Plebe Rude

Rock de combate

O Hoje (GO) Matéria de capa - 06/12/2012

Por Adalto Alves

Bandas ícones dos anos 1980, Plebe Rude e Biquíni Cavadão apresentam-se amanhã no Oscar Niemeyer

A 14ª edição da Festa dos 600, que centra o foco em estrelas do rock produzido ao longo da década de 1980, traz Plebe Rude e Biquíni Cavadão, amanhã, ao Centro Cultural Oscar Niemeyer. Bruno Gouveia (vocal), Carlos Coelho (guitarra, violão), Marcelo Magal (baixo), Álvaro Birita (bateria), Miguel Flores (teclados) e Valmer Carvalho (saxofone) são os integrantes do Biquíni. Quem deu o nome da banda foi Herbert Vianna, do Paralamas do Sucesso. Ele também produziu o primeiro disco da Plebe Rude, O Concreto Já Rachou, de 1985. Tédio, primeiro do Biquíni, é do mesmo ano.

1985 é emblemático para o rock brasileiro. A cena por excelência é Cazuza, do Barão Vermelho, cantando Pro Dia Nascer Feliz, na primeira edição do Rock in Rio, depois de anunciar a escolha de Tancredo Neves como primeiro presidente civil, passados 20 anos de ditadura, pelo voto indireto no Colégio Eleitoral. Philippe Seabra (vocal, guitarra), Clemente (guitarra), André X (baixo) e Marcelo Capucci (bateria) são os membros atuais da Plebe Rude. Banda que, contemporânea de Legião Urbana e Capital Inicial, engrossava o caldo da turma de Brasília, direcionada pela fúria punk.

O último disco de inéditas do Biquíni, Só Quem Sonha Acordado Vê o Sol Nascer, é de 2007. Daí em diante, a banda empreendeu uma jornada de revisão de seus sucessos. Além de regravar com novos arranjos boa parte do pop rock tatuado na época de seu surgimento. Espere ouvir uma saraivada de canções que revelam sentimentos indiscutíveis de nostalgia. Se você não acompanhou a efervescência de perto, a lição será dada ao vivo, com a pulsação de quem conhece todos os riscados. Já que, na década de 1980, os lançamentos em LP tiveram seu auge.

Philippe Seabra e André X são da formação original da Plebe Rude. Clemente, figura conhecida do punk paulista através dos Inocentes, reforçou a banda no começo dos anos 2000. O disco novo, conta Philippe em entrevista exclusiva para O HOJE, está programado para o primeiro semestre do ano que vem. Período que será agitado pelo lançamento dos filmes Somos Tão Jovens e Faroeste Caboclo, baseados em episódios controversos do rock da Capital Federal, como o documentário Rock Brasília. Todos com a participação da Plebe. Que também prepara o documentário Plebe Ignara. Sempre com olhos e ouvidos na contestação.

'Essa moda passa, como tudo de ruim no pop'

O documentário Rock Brasília – Era de Ouro joga um pouco mais de luz sobre o rock nos anos 1980. Mas não parece que estamos presos nesta cápsula do tempo?

Às vezes, acho um pouco exagerado essa adoração aos anos 1980, mas entendo de onde ela vem. As pessoas esquecem que a década começou com uma ditadura e terminou com uma crise econômica terrível. Essa visão alegre e colorida dos anos 1980 contrasta muito com a realidade em Brasília. No começo, o rock surgiu mais por urgência do que por qualquer outra coisa. Tínhamos que mandar músicas para a censura e apanhávamos da polícia. O clima na sede do poder era tenso. Isso nos afetava e acabava se manifestando nas canções, nossa única válvula de escape. Essa seriedade meio atemporal das músicas manteve as bandas na mídia e a relevância dos trabalhos esse tempo todo. A impressão de uma cápsula do tempo, cá entre nós, é porque, à exceção do mangue beat, os anos seguintes não produziram um movimento tão impactante. Citando Kid Vinil, "o rock brasileiro está sangrando". Sempre teve pop ruim por aí ocupando espaço vital na mídia, mas agora parece que é só isso que existe. Nenhum letrista inspirado, nenhum riff de guitarra memorável, nenhuma mensagem e essa m** 'desinspira' quem ouve. Minha geração cresceu com Monteiro Lobato na TV e nossos pais nos incentivaram a ler e a ter critério. Como pai recente e produtor musical, fico triste ao ver o caminho que a música popular tomou. Cabe a bandas como Plebe Rude mostrar que vale a pena ter princípios e não abaixar a cabeça para o mercado, manter o questionamento vivo. O que as pessoas sentem é saudade da pureza, da crueza e do embasamento do rock. Na falta de qualquer coisa que preste no rádio, elas se voltam para a década de 1980. Nos shows que fazemos pelo Brasil, há cada vez mais jovens cantando as músicas recentes da banda. Isso é fantástico.

