerrar a segunda edição do festival Porão do Rock, destinado à divulgação das novas bandas brasilienses.

Os três toparam o desafio e se reuniram em Brasília para ensaiar pela primeira vez em cinco anos. "Nunca nos dedicamos tanto nos ensaios", revelou Gutje. Jander, preso ao trabalho como roadie dos Engenheiros Do Hawaii, só pôde chegar no dia do show. Mesmo na correria, o trio aprontou dezoito músicas, quase todas da coletânea da série Preferência Nacional, lançada em 1998.

O que era uma temeridade - reunir quatro pessoas que não se encontravam nem se falavam há quase uma década - acabou se tornando um trunfo. Não houve tempo para discussões e o show aconteceu sem maiores problemas, "tranqüilo", segundo Ameba. Tratada pela geração dos anos 90 como lenda, a banda ficou quase uma hora recebendo cumprimentos depois do show.

No dia seguinte, os quatro se reuniram para definir o futuro da banda. "Resolvemos que a gente está disposto a ouvir propostas, mas só se for para fazer uma coisa muito especial, como foi o próprio show, que foi fenomenal. A idéia de gravar um disco ao vivo, acompanhado d uma nova tumê, é a que mais nos atrai", revela Philippe, descartando uma volta em tempo integral.

"Quero fechar um ciclo na minha vida para poder me dedicar à minha nova banda, o Daybreak Gentiemen, essa é a prioridade", revela o guitarrista, definindo seu projeto atual. "É como se a Plebe tivesse continuado na linha de 'A Ida', explorando um lado mais melódico e mais pesado, mas sem ter recorrer a guitarras esporrentas, mal tocadas nem palavrões. É um som agressivo e elegante", completa.

"Foi ótima a oportunidade de rever os amigos, mostrar um pouco de atitude e tentar ganhar muito dinheiro", define Gutje, sincero. "O melhor vai ser voltar pelo resgate da cumplicidade que nós tínhamos no início. Chegou a hora de fechar com chave de ouro um caso de amor mal resolvido", aposta André.

CRONOLOGIA

1981
Em julho, depois de ensaios na casa de Fê Lemos, do Capital, a Plebe estréia no Clube da Imprensa, junto com o Aborto Elétrico.

1982
Entrada de jander e das backing vocals Marta Detefon e Ana Xyz (que ficaram só alguns meses).

1983
Show no Teatro da Associação Brasiliense de Odontologia (ABO), junto com uma banda que estreava, Legião Urbana.

1984
Assinatura do contrato com a EMI Odeon. Philippe passa a dividir os vocais com Jander.

1985
Lançamento de O Concreto Já Rachou, que rende disco de ouro.

1986
Turnê nacional. "Ganhamos muito dinheiro", lembra André. "E conhecemos as primeiras tietes", emenda Philippe.

1987
lançamento do segundo disco, Nunca Fomos Tão Brasileiros. A banda se recusa a ir ao Chacrinha. A Censura censura "Censura", depois libera. Fracassa a turnê que a banda faria com uma estrutura maior. "Começamos a perder o dinheiro que tínhamos ganho", conta André.

1988
Ninguém da gravadora apareceu no show de lançamento do terceiro LP, Plebe Rude, com influências regionais que assustam alguns dos fãs mais fiéis.

1989
A EMI sugere a regravação de músicas de Cazuza e Raul Seixas. A banda não aceita e seu contrato não é renovado.

1990
Jander Bilaphra sai.

1991
Os shows, cada vez mais raros, incluem guitarristas e tecladistas convidados.

1992
Gutje se desentende com André e é expluso.

1993
Reduzida a uma dupla, a banda lança Mais Raiva Do Que Medo, que repercutiu pouco e vendeu menos ainda, prejudicado pela mã distribuição do selo Natasha.

1994
André, Philippe e o baterista Márcio (ex-roadie) fazem o último show da Plebe, junto com o Ira!, na Praia de Ipanema, no Rio.

1995
Philippe se muda para Nova York e André volta a morar em Brasília para trabalhar no Banco Central.

1999
1º de agosto: show na Concha Acústica de Brasília, encerrando o Porão do Rock 99.

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TVA - 29/08/1999

Transcrição de audio:

Narrador - Os meninos da geração rock de Brasília contam como foi a transição entre o underground e o estrelato. Com participação de Gutje (Plebe Rude), Loro Jones e Dinho (Capital Inicial), Dado Villa-Lobos (Legião Urbana), Eduardo (Finis Africæ) e Herbert Vianna (Paralamas do Sucesso).

Clip de fundo: Será (Legião Urbana)

Narrador - Há duas décadas um grupo de jovens mudou a cara da musica no Brasil: Legião Urbana, Paralamas do sucesso, Capital Inicial, Plebe Rude e Finis Africæ. Todos esse grupos tinham algumas coisas em comum, faziam um excelente rock'n'roll e viviam em Brasília. Pois agora eles estão de volta. Falamos com a galera de Brasília de novo para saber se este revival é apenas mera coincidência.

Música de fundo: Até quando (Plebe Rude).

