Plebe Rude

06/1998 - www.zerozen.com.br/anos80/bandbr.ht
Por J. Tavares (colaborou Saulo Gomes)

Blitz - A história do rock Brasil nos anos 80 começou praticamente no antológico compacto Você não Soube me Amar. De um lado a música, no outro apenas a palavra NADA repetida umas 600 vezes. A Blitz com o seu rock carioca metido a esperto fez um enorme sucesso. Um detalhe curioso é que no seu primeiro Lp a banda teve as duas últimas músicas censuradas e riscadas a prego! O seu melhor trabalho é o segundo Lp: RadioAtividade. No fim das contas a melhor parte da Blitz era a vocalista Márcia que era muito mais encorpada que a Fernandinha Abreu, mas que, infelizmente, não seguiu uma carreira solo.

Barão Vermelho - Liderada por Cazuza essa banda não passou de uma invenção dos cariocas. A banda era ruim, mas com a morte do seu vocalista esvoaçante, resolveu fazer rock de verdade e acabaram cometendo um Lp aceitável chamado Na Calada da Noite. Hoje se envereda pela dance music, como se isso fosse torná-los mais aceitáveis para as novas gerações. Ledo engano.

Cazuza - O ex-vocalista do Barão Vermelho um belo dia decidiu que sua banda não era suficiente para o tamanho do seu ego, e resolveu sair para uma carreira solo. Como era filho do dono da gravadora Som Livre isso não foi muito difícil pra ele. Superestimado por muitos, para Cazuza reservamos esses singelos versos de domínio público: o Cazuza fede, o Cazuza sempre foi rico. Enquanto houver Cazuza não vai haver poesia. O que é a sabedoria popular...

Camisa de Vênus - Uma banda de rock. Marcelo Nova e Cia conquistaram o público sem depender da mídia. Não precisaram de ninguém para sair da Bahia e fazer sucesso em escala nacional. Melhor Lp: Batalhões de Estranhos. O refrão: "Bota pra Fuder" se tornou um dos gritos de guerra dos anos 80. Tudo perfeito, senão fosse a volta na década de 90 com uma pagação de mico deprimente.

Titãs - A maior banda do Brasil. Somente, é claro, pelo número de integrantes. Qualidade musical que é bom...O melhor Lp dos Titãs foi Jesus Não tem Dentes no País dos Banguelas (1986), mas como foi produzido por Liminha, o mérito dificilmente deve ser deles. A banda era razoável enquanto contava com a presença de Arnaldo Antunes. Depois se tornou a mais picareta e aproveitadora do Brasil, terminando por lançar o acústico mais cara-de-pau da MTV Brasil. Até o lançamento do acústico da Rita Lee, é claro.

capa do 1º disco do Titãs

Ultraje a Rigor - Liderados pelo vocalista Roger essa banda paulista foi um dos grandes sucesso do rock nacional. A música Inútil é sem dúvida um dos hinos da década. O primeiro Lp do Ultraje, Nós Vamos Invadir sua Praia, é um clássico. Pena que o sucesso durou só um disco. A banda decaiu vertiginosamente depois do segundo álbum Sexo. Falando nisso o vocalista Roger, para conseguir uns trocados, recentemente posou para uma revista masculina, onde mostrou a verdadeira razão de sua inutilidade.

Ira! - Banda paulista que tinha o seu destaque no guitarrista Edgar Scandurra. Copiando descaradamente The Jam e The Who até que não se saíram tão mal. Pena que até hoje - a banda continua na ativa - só conseguiram fazer um Lp que prestasse e foi o primeiro. Melhor trabalho: Mudança de Comportamento (1985). Curiosidade: "Flores em você" do segundo disco da banda, Vivendo e não Aprendendo" foi trilha de abertura de uma novela das oito.

Legião Urbana - Uma grande banda que durou enquanto a viadagem não tomou conta do seu vocalista, Renato Russo. O seu primeiro Lp de 1985, com os clássicos Será, Geração Coca Cola e Ainda é Cedo, é um dos poucos grandes discos de rock'n'roll de toda a década. Depois a Legião Urbana acabaria dando ré no quibe e desmerecendo tudo o que tinha feito.

Os Paralamas do Sucesso - Os inventores do Rock Polaroid. A grande diferença dos Paralamas em relação as outras bandas brasileiras é que eles sabiam tocar. Como sempre acontece, os caras não souberam a hora de parar, que deveria ter sido no terceiro Lp. Melhor trabalho: O Passo do Lui (1985).

RPM - O famoso erre-pe-mê ou Revoluções Por Minuto. Eles tinham tudo para se tornar um sucesso e conseguiram. Com um primeiro Lp tocando adoidado nas rádios resolveram gravar um disco ao vivo com uma música inédita (a instrumental Naja) e uma regravação: Flores do Mal. Venderam tudo e mais um pouco do tal Lp. Com o sucesso chegaram a ter um selo musical próprio, que gravou apenas uma banda o Cabine C. Quando parecia que nada mais podia dar errado, fizeram um álbum de figurinhas e a banda acabou (nenhuma banda resiste a um álbum de figurinhas, isso é um indício do fim). Mas mudaram de idéia e voltaram para um terceiro Lp superproduzido, que foi um retumbante fracasso comercial. A banda voltou a encerrar as atividades. O vocalista Paulo Ricardo partiu então para carreira solo sem muito sucesso. Pois, aparentemente, a carreira não estava mais no prato quando ele voltou. Após várias tentativas frustradas, só voltou a fazer algum sucesso quando resolveu ser mais um imitador de Roberto Carlos e aderiu a pop-romântico trilha sonora de bordel.

Cabine C - No auge do sucesso o RPM se deu ao luxo de ter o seu próprio selo musical, Revoluções discos, coisa que poucas bandas de rock conseguem. Mas a escolha para inaugurar o selo não poderia ser mais errônea. Seriam talvez os efeitos do álcool e das drogas? O Cabine C gravou apenas um disco: Fósforos de Oxford, e desapareceu sem deixar vestígios.

Kid Abelha & os Abóboras Selvagens - O melhor nome da década. Bandinha pop chinfrim que tinha — e ainda tem — Paula Toler uma vocalista gostosa de voz chata. Grupo do tipo: a melhor coisa são as fotos do encarte, contanto que apareça a Paula Toler.

Heróis da Resistência - Uma dissidência do Kid Abelha. Difícil imaginar coisa pior. Não dá para esquecer do sucesso Esse Outro Mundo onde um ridículo Leoni cantava: (Quando a gente se beija/ Nesses verões emocionais). Verões emocionais? Ah, eu tô maluco!!!

João Penca e os Miquinhos Amestrados - Concorria com Kid Abelha como o nome mais ridículo do rock nacional. Mais uma banda (?!) engraçadinha e ordinária do Rio de Janeiro. Não precisa dizer mais nada.

Capital Inicial - Esses caras, a começar pelo seu vocalista, Dinho, sabiam ser chatos. Se aproveitaram da onda de bandas de Brasília e fizeram algum sucesso às custas da Legião Urbana. Podiam ter continuado na Capital ao invés de encherem o saco do resto da nação.

Plebe Rude - Incrível. O Plebe Rude, mais uma banda de Brasília, não teve cacife para lançar um disco e acabou colocando à venda o famoso Ep O Concreto já Rachou. Se não era a melhor coisa do mundo pelo menos terminava logo.

Finis Africae - Apesar do nome não se tratava de uma banda de reagge, na verdade era mais uma das bandinhas de rock de Brasília surgidas no sucesso da Legião Urbana. O primeiro disco da banda por uma grande gravadora se chamava, singelamente, Armadilha, só que ninguém caiu nessa.

Biquini Cavadão - Segundo diz a lenda no primeiro contrato da banda, havia uma cláusula na qual ficaria estipulado, que se a banda vendesse um milhão de cópias, a gravadora teria que dar ao grupo um ônibus leito para turnês. HAHAHA! Os caras continuam viajando em ônibus de linha até hoje.

Lobão e os Ronaldos - Lobão é um chato, chato de carteirinha, um chato de pedigree. Começou tocando rock progressivo no obscuro Vímana junto de Lulu santos e Ritchie. Depois foi o primeiro baterista da Blitz. Não esquentou muito as baquetas e saiu da banda antes deles estourarem. Então gravou um disco solo que ninguém ouviu. No embalo da new wave carioca criou a banda Lobão e os Ronaldos, que também não durou muito e teve apenas um sucesso: Decadence avec elegance, inspirada na modelo Monique Evans. Depois Lobão tentou de novo carreira solo, disse que o rock errou e foi tocar samba. Aí não satisfeito, mais recentemente, foi tocar dance music, tudo com a mesma incompetência. A verdade é que não foi o rock que errou, mas sim Lobão ao escolher a música como profissão. Além disso Lobão é, junto com Nelson Gonçalves, um dos únicos artistas brasileiros que puxaram cana por porte de drogas no país, isso num meio em que quase todo mundo usa drogas a torto e direito. Do que se conclui que Lobão também não é muito esperto...

Ritchie - O maior cantor do Brasil, que, é claro, era americano. Esse cara vendeu os tubos com seu Lp de estréia. Curiosidade: o clip do seu primeiro sucesso,"Menina Veneno", foi gravado em Porto Alegre. Mas, sinceramente, certas coisas da década de 80 é melhor deixar no esquecimento.

Rádio Táxi - Rock baba total. Campeões de trilha sonora de novela nacional, deixaram coisas do quilate de Eva, recentemente regravada pela (não era óbvio?) Banda Eva da musa suprema Ivete Sangalo e Dentro do Coração que tinha o famoso refrão do sexo anal (põe devagar/ põe devagarinho/ que é pra não machucar/põe bem de mansinho).

Roupa Nova - A maior banda de baile do Brasil. Começaram a longa carreira da banda nos anos 70, mas foi nos anos 80 que alcançariam o sucesso popular com uma música na abertura da novela das sete. Mas o que se pode dizer: cada década tem os Fevers que merece.

Lulu Santos - Em determinado momento de sua longa carreira Lulu Santos saiu dizendo na imprensa que o rock morreu. Então tá, dêem os meus pêsames a viúva. Porque será que são sempre artistas medíocres e de carreiras irregulares que, de vez em quando, se utilizam desse discurso retrógrado para justificar sua total inaptidão para o assunto? Hoje Lulu tem feito uma dance music que faz muito sucesso entre pessoas que não gostam de dançar e não frequentam festas. Perfeito!

Leo Jaime - Bem o que dizer de Leo Jaime? Mentor do rock engraçadinho e cafajeste carioca. Autor de impagáveis versões de sucessos do rock americano. No entanto seu maior feito foi ter comido a Monique Evans e a Regininha, entre outras. Palmas para ele, que ele merece.
Obs: em um e-mail enviado para a ZeroZen, Leo Jaime negou qualquer envolvimento com a Regininha, o que, infelizmente, diminui em muito os seus méritos musicais...

Kiko Zambianchi - Esse cara fez algum sucesso cantando baladas como "Rolam as pedras" e "Primeiros Erros" depois enveredou pelo funk de branco de quem ouviu muitos discos de Prince e queria acompanhar a última onda do mercado. Só que se o original já não era grande coisa, imagina a cópia... branca ainda por cima.

Os Inocentes - Banda legendária do punk-rock paulista. Acabou gravando um Lp pela WEA. Você acreditaria em uma banda punk que fizesse um disco por uma grande gravadora como a Warner? Nós também não.

Cólera -"Pela paz em todo mundo" punk rock paulista era foda meu. Foi a primeira banda da cena punk paulista a sair do Brasil, chegando a fazer apresentações no circuito underground punk, mas bota underground nisso, da Europa. Depois dessa fase punk o vocalista Redson na década de 90 noventa seria vocalista de uma banda cover do The Cult. Sem comentários...

Ratos de Porão - Os traidores do movimento, hahaha. Grande merda. Como se o movimento punk no Brasil, tivesse tido algum dia qualquer relevância. Os primeiros discos cantados em português são divertidos, mas eles entraram na maior roubada quando começaram a cantar em inglês para aproveitar o sucesso do Sepultura.

Garotos Podres - O primeiro discos desses caras "Mais podre do que nunca" pode ser considerado um clássico do punk rock brasileiro. Depois gravaram um disco produzido pelo Maurício do Ultraje a Rigor e conseguiram estragar tudo o que tinham feito neste primeiro.

Olho Seco - O punk paulista de raiz, sem frescuras, banda que não se vendeu ao sistema capitalista sujo das grandes gravadoras e ao imperialismo americano. Fiel representante do proletariado e do lema punk "faça você mesmo"... blá, blá, blá. Who cares! Música que é bom esses caras não sabiam tocar.

Mercenárias - Banda punk paulista formada só por mulheres, melhor dizendo, só por mocreias. Punk rock feito com natural incompetência e amadorismo. Depois de anos no underground finalmente conseguiram um contrato para gravar por uma grande gravadora. Lançaram um disco tão ruim que foram despedidas três meses depois. Um recorde!

The One Hit Wonders

Todas as bandas listadas a seguir tiveram um ou dois 'hits' e surgiram quase na mesma velocidade em que caíram no anonimato. Mesmo assim ajudaram a tornar a década 80 bem mais divertida.

Dr Silvana & Cia - Conseguiram mais de um hit. Estouraram com Serão Extra (aquela música com o inteligentíssimo refrão: Ela foi dar mamãe/ Foi dar um serão extra/trabalhou com o patrão) e ainda emplacaram Eh! Oh! e Taca a Mãe Para Ver se Quica.

Os Eletrodomésticos - Cantavam Choveu no meu no Chip muito antes de inventarem coisas como Bill Gates ou Windows 95. Um clássico

O Espírito da Coisa - Foram chamados à época pela revista Veja como uma das melhores coisas já surgidas no rock Nacional. Então tá. Restou apenas o sucesso Ligeiramente Grávida.

Sempre Livre - Grupo de new wave carioca formado só por mulheres, com nome inspirado numa propaganda de absorvente feminino, é pouco ou quer mais? Fez sucesso com a música "Eu sou free". A banda revelou Dulce Quental, o que significa menos que nada.