Por que fica a impressão de que ninguém mais fez sucesso depois dos anos 1990?

Depende da definição de sucesso. Em termos de vendagem, foi uma década difícil para a música não comercial. Mas, em termos de marcar uma geração, influenciar artistas e manter-se fiel aos princípios no meio do volátil mercado brasileiro, considero um sucesso absoluto. Fico feliz ao ver esse respeito ao rock de Brasília, apesar de não concordar com quem se aproveita da obra do Renato Russo, agora que ele não está mais aqui para impedir. Sucesso não é estar na mídia todo dia ou abrir os braços cantando músicas que não escreveu, é ser culturalmente relevante e respeitado pelo que você criou. No caso da Plebe, a banda atingiu um nível de respeito que prezamos muito, pela trajetória e postura. Isso não tem preço. Tento passar para os artistas que produzo a importância da coerência. Algumas músicas nossas são usadas em salas de aula, salientando as diferenças sociais e estimulando o senso crítico. Viramos questão de vestibular. Nada mais enche a gente de orgulho.

A internet é o grande canal de divulgação da música na atualidade? Faz restrição ao uso indiscriminado?

Infelizmente, a internet não cumpriu a promessa de nivelar o campo para artistas independentes. O jabá continua solto e o que manda é o dinheiro. Mas é uma ferramenta incrível. Claro que você precisa de conteúdo. Ainda não se sabe como proteger a propriedade intelectual na era digital (talvez, jamais saberemos), mas conteúdo é tudo. Outro dia, vi uma banda fazendo promoção de download em celular, para pegar uma senha de acesso a um clipe exclusivo que poderia ser editado. Tudo bem, mas a música era uma porcaria. O público brasileiro é muito preguiçoso. Quer sucesso, não importa de onde. Pode ser cover, sertanejo, axé, pop, rock. Contando que possa cantar junto. É um daltonismo que me estarrece. Eu quero pessoas cantando os sucessos da Plebe porque captaram a mensagem, não porque lembram a letra do rádio. Mas a internet ajuda a contextualizar nossas músicas. E se eu concordo ou não com o acesso livre da nossa obra, tanto faz. Está tudo lá. O gato já saiu do saco.

O concreto brasileiro rachou com o julgamento do mensalão?

Que maravilha ver pilantra na cadeia! Mas e o dinheiro? Vão devolver? Aí fica fácil. É um escândalo por semana, entre juras de calúnia e inocência. Depois, os safados dão festas suntuosas com deputados, como se nada tivesse acontecido. Coisas de Brasília. Já viu alguém devolver o dinheiro? Para piorar, o eleitor reelege os mesmos nomes. Melhor votar num conhecido que num anônimo. Melhor ir num show ruim, mas levantar o braço e cantar junto do que ter uma experiência nova. Triste! Mas sou otimista. O brasileiro demora, mas aprende a votar. Um pouco demorado demais para meu gosto, mas aprende. Falta perceber que rádio e TV não delineiam o horizonte.

O movimento punk ainda faz sentido, depois que os sertanejos adaptaram calças rasgadas e cabelos moicanos?

Ridículo, não é? Mas punk é postura, antes de qualquer coisa. Essa moda passa. Como tudo de ruim no pop brasileiro. Demora, mas passa. A grande pergunta é se o público brasileiro sabe a diferença. Acho que não.