Loro - Acho que a volta do Capital Inicial deu uma agulhada nesse bando de... (apontando para o Gutje da Plebe)

Gutje - (interrompendo) Isso que eu ia falar eu acho que o...

Loro - Na real? A gente estava parado nessa formação original do Capital há ... eu mesmo me encontrava com o Dinho, mas assim, a gente não se via quase há cinco anos. A gente de certa forma, sem querer desencadeou...

Gutje - (interrompendo) desencadeou um processo...

Loro - ...dessa coisa de Brasília, os 20 anos do rock de Brasília.

Música de fundo: 1999 (Capital Inicial)

Dinho - Eu acho se a gente tivesse só voltado com essa historia de nostalgia, sabe, só pô, vamos lembrar os anos 80, eu acho que é bem traiçoeiro isso. Acho bem perigoso. Não acho que é um jeito legal de você envelhecer... você tem que provar que você tem um motivo para estar aqui, sacou?

Música de fundo: O Mundo (Capital Inicial)

Dinho - Aconteceu uma coisa engraçada, a gente estava tocando no litoral de São Paulo e apareceu uma menina que tinha ouvido O Mundo na rádio e ela achava que a gente era uma banda nova, que estava começando... quer dizer e' bom e ruim também (risos) ...tudo em vão, né, que você ficou trabalhando...

Narrador - Depois do Capital outros grupos de Brasília voltaram a ativa e Dinho já começou a escrever o livro da Turma da Colina em que narra a trajetória dessa galera.

Dinho - Quando a gente estava vivendo, quando a coisas aconteceram era frequente alguem falar, cara, alguem precisa, cara, contar essa historia, as festas, as farras, as viagens, os acampamentos... era tudo tão especial e a gente percebia que era especial que falávamos entre nos "alguem precisa contar..." Eu sempre achei quem iria fazer isso seria o Renato, eu acho que ele um cara mais qualificado pra fazer isso. Ele não esta mais aqui, então sobrou no meu colo.

Clip de fundo: Eu sei (Legião Urbana)

Dinho - Acampávamos e eu vi na nossa frente essas musicas, Eduardo e Mônica, tudo começou ali cara, essas musicas são clássicos hoje...

Música de fundo: Será (Legião Urbana)

Dinho - Me lembro do Renato terminando Faroeste, no Itororó, uma cachoeira, tava todo mundo em volta da fogueira, e a gente ficava pedindo para ele cantar aquilo de novo e de novo... Ele já não aguentava mais, pô cara, e ele, que saco! (risos) Na verdade a gente chegava e ligava, achava uma tomada num barzinho, a gente plugava e a gente tocava na calçada, né? As vezes dava certo e o cara falava, pô, vem aí fim de semana que vem que te dou um sanduíche.

Herbert - Eram todos filhos de diplomata, todo mundo falava varias línguas, super bem preparados, entendiam o que estava se falando nas outras letras, entendiam a razão social do movimento.

Clip de fundo: Melô do marinheiro (Paralamas do Sucesso)

Dado - A partir do momento em que os nossos amigos, PRÓXIMOS amigos, e irmãos, quase, os Paralamas, gravaram um compacto, Renato imediatamente: "opa!" (risos) Chegou muito perto, sabe? Vamos tentar alguma coisa então...

Clip de fundo: Ska (Paralamas ao vivo no Rock in Rio)

Dado - Aquelas bandinhas de garagem, que a gente tocava um pro outro, pumba, estouram para o pais inteiro, e' uma coisa quase Cinderela, né cara? E' uma coisa surrealista, né?

Clip de fundo: A Ida (Plebe Rude, clip do Fantástico, TV Globo)

Dinho - O rock de Brasília e' tão importante quanto a Tropicália, ou a Bossa Nova. Não se pode falar da cultura popular nos ultimos 50 anos sem falar neles.

Gutje - O movimento estabeleceu um mercado, estabeleceu um estilo, estabeleceu uma atitude...

Dinho - Se juntar a venda da Plebe Rude, Capital Inicial, os Paralamas do Sucesso e a Legião Urbana, não sei que número da, mas acho que deve dar mais de 10 milhões de discos. Isso não e' nenhuma garantia de qualidade, reconheço, mas dá, confere, na minha opinião o caráter genuinamente popular à coisa, você não pode dizer que e' uma viagem de garotos classe média... Atingiu o Brasil no fundo do seu coração.

Clip de fundo: Óculos (Paralamas)

Narrador - Quem viveu os animados anos 80 sabe que e' impossível discordar de Dinho. Ainda bem... pois a músicas criadas pela molecada da Colina permanecem nota por nota, verso por verso, encrustadas em nosso imaginário

Clip de fundo - 1999 (Capital Inicial)

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Jornal do Brasil - 29/08/1999
Por Gabriela Goulart

O Multishow (Net) reuniu os integrantes do Legião Urbana, Paralamas do Sucesso, Capital Inicial e Plebe Rude para falarem sobre o rock de Brasília, que completa vinte anos. O Multishow em revista de hoje leva ao ar depoimentos exclusivos, imagens de arquivo de shows e trechos de videoclipes.

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