Plebe Rude

Plebe Rude une punk de Brasília e São Paulo

Jornal Musical - 25/09/2006
Por Marco Antonio Barbosa

"A primeira vez é sempre mais difícil/ Mas agora o caminho de volta eu sei de cor", canta Philippe Seabra na segunda faixa do novo disco da Plebe Rude, R ao contrário. Versos emblemáticos para anunciar o retorno de uma das mais emblemáticas bandas brasileiras dos anos 80 - retorno definitivo agora, depois da primeira dissolução (1994) e de uma volta temporária (1999-2002). Dentro do infindável tsnunami de flashbacks oitentistas, a Plebe tem credenciais para surfar um pouco mais alto. A saber, um disco de inéditas e a adesão de Clemente (líder dos Inocentes) na guitarra e segunda voz, unindo de maneira inesperada duas escolas de punk brasileiro (a brasiliense e a paulistana). Assumindo o (aparentemente) enigmático título como ética de trabalho, a Plebe tenta provar que seu som e seu discurso ainda têm, em 2006, a mesma urgência de 20 anos atrás.

"A Plebe sempre fez tudo ao contrário mesmo", afirma Philippe, mais uma vez liderando a nova formação, que além de Clemente inclui o baterista Txotxa (ex-Mascavo Roots) e o plebeu original André X no baixo. É André quem explana melhor o conceito: "Não queremos acertar, e sim errar ao contrário, daí o título da música e do disco. É nosso jeito de fazer as coisas ao nosso modo, mesmo seguindo caminhos que nem sempre foram os mais acertados..." Philippe arremata: "O título faz sentido dentro da nossa trajetória. Tomamos decisões coerentes e com isso temos o respeito do público. As pessoas ainda ouvem o que temos a dizer, depois de 20 anos".

Um dos "erros ao contrário" que a Plebe tomou pode ter sido a decisão de desistir, em 2002, da reunião com a formação original da banda, uma segunda volta que rendeu alguns shows esporádicos e um disco ao vivo (Enquanto a trégua não vem, 2000). "Nós sentíamos que seria uma volta temporária. O disco fez sucesso, a imprensa falou bem, mas sabíamos que não iria para a frente", narra Philippe sobre a reencarnação da PR com os fundadores Jander (guitarra e vocal) e Gutje (bateria). André X conta: "Sempre comparo aquele retorno à volta do Capital Inicial. Quando eles voltaram, sentaram para lavar toda a roupa suja, resolver as brigas. A Plebe não fez isso. Para se ter uma idéia, o Jander só foi se reunir com a gente horas antes do show que iria marcar nosso retorno, em 1999!" Philippe conta que ainda houve um esforço concentrado, que foi em vão. "Chegamos a gravar novas músicas, nós quatro. Aí o Gutje arrumou um emprego e saiu da banda, cada um foi para um lado... Eu preferi puxar a tomada, deixar a banda morrer, do que ficar me arrastando, trocando os músicos e só mantendo o nome da Plebe".

Corta para 2004, quando Philippe reecontrou Clemente em um show-tributo ao The Clash, em São Paulo. "Tinha o Nasi (Ira!), o Redson (Cólera) e até o Supla, nosso líder, o rei do movimento punk", ironiza o vocalista dos Inocentes, banda crucial do punk brasileira, ativa desde o começo dos anos 80. A Plebe e a banda de Clemente tinham ligações antigas, que remetem aos primeiros shows dos grupos brasilienses na capital paulista. "Os Inocentes e o Cólera são meio que bandas-irmãs da Plebe, tiveram trajetórias parecidas dentro do mercado, seguiam o mesmo idealismo", diz Philippe. "Fazia três anos que eu não via o Clemente. Mas naquele show eu tive uma epifania (risos). Eu vi a Plebe renascendo com o Clemente". André corrobora: "Nós já tínhamos planos de voltar a gravar, mas o Jander já estava fora. Pensamos: 'Se gravássemos um acústico, poderíamos chamar alguém para participar, um músico que a gente respeitasse...' E por que não o Clemente?" E o inocente replica: "Eu estava em casa com meus dois filhos, brincando, e o Philippe me ligou convidando para entrar na Plebe. E eu respondi: 'Tem cachê?' (risos)". A estréia do novo plebeu, que agora supre o vocal grave antes feito por Jander, foi no Circo Voador, em novembro de 2004 - mesmo lugar que abrigou o show de lançamento de R ao contrário, no último fim de semana.

E de acústico o disco novo tem muito pouco. O repertório novo foi gravado entre 2003 e 2004 no próprio estúdio de Philippe em Brasília, contando com os préstimos de três bateristas (além de Txotxa ainda há faixas com Iuri Freiberger e "Voto em branco" traz Fê Lemos, do Capital Inicial). Chegando de última hora, Clemente colaborou com os vocais em "E quanto a você", "Discórdia", "Mil gatos no telhado", "Mero plebeu", "Katarina", "Dançando no vazio", "Remota possibilidade" e "Voto em branco". André elogia: "A musicalidade do Clemente me surpreendeu. Agora sinto como se estivesse em uma banda, para valer".

A reação do público à substituição do ícone Jander tem sido positiva, como conta Philippe: "Acho que vai dar para manter o conceito 'clássico' do grupo. A maioria das pessoas não diz 'Pô, cadê o Jander?' e sim 'Pô, é o Clemente!'". O novo plebeu, por sua vez, destaca a maturidade do novo trabalho. "O disco ficou guardado por mais de um ano e quando fomos ouvir de novo, para lançar, ainda soou legal, não precisamos remixar nem mexer em nada", conta Clemente. R ao contrário chega ao público encartado na revista Outra Coisa, colocando a Plebe oficialmente no reino do rock independente. "Tivemos algumas propostas de gravadoras grandes, mas todas foram bem indecentes", diz Philippe, explicando a opção pela distribuição alternativa em bancas de jornal.

A Plebe sempre foi uma banda conhecida por suas letras de carga política ("Censura", "Até quando esperar", "Brasília", "Proteção"). Retomando as atividades em um ano eleitoral crivado de crises institucionais, o grupo assume explicitamente a contestação em "Vote em branco" - pinçada do repertório do primeiro grupo de André X, os Metralhaz. "Essa música é um aviso. Foi composta no comecinho dos anos 80, uma época em que não havia eleições diretas - daí a ironia. As pessoas queriam ter direito a votar e quando conquistaram esse direito, elegeram os mesmos nomes de antes", fala André, referindo-se ao refrão que brada "Seja alguém / vote em ninguém". Apesar disso, Philippe confirma que R ao contrário é o disco mais introspectivo e menos discursivo que a Plebe já fez. "Acreditamos mais na micropolítica, na política com 'P' minúsculo. Falamos sobre relações entre as pessoas e o mundo e nisso também entra a visão política. Mas gostamos de marcar posição nesse campo também - porque a maioria das bandas não participa. Lembro que quando voltamos em 1999, nas rádios só tocava música sobre c* e maconha (risos). E eu pensei: é só isso que o rock brasileiro consegue fazer? Cadê a densidade? A Plebe sempre fez o que podia fazer, através de suas letras".

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