Plebe Rude

Vivos ou mortos-vivos?

O Globo - 22/06/1993
Por Luiz André Alzer e Paula Fernandes

As bandas da geração perdida do rock dos anos 80 saem do limbo e retornam com gás renovado

É uma espécie de volta dos que não foram. Provando que nosso exército de guitarristas é mais persistente que aposentado na fila do INSS, Biquíni Cavadão, RPM, Ultraje a Rigor, Ira!, Plebe Rude e Capital Inicial voltam ao cenário musical num movimento similar ao dos peixes da lagoa Rodrigo de Freitas em tempos de maré baixa.

Botando a cabeça para fora do lodo de marasmo no qual se atolou o rock nacional, as bandas - todas detentoras dos cobiçados discos de ouro antes de amargarem o dissabor do esquecimento - retornam com gás novo.

- Como é nosso último disco do contrato, vamos botar para quebrar. Vai ser o disco mais pesado do Ira!. Não vai ter baladas, e sua temática será política, de protesto - comenta o guitarrista Edgard Scandurra, em meio às gravações.

O Ira! Estava na geladeira desde 1990 quando lançou "Os meninos da Rua Paulo. Apesar de considerarem o melhor disco da banda, acreditam que o álbum não emplacou por ter nascido em plena era Collor.

Também em estúdio, o Ultraje a Rigor aposta tudo no seu "Ò". O disco está em fase de finalização e, da turma que invadiu as praias de todo Brasil, traz apenas Roger:

- O Ultraje nunca acabou, só ficamos sem gravar durante três anos. O novo disco é aquilo que o antigo Ultraje faria na época se tocasse melhor.

Lembrando que os áureos tempos em que eram recebidos com comitiva e bandas de música nas cidades do interior, Roger diz que uma soma de fatores provocou a escorregada ladeira abaixo do grupo:

-- Até 90, tocávamos sem parar. Ficamos de saco cheio e resolvemos parar um pouco para compor. Foi quando entrou o Plano Collor que segurou o nosso dinheiro e tivemos que voltar a fazer shows. Adiamos o projeto do novo disco, depois a banda começou a se reestruturar. Esperei criarmos um clima de grupo para voltar a gravar. Como o Brasil não tem memória, ficamos fora da mídia.

Reduzido a uma dupla, o ex-quarteto Plebe Rude buscou um selo independente para voltar para a estrada. Philippe Seabra e André Müeller garantem que mesmo sem o guitarrista Ameba e o baterista Gutje, mantém o mesmo peso dos tempos de Brasília no recém-lançado "Mais raiva do que medo".

-- O disco vendeu três mil cópias em um mês, e devemos lançar o CD no final de junho ou início de julho. Estamos empolgados. O CD vem com uma faixa extra, com o Renato Russo cantando "Pressão social" como segunda voz. É uma música que tocávamos em Brasília. É isso aí: no tempo em que a gente esteve parado, os fãs e outros músicos nos deram a maior força - diz Müeller .

Outro expoente do rock candango, o Capital Inicial, começou sua virada em 1992. Trocaram a Polygram pela BMG/Ariola e lançaram o disco "Eletricidade":

- Devolvemos o peso às guitarras, e a resposta do público foi imediata. Depois que nos desfizemos do tecladista Bozzo e voltamos à nossa formação e estilo iniciais, fomos incluídos entre os melhores do ano da revista "Bizz". Nosso clip de "Kamikase" entrou para "Top 20 Brasil" da MTV - comemora Dinho Ouro Preto, vocalista da banda.

Dinho faz ainda um mea culpa para explicar a curva decadente da carreira da banda:

- Nosso disco "Você precisa" ficou muito mauricinho, cosmético. Queimou a gente com a imprensa. O disco seguinte "Todos os lados", foi o nosso melhor e passou desapercebido. Acho que foi conseqüência da rejeição do disco anterior.

Dando seus maravilhosos ombros para os comentários maldosos, Paulo Ricardo tira da gaveta a trinca de letrinhas que lhe deu a condição de maior fenômeno do rock nacional e lança "Paulo Ricardo e RPM".