Absyntho - Eles não poderiam ficar de fora. Sem dúvida um dos sucessos mais cretinos da década. Dá para acreditar em um cara que se confessa para o seu ursinho Blau-Blau de brinquedo?! A sua única música de sucesso, como não poderia deixar de ser é: Meu Ursinho Blau-Blau.

Degradee - Eu realmente não me lembro desses caras, não consigo me lembrar de uma só música que eles tocavam, isso já indica o quão bom eles deviam ser... Se alguém souber de alguma coisa mande cartas para redação da ZeroZen.

-----Mensagem original-----
De: Alexandre Okubo < Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. >
Assunto: Especia Anos 80 - Bandas Brasileiras - Degradee

A banda Degradee tinha como tecladista o produtor do J.Quest (nossa!!!)Dudu Marote e emplacou um hit via Jovem Pan que dizia "QUEM FAZ AMOR EM SONHO, QUEM SONHA COM AMOR É MAIS Q UM SONHADOR", de invejar a qualquer dupla sertaneja de hoje. Em tempo: depois do Degradee, Dudu Marote ainda teve outra banda:Tarsila cujo slogan dizia - "Tarsila ouviu dansoul " É 'dansoul' mesmo... Fazia shows espalhafatosos em SP (em cima de caminhões, marquises da paulista), mas gravar que é bom ....

Zero - Banda produzida pelo Paulo Ricardo, vocalista do RPM. Tinha um cantor de voz gutural (vai consultar o dicionário, ZeroZen também é cultura) chamado Guilherme Isnard. Cometeram o sucesso Agora Eu Sei. Não precisa nem dizer quanto valia o som da banda: Zero

Os Melhores - Grupo com complexo de inferioridade. Tiveram um grande(?) sucesso chamado Suzana, aquela do refrão "como é bom te amar", que era uma "versão" de uma outra música. A letra é genial (foi paixão de primeira/ no segundo olhar). Provavelmente eles eram tão bons que nem se deram ao trabalho de gravar outro Lp. Eles voltariam a gravar em 87 sob o nome de Aliados para o selo Plug. Mas nem eles devem querer se lembrar disso, imagina nós.

Cinema a Dois - Nada como os nomes de bandas da década de 80... Esse grupo conseguiu o privilégio de participar do Rock in Rio II, junto com mais 55(!) atrações e fazer o Maracanã cantar o seu único sucesso: Não me Iluda.

Cheque Especial - Banda com fortes conotações evangélicas, conseguiu o prodígio de transformar em sucesso uma música em favor do estudo. O refrão do seu único sucesso, Pronta para Estudar dizia:"Assim você vai se dar mal/ Assim você vai levar pau".

Herva Doce - Certo, certo. Quem não dançou ao som de Amante Profissional que atire a primeira pedra. Esses caras só não foram mais longe devido ao português. Onde se viu erva com H? Isso deve ser um bagulho falsificado.

Metrô - Uma vocalista bonitinha, que fez até propaganda de fita cassete da Basf. Um baterista que fez a clássica propaganda da U.S. Top ( Bonita camisa, Fernadinho...). Quer dizer esses caras estavam desperdiçando o seu talento fazendo música. Sucessos: Tudo Pode Mudar e Beat Acelerado. Depois que a vocalista Virginie deixou a banda os remanescentes lançaram um disco cabeça com som progressivo chamado: "A mão de Mao". Muito elogiado pela crítica musical da época, logo não prestava.

Grafite - Tocou até não poder mais. Encheu o saco. Hoje, perto do que se transformou o rock nacional coisas como Mamma Maria começam a fazer sentido.

Afrodite se Quiser - Outro grupo só de mulheres, agora um trio bem mais encorpado no quesito beldades, mas absolutamente descartável. Vale a pena conhecer a Playboy da vocalista Karla Sabath. Fizeram algum sucesso com uma versão da música "Vênus".

Magazine - Liderada pelo carismático Kid Vinil conseguiu emplacar dois hits que ganham o prêmio de criatividade pouca é bobagem. Os sucessos foram: Eu Sou Boy e Tic-Tic Nervoso.

P.S.: Podia haver coisa mais ridícula que o Kid Vinil dançando no Cassino do Chacrinha?

Tokyo - A grupo do Supla. Sim, o mesmo cara que hoje mora nos Estados Unidos e participa do programa do Luciano Huck. Se ele dependesse do dinheiro que ganhou com sua banda certamente não chegava nem ao aeroporto. Sucessos: Linda Garota de Berlim (com a participação da Nina Hagen) e Esses Humanos.

Detrito Federal - Bandinha punk medíocre de Brasília que teve um hilário hit radiofônico, cujo título dizia muito sobre o som da banda: Tá com nada.

365 - Outras daquelas bandas punks de São Paulo, que levaram quase uma década para gravar um disco. E quando finalmente conseguiram assinar com uma gravadora, se sairam com disquinhos tão caricatos e medíocres, que não agradaram nem aos fãs mais fieis. Muito menos quem não tinha nada com isso.

Uns e Outros - A banda que dizia que fazia no palco o que a Legião fazia no banheiro. Considerando-se que Renato Russo era o vocalista do Legião, os shows desses caras deviam ser constrangedores. Sucesso: Cartas aos Missionários.

Scowa & Máfia - Com o hit "Atropelamento e fuga" essa banda de funk e soul music paulista teve seus quinze minutos de fama. Não sei por que ninguém pensou nessa música para algum vídeo institucional sobre o novo código de trânsito brasileiro. Pensando bem deve ser porque ninguém se lembra, ou se importa etc. Curiosidade: Scowa antes de montar a Máfia, tocava baixo no Sossega Leão, banda paulista conterrânea do Premeditando o Breque.

Ed Motta & Conexão Japeri - Banda do sobrinho menos esperto de Tim Maia, que conseguiu emplacar apenas um hit no final dos anos 80: "Manuel". Depois de apenas um disco Ed Motta deixou a banda e seguiu carreira solo na qual abraçou a MPB e várias garrafas de vinho. Mas até hoje não conseguiu emplacar outro sucesso. Como diria o grande Tim Maia: tudo é tudo e nada é nada.

Vinicius Cantuária - Esse nunca disse para o que veio, não era nem um grande intérprete ou mesmo um compositor de talento. Mas deixou uma música inacreditável "Esse som eu quero" uma homenagem ao Paralamas do Sucesso(?!).

Claudio Zoli - Zoli era um Kiko Zambianchi que ficou muito tempo no sol. Fazia funk soul carioca sem graça nem imaginação. Na década de 90 tentou retomar sua carreira eliminando o 'Claudio' do seu nome. Como se isso fosse fazer alguma diferença...

Nau - Banda de rock paulista bastante sofrível que revelou a vocalista Vange Leonel. Ou seja não há chance de salvação para ninguém da banda. Gravou apenas um disco totalmente esquecível. Nos anos 90 a vocalista Vange iniciou uma carreira solo de relativo sucesso declarando publicamente que era lésbica. Qual a novidade nisso? Ela teria causado mais espanto no meio artístico se tivesse dito que gostava de homens...

Gueto - Uma banda de branco que misturava em seu som funk e hip-hop não podia dar muito certo. Pois não deu, lançou dois discos e não deixou saudade.

Fausto Fawcett e os Robos Efêmeros - Fausto Fawcett chamou a atenção em 87 com suas letras quilométricas cheias de imagens e humor tipicamente cariocas. No fundo tirando o verniz intelectual de boteco de Fausto a banda não passava de uma Blitz requentada. Teve um único sucesso: Kátia Flávia. Fausto se saiu melhor sendo gigolo de louras burras no show Básico Instinto nos anos 90.

Ego Trip - "Querem um rótulo? Então vai: Art-pop-romantic-pré-funk-pós-samba-hetero-psicodélico". Se lembra disso? pois era assim que essa banda se definia num release publicitário publicado em várias revistas músicais da época. De todas as bandas dos anos 80 criadas por executivos de gravadoras mal intencionados essa foi a pior. A combinação formada por músicos de estúdio consagrados, entre eles o baixista Arthur Maia, e música pop comercial para debil mentais simplesmente não podia dar certo. Eles perpetuaram apenas um disco e foi mais do que suficiente. Pois se houvesse uma lista para os piores discos já gravados no Brasil eles estariam em primeiro, é um verdadeiro must para masoquistas. Curiosidade a banda tinha como baterista Pedro Gil, filho de Gilberto Gil, morto num acidente automobilístico alguns anos depois.

Yahoo!/Robertinho do Recife - Grupinho pop execrável, mais uma armação do guitarrista e picareta de plantão Robertinho do Recife. Cara que já tocou de tudo e com todo mundo na MPB, de Jorge Mautner a Zé Ramalho. E que em determinado momento dos anos 80 chegou a tocar Heavy metal com uma inacreditável aparição no extinto programa Mixto Quente da Rede Globo, que passava nas tardes de domingo.

Dominó, Polegar, BomBom - Grupos picaretas, de adolescentes imberbes com o único objetivo de conquistar como fãs femininas descerebradas. Não é à toa que fizeram tanto sucesso no Brasil. Todos eles copiavam da praga da década: o grupo Menudo, que chegou a ter uma cópia vinda diretamente da Argentina chamada Tremendo. Certamente isto é dos bons motivos para esquecer dos anos 80.

and The No Hits Once or Ever

As bandas e artistas que até o diabo se esqueceu, mas que a ZeroZen teve coragem de lembrar.

Alma de Borracha - Último Trem
Bom Bom - Vamos a la Playa
Nico Rezende - Um minuto
Vânia - Doce Vita
Neuzinha Brizola - Zumbi
Joe Euthanazia - Mujer Ingrata
Anne - Pensando em você
Lucia Turnbull - Aroma
Lado B - Classe Média
Kongo - Bikini Defunto

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Correio Braziliense - 26/12/1999
Por Bernardo Scartezini

Fernanda Montenegro perdeu o Oscar e Tiazinha e padre Marcelo Rossi viraram ídolos pop. Para compensar, a Plebe Rude voltou

A cult Plebe Rude e o brega Peninha voltaram. O Festival de Brasília foi para o lixo, junto com o Candango. Chico Buarque (meia-entrada a R$ 80,00) não foi, nem voltou — continuou sendo muso. Renato Russo também. Walter Salles perdeu o Oscar para Roberto Benigni. Fernandona, para Gwyneth Paltrow. 1999 foi mais ou menos por aí. E, como de praxe no final de dezembro, o Correio Dois dá uma paradinha para lembrar — e tentar entender — o que aconteceu com a cultura nos últimos 365 dias, de 1º de janeiro para cá. Nesta e em mais cinco páginas desta edição, desdobra-se a Retrospectiva 1999.

Ano excelente para a música pop de Brasília. Quando os quatro rude plebeus voltaram depois de uma década de tretas. Quando os Raimundos provaram que estão aí para valer. Quando o poeta Renato Russo não foi esquecido. O rock ainda rola. Apesar (ou por causa) das exigências cada vez maiores do governo (Tolerância Zero), fechando espaços e cancelando shows. Ano complicado para as artes cênicas. Fazer teatro em Brasília ainda é prova de devoção, como a do pessoal do Teatro Universitário Candango (Tucan). Ano turbulento para o cinema. Ano que começou bem, com a torcida por Central do Brasil no Oscar. Depois patinou com Roberto Benigni. E terminou mal, com a completa desorganização do Festival de Brasília, evento mais importante da cultura na capital federal. 1999... O ano de Tiazinha & Feiticeira, Ricky Martin & Jennifer Lopez, Tom Cruise & Nicole Kidman, Sandy & Júnior está aí. E do indefectível padre Marcelo Rossi. Aproveite enquanto dura.

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Revista Today Tonight (SP) - 10/12/1999

Do Rose BomBom ao Lov.e, há 16 anos Angelo Leuzzi pauta a modernidade na noite paulistana

Um outsider que caiu por acaso na noite, é impossível contar a vida noturna em São Paulo sem falar de Angelo Luezzi. Desde os velhos tempos do Rose BomBom, ele enche casas com um povo bonito e moderno, e se torna parâmetro para o que se faz de melhor quando essa cidade escurece.

O Rose BomBom surgiu junto com a geração do rock dos anos 80 e foi a primeira a abrir espaço para bandas como Paralamas, Ira!, Legião, Plebe Rude.

"Essas bandas estavam no comecinho, chegavam de onibus com as guitarras, amplificadores, ficavam lá até as cinco da manhã, faziam duas a três sessões em uma noite. Era superdivertido e virou ponto de encontro dessa moçada, mesmo depois que fizeram grande sucesso eles passavam pelo Rose no final da noite."

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O Globo - 17/11/1999
Por Mario Marques

Grupo brasiliense grava no Rio CD ao vivo com produzido por Herbert Vianna

Apartamento em Ipanema, iate em Botafogo, contrato milionário, grana, fama e mulheres, trechos simbólicos de uma banda punk que desprezava lucros e esquemas nos anos 80, registrados na música "Minha renda", não são mais utopia para a Plebe Rude. O grupo brasiliense, de volta à EMI, que o lançou com "O concreto já rachou" (1985), gravou na segunda-feira e ontem, no auditório da gravadora, um disco ao vivo com seus maiores sucessos - e não se espera pouco lucro dele.

Produzido por Herbert Vianna, amigo e comandante de primeira hora da virulência política e sonora do quarteto, o CD sai em abril de 2000 e reconduz a banda ao mercado, embora ainda sem perspectiva de prosseguimento.

-Estou chocado com o rock dos anos 90 - diz o guitarrista e cantor Philippe Seabra, hoje morando em Nova York e pilotando sua Daybreak Gentlemen (http://www.daybreakgentlemen.com), justificando a volta. - É uma pena o que aconteceu com os Titãs. Era uma banda autêntica que agora faz um som brega. Foi por não fazer concessões como eles que a gente se deu mal.

Reencontrando os conterrâneos, Herbert Vianna, que havia produzido o clássico "O concreto já rachou" e "Nunca fomos tão brasileiros" (1987), é o mais entusiasmado com o retorno da Plebe. Na década de 80, o grupo se esfacelou em brigas devido a divergências conceituais irreparáveis. Em meio a um certo trauma de coletividade e relacionamento, Vianna dirigiu egos e raspou os excessos.

