Plebe Rude

Plebe Rude III (1989)
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Plebe Rude III
1 - Plebiscito
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Plebiscito
Música e Letra: Plebe Rude
Letra

Um pouco além de notícias de jornal
um pouco aquém da situação atual
este absurdo já é tão constante
se você para por um instante

O que tens que evitar é se acustomar

O poder do sim ou não
as letras em negrito
quem cala consente, isso não
proponho um plebiscito

O absurdo e essa indecisão
tanto esforço para dar uma opinião
a plebe incita uma chance
se você para por um instante

É o caminho ao voto popular

O poder do sim ou não
as letras em negrito
quem cala consente, isso não
proponho um plebiscito

História

Plebiscito abria o terceiro disco da banda com uma porrada logo de cara, uma temática do que era de se esperar de uma banda de Brasília: simples e honesto. Sem muita imaginação, quase todos os críticos que escreviam sobre a Plebe usavam os termos "direto à jugular" ou "metralhadora giratória," mas convenhamos, Plebiscito nao os dava muita escolha.

Plebe Rude III
9 - Repente
repente.mp3
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Repente
Música e Letra: Philippe Seabra
Letra

De repente distância
diferença regionais
de repente ignorância
o estado das capitais

No nordeste a terra descansa em paz
longe da Fortaleza não está mal
João é uma Pessoa comum e feliz
no horizonte tem as luzes de Natal

Dona Terezina vira pro lado
e pergunta se seu São Luiz está bem
Olhando na mesma direção cristã
vendo o meninozinho de Belém

Eu procuro além dos Recifes
eu só quero uma visão melhor
Se não der de ver, de Aracajú
vou ver se a vista é boa em Maceió

A negligência vem mais de cima
Estado, Deus, país, tanto faz
a esperança é o que sustenta
e o improviso é um dito popular

A festa da raça e da tradição
da cidade baixa subo de elevador
Senhor do Bonfim, por favor olhe por mim
vai ver me entendo em São Salvador

Em nome do pai e do Espirito Santo
de Vitória ganho Minas Gerais
terra fértil eu quero, mas um horizonte belo
o sol nascente se põe em Goiás

De Cuiabá, Campo Grande
posso ouvir tiros da caça animal
mas o que vejo é a ameaça
refletida nas águas do Pantanal

De repente um repentista
a rima de improvisar bem
sem querer um repentista
faz prosa com o pouco que tem

Na Amazônia, Roraima, Acre, Rondônia
índio faz canoa com poucos paus
então alguma coisa errada, floresta devastada
mas francamente que zona perto de Manaus

Pra atingir em cheio nosso coração
Eu chego no Distrito Federal
Uma vista honrada e privilégiada
entendo agora porque o país esta mal

Passo por Curitiba e Floripa
e navego o Rio Grande do Sul
nas margens do lado, terra abençoada
que diferença faz água e dinheiro

De repente um repentista
espremida em uma nação
por mais óbvio que for a rima
unísono na mesma canção

Vasto e cinza e olhos ardendo
por Congonhas entro em SP
sei que há magia, mas não estou vendo
por Guarulhos saio sem explicar porque

Aporto no Rio, fico observando
tá apertado entre a serra e o mar
o que São Sebastião, não tinha noção
já previa o Estáçio de Sá

O problema que é muito grande
tanto contraste não tem igual não
do alto do morro e desse tamanho
me deixe dar a minha observação

Meus brasileiros, minhas brasileiras
hoje eu me dirigo a toda essa nação
depois de toda a minha andança
ví que o importante é manter o pé no chão

O que eu quero é o porque do improviso
fiz a promessa do que eu vou encontrar
com esperança a gente vai levando
e o improviso...

É um dito popular!

De repente um repentista
espremida em uma nação
por mais óbvio que for a rima
unísono na mesma canção

De repente um repentista
a rima de improvisar bem
sem querer um repentista
faz prosa com o pouco que tem

História

Uma das músicas mais ambiciosas, ou pretensiosas, do rock nacional, Repente é uma das mais longas também. Com mais de 6 minutos de duração, Philippe a mostrou pela primeira vez à banda num ônibus no meio de uma excursão em Minas. Numa letra imensa, que mencionava toda capital e estado brasileiro ao mesmo tempo observando as injustiças e contrastes do Brasil através dos olhos de um repentista, os plebeus teriam que passar por todos os estilos musicais e ritmos dos estados mencionados. Gutje topou o desafio.

O conceito foi em cima da observação de que o brasileiro, para sobreviver, tem de improvisar. A banda já tinha tocado em quase toda capital brasileira, e inspiração para a letra não seria problema.

Foi difícil gravar tantos instrumentos diferentes em 24 canais somente (O concreto ja rachou foi gravado em 16 canais) e Gutje se sobressaiu com os impressionantes arranjos de bateria e percussão. O seu nome figurou entre os melhores bateristas brasileiros na revista Bizz naquele ano. Mais uma vez, Zé Americo, que tocou o teclado de Valor, na mesma sessão de estúdio gravou safona para a parte do sul. Os Plebeus ficaram impressionados com ele, e realmente, o arranjo de sanfona no meio da canção é lindo.

A Plebe tocou a música várias vezes, mas como era quilométrica, Philippe tinha que ter a letra no chão no palco a sua frente. Uma vez em Curitiba, quando a banda não estava com a música ensaiada, alguns estudantes de direito começaram a cantar o refrão música para chamar a banda de volta para o bís. O Philippe voltou ao microfone com um violão e chamou os plebeus ao palco, que cantaram a música inteira com ele, cantando partes da letra que nem ele lembrava.