Insistentes sim, mas a trajetória do Biquíni Cavadão é completamente diferente da turma aí de cima. Eles não tiveram fã clube nem provocaram ataques histéricos nos anos 80. Tidos como nerds foram fazendo sucesso aos poucos. O primeiro disco de ouro foi conquistado no ano passado com "Descivilização". Após emplacarem "Vento ventania" em todas as rádios do Brasil, os meninos de "Tédio" entram finalmente para o quadro das grandes estrelas.

- Nunca tivemos posturas de popstar. Sempre demos shows. Acho que estamos mais elaborados - diz Bruno Gouveia, vocalista do grupo.

Cada um à sua maneira, os músicos do rock Brasil 80 parece que vai recuperando o fôlego. Plano Collor, infantilidade ou amnésia nacional, não importa o motivo, só importa o susto.

- Se vendêssemos nos Estados Unidos o que vendemos aqui, estaríamos ricos. Mas tudo bem, começamos de novo - sintetiza Roger.

Barões, abelhas e titãs não conhecem insucesso

Dá para contar nos dedos as bandas que atropelam qualquer tipo de fracasso e as crises da indústria do disco. O Barão Vermelho, por exemplo, não sabe o que é decadência. Dos 11 álbuns lançados até hoje, nenhum deles vendeu tão mal a ponto de o grupo ser rebaixado ao submundo do rock e se ver obrigado a trilhar outra vez o caminho dos alternativos em busca do sucesso. Para o guitarrista Roberto Frejat, a massificação da banda na mídia pode significar um passo para o abismo:

- Tem época que certos grupos estão aparecendo tanto que chega a desgastar. Quando a produção de um programa de TV nos chama para tocar, ela não está pensando em ajudar nossa carreira, mas sim no que é bom para o programa. Um exemplo claro disso foi o RPM. Estava na cara que aquele sucesso todo era irreal para o mercado brasileiro. Cedo ou tarde eles iriam desaparecer.

Sábio Frejat. Mas nem tudo foi RPMania. Segundo ele, outras bandas pagaram caro por não ter autocrítica sobre determinadas fases da carreira.

- Fica difícil para mim citar nomes, mas teve gente que talvez tenha sido displicente com o próprio trabalho - observa ele, lembrando que a crise acertou em cheio o público que mais comprava discos de rock: a classe média.

Paula Toller, do Kid Abelha, outra banda a margem dos fracassos, suspeita que fatores internos determinam o sucesso ou não do grupo. Tipo problemas com empresários, de divulgação das gravadoras ou rachas entre os integrantes. Algo, que ela ressalta, os abelhas nunca experimentaram.

- Nossas músicas sempre foram bem executadas nas rádios. O segredo disso é incluir nos discos canções com arranjos elaborados, mas simples de captar para o público. Sem contar que também damos certo porque minha voz agrada às pessoas - diz, chutando a modéstia.

Quer dizer que a solução para Capital Inicial, Ira! e cia. é dar voz às moças?

- Não. Vai ver que a gente tem borogodó ...

O guitarrista Tony Belloto, dos Titãs, aposta na sorte. Mas ele reconhece que apresentações bem-sucedidas em festivais como Hollywood Rock e Rock in Rio garantem bons frutos para a banda durante alguns meses. E vice-versa: os shows desastrosos deixam um sabor amargo na carreira roqueira.

- Tem o caso do Lobão, no Rock in Rio II, que o público apedrejou e não permitiu que acabasse de tocar. Este tipo de coisa queima o cara.

Embora os Titãs nunca tenha caído no ostracismo, Tony prefere acreditar que as bandas conhecidas que desapareceram continuam fazendo sucesso. Só que tocando num circuito alternativo, sem apoio de rádios e TVs.

- A Plebe Rude nunca sumiu, continuou fazendo shows nos subúrbios do Rio. Tem tudo a ver com o espírito do rock'n roll.

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