-No início estava desamarrado - diz Vianna, à vontade como produtor dos amigos. - Por mais que eles tenham objetivos diferentes, os quatro só funcionam juntos. Eles continuam com aquela química.

Sobre o futuro ninguém se atreve a falar. André X. (baixo) é funcionário do Banco Central, em Brasília, Gutje (bateria), publicitário, e Ameba (guitarra), roadie. Mas sobre o presente há um certo desconforto. Seabra, por exemplo, afastou a possibilidade de participar do Tributo a Renato Russo, realizado na semana passada no Metropolitan. - A maioria dos artistas não tem nada a ver com o Renato Russo - ataca o guitarrista. - Parece que essas homenagens servem apenas para promover os próprios artistas que participam. O Renato não iria gostar nada disso.

No CD ao vivo há clássicos ("Até quando esperar", esta com Oroska e Da Lua, percussionistas do Sheik Tosado, "A ida", "Johnny", "Proteção"); menos conhecidas ("Códigos", "Mentiras por enquanto", "Um outro lugar"); uma inédita ("Roda Brasil"); e dois covers ("Luzes", da Escola de Escândalos, e "Medo", do Cólera). A atitude punk não é a mesma dos áureos tempos. Seabra faz introdução de "A ida" sentado ao violão ("eu tô sentado mas não sou mané, não!", disse), antes citando "Transmission", do Joy Division; o release para a imprensa do relançamento de seus três primeiros discos é assinado pelo músico de choro Henrique Cazes (!?) e eles só farão shows em eventos especiais. Estranho, poderia se dizer.

Na platéia, é bom que se registre, não havia vips, só velhos fãs e curiosos. O clima da apresentação foi de pub nova-iorquino, daqueles que só se vê uma vez, rápido, direto, único e, nos anos seguintes, só em grandes estádios. Atual, com sonoridade que dosa punch abraçado por ritmo e melodia concatenados, a Plebe Rude volta no momento certo. Em agosto passado, fez seu reencontro com os plebeus de Brasília no festival Porão do Rock com uma devastadora apresentação.

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Correio da Bahia - 16/11/1999
Por Hagamenon Brito

A Plebe Rude (banda brasiliense dos 80) termina de gravar, hoje, no Rio, um disco ao vivo que será lançado em março, junto com turnê

Uma das principais bandas do rock-Brasil dos 80, pioneira da tríade brasiliense que formou com Legião Urbana e Capital Inicial, a Plebe Rude acabou oficialmente em 1994 e está de volta. Mas com tempo previamente marcado para pendurar as chuteiras, de novo. Hoje à noite, na gravadora EMI, no Rio, o grupo encerra a gravação do disco ao vivo, que será lançado em março.

A gravação do álbum, com produção do paralâmico Herbert Vianna (que produziu o histórico primeiro disco da Plebe, O concreto já rachou, em 1986) teve sua primeira sessão ontem, com pequeno público formado por convidados. Junto com a chegada do CD às lojas em março, o quarteto original embarca numa turnê nacional prevista para durar apenas dois meses.

Em seguida, todos voltam aos seus trabalhos e famílias: Philippe Seabra (guitarrista), mora em Nova York desde 1994 e tem uma nova banda, a Daybreak Gentlemen; Jander 'Ameba' Bilaphra (guitarra), é roadie dos Engenheiros do Hawaii; André X (baixo) regressou para Brasília e é funcionário do Banco Central: e Gutje (bateria) virou publicitário.

"Voltamos, quer dizer, temporariamente, porque a Plebe era um caso de amor mal resolvido e temos um público fiel até hoje, como vimos no Porão do Rock (festival brasiliense em que a banda fez o primeiro show do comeback, no último dia 1º de agosto, para 20 mil pessoas). Esperamos o projeto certo e adequado à nossa integridade", explica Seabra, 33 anos.

Relançamentos - O guitarrista, que assume que a Plebe acabou por brigas (ele e Jander ficaram anos sem se falar) e incompatibilidade musical, descarta que o disco ao vivo tenha algum link com o revival oitentista provocado pelo sucesso do retorno do Ultraje a Rigor e Capital Inicial: "A Plebe sempre foi a Plebe, o compromisso é só com a nossa história. O resto é coincidência. Hoje, minha prioridade é a Daybreak Gentlemen. Há dois anos tocamos em clubes de Nova York".

André, 37 anos, complementa: "Ao contrário de outros, não estamos voltando por causa do leite das crianças. É um projeto que nasceu especial. A Plebe sempre foi melhor no palco, mas não tínhamos um ao vivo. Além do mais, o projeto tem a ver com o nosso jeito underground. Quando morávamos no Rio, nunca fizemos parte de panelinhas do mainstream. Estamos mais para Pelvis, Second Come e Brincando de Deus do que para a cultura do Disco de Ouro".

Com convidados como Sheik Tosado e Herbert Vianna, o CD ao vivo reunirá os sucessos e porradas pós-punks da banda - Até quando esperar, Proteção, Minha renda, Sexo e Karatê, Brasília e A ida, entre eles. Como aperitivo, a EMI relança (individualmente) os álbuns que os plebeus gravaram nos 80: O concreto já rachou (1986), Nunca fomos tão brasileiros (1987) e Plebe Rude (1988). No final de 1997, a gravadora reuniu os três títulos na caixa-série Porfolio, esgotando rapidamente a tiragem de três mil unidades. A história e as novidades da banda podem ser conferidas no bom site oficial: www.pleberude.com.br.

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www.rockwave.com.br - 15/11/1999

A Plebe Rude está de volta. Apesar de não estar com nenhum lançamento no mercado, a banda de Brasília está com três discos nas prateleiras. É que a EMI relançou O Concreto já Rachou (de 87), Nunca Fomos tão Brasileiros (87) e Plebe Rude (88). Esses álbuns, juntamente com os da Legião Urbana e do Capital Inicial, eram o que havia de mais evidente no cenário do rock brasileiro na década passada. E daí a importância de sua volta às lojas. Enquanto isso, Jander, Philippe Seabra, André X e Gutje não decidiram se farão um álbum novo ou se lançarão um trampo ao vivo. Enquanto eles resolvem, vale a pena reviver clássicos do rock brasuca como Até Quando Esperar.

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Jornal do Brasil - 14/11/1999
Por Silvio Essinger

Banda toca hoje, amanhã e terça para fazer disco ao vivo

Acabou a espera ao menos para os felizardos fãs que terão a oportunidade de conferir hoje, amanhã e terça-feira as gravações do primeiro disco ao vivo da Plebe Rude, uma das mais cultuadas bandas do rock brasileiro dos anos 80. O lugar, entrega o guitarrista e vocalista Philippe Seabra, é pequeno, ''bem naquele clima do Metropolis (finada casa de espetáculos em São Conrado, onde a banda se apresentava logo que chegou de Brasília)''. Autora de clássicos como Até quando esperar?, Minha renda, Censura, Sexo e Karatê e A ida, a Plebe encerrou suas atividades seis anos atrás.

Philippe, o baixista André X, o baterista Gutje e o guitarrista-vocalista Jander Ameba Bilaphra levavam suas vidas até que, ano passado, surgiu a idéia de uma volta apenas para um disco ao vivo e uma turnê. Eles conversaram com algumas gravadoras, fizeram uma volta triunfal em agosto no festival Porão do Rock, em Brasília, e se decidiram pela EMI, seu antigo patrão, com quem, nas palavras de Philippe, tinham ''uma relação conturbada''. Pesou muito na escolha da banda a promessa da gravadora (cumprida esta semana) de relançar separadamente em CD seus primeiros discos: o mini LP O concreto já rachou, e os LPs Nunca fomos tão brasileiros e Plebe Rude, que já haviam sido relançados antes em uma caixinha da série Portfolio.

Também falou alto a garantia de ter o paralama Herbert Vianna de volta à produção neste ao vivo, que chega às lojas em março e detona uma turnê de dois meses (depois da qual os músicos voltam a suas profissões). O disco terá 14 faixas e muitas participações especiais. Os pernambucanos do Sheik Tosado armam uma batucada em Até quando esperar?, Fernanda Abreu deve repetir os vocais que fez em Sexo e caratê quando da gravação para o Concreto, e Lyra, percussionista da banda de apoio dos Paralamas do Sucesso, toca djembe em Um outro lugar. A Plebe grava todas as músicas do mini LP (exceto Seu jogo), algumas do primeiro LP (a mais sentida ausência será Censura, música que a banda considera datada) e apenas duas do segundo: Plebiscito e Um outro lugar. Entram na gravação duas inéditas: a nova Roda Brasil (''que não vai ter nada de forró'', avisa Philippe) e a antiga A voz do Brasil.

Uma boa novidade para quem só conhece a Plebe Rude de disco vai ser ouvi-la perpetrando versões. Nesse ao vivo entrarão as de Medo (da banda punk paulistana Cólera, com quem dividiu shows no Circo Voador) e Luzes, da Escola de Escândalo, contemporânea da cena punk brasiliense. ''É uma homenagem ao Fejão (guitarrista da Escola, que morreu alguns anos atrás), um dos caras de mais bom gosto que eu conheci'', diz Philippe.

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Correio Braziliense - 10/11/1999
Por Carlos Marcelo

Clássicos do Rock-Brasília dos anos 80, os primeiros discos da Plebe Rude são relançados em CD

Este ano é especial para André X, Gutje Woortman, Jander Ameba Bilaphra e Philippe Seabra. Depois de cinco anos de silêncio, os quatro integrantes da banda brasiliense Plebe Rude voltaram a tocar juntos e vão gravar na próxima semana um disco ao vivo com os maiores sucessos do grupo. Para impulsionar o retorno da Plebe, a gravadora Emi acaba de editar em CD os três títulos que o grupo lançou nos anos 80: O Concreto Já Rachou (1985, 160 mil cópias vendidas), Nunca Fomos Tão Brasileiros (1988, 80 mil) e Plebe Rude (1989, 50 mil).

Os relançamentos acontecem em momento especial do rock nascido no Planalto Central. Em menos de um mês, o CD Acústico da Legião Urbana ultrapassou as 500 mil cópias vendidas e deve chegar às 750 mil na próxima semana. E o Capital Inicial, ainda que em menor escala, celebra a boa acolhida de sua volta à formação original com o CD Atrás dos Olhos — 80 mil cópias comercializadas.

Para o revival ficar completo, entretanto, falta a própria Emi bancar as primeiras edições digitais dos álbuns do Finis Africae e Arte No Escuro, outras bandas brasilienses que lançaram discos pela gravadora no final da década passada. Os integrantes do Obina Shock, Detrito Federal e dos grupos que participaram da coletânea independente Rumores também aguardam relançamentos.

Há duas semanas ensaiando no estúdio carioca Floresta, no bucólico bairro carioca do Cosme Velho, os músicos da Plebe Rude foram surpreendidos pela Emi com o relançamento dos discos. ''Só por isso já valeu a pena voltar'', acredita Jander, vocalista e guitarrista, comemorando particularmente a edição digital do terceiro álbum do grupo. ''É o que eu acho mais interessante musicalmente, porque a gente partiu do zero e encontrou coisas novas para a época''.

Mas os fãs da banda aguardavam com mais ansiedade o relançamento do mini-LP O Concreto Já Rachou, considerado item de discoteca básica do rock-Brasil dos anos 80. ''Depois de anos ouvindo rock, a gente estava gravando... era o sonho se tornando realidade, havia uma eletricidade no ar'', lembra o baixista André X. ''Para mim, é um disco de conquistas, principalmente da parte técnica de estúdio. E foi uma época muito saborosa'', completa o baterista Gutje.

O Concreto Já Rachou foi produzido por Herbert Vianna (Paralamas), que também assinou o segundo disco: Nunca Fomos Tão Brasileiros. ''A recordação mais forte que tenho desse disco é de mostrar a letra de A Ida para os outros caras da banda, porque era uma música tão pessoal... fiquei tão nervoso que tive que beber água com açúcar. Quando eles gostaram, foi um alívio'', lembra o guitarrista Philippe Seabra, comentando a sua faixa preferida do disco.

Já Plebe Rude, o terceiro LP, foi o mais acidentado da carreira do grupo, que estava morando no Rio de Janeiro. ''A gente não conseguia compor no Rio, até porque a gente não se encontrava'', revela André. ''Então, o disco acabou saindo sem direcionamento'', reconhece.

Herbert Vianna vai produzir o disco ao vivo da Plebe, com lançamento previsto para março. O repertório está em processo de definição, mas já está garantido um novo arranjo para o hit Até Quando Esperar e pelo menos uma cover: Luzes (''...nos seus sonhos, tudo era perfeito/Rodolfo Valentino não faria melhor...''), música de outro grupo nascido nos anos 80, Escola de Escândalo.

Discos

O Concreto Já Rachou *****

Com apenas sete faixas (ou justamente por causa disso), a estréia da Plebe Rude é o ponto alto da carreira da banda e um clássico absoluto do rock-Brasil nos anos 80. Irônicas (Minha Renda) e incisivas (Johnny Vai à Guerra), as letras da banda (expurgadas no encarte do CD) aparecem embaladas em músicas vigorosas e dinâmicas — como o hit Até Quando Esperar. De quebra, inclui a melhor radiografia da capital federal: Brasília, versos ácidos valorizados pelo contraste da voz grave de Jander e o timbre agudo de Philippe.

Nunca Fomos Tão Brasileiros ***

Menos conciso do que O Concreto Já Rachou, o segundo disco tem problemas de produção e o resultado final não faz jus ao punch dos shows da Plebe. Mas há uma série de bons momentos, como a urgência da faixa-título, a dobradinha Códigos e Mentiras Por Enquanto, além da introdução a la Mission de Censura (a letra envelheceu, assim como as de 48 e Nada). A surpresa é a alta qualidade da primeira balada da banda, A Ida, com arranjos de cordas — recurso que se tornaria gasto nos anos 90. Como curiosidade, uma faixa de título profético: Nova Era Tecno e a misteriosa inclusão no final do CD de uma versão longa do hit Proteção.