Poucas pessoas perceberam através da frase "o sol nascente se põe em Goiás" a menção da radiação nuclear que foi fatalmente encontrado num centro urbano em Goiás na época, causando muita discriminação contra produtos Goiânos e reacendendo a polêmica sobre o programa nuclear brasileiro. Pouco tempo depois, o Governo apareceu com a constrangedora campanha de TV Nacional, "Eu amo Goiânia."

Atenção para o 'riff' de guitarra da música Brasília, do Concreto Já Rachou, que rola por trás da parte que passa pelo Distrito Federal. No final da parte, a guitarra começa a falhar a lá Gang of Four, propositalmente.

Mas como era de se esperar, ninguém entendeu Repente, e com a música Valor também no repertório, tinha pessoas dizendo que o grupo tinha virado um grupo de baião. Por causa do tamanho da letra e da diversificação de estilos, comparações com Faroeste Caboclo foram inevitáveis. O Renato Russo confidenciou ao Philippe que apesar de ser fã número 1 da banda, não gostou da música.

Anos depois, Daniela Mercury gravou uma música que passava pelo Brasil inteiro e grupos de rock com um sotaque regional apareciam mais na mídia. A Plebe sem dúvida esteve à frente do seu tempo. O jornalista Arthur Dapieve chamou Repente de "um inteligente passeio póli-rítmico pelo Brasil," mas só quem era plebeu gostou.

Plebe Rude III
8 - 2ª Feriado
sem_musica.mp3
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2ª Feriado
Música e Letra: Jander Bilaphra
Letra

Era meio dia
eu acordei e vi o meu fusca
ele estava estacionado
parado, ali embaixo
na casa do amigo Naldo

Mesmo no Jóquei enchi o tanque
no posto de um chegado
saí rodando a lagoa
Rebouças passei voado
A Brasil passei danado
Dutra nem vi passar
Quando vi Paracambi
já era Paulo de Frotin

Eu estava no alto da serra
Mendes era o meu destino de menino perdido
Que em menos de um minuto
estava sentado ao lado
da menina mais bonita
Quentando um solzinho gostoso

Era segunda feirado

(Sol, só amanha...)

História

Com Jander no violão de dez cordas e Jaques Morelenbaum (o mesmo cellista da famosa introdução de Até Quando e do arranjo para 22 duas cordas de A ida), no cello somente, 2a feriado é provávelmente a música mais experimental jamais feito por uma banda da década de 80. Bem no clima rabeca de Xangai e Elomar, o Jander apareceu com uma musica para viola e cello, sabendo que o Jaques poderia toca-lá. Afinal o cellista já tocou com o Xangai e o Elomar nesse mesmo estílo. O Jaques ficou supreso com a sabedoria do Jander desse gênero tão obscuro, e lisongeado, pois o plebeu tinha um disco dele dessa época.

Jander, quando dividia um apartamento com o Philippe quando mudaram para o Rio, comprou um Baja, um fusca modificado com rodas traseiras grandes. A música narra um dia muito especial na vida do Jander. O Naldo, Arnaldo Bortolon, era o empresário da banda na época, e morava perto, na praça Santos Dumont, em frente ao Jóquei. E o dono do posto de gasolina vizinho era "chegado" do Jander. Era segunda feirado e para quem não conheçe o Rio, narra a viagem da cidade a Mendes, no interior do estado, para aonde o Jander eventualmente se mudaria.

A banda e o então empresário, com a exceção de Philippe, vibraram com a música. O Philippe, em minoria, brincava que só se o Jander prometesse casar com a menina para quem ele fez a música, ele deixaria a música ser incluída no disco. O Jander não só se casou, como teve duas filhas com ela.

Plebe Rude III
7 - A Serra
a_serra.mp3
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A Serra
Música: Plebe Rude / Letra: Gutje
Letra

Quero ver a serra
que por tempos encantou
mas o homem e sua serra
veio e desmatou

Quero verde perto
se o encanto acabou
só pedra no caminho
e olha o que sobrou

Nada mais crecse
só a lama desce

Tropical, húmida
Hetero-gênea
Latifo-liada
Mata de-vastada
Higrófita, Caduca
Perêne, Encosta

Nada mais crecse
só a lama desce

Todos reclamando
só quero conscientizar
madeira acabando
até quando esperar?

O verde da mata
a serra desmatou
o verde da bandeira
também desbotou

Tropical, húmida
Hetero-gênea
Latifo-liada
Mata de-vastada

História

Com letra do Gutje, A Serra foi uma das primeiras músicas compostas para o terceiro disco da Plebe. A letra foi inspirada quando o Gutje conheçeu um grupo de ativistas ecológicos preservacionistas da Mata Atlântica, na gravação de uma entrevista em São Paulo, e lhe deram uma camiseta que mostrava a bandeira brasileira começando a desbotar de um dos lados. O instrumental da música beira o progressivo, com arranjos de guitarra bastante complicados. A linha do baixo tem um pouco de jazz no 'feeling' com uma batida, brilhantemente arranjada pelo Gutje, um bate-estaca que o torna bastante acessível e dancante. Provávelmente é a música mais complicada que a banda já fez. E sim, aquilo é um 'sample' de uma àrvore sendo derrubada no meio do instrumental, tirado de um disco de vinil de efeitos sonoros