O rap pegou o bastão da crítica social do punk. O rock ficou domesticado?

O rap é a próxima onda de som contestatório. No punk, não precisa saber tocar muito. No rap, não precisa saber tocar nada. Punk e rap te desafiam a fazer parte do movimento, não ser um espectador. O rock brasileiro está manso. Mas é importante separar o que está na mídia e o que não está. Da velha guarda dos anos 1980, alguns garantem o leite das crianças. Soam cansados e burocráticos. Os artistas novos que desembolsaram o jabá são insossos. Qual foi a última vez que você ouviu uma letra inspirada no rádio? Algo novo e revigorante? Na década de 80, os programadores tinham autonomia. Agora, é só lucro. "O importante é a renda", cantamos desde 1983. No meio independente, sinto vibração, conceito, atitude. Eles têm o mesmo gás e inocência da década de 1980. Na época, não tínhamos perspectiva de viver de música. Hoje, para quem faz som autoral, parece ser assim também. O importante voltou a ser postura e mensagem. Estou vendo esse descompromisso de novo. A arte transcende barreiras. Os profissionais que me inspiraram, cineastas, escritores, pintores, fotógrafos, músicos, inovaram por conta própria, independente das adversidades.

Como produtor, a qualidade do que você grava é animadora?

Estou com um estúdio enorme em Brasília. Montei para competir com qualquer estúdio no mundo. Como faço mixagem e masterização em Nova York, se não gravo com os mesmos equipamentos dos gringos, do instrumento ao cabo ao pré-amplificador ao conversor analógico/digital, finalizo com as mesmas pessoas. No disco novo da Plebe, previsto para março ou abril, usarei a mesma equipe indicada ao Grammy Latino pelo DVD Rachando o Concreto ao Vivo. Mas fundamental é a matéria-prima, a canção. Apesar da apatia do público a novidades, continuo investindo em bandas novas.

Quando a Plebe Rude vai entrar em estúdio para gravar um disco de inéditas?

Tive que adiar o disco novo em alguns meses, por causa da trilha sonora de Faroeste Caboclo, que está ocupando meu tempo. Também estou produzindo a banda Termika, de Anápolis, e outros artistas. Mas bateria e baixo estão prontos. Eu e o Clemente vamos colocar as guitarras em janeiro, com documentaristas filmando tudo.

Em que pé se encontra o documentário Plebe Ignara?

Estamos no meio da produção. O lançamento será no primeiro semestre de 2013. São 30 anos de confusão e rock'n'roll, prisão e censura, postura e coerência. É difícil manter uma banda de princípios nesse país, mas alguém tem que dizer 'não' e 'basta', de vez em quando. O filme super-8 de 1982, Ascensão e Queda de Quatro Rudes Plebeus, aparecerá na íntegra, com participação de um jovem Renato Russo. A Plebe era a banda favorita dele. Além de Rock Brasilia, agora em DVD, estaremos em Somos Tão Jovens e Faroeste Caboclo. Mais disco novo e documentário. Ufa!

Quais são os cinco discos fundamentais que mexeram com sua cabeça?

O primeiro do Killing Joke (inspirou de Trent Reznor a Kurt Cobain). London Calling, do The Clash (mostrou que o pós-punk era atitude independente do estilo). Gerais, do Milton Nascimento (ele adotou o tom grave nesse disco, com momentos muito sérios). Band on the Run, do Paul McCartney (pulava em cima da cama, ouvindo isso). Tommy, do The Who (Pete Townshend é o guitarrista mais importante do rock. Ponto).

Festa dos 600
Biquíni Cavadão e Plebe Rude
Quando: Amanhã
Onde: Centro Cultural Oscar Niemeyer (Av. Deputado Jamel Cecílio, nº 4.490. Setor Fazenda Gameleira. Fone: 3201-4905)
Horário: 22 horas
Ingresso: R$ 50 (front stage), R$ 70 (camarote feminino), R$ 110 (camarote masculino)

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