Plebe Rude (Plebe Rude III) **

A indecisão da Plebe entre descobrir novos rumos e ficar presa ao passado resulta em um trabalho que dá tiros em vários alvos — e nenhum deles acerta na mosca. A falta de inspiração fica evidente nas letras, algumas auto-referenciais como o refrão de A Serra (...''Madeira acabando/Até quando esperar?...). A incursão por ritmos regionais brasileiros em Repente e Valor representa ousadia na carreira de uma banda que nasceu e cresceu ao som de punk rock. Mas as duas melhores faixas do disco estão logo no início: Plebiscito e Um Outro Lugar, esta última acrescida do violoncelo de Jacques Morelembaum bem antes de o músico se juntar a Caetano Veloso para a epopéia poliglota Fina Estampa, Prenda Minha e Ommaggio A Federico e Giulieta.

Serviço:

O Concreto Já Rachou Primeiro - disco da banda brasiliense Plebe Rude. Sete faixas, com produção de Herbert Vianna. Relançamento Emi Music.

Nunca Fomos Tão Brasileiros - Segundo disco da Plebe Rude. Onze faixas, com produção de Herbert Vianna. Relançamento Emi Music com faixa-bônus, Proteção (remix).

Plebe Rude (Plebe Rude III) - Terceiro disco da banda brasiliense. Produção de Renato Luiz, Armando Telles e Roberto Reis. Relançamento Emi Music. Preço dos CDs: R$ 16,90 na rede de lojas Discoteca 2001.

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Revista Rock Press - 10/11/1999
Por Marcus Marçal

Em função do lançamento de alguns projetos relacionados à tão falada "Turma da Colina" e ao rock de Brasília, a Rock Press fez um apanhadoda cena rock brasiliense do início dos anos 80 a partir dos depoimentos de alguns de seus protagonistas mais ilustres - integrantes de bandas que emergiram do contexto musical local, tais como Legião Urbana, Plebe Rude, Capital Inicial, Finis Africæ e Paralamas do Sucesso (estaúltima, apesar de formada no Rio de Janeiro, constituiu-se peça fundamentalpara a eclosão desse cenário em âmbito nacional). Vinte anos se passaram eo cenário de rock da capital ainda rende bastante assunto, confundindo-se com a própria história do rock brasileiro como fenômeno pop. Muito já foi escrito e falado a respeito de um grupo deadolescentes de Brasília que formaria a primeira leva do rock brasileiro a ser apropriado pela indústria e mercado fonográficos. Inspirados pela atitude contestatória do punk, esses "brasilienses" fizeram uma história que, agora documentada, inaugura definitivamente a entrada do rock'n'roll no folclore brasileiro.

Esse grupo inicial foi denominado "A Turma da Colina". Colina: designação dada aos alojamentos onde se abrigam professores e alunos da Universidade de Brasília. Nesse local, as bandas da primeira geraçãodo rock brasiliense manifestaram os primeiros sintomas de um levante juvenil em larga escala a ser apropriado pelo establishment. Aepidemia punk estabeleceu o contágio e uma onda baseada na filosofia "faça-você-mesmo" se alastrou, ganhando proporções míticas. Apesar do oba-oba, alguns dos protagonistas não vêem com bons olhos essa exaltação nostálgica, evitando saídas fáceis na busca de caminhos novos. Desses, André Mueller, baixista da recém-reativada Plebe Rude, se mostra o representante mais contundente, conforme enfatizou à RP: "São coisas que deveriam ser deixadas àqueles que, ao não evoluírem, vivem num passado fantasioso, que ganha proporções lúdicas dentro de cérebros incapazes de viverem novas realidades. Particularmenteprefiro esbarrar em rochas desconhecidas do que atolar na lama anti-produtivado que aconteceu", detona. É até provável que o plebeu tenha razão, mas uma coisa é certa: querendo-se ou não, a Turma da Colina e a cena de rock brasiliense voltam a ser notícia com a iminência do lançamento de vários projetos relacionados a esse cenário: três biografias e três álbuns ao vivo de bandas dessa época são projetos a serem implementados no ano 2000. Vamos a eles!

NEM FOI TEMPO PERDIDO,SOMOS TÃO JOVENS

Um dos livros, escrito por Dinho, vocalista do Capital Inicial e ex-baixista da banda Dado e o Reino Animal, terá o título A Turma da Colina. Amparado por suas lembranças, o cantor e dublê de escritor narrou a história em primeira pessoa, como uma realidade romanceada. Dinho se reserva o direito de ser impreciso, já que trata de acontecimentos de, aproximadamente, vinte anos atrás: "Me baseei num termo inglês chamado true-life-fiction, que é mais ou menos o que o Truman Capote fez em In Cold Blood. Eu conto uma história real naforma de um romance e meu objetivo foi que as pessoas tivessem dúvidas se certas coisas aconteceram ou não - e provavelmente elas não aconteceram do jeito que eu conto". Por essa razão, a obra que sinaliza o desfecho desse assunto é o livro O Diário da Turma, escrito por Paulo Marchetti, produtor da MTV e ex-companheiro de Digão (Raimundos) na banda Filhos de Menguele. A Rock Press publica em primeira mão alguns trechos da obra (vide boxes). Portanto, para encerrar esta história ficaria só faltando uma biografia autorizada da Legião Urbana, o maior expoente dessa cena. Enquanto isso não acontece, voltemos ao Diário da Turma.

Inspirado no livro Please Kill Me (Mate-me Por Favor, na edição nacional) - documento sobre o punk escrito por Legs McNeil e Gillian McCain -, Marchetti compilou depoimentos dos protagonistas da história, se despindo da figura do narrador, o que confere à obra maior legitimidade, já que os acontecimentos são contados pelos próprios personagens que os viveram. "O meu livro pega dez anos, de 76 a 86,mas não fala só da música, e sim, da turma inteira. Basicamente serão dois grandes capítulos: "A Turma" e "As Bandas". Conto como surgiu aquele pessoal todo; o que eles faziam na cidade, aonde eles iam. Mas o meu livro também aborda a organização dos primeiros shows. Então, além das bandas, conto essa outra parte da história", explica Marchetti. Quanto a possíveis comparações ao livro de McNeil e McCain, Paulo demonstra tranqüilidade: "Não conhecia o Please Kill Me antes de ter a idéia. Quando viajei para o Rio para fazer umas entrevistas, sem quererachei-o no aeroporto. E a partir dele, vi que a minha idéia era possível: escrever um livro com base nas próprias declarações das pessoas". De acordo com Dinho, esse é o grande diferencial entre os dois livros: "O Paulo fez peregrinação, enquanto eu não fui falar com ninguém. Só quero falar das aventuras. É só fun, fun, fun - coisa pra adolescente mesmo". Os dois autores chegaram a trocar observaçõessobre o rumo de seus trabalhos, o que serviu para enfatizar ainda mais a distinção entre os projetos. "O Dinho foi a primeira pessoa que procurei", conta Marchetti. "Um dia, fui almoçar na casa dele,trocamos idéias e falei sobre o meu projeto. E ele disse: 'Pára, deixa eu te mostrar um negócio!'. Abriu o computador e lá estavam os doisprimeiros capítulos de seu livro. Como era diferente, resolvi seguir adiante com o meu projeto. O livro do Dinho é um pouco romantizado, pega ahistória verdadeira e apimenta um pouco algumas partes. Já o meu é um trabalho de pesquisa, de entrevistas. É a história ali, de verdade. Não tem mentiras, exageros. Ele vai ter uma árvore genealógica com a formação de todas as bandas, demonstrando a ligação entre elas. A minha preocupação foi contar esse vácuo na história, do começo do Aborto Elétrico até o começo do sucesso da Legião Urbana, que o Brasil não conhece, mesmo os grandes fãs, os presidentes de fã-clubes. E o primeiro documento dessa história vai ser o meu livro", compara. Ambos esperam lançar seus trabalhos em 2000, ano do quadragésimo aniversário de Brasília. Paralelamente, o jornalista carioca Jamari França está escrevendo umabiografia dos Paralamas do Sucesso, imprescindíveis para a bem-aventurança das bandas brasilienses no eixo Rio-SP. Jamari aponta para a formação de um mercado nacional de biografias no âmbito pop: "Isso demorou a acontecer por aqui e, assim, fecha-se também o círculo da cultura pop. Lá fora você vê várias biografias, enquanto que aqui isso ainda não rola", avalia. Também vale ressaltar que essa cena já havia sido retratada no livro A Voz da Cidade (Editora Ler), do jornalista Edu Henning, publicado em 87. Em razão de uma distribuição deficiente, a obra acabou esquecida.

ACAMPAMENTOS

Pedro Ribeiro, produtor executivo do Paralamas do Sucesso e irmãode Bi Ribeiro, fala sobre os acampamentos que a Turma fazia entre o final dos anos 70 e o início dos 80. "Pedro: O que tinha pra fazer em Brasília era quase nada, tinha pouco movimento: tinham os boyzinhos, um pouco de punks e os hippies. Nós andávamos de skate o dia inteiro e quando enchia o saco íamos pro mato, era uma forma de se divertir. Primeiramente íamos nós, da 104 Sul, muito filho de diplomata, depois os acampamentos foram crescendo e ia todo mundo. Eles aconteciam atrás do Country Club, onde meu pai tinha um terreno. A foto comigo na capa do "Selvagem?" ( 3o disco do Paralamas) foi lá , eu tinha uns 16 anos nessa época. Rolou que o Renato teve uma crise e ele ficou nervoso porque estava escuro e todo mundo ficava enchendo o saco dele. Ele tinha seus problemas e todo mundo enchendo ele. O Renato sempre vinha com papos-cabeça e então todo mundo caía em cima, ele estava na fogueira e começou com esses papos, então resolvemos dar uma volta no mato e tínhamos algumas bombinhas que chamávamos de "Cabeção" e ficaramalgumas pessoas na fogueira, a grande parte estava no mato, aí alguém resolveu dar um susto no pessoal da fogueira e soltamos algumas bombas na galera. O Renato quase morreu de susto, pediu pra ir pra casa, mas ninguém o levou." (Trecho do Livro "O Diário da Turma", de Paulo Marchetti. Capítulo "ACAMPAMENTOS")

CAPITAL DA ESPERANÇA, DAS DROGAS E DO SUICÍDIO

Brasília, final dos anos 70. Produto do milagre econômico, aquele dos "cinqüenta anos em cinco", a história daqueles garotos que, para combaterem a falta do que fazer, montaram bandas de rock imediatamente influenciadas pelo punk 77, é inseparável da própria biografia da cidade. Com pouquíssimas opções de lazer, sobretudo para adolescentes entediados, o entretenimento tinha de ser inventado. Uma dessas invenções foi a folclórica Rockonha, festa de rock com maconha, eternizada por Renato Russo em uma de suas canções (vide box). Vale ressaltar que a tal festa chegou a ter duas edições: a primeira, discreta, foi bem-sucedida, mas a seguinte, um desastre, por sua repercussão antecipada, que chamou a atenção da polícia. Felipe Lemos, ex-baterista do lendário Aborto Elétrico e posteriormente do Capital Inicial, fala sobre os tempos de Brasília antes de surgirem as bandas: "Fazíamos basicamente o que todo adolescente gosta de fazer: se divertir, zoar... Saíamos, íamos ao cinema ou então tomávamos cerveja no boteco". Na época da explosão do punk inglês, Philippe Seabra, futuro guitarrista-vocalista da Plebe Rude, era apenas um fedelho e revela não ter inicialmente lidado muito bem com a estética do gênero, como conta: "Em 77-78, eu era ainda muito jovem, tinha uns 12 anos. Comecei a ser introduzido ao punk, mas era muito moleque - então não me relacionei bem com isso. Mas em 79-80, fiquei amigo do André Mueller, que me introduziu àquele universo dos discos do Clash, Sex Pistols, Buzzcocks e isso mudou mesmo a minha vida. E Brasília também passou a mudar pra nós. Deixou de ser uma cidade sem nada para se fazer e se tornou campo fértil para muitacoisa". Eduardo de Moraes, ex-vocalista dos Virgens e futuro cantor do Finis Africæ, endossa o comentário de Fê: "Parávamos com carros diplomáticos no Planalto, com as luzes apagadas e com garrafões de vinho. Ficávamos fumando um e escutando som a noite inteira. Quando a polícia chegava, todo mundo se metia no carro diplomático e às vezes até pedíamos asilo político, já que esses carros nos davam imunidade. Eles nunca conseguiam prender ninguém porque lá em Brasília sempre existe a possibilidade de você ser filho de alguém importante". Eduardo aderiu posteriormente à turma inicial formada entre outros por Renato Manfredini Jr. (que posteriormente adotaria o sobrenome Russo), futuros integrantes do Capital Inicial como Fê, Flávio e Loro; além de futuros "plebeus" como Gutje e André Mueller; e também Geruza e Bernardo, futuros integrantes da banda Escolas de Escândalos, tida como a pérola perdida deste cenário - os dois últimos, respectivamente, irmãos de Loro e André Müeller. Assim como os "quase-irmãos" (seuspais são casados) Dinho e Dado Villa-Lobos, que depois se juntariam à turma, todos passariam a ter um interesse comum: o punk rock. Marcelo Bonfá também participou da fase inicial do punk em Brasília, tocando em algumas bandas, entre elas Os Metralhaz, que também se apresentavam como S.L.U. (Serviço de Limpeza Urbana), e Quinta Coluna. O futuro baterista da Legião Urbana lembra como o gênero acabou sendo aglutinador daqueles jovens com o privilégio do acesso a informações intangíveis para a maioria dos jovens de outras capitais do país. "As pessoas começaram a se reunir até pelas músicas em comum, o punk que estava rolando na época. Curtíamos o punk inglês e, a partir daí, as pessoas foram se juntando", conclui. Herbert Vianna era amigo de infância de Dado e Dinho e chegou amorar em Brasília, quando criança. Futuramente, ele seria o principal responsável pela contratação de algumas bandas da cidade pela EMI, satisfeita com o sucesso dos Paralamas - sendo, inclusive, produtor dos dois primeiros discos da Plebe Rude. O frontman dos Paralamas expõe um ponto-de-vista contundente ao se referir à cidade: "As pessoas têm espaço, tempo, informação e é uma cidade legal, que sempre teve o potencial para se tornar uma espécie de Laranja Mecânica, sem lei e sem punição, porque todo mundo é filho de alguém. Isso sempre existiu latente, mas acho que agora está pior, com essa molecada filhinha-de-papai que luta jiu-jitsu e taca fogo em índio". Herbert revela como foi introduzido à cena: "Conheci o pessoal principalmente através do Pedro Ribeiro, irmão do Bi, porque quando saí de Brasília essa molecada ainda não estava tocando. Era muito no começo. O punk começou a pegar fogo por lá depois que saí, mas eu conhecia o Renato porque ele morava numa quadra ao lado da minha. A primeira guitarra elétrica que o Renato viu pertencia a mim". Bi Ribeiro também teria participação indireta naquela cena, pois morou em Brasília até 78. Ele fala do tédio que reinava na cidadeantes da formação das bandas: "Eu só pensava em vir pro Rio e acabei me mudando em 78; mas aí comecei a ter uma saudade impressionante. E quando voltei para lá, conheci a turma por intermédio do Dinho e do Dado, que já conhecia desde os seis anos de idade. A partir daí,sempre que podia, voltava pra Brasília amarradão". Dinho entraria para a turma acidentalmente. Andando para casa se deparou com o Aborto Elétrico tocando numa calçada. Seu amigo Pedro Ribeiro, irmão de Bi, também havia conhecido algumas meninas punks da turma. Aí tudo começa a convergir, como ele explica, ainda que sem muita certeza: "Brasília era formada por duas turmas roqueiras que,por volta de 1980, começaram a andar juntas: uma turma era a minha, do Pedro, Dado, Herbert, Bi, formada por filhos de diplomatas. E essa turma conheceu o pessoal da Colina por volta de 1980. Aí as duasturmas se fundiram. Foi mais ou menos assim, porque é meio complicado vocêter uma posição unânime quanto a isso". Por terem nascido em berço esplêndido, muita gente torceu o nariz para esse cenário, expressando descrédito com relação à sinceridade dos protestos, pela falta de conhecimento de causa. Mas havia também osnão nascidos em berço-de-ouro, entre os quais os irmãos Geraldo, Loro e Rogério. O primeiro foi baixista do XXX, da Escola de Escândalos e da Blitz 64. O segundo foi companheiro do irmão nesta última e participante de várias outras bandas da época, ficando posteriormente conhecido como o guitarrista do Capital Inicial. Rogério seria baterista da Elite Sofisticada, fechando o ciclo de músicos punk da família Ribeiro. Ronaldo Pereira, baterista do Finis Africæ fala dos amigos: "Eles são os verdadeiros punks da parada, e não os carinhas ricos. Eles eram uma família de músicos lá da Asa Norte, que moravanas imediações da UNB. Eram filhos de um professor, uns vagabundos que tocavam lá com o pessoal (rindo)". Loro Jones relembra aquela época: "Acho que foi uma fase conturbada, mas também divertida, porque tínhamos todas as dúvidas do adolescente, mas também questionávamos coisas típicas dos mais velhos. Brigávamos entre nós, mas era uma coisa de irmão. Éramos muito inocentes e queríamos mais era estar juntos, para falar dos livros que líamos, da camiseta estampada que comprávamos, dos fanzines, das músicas e dasdanças..." Outro deles era Gutje, filho de um renomado intelectual. O plebeu lembra dos primórdios de sua adolescência em que o desconhecimento de psicotrópicos era emblemático da inocência vigente na época: "Saíamos para nos divertir e naquela época não fazíamos drogas. Então, geralmente, a polícia nos parava e mandava que fizéssemos flexões de braço. Os policiais receavam nos prender porque pensavam que éramos todos filhos de políticos etc. Eles só nos obrigavam a fazerexercícios e por causa disso ficamos saradões. Estávamos cheios de gás por causa da benzina e fazíamos mais flexões do que os próprios policiais conseguiam. Eles ficavam putos! Me lembro de uma cena em que estava o Renato Russo. Ele não conseguia fazer flexão de jeito nenhum porqueuma perna falhava, então ele era sempre o último a acabar as flexões. Nossa infância era essa: fazer flexão para PMs (rindo)". Sem esconder o saudosismo, o baterista revela uma fase em que aturma ainda não havia instituído o Clube da Criança Junkie. Falando como um típico adolescente, Gutje se refere ao problema na perna que acometeu Renato, obrigando-o a passar parte da adolescência na cama. Renatoentão canalizaria sua energia para os livros e discos angariando, no farto manancial cultural, a riqueza de conhecimentos que o tornariam uma figura singular. Philippe Seabra remonta à época em que a turma começou a reunir-se: "Definíamos a nossa própria cultura. Fazíamos as nossas próprias camisetas, organizávamos os nossos próprios shows, as nossas próprias festas... e se não rolava festa, parávamos o carro num lugar, num bar, abríamos as portas e todo mundo ficava dançando em volta. Sempre que freqüentávamos um determinado bar, ele virava point por nossa causa eaí saíamos fora quando os playboys começavam a aparecer. Era demais, uma época muito especial na vida de todo mundo. E foi essa inocência, essa ingenuidade, que marcou tanto, a ponto de até hoje as pessoas falarem com saudade dessa época". São esses os personagens que, aliados a outras figuras não menos ilustres, formariam as bandas que se convencionou chamar de "Rock de Brasília" - talvez a cena mais legal do Rock Brasil dos anos 80. Mas não a única.

ROCKONHA

Loro Jones, guitarrista do Capital inicial, fala sobre a Rockonha (festa mencionada na letra "Faroeste Caboclo" da Legião Urbana). Loro - A primeira Rockonha foi legal, mas a segunda foi aquela roubada. Antes da festa, a polícia já estava pronta para invadi-la. Quando fomos, passamos por uma blitz, logo no início da estrada. Estava todo mundo: eu, Helena, Gutje, Fê, Geruza; o carro estava lotado, tinha gente até no porta-malas. Estávamos todos bebendo dentro do carro, a maioria era menor de idade, mas mesmo assim passamos pela barreira policial e nem desconfiamos de armação, algumas pessoas acharam esquisito o fato deles não nos pararem, mas fomos em frente. Chegando perto, já não dava para fugir porque a polícia estava na porta mandando entrar e estacionar. Já saímos do carro com a mão na cabeça. O sinal para a invasão policial eram aqueles fogos sinalizadores, o pessoal da festa viu aquilo e achou legal pensando que fazia parte, de repente, tinha guarda gritando: "Mão na cabeça" e foi aquele negócio de liberar as coisas ali mesmo no chão. Foi todo mundo de ônibus para o batalhão de choque de Sobradinho, no caminho ainda tinha gente dispensando coisa pela janela. Chegando lá, ficou todo mundo em fileira no pátio do batalhão e os menores foram para um auditório. Eu saí porque sou filho de militar. Teve um cara quevoltou ao local da festa, no dia seguinte, e achou até narguillé (uma espécie de cachimbo para maconha) no chão. (Trecho do Livro "O Diário da Turma", de Paulo Marchetti. Capítulo "ACAMPAMENTOS")

ANARCHY IN D.F.

A história desses "brasilienses" começa com o estouro do punk 77. Alguns deles - como Fê , Flávio e André Mueller - morando naInglaterra, testemunharam o levante punk e trouxeram a novidade direto para Brasília. Quando os irmãos Lemos retornaram, André Mueller, futuro baixista dos Metralhaz e da Plebe Rude, garantiu o abastecimento do acervo da turma com o que havia de melhor acontecendo no cenáriomusical inglês da época. A partir do intercâmbio de discos e cassetes, o contágio se caracterizou de forma definitiva, inspirando a criação de diversas bandas baseadas no lema do-it-yourself. "Já existiam alguns títulos do gênero lançados no Brasil, discos do Television e The Clash, mas ainda era muito pouco", avalia André Mueller. Herbert Vianna faz uma comparação com a cena carioca do famoso verão de 1982, que fervilhava após a criação do Circo Voador, entre outros points: "Quando chegávamos lá em Brasília, nos sentíamos intimidados pela exuberância da cena. Era uma molecada muito nova e muito informada, todos falavam dois ou três idiomas e tinham informações que não tínhamos. Isso porque aquele início do punk, em Brasília, era bem mais claro e importante para eles do que para nós. Estávamos aqui no Rio tocando Jimi Hendrix nos ensaios e aí víamos aquela molecadavestida daquele jeito, fazendo shows em qualquer lugar, ligando as coisas na tomada da lanchonete e tocando. Aquilo era muito impressionante, acho que entre as pessoas de lá, todos tinham a consciência de que aquilo chegaria longe". A turma começaria fazendo shows em vários points como Adega, SóCana, Chaplin (também conhecido como Food's), ABO, Cafofo e Colégio da Asa Norte. Também tomaria forma um festival que fazia com que o público das bandas punk crescesse cada vez mais e de forma definitiva: o CabeçasAo Ar Livre, que não se restringia só ao rock e que se notabilizaria ao abrigar punks, hippies e amantes da MPB tradicional. Dá para imaginara Plebe Rude tocando num mesmo evento que Oswaldo Montenegro? Pois é, o Cabeças era assim! Ao participar desses eventos, a ala punk da cidade angariava um público que gradativamente ia aumentando. O pioneiro Fê explica a disseminação da epidemia na cidade: "Foi uma turma que começou com o Aborto Elétrico, Blitz 64, tocando em 79 e começando a fazer shows a partir de 80. E, nesses shows, começavam a chegar mais pessoas, que viraram fãs, amigos e que eventualmente formaram suas próprias bandas também. E quando fomos embora de Brasília, no final de 84 e início de 85, a turma já contava com mais de 150 pessoas. Essas pessoas lotavam qualquer lugar aonde você fosse fazer um show. Chegávamos lá e játinha a platéia inteira, gente da turma".

ABORTO ELÉTRICO - Æ

Duas bandas foram pioneiras nesse cenário: as seminais Aborto Elétrico e Blitz 64. O Aborto Elétrico é o exemplo mais emblemático dessa época, já que o grupo se tornou lenda a partir da gravação desuas músicas por Legião Urbana e Capital Inicial. Formada em 79, seus integrantes iniciais eram Renato Russo no baixo, Fê Lemos na bateria e "um Sid Vicious louro" chamado André Pretorius, responsável pelas guitarras da banda e também lembrado como o primeiro punk de Brasília. Renato o conheceu em um point chamado Taberna e perguntou se ele gostava de Sex Pistols, o que foi prontamente confirmado. Fizeram poucos shows com essa formação. André, já falecido, acabou tendo que sair da banda para servir o exército na África do Sul. Seu pai era o embaixador brasileiro daquele país, mas nem assim o dispensou "porque queria que ele servisse o Exército pra tomar jeito na vida", como lembrou Flávio. Pretorius ainda retornaria à cidade, contribuindo para a composição de algumas canções que se tornariam clássicas, como"Música Urbana", "Baader-Meinhof Blues", "Conexão Amazônica" e "Veraneio Vascaína", entre outras. Após sua saída, Renato passou para a guitarra e tomou coragem para cantar suas próprias letras. Após várias tentativas infrutíferas, a dupla remanescente decidiu convidar Flávio para a vaga, mesmo sem ter a menor intimidade com o instrumento. Este recorda: "Eles já tinham várias músicas prontas, mas o Renato me ensinou a tocá-las e em dois meses eu já estava compondo". Fizeram um número razoável de shows com essa formação, ao ponto de existirem registros piratas dessas apresentações - confira alguns deles no site /www.legiao-urbana.com.br/. Ico Ouro Preto assumiria o posto de AndréPretorius. Seu irmão Dinho lembra: "Rolava uma coisa muito engraçada comrelação a essa turma de Brasilia, uma hierarquia muito severa dada de acordocom sua ordem de entrada. Era mais ou menos como aquela música dos Tubes que falava assim: 'I was a punk before you were a punk'." A figura do guitarrista é também um marco divisor para se caracterizar os pioneiros desse levante musical: "Quanto mais tempo você estivesse ali, mais bacana você era. Os mais velhos diziam que quem chegou a conhecer o André Pretorius era muito bacana (rindo). As pessoas falavam que ele era uma figura mitológica." O biográfo Paulo Marchetti concorda com esse ponto-de-vista: "Nomeu livro, só o Renato e o Feijão (outra figura mítica, guitarrista do Escola de Escândalos) possuem capítulos especiais. As pessoas citam demais o André Pretorius, talvez a pessoa mais importante nessa história toda. Foi ele que chegou em Brasília com o Never Mind The Bollocks, o primeiro a ter um visual punk na cidade à la Sid Vicious. Então foi praticamente a partir dele que tudo começou". O guitarrista morreria em 85, nos Estados Unidos, de overdose. "Até hoje sinto saudades dele", declarou Philippe, entristecido. A Plebe Rude chegaria a prestar um tributo a Pretorius na canção "Seu Jogo", gravada no álbum O Concreto Já Rachou. Certo trecho da letra, "na batalha onde não me alistei, procuro orgasmo permanente", se refere à uma expressão deAndré sobre os efeitos da heroína. Um incidente envolvendo integrantes do Aborto Elétrico também marcou a adolescência de Dado Villa-Lobos: "Lá para o final de 1980-81, estávamos um dia 'embaixo do bloco sem ter nada o que fazer, olhando as meninas' (remete à uma canção do Renato Russo, da época) quando apareceram uns quatro ou cinco caras vestidos de jaquetas de couro e calças todas rasgadas e tal... Olhamos e falamos: 'O que é aquilo?' E eles chegaram na nossa quadra e num muro da garagem pixaram: 'Aborto Elétrico - Æ'. Aquele símbolo anarquista com um ezinho, que é um "a" latino também." Dinho passaria a acompanhar a turma e começaria um namoro com Helena, irmã de Fê e Flávio, o que tornou-o íntimo a pontode assistir a todos os ensaios da banda, então realizados na casa danamorada. Dado continua: "Nos perguntamos: 'Quem são esses caras?', e descobrimos que formavam uma banda de rock, um grupo punk que tocavanum porão na 408 Norte: o 'Cafofo'. E aí começamos a freqüentar, a ficar amigos e tal. E esses caras eram exatamente a Turma da Colina: o Fê,o Flávio, o Renato e tinha mais alguém que eu não me lembro. O Dinho foi o primeiro a sair do gueto lá da nossa superquadra, a freqüentar a Colina e a conhecer melhor esses caras." A banda acabou porque havia esgotado suas possibilidades musicais,o que trouxe à tona divergências estéticas. O auge desse período conturbado coincide com seu último show, pouco depois da morte de John Lennon. Certa vez, Renato declarou em entrevista que nesse show havia dedicado uma música ao beatle morto e Fê, impaciente com o discurso do cantor, acertou-o com uma baqueta, causando um certo ressentimento. O próprio Fê desmistifica algumas versões publicadas: "A banda acabou porque não tinha mais para onde avançar. O Renato já tinha uma visão muito clara do que iria acontecer, mas eu era só um garotão que, nas férias, queria mais ir para a praia. E nas férias de 81 pra 82, eu voltei pra Brasília e o Renato me disse que não estava mais a fim de tocar com a banda porque estava mais a fim de tocar violão. De certa forma, ele já percebia que conseguia cativar as pessoas com a música eo Aborto Elétrico já tinha sido o pontapé inicial dele". De qualquer forma, a lenda continuará, já que não existem gravações razoáveis a ponto de serem lançadas. "O Aborto Elétrico é um mito urbano, brasileiro. Estamos falando disso aqui no Rio, mas se eu for tocar no interior, vão chegar fãs da Legião me falando: 'Pô cara, você tocou com o Renato!' (rindo). Pois é, eu toquei", arremata o baterista. Dinho contribui para a mitificação: "O Aborto é a melhor banda de rock do Brasil em todos os tempos". BLITZ 64 A Blitz 64 era formada por Gutje, Loro e seu irmão Geraldo, também conhecido como Geruza. Segundo testemunhas, era o caos completo, uma banda punk com "P" maiúsculo. Flávio Lemos se surpreender quando viuum show da banda pela primeira vez, já que achava que eles nunca conseguiriam fazer alguma apresentação, pois só viviam brigando e se xingando. Posteriormente, colocariam uma garota nos vocais, a Chris Brenner. Isso deixaria o som ainda mais esquisito, já que ela cantava num falsete superagudo. "Eles eram muito mais raivosos do que o Aborto. Parecia um pouco o X-Ray Spex", compara Dinho. Passariam a se chamar Blitx porque a polícia havia tirado fotos de uma pixação com o nome da banda - uma paranóia comum dos tempos pré-democráticos. Visceral e instrumental, assim como o Aborto, a Blitz 64 não tinha vocalista fixo: "Tocamos com eles em vários shows e os apelidávamos de 'os irmãos Jesus Pelados' porque o Loro e o Geraldo tinham o maior cabelão e tocavam sempre sem camisa. Na minha opinião, era a bandapunk da cidade, até mais visceral que o Aborto", revela Philippe. Dado dá seu parecer sobre o grupo: "A Blitz 64 era a segunda banda de Brasília e teve várias formações. Na minha opinião, a mais bacana foi com a Chris Brenner nos vocais. Eles eram esporrentos até dizer chega, a Chris berrava pacas - uma menina da pá-virada gritando pratudo quanto é canto. E tinha umas músicas tipo: 'Hiroshima... não sei o quê... Hiroshima (rindo)'. O Aborto já tinha algumas músicas mais melódicas. E eles (Blitx) eram mais crus e esporrentos". Com a repercussão dos shows das duas bandas pioneiras, o levante punk começou a ganhar contornos mais nítidos. "Era aquela coisa do faça-você-mesmo e aí chegou uma hora em que já existiam um zilhão de bandas, sendo que muitas delas só se apresentariam uma vez", relembra Dinho.

METRALHAZ

Os Metralhaz também foram uma das primeiras bandas da cidade. "Assim que cheguei da Inglaterra em 1980, formei essa banda com o Bonfá e o Tot, que era o guitarrista. Tínhamos os mesmos gostos musicais e compusemos umas seis músicas", revela o baixista André Mueller, que se tornaria notório ao não lidar muito bem com a popularidade que o punk alcançara. Renato Russo chegou a citar, em entrevistas, algunsepisódios pitorescos. Disse ter ficado surpreso com o fato de André ter jogado das alturas o seu precioso baixo Fender, o primeiro que havia visto na vida. Na mesma ocasião, Renato também lembrou que André tinha o hábito de quebrar os seus vinis punk originais ou, quando havia festas, deixava-os guardados em lugares que qualquer pessoa roubaria, o que de fato acontecia. O Plebeu confirma tais episódios: "Quando o punk começou a se popularizar, eu realmente não fiquei muito feliz. Masisso era mais uma coisa de impulso". Bonfá recorda sua passagem pelos Metralhaz: "Já estava tocando bateria, ensaiávamos na Colina. O André Mueller voltou da Inglaterra e montamos os Metralhaz. Éramos eu, o André e, na época, o André Pretorius na guitarra, que tocou um período conosco, um pouco depoisde já estar tocando no Aborto. Com o fim dos Metralhaz, André Mueller formaria a Plebe Rude, enquanto Bonfá, tempos depois, integraria a Legião Urbana - mais ou menos na mesma época em que o Capital Inicial era formado por Fê e Flávio. Boa parte do repertório do AbortoElétrico seria revisitado na nova empreitada dos irmãos Lemos.

ASCENSÃO E QUEDA DE QUATRO RUDES PLEBEUS

A Plebe Rude talvez seja a banda que mais sintetize as diversas referências sonoras daquela turma. Criada em julho de 81 por André Mueller e por Philippe Seabra, ex-guitarrista do Caos Construtivo(banda cover de punk rock), em certos momentos foi considerada a grande banda de Brasília. A ela se juntaria Gutje, ex-baterista da Blitz 64. Junto com o Aborto e a Blitx, começaria a atrair a atenção de um público maior, culminando num show na Sala FUNARTE com razoável cobertura da imprensa em se tratando de bandas iniciantes. Anos após a formação da Plebe inaugurou-se a segunda geração do rock de Brasília. Ao lado do Capital Inicial e da Legião Urbana, a Plebe formaria uma espécie de santíssima trindade do rock brasiliense. Influenciada pelas bandas inglesas, mas com o tempero de um certo sotaque local, a Plebe Rude, em sua fase inicial, chegou até a tocaruma versão para o clássico dos Pistols "God Save The Queen", como revela um envergonhado André Mueller: "Tocamos essa música umas ou duas vezes. Nem me lembro do nome dela, mas acho que era algo como 'Deus Salve o Presidente' (risos)". A partir de 81, Jander Bilaphra, na época um skinhead caboclo mais conhecido como Ameba, passou a assumir os vocais - antes divididosentre Gutje e André. Ele fecha a questão: "Na verdade, acho que a Plebe foi responsável pelo crescimento da qualidade da música feita em Brasília nos anos 80. Um exemplo: começava o show do Renato Russo e nós enchíamos o saco dele pedindo canções da Emilinha Borba e do Waldick Soriano. Enchíamos o saco para ver se neguinho aprendia a fazer olance direito". É, e pelo jeito, o negócio funcionou. A Plebe Rude se notabilizaria principalmente por seus dois primeiros álbuns. Para os plebeus, um dos erros na trajetória da banda foi ofato de terem gravado material antigo no segundo disco, evitando as tradicionais e dolorosas terapias de grupo. Quando isso aconteceu, na ocasião do terceiro disco, as animosidades se tornaram evidentes aponto de uma das características mais marcantes da banda - a contraposiçãodos vocais agudos e energéticos de Philippe aos soturnos graves de Ameba - ter sido completamente posta de lado. Por outro lado, a inserção de elementos típicos da musicalidade regional brasileira apontava novos caminhos, mas acabou não se concretizando. "O terceiro disco resultou no que estávamos a fim de fazer, mas agora, olhando para trás, foi uma péssima idéia comercialmente. Mas a Plebe sempre foi isso, a banda mais punk do mainstream brasileiro. Na época do lançamento do terceiro disco, estávamos brigados com a gravadora e ninguém da companhia foi ao show de lançamento do disco no Circo Voador. Que legal, a casa estava cheia e não havia ninguém da gravadora (ironiza)! Ficamos putos, mas chegamos na televisão e falamos: 'Viu só como é fácil trocar de gravadora?' e aí rasgamos o selo da gravadora em frente às câmeras. Ninguém no Brasil faz isso, talvez só o João Gordo, mas os Ratos são uma banda independente e eles mandam mesmo todo mundo para a p* que o pariu"(rindo).

O plebeu acha que o tempo mostrou que a banda estava com a razão. "É o preço que se paga pelo pioneirismo. Hoje em dia vemos muitas bandas derivadas de coisas nordestinas. Nos f*demos quando fizemos isso e hoje em dia vemos rock regional rolando no país inteiro. O engraçado é que foram só duas músicas com essa característica e olha como marcou a carreia da Plebe! Mas isso foi o suficiente para a crítica massacrar", conclui. Uma curiosidade: o terceiro disco, intitulado apenas Plebe Rude, quase foi produzido por Ezequiel Neves e algumas pessoas chegaram a cogitar que a banda gravasse uma música do Cazuza e outra do Raul Seixas, "Trem das Sete". "Seria o fim da Plebe!", suspira Philippe, aliviado. Com o fracasso comercial do disco, os ânimos se acirrariam e a dissolução se tornou iminente, após o término do contrato com a EMI. Jander se mudou para Mendes (interior do Estado do Rio) e aos poucosfoi fortalecendo os laços com Renata, "a menina mais bonita" (retratada na canção "Segunda Feira Feriado"), hoje em dia sua esposa. Conforme publicado na edição #21 da Rock Press, ela mesma relataria os acontecimentos do dia em que Ameba foi "saído" da banda, após um frio telefonema de Philippe. O próprio Seabra dá sua versão da história: "Ele mudou para Mendes e estava rolando um período muito difícil para a banda. Ele não podia descer toda hora, nós precisávamos ensaiar e a situação estava difícil... A minha relação, em particular com o Jander, estava muito difícil, desgastada porque dividíamos apartamento até há pouco tempo. E rolou a oportunidade de fazermos uma demo pela Polygram e eu cheguei para a banda alertando sobre a necessidade de tomarmos algumas decisões. Aí optamos em tirar o Jander, o que talvez não tenha sido a melhor coisa. Mas, de qualquer forma, não havia outro jeito na época. É muito triste, porque você muda a vida da pessoa da noite para o dia, mas...". O introspectivo Jander só relataria aos mais próximos o episódio de sua saída. Gutje seria o próximo a abandonar o barco, após uma briga com André em Foz do Iguaçu. Nessa época, as grandes gravadoras já estavam escaldadas com a má reputação da banda e não se interessaram nem por uma demo gravada por Mayrton Bahia, produtor da Legião Urbana. Algumas músicas que estariam no disco Mais Raiva do que Medo já faziam parte desse registro, tais como "Este Ano" e "Sem Deus, Sem Lei". O pivô da saída de Gutje seria as divergências quanto ao empresário da banda na época. Controvérsias à parte, mesmo sem gravadora, a Plebe chegaria até a se apresentar em rede nacional no Programa Livre. Com a debandada, a dupla remanescente quase acabou com a banda. Philippe recorda: "Eu consegui convencer o André mas, pelo visto, não deu. De qualquer forma, tentamos, e tem sempre que se tentar mesmo". Mais Raiva do que Medo marcou a estréia da Plebe na Natasha Records mas, apesar de conter boas canções, não foi suficiente para que a banda se mantivesse. Apesar de conter canções memoráveis, o disco traz algumas letras que deixam escapar um certo sentimento de despedida, principalmente na bela "Quando a Música Terminar". No saldo final, a Plebe Rude encerraria definitivamente as atividades em um show abertona Praia de Ipanema junto com o Ira!, numa festa da rádio Fluminense FM, que também agonizava. Coincidentemente, uma conjunção de fatores marcou o fim dos rudes plebeus. André se tornou pai, passou num concurso público e resolveu voltar definitivamente para Brasília, em busca deuma vida mais estável. Por sua vez, Philippe se divorciou e mudou para Nova York, (mas antes passou por Brasília para ficar perto de seu pai, que estava doente, falecendo depois de três meses em coma). Encerrou-se assim, a história da Plebe, a banda que mais sintetizou os anseios sonoros e ideológicos da turma inicial de roqueiros de Brasília. Os músicos só voltaram a se reunir em agosto de 1999, para encerrar o Festival Porão do Rock, realizado em Brasília. O grupo retornou à ativa recentemente para a gravação de um disco ao vivo pela EMI, sua primeira gravadora. Uma boa notícia: se repetirá a bem-sucedida dobradinha Plebe Rude-Herbert Vianna, que havia sido o produtor dos dois primeiros discos e que fazem parte da discografia clássica da história do rock nacional. O baixista André Mueller era o mais intransigente quanto à uma reunião da Plebe e evitava tocar no assunto. Com relação à reunião, ele declarou que a banda recebeu uma proposta irrecusável e que aproveitou o período de férias no Banco Central para se dedicar à gravação do disco. Phillipe comenta: "Tudo bem, o André tem direito à opinião dele. Mas na verdade, ele estava com um sorriso imenso no show em Brasília (referindo-se ao Festival Porão do Rock). Ele estava curtindo muito. Um conhecido nosso chegou até a brincar falando que ele estava chorando (rindo)! Mas não queremos viver nisso, não queremos ficar fazendoshows e virar cover de nós mesmos. Queremos resgatar isso e fazer de uma forma legal. A EMI relançou os discos em CDs individuais. Infelizmente só agora tem todo esse auê em torno da Plebe. Mas isso acontece, é assim que as coisas são", revela. No disco ao vivo devem constar duas covers de bandas admiradas pela Plebe. Uma delas é "Medo", uma canção do Cólera, do disco Pela Paz No Mundo; a outra é "Luzes", clássico subterrâneo do Escola de Escândalos, banda de Bernardo Mueller, tida como a jóia perdida do cenário. "Vamos tocá-la como uma homenagem ao Feijão", disse Philippe, referindo-se ao pródigo guitarrista, falecido em meados dos anos 90. Vale ressaltarque o guitarrista também recebe menção honrosa no livro de Marchetti, aoter um capítulo especialmente dedicado a ele. Vale ressaltar que "Luzes" já foi gravada pelo próprio Escola de Escândalos na coletânea Rumores, um pau-de-sebo com várias bandas brasilienses da terceira geração. Após a gravação do disco ao vivo e uma possível excursão pelas capitais do país, a Plebe Rude retornará à tumba, fechando o caixão definitivamente. Mas a história da banda não acaba aí: Philippe Seabra, o único integrante a ainda trabalhar diretamente com música -já que Jander agora trabalha nos bastidores - prepara a invasão planetária de seu novo projeto: Daybreak Gentlemen. Conforme publicado na edição 21 da Rock Press, que ouviu com exclusividade o material da banda, incluindo algumas demos caprichadíssimas, o plebeu pretende se dedicar inteiramente a este novo trabalho após o primeiro semestre de 2000, quando ele volta para Nova York.

Apesar da qualidade do material, o trabalho não é visto com bons olhos pelo amigo Herbert Vianna, que percebe no projeto "one-man band" uma manifestação megalomaníaca do Plebeu: "O Philippe é um cara adorável, mas é também um sujeito muito complicado. É muito fácil ele ir do zero ao ego infladaço bem rapidamente. E eu lembro que quando estávamos fazendo o álbum O Concreto Já Rachou, antes do disco sair ele já dizia: 'Nós vamos comprar um P.A. porque venderemos 500.000 cópiase vamos fazer mais não sei o quê...' e não tinha quem pudesse falar para ele o contrário. Em tudo ele era bom pra c* e o resto do mundo era uma merda. E, às vezes, ele ainda é assim hoje em dia. Em Brasília, neguinho queria matá-lo porque quando ele saiu do palco, num show que deu super certo para a Plebe, declarou: 'Eu não falei que ainda sou o rei dessa p*rra desse país?!' E aí neguinho quis matá-lo. E vem falar isso depois de anos com a bosta de um trabalho que ele está fazendo no exterior e que não toca pra ninguém. Ele vive por lá falando que é famoso no Brasil, uma coisa mal resolvida, e depois vem falar isso?", alfineta o amigo. Amigo?

JUNINHO Geraldo Ribeiro, ex-baixista da Blitx 64 e Escola de Escândalos e irmão de Loro Jones, lembra um episódio de sua adolescência relacionado ao amigo Renato Manfredini Jr. "Geraldo Ribeiro - O André Pretórius deu uma festa na embaixada da África do Sul, onde ele morava, e foi todo mundo da Colina para lá, elá conhecemos o Renato. Ele estava com uma capanga debaixo do braço, foia primeira e única vez que vi um punk de capanga. Um dia fomos jogar "War" na casa dele (Renato). Fui eu, João e Loro e era aquele negócio de um sacanear o outro. Aí eu ataquei o Renato, ganhei e tirei um sarro da cara dele, esse ataque foi assessorado pelo João que também ficava atacando-o. Ele ficou puto, pegou o "War" e jogou na nossa cara". (Trecho do Livro O Diário da Turma, de Paulo Marchetti. Capítulo "RENATO RUSSO")

DADO E O REINO ANIMAL

Mais conhecida em razão de menções sobre o grupo em entrevistas diversas, Dado e o Reino Animal seria uma das muitas bandas-relâmpago desse cenário. Formada por Dinho, Loro, Dado, Bonfá e o tecladistaPedro Thompson Flores, há controvérsias quanto às suas apresentações. Alguns referem-se a ela apenas como uma banda de ensaio, já outros alegam que chegaram a rolar alguns shows. Bonfá defende a primeira hipótese: "Apesar de o Dado ter te falado que nos apresentamos alguma vez, eu não me lembro onde. Quem cantava nessa banda, quer dizer, gritava, era o Lui (que tempos depois faria parte do Arte No Escuro),um artista plástico. Ele era muito doido e era vocalista de vez emquando, mas todo mundo cantava: eu, o Loro etc. Era uma banda de maluquetes que tocava de vez em quando na casa do Pedro Thompson. Ficávamos tocando no quartinho dele, nadando e comendo frutinha no gramado na beira do lago. Até fizemos umas músicas que estão gravadas, mas nunca nos apresentamos. É uma dessas bandas em que o nome é mais forte doque o que realmente aconteceu."

LEGIÃO URBANA - PRIMÓRDIOS

Paraná - ou melhor, Kadu Lambach, guitarrista de jazz - não fezparte da turma da Colina. Ele entrou em cena em um período um tanto pitoresco: o início da Legião Urbana. Paraná foi o primeiro guitarrista da Legião Urbana e conheceu Renato Russo recém-saído do Aborto Elétrico - na fase da Quadra 101 Sul, onde ele passou por uma fase de transição. Renato andava pela cidade carregando sua viola Giannini, artefato sentimental que seu pai guarda até hoje, cantando músicas como "Que País É Este?" e "Eduardo e Mônica". "Ele havia me visto tocar numa festa no Lago Norte e me convidou para tocar com ele e o Bonfá", lembrou Kadu. Era 1982 e Renato inicialmente não queria tocar canções de suaantiga banda. A exceção era feita inicialmente à "Conexão Amazônica", num repertório que continha canções como "Química", "Dado Viciado", "Música Urbana 2" e a inédita e desconhecida "Carne Clandestina". O set list ensaiado era grande e por fim acabou incluindo canções do Aborto, além de um tema instrumental chamado "O Cachorro", razão pela qual Paraná saiu da banda, de acordo com o próprio guitarrista: "Eu queria ultrapassar estágios". Com a saída de Paraná e do tecladista Paulo Paulista, aos poucos se delinearia a formação definitiva: "O Paulista também se mudou, foipara outro canto. Ainda éramos crianças e a coisa foi ficando mais no núcleo, eu e o Renato. Chegamos até a nos apresentar sozinhos alternando bateria/baixo, bateria/voz e bateria/teclado. Inclusive algumas músicas foram até feitas assim: "Soldados" e, se eu não me engano, "Ainda É Cedo" também. Era assim no começo, umas quatro ou cinco músicas que tocávamos assim como dupla - uma coisa bem alternativa", lembra Bonfá dos primórdios da Legião, quando alguns clássicos começariam a tomar suas formas definitivas. Com o sucesso estrondoso que sua ex-banda alcançaria pouco depois, Paraná teve de amargar sua escolha por um tempo: "Quando a Legião fez sucesso, aquilo para mim foi uma porrada. Quase larguei a música, mas pensei: ou eu me tornava um cara recalcado ou tentava ser uma pessoa feliz tocando em um nível que sempre almejei", disse.

O PRIMEIRO SHOW DA MAIOR BANDA DO BRASIL

Outro incidente histórico seria presenciado num festival em Patos de Minas. Seria o primeiro show da Legião Urbana, que se apresentaria junto com a Plebe Rude. "Pegamos um ônibus em Brasília, fomos parar lá em Patos de Minas e tocamos", conta Bonfá. "A Legião tinha essa formação diferente e tocávamos umas músicas diferentes. Mas foi legal, uma coisa bem punk, no interior de uma cidade, num festival de rock". Nessa ocasião, ambas as bandas teriam alguns problemas com a polícia, em razão da contundência de algumas letras, principalmente por causa de "Que País é Este?" e "Vote Em Branco", uma canção até hoje inédita da Plebe Rude. André Mueller ressalta que os problemas com as autoridades foram decorrentes principalmente dos discursos que entremeavam as músicas: "Acabamos sendo escoltados até a delegacia e, de lá, eles nos mandaram pegar o primeiro ônibus de volta para Brasília". Anos depois de sua passagem-relâmpago pelo Aborto Elétrico, o guitarrista Ico Ouro Preto, irmão de Dinho, repetiria a dose com a Legião Urbana. Após sua saída, Dado Villa-Lobos assumiria a guitarra. Este, para camuflar sua deficiência no domínio do instrumento, lançaria mão de um farto uso de pedais de efeitos. Mais tarde, ele se notabilizaria por seu estilo peculiar, que os críticos da época teimariam, por desconhecimento do assunto, em tachar como seguidor do irlandês The Edge (U2), quando, na verdade, ele tentava emular o pós-punk dos Comsat Angels. RELIGIÃO URBANA Dado e Bonfá, apesar de ofuscados pela forte personalidade de Renato, construíam o cenário perfeito para o lirismo e a mise-en-scène do baixista-vocalista que, pouco antes das gravações do primeiro álbum da banda, cortaria os pulsos. Mas com a idade, Renato alcançaria a serenidade que simboliza a universalidade de suas canções mais pungentes, a ponto de conseguir agradar a pais e filhos. "É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã", assim se cristaliza a imagem do Messias, que se prenunciava em conselhos concedidos à audiência silenciosa nos intervalos entre as músicas apresentadas nos shows, nas mais diversas fases da banda ou até do próprio cantor, que durante os anos oscilou do psicotrópico furor à placidez da mais serena sobriedade. Com Renato Rocha substituindo-o no posto de baixista, o pródigo frontman pôde se concentrar nos teclados e acentuar ainda mais as qualidades de sua perfomance de palco, aditivada pelo combustível angariado em anos de apreciação e devoção à história do rock. Assimera o grande fã de rock pregando a seus discípulos o evangelho do rock'n'roll, a Palavra que o libertou. Mas o roqueiro também reverenciou a tradição da música popular, seja ao inserir versos de Pixinguinha em meio à sonoridade pós-punk, como também ao deixar sua assinatura em uma releitura impecável de "Juízo Final", composição de Nelson Cavaquinho - tão pessoal ao ponto de não soar díspar se comparada ao próprio material da banda. A partir do quarto disco, a sonoridade dos legionários torna-semenos visceral, assim como suas apresentações, cada vez menos freqüentes. O disco marcaria a fase de transição pela qual a banda estava passando e que havia sido camuflada pelo terceiro álbum e sua respectiva turnê. Por divergências profissionais, o baixista Renato Rocha deixaria a banda, o que se tornou mais uma razão para as mudanças nodirecionamento. Quatro Estações, o quarto álbum, mostrava um sereno Renato Russo, inspirado por leituras oriundas da cultura oriental, tais como Buda,Lao Tsé. Essa guinada marcaria um renascimento da Legião que, apesar da serenidade, ainda relegava a alguns temas a contundência característicada banda. O disco marcaria a fase de transição pela qual a banda passava e que havia sido camuflada pelo terceiro álbum e sua respectiva turnê. Por divergências profissionais, o baixista Renato Rocha deixaria a banda, o que se tornou mais uma razão para as mudanças no direcionamento. Mas a virada marcante diz respeito à espiritualidade que passaria a marcar as letras e discursos do cantor. Renato começara a ver a vidade outra forma, após a confirmação de que era soropositivo. Contando com a colaboração de músicos contratados, a Legião faria sua turnê mais bem-sucedida. No dia em que Cazuza morreu, em julho de1991, a banda lotou o Jockey Club no Rio de Janeiro. Mas o recorde absoluto de público em toda a sua carreira seria alcançado num show realizado em São Paulo no Ginásio do Ibirapuera. Nessa época, Herbert Vianna chegaria a se referir a eles como Religião Urbana. É o próprio quem explica suas razões: "Tínhamos tocado em Guarulhos e, na semana seguinte, eu estava passando pelo aeroporto da cidade e a menina daloja de revistas falou: 'Ah, vocês tocaram aqui?' Eu disse que tinha sido na semana anterior e ela falou que não tinha ido ao nosso show porque estava guardando dinheiro para ir num show da Legião. Perguntei se o show deles tinha sido legal e ela respondeu exatamente com essa frase, que me marcou muito: 'Se existisse uma Religião Renato Russo, eu faria parte dela'", declarou. Dado se refere a este episódio e com sua repercussão com o passardos anos: "Quando o cara de uma revista dessas perguntou ao Herbert sobrea Legião, ele respondeu: 'A Legião não conta. Eles não são músicos, é uma outra coisa'. Lembro que fiquei até chateado: 'Mas como? Nós somos músicos, nós fazemos música'. E o Herbert sempre foi um ídolopra mim, eu tocava guitarra vendo ele tocar. Bom, isso aí aconteceu! Ecom a morte do Renato cristalizou-se todo o processo de mitificação. Isso se resolve ali: mito-lenda. Aí não tem que ser". Marcelo Bonfátambém se esquiva quanto ao epíteto: "Quanto a essa coisa de Religião Urbana? Ah, sei lá! Sempre fomos uma banda de rock'n'roll" .

ERIC RUSSEL: JUNINHO E SUAS PRECOCES ASPIRAÇÕES ROQUEIRAS RETRATADAS NO CADERNO DEESCOLA

Renato Manfredini Jr., o maior ícone desse cenário, tinha uma particularidade: criava alter-egos. Inclusive, ele serianacionalmente conhecido por um desses pseudônimos: Renato Russo - inspirados por sua admiração por Jean Jacques Rousseau e Bertrand Russel. Ele tambémusava o pseudônimo de Eric Russel, explicando, inclusive em entrevistas o porquê do uso desses artifícios. Na ocasião da morte de Sid Vicious, baixista dos Sex Pistols e o maior ícone do punk-77, o futuro cantor da Legião Urbana ganharia um prêmio ao escrever uma carta emocionada sobre a morte de Vicious. Renato havia assinado a carta com o nome "Eric Russel", que em sua imaginação "era um cantor louro, rodeado de gatinhas" - como ele mesmo explicaria posteriormente esse caso típicode sublimação. Conforme o próprio cantor declararia em entrevista à jornalista Bia Abramo, o nome de sua banda fictícia se chamava 42ndStreet Band. Assim como Sid Vicious, Renato Russo também se tornaria um íconepop. Loro recorda o amigo antes da fama: "Ele tinha a capacidade de criar personagens e fazer as pessoas acreditarem nisso. E isso eu acho uma qualidade. Ele era um p*ta cantor e compositor, escrevia bem pra c***lho, mas eu acho que essa coisa de 'gênio' não existia. Acho que ele me respeitava mais do que outras pessoas da turma porque eu sempre falei com ele o que eu achava", declarou. Herbert Vianna fala um pouco do rapaz que conheceu por intermédio de seu melhor amigo dos tempos de escola em Brasília. Esse tal amigo era vizinho de Renato e faria a ponte entre os dois então aspirantes a rockeiros: "Foi tudo pensado, planejado, projetado. Ele escrevia biografias de bandas fictícias e era uma coisa engraçada porque ele tinha muito planejado quais os passos e as viradas que ele deveria dar na carreira e tal - fora todo o drama existencial de ter cortado os pulsos. O meu irmão tem até hoje as cartas dele do hospital. Ele escrevia muito para o Hermano falando que aquilo tinha sido uma espécie de 'body modification' e, às vezes, estávamos conversando sobre música e ele tinha esses dois lados: o do Juninho, mas às vezes ele tambémera um monstro - e você nunca sabia muito bem com qual estava lidando. Você estava falando: 'Poxa, como é jóia a nossa turma!' E ele, de repente, dava um tapa na mesa e falava: 'Cala a boca todo mundo porque agora vai falar quem realmente entende de rock aqui porque vocês não sabem nada...' Quando ele estava mal-humorado na EMI, neguinho entrava embaixo da mesa", exagera o paralama. Dentro e fora do palco, Renato seria o primeiro grande cantor dorock nacional, alternando sua verve e comportamentos que variavam da cóleraà candura angelical. Isso sem levarmos em conta suas letras que portavam questionamentos muitas das vezes universais, onde o poeta-cantor personificava os anseios e inconsciente coletivos. Juninho era um grande apreciador de rock e cultura pop, tão fã ao ponto de ter setornado ídolo. Ao lado de Renato, Bonfá também seria um dos fundadores da Legião Urbana. Apesar da proximidade, ele revelou não saber dessa história do caderno de escola. Mas Dado fala um pouco sobre a imaginação de seu companheiro de banda: "(rindo) O Renato sempre foi um fã de música, sempre fã de rock'n roll. Ele sabia tudo, era uma enciclopédia ambulante. Quando ele e o Jello Biaphra se encontraram, na época da Eco-92, foi impressionante. Mas ele tinha essa banda imaginária e ele escrevia tudo. Ele tinha a biografia de todos os integrantes. Era uma banda, sei lá, com um quinteto. O baixista era ele e tinha um nome -se chamava Eric Russel, daí o Russo. Então ele tinha a discografia da banda. O primeiro disco se chamava não sei tal, o lado A tinha seis músicas e o lado B tinha sete músicas. A primeira música era assim e falava sobre isso, isso e isso... já a segunda era tal, tal, tal... No lado B era a mesma coisa. Aí, o nome da editora era Sun FlowerEditions - alguma coisa assim. Mas é isso: você tinha muita informação do que era o rock, desde o comecinho dos anos 60 pra cá e ele romantizou e escreveu. É praticamente um livro sobre uma banda. É tipo o 'Spinal Tap', sabe? O cara fez aquele documentário, inventou aquela banda imaginária e está tudo ali. É mais ou menos a mesma coisa. Claro, nesse documentário existe humor à beça e tem coisas incríveis sobrerock e tal. O Renato não, ele ia mais no terreno da psicologia, na psiquêde cada membro. Ele conseguiu ficar horas num ônibus falando sobre essa banda, no que era uma viagem tipo Vitória-Guarujá. Isso estava no imaginário dele. Não sei se é a história da Legião, mas podia muitobem ser. Ele romantizou e tal", lembrou. Dinho é outro que remete à capacidade imaginativa de Renato: "Umdia eu cheguei a num ensaio do Aborto e ele estava com a capa que ele tinha feito para um disco do Aborto. Era uma capa com uma foto que, aliás, era muito parecida com a capa que, anos depois, os Dead Kennedysusariam posteriormente: um cara enforcado numa árvore. Ele chegou até a fazer um encarte com todos os créditos e aí foi que descobri essa história de que ele tinha inventado toda a saga dessa banda. Era a ascensão equeda de uma banda de rock. Mas eu não não me lembro se o vocalista morre". Chegaram a rolar boatos de que Renato, desde os tempos de escola, escrevia histórias sobre um rockstar fictício e que acabaria imitando aquela história em sua própria vida. Bi lembra dessa história: "Ele realmente tinha um caderno com a história de uma banda fictícia e exatamente o que ele escrevia nessas histórias acabou se tornando praticamente a história da Legião. Ele contava que, a partir do 3o disco, a banda usaria mais violão e por coincidência ou não, isso aconteceu da mesma forma com a banda. Ele praticamente acabou vivendo isso mais tarde, mas eu não sei se isso foi uma coisa voluntária ou mesmo casual", disse. Eduardo lembra do amigo: "Ele exercia o alter-ego de diversas formas. Uma vez, eu o chamei de Manfredini e ele ficou puto comigo e disse: 'Você nunca mais me chame de Manfredini, eu sou Russo'. Eu retruquei que era o nome dele, mas ele disse que o nome dele era Renato Russo". Segundo os amigos, Renato era uma figura cheia de mistérios e talvez seja por isso que tenham surgidos vários boatos a respeito desuapersona. RUMORES Paralelamente à de Brasília, outras cenas emergiam pelo país - notadamente no Rio, São Paulo e Rio Grande do Sul. Enquanto que nesses lugares rolava uma diversidade sonora muito grande, em Brasília havia uma unidade, já que a maioria das bandas foi influenciada pelo punk. Isso poderia criar rivalidade entre elas, o que não aconteceu. Equipamentos eram emprestados, mas havia a política e o sigilo necessário quanto ao agendamento de shows. Uma coisa natural, diga-se. Em determinado momento o número de bandas se multiplicou. Isso aconteceu mais ou menos quando Capital Inicial, Legião Urbana e Plebe Rude começaram a ganhar a vida no eixo Rio-SP. Nesta época, inaugurou-se a terceira geração de bandas locais influenciadas pelorock inglês que, ao contrário da turma inicial contou até com certo apoio da prefeitura local. Uma compilação lançada pelo selo independente Sebo do Disco em 1986 marcaria o debut da terceira geração de bandas brasilienses dos anos 80. Entre seus expoentes estavam figuras da antiga entremeados a novatos inspirados pelo discursos das bem-sucedidas bandas anteriores. Uma infinidade de grupos seria criada, mas apenas poucos conseguiram emergir do cenário local. Entre eles estavam duas bandas dessa coletânea: Finis Africæ e Detrito Federal, as únicas a conseguirem gravar discos, ambos pela EMI. Esta compilação seria o único registro oficial da Elite Sofisticada. O Escola de Escândalos também está presente na coletânea, seu único registro além de uma demo sem sucesso gravada para a EMI e produzida por Philippe Seabra. O Detrito Federal gravaria, no final da década de 80, seu único álbum, Vítimas do Milagre, mas sem a formação original que tinha como vocalista o lendário Podrão. Já o Finis Africæ gravaria sem Rodrigo Leitão, o vocalista da formação que participa da coletânea, um ótimo EP independente antes do único LP pela EMI. Com a entrada de Eduardo,eles fariam um rock romântico carregado de influências do pós-punk inglês misturadas à black music: positive funk, seria o emblema da banda na época de sua formação. "Éramos a banda punk preferida pelos pais dos nossos amigos", declarou o baterista Ronaldo Pereira. Apesar de um tanto à parte do cenário punk brasiliense, o Finisteria Mayrton Bahia como produtor (Legião Urbana) e seria vendido pela EMI no mesmo baú das bandas mais contestatórias. E apesar da boa execução de duas músicas nas rádios, "Armadilha" e "Máquinas", as vendas do disco acabaram minguando, o que levou a gravadora a rescindir o contrato com a banda. Em troca, os músicos aceitaram a produção de uma demo a ser oferecida para outras gravadoras para um futuro contrato, o que também acabou não vingando. O baixista Neto foi o primeiro a abandonar o barco, seguido pelo guitarrista José Flores. Em seguida, o Finis reformulou-se e encerrou as atividades em 90; voltaram recentemente com a última formação para a gravação de um disco ao vivo.

POLARÓIDES DA CENA

Pouco tempo depois da morte de Renato Russo, surgiram boatos de que o material inédito do Aborto Elétrico seria gravado por várias bandas num tributo a Renato. Entretanto, a divulgação dessa informação acabou sendo um tiro n'água, já que existem impedimentos legais para o conclusão do projeto. Fê relata: "Quando rolou esse papo, acho que todo mundo estava envolvido num clima emocional devido ao falecimentodo Renato. Eu não havia colocado isso como uma prioridade na minha vida, mas algumas pessoas embarcaram nessa. Inclusive surgiram algunsboatos, saiu uma matéria num jornal dizendo que o baú do Renato já tinha dono. E isso foi muito chato porque sempre deixei claro que nunca faria nada sem a autorização da família". André Mueller ressalta que "não existe nada de mal no fato de Fê regravar o material do Aborto, já que ele tocou com Renato bem no início da coisa. E agora, está todo mundo gravando músicas do Renato". Flávio também concorda que isso seria uma coisa muito legal: "A banda tinha grandes músicas e a maioria delas só existe num único lugar: na minha cabeça. Eu tenho até que registrar isso, nem queseja só para mim mesmo - pelo menos pra eu não esquecer". Ameba também vê com bons olhos a empreitada, mas incluiria material de várias bandas da época, não se restringindo só ao do Aborto Elétrico: "São músicas maravilhosas que ninguém conhece porque só foram tocadas em Brasília naquela época. Eu até já conversei isso com o Dado." Produtor e dono do selo Rock It!, Dado foi questionado quanto à possibilidade de lançar o material daqueles grupos, já que muitas pessoas possuem registros de materiais incríveis dessa época, que podem ser encontrados até na Internet. O guitarrista acha difícil: "É muito ruim a qualidade do que se tem em registro desse material. É aquela fita Basf laranja ferro-chromo. Mas eu tenho um amigo que tem muita coisa, vai começar a digitalizar e você vai ver o que acontece. Masnão sei... como registro está lá, tem coisas incríveis. É barulho, distorção e pura energia (rindo)". Outro registro inédito da época de Brasília é o filme Ascensão e Queda de Quatro Rudes Plebeus, sobre os primórdios da Plebe Rude. O filme - dirigido por Gutje e Helena Woortman, sua esposa na época - chegou a ganhar alguns prêmios no circuito alternativo de cinema e traz algumas cenas antológicas. Numa delas a Plebe Rude toca uma versão de "Garota de Ipanema" com os seguintes versos: "Manfredo, Manfredo, Manfredo, caçador de talentos..." No filme, Renato Russo interpreta um empresário todo almofadinha que, ao escutar o som da Plebe, começa ater um ataque epiléptico por adorar a banda. O contrato é assinado, abanda fica milionária, mas perde tudo num assalto promovido por Bernardo, do Escola de Escândalos. O filme era narrado por Renato Russo, mas infelizmente o áudio original foi perdido para sempre. Em outra cena memorável, um dos Plebeus carrega uma caveira numa bandeja e diz, de forma maquiavélica: "Cabeça de Lesmos" - numa alusão aos irmãos Lemos. Flávio contou que emprestou o crânio para André e que este nunca mais o devolveu: "Se eu soubesse que era pra sacanear a gente, não teria emprestado (rindo)", conta. Existe a possibilidade de a Plebe Rude exibi-lo em seus shows derradeiros, como declarou Philippe: "Vamos dar uma reeditada, colocar uma trilha nova e isso pode ser parte integrante do show ou então vamos passar durante o show".

"BRASILIENSES" NO ANO 2000

Passados vinte anos desde as formações das bandas, algumas delas estão retomando os trabalhos. O Capital Inicial voltou aos estúdios para gravar o álbum Atrás dos Olhos, o primeiro após os imbróglios que ocasionaram a separação da formação inicial - ocorrida após um show no Circo Voador, em 93. Loro se esquiva quanto às razões do incidente: "Aquilo ali foi barra pesada. É melhor nem falar nisso". Atrás dos Olhos contou com a participação de Philippe Seabra, da Plebe Rude, numa das canções. Assim como a Plebe Rude e o FinisAfricæ, o próximo lançamento do Capital Inicial será um disco ao vivo, como nos conta o vocalista Dinho: "Será uma homenagem às bandas de Brasília,com participações especiais de algumas figuras daquela cena". Fora isso, os Paralamas do Sucesso gravaram o álbum acústico com a participação do legionário Dado Villa-Lobos e planejam carregar o amigo na excursão do disco em shows nas grandes capitais. Enquanto não sai o tão esperado box set com outtakes e registros raros, a Legião Urbana saciou a sede dos fãs com um pacote contendo vídeo e CD gravados para o programa da MTV. Além disso, seráinaugurado em Brasília um museu em homenagem a Renato Russo, organizado pela sua própria mãe. Como se vê, a história ainda não acabou!

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Porão do Rock fanzine - 10/11/1999
Por André Mueller

Fevereiro, 1994 - Praia de Ipanema, show da Rádio Fluminense, Ira! tocando. Eu estava no camarim pensando no que estava sentindo, aquele sendo o último show da Plebe Rude. Tristeza? Melancolia? Frustração? Dez anos de minha vida dedicado a tocar com essa banda e, em alguns minutos, estaria subindo no palco para a última apresentação. Na verdade, estava me sentindo aliviado. Aquela banda não era nada parecida com a Plebe original, só tinha o Philippe e eu. Sentia falta da sobriedade do Jander, das ratices do Gutje, enfim, de toda a química que fazia a coisa funcionar. O que ia subir no palco para se despedir era uma Plebe mutilada, sem gás.

Agosto, 1999 - Concha Acústica de Brasília. Uma jam rolando no palco, com o Rumbora e convidados. Eu estava no camarim pensando como era ruim aquela barulheira e porque não param de tocar logo para a Plebe poder subir e se reencontrar com o público. Apesar da hiperfantástica administração do festival, o show atrasou. Sempre atrasa! Estava me sentindo ansioso. E cansado com a maratona de ensaios, entrevistas e reencontros. Mas quem ia subir no palco era a Plebe original, com Gutje e Jander! Sim, ia ser bom ? e foi! O show foi um dos melhores que me lembro. O bis, quando tocamos "Luzes" (Escola de Escândalo) me deixou arrepiado. O gran finale foi fantástico! Saí do palco com a sensação que, agora sim, as minhas lembranças do passado podem descansar em paz, a frustração foi aniquilada. O futuro eram as bandas que tocaram antes de nós. Somos o passado, mas somente escrevemos a nossa última página naquele dia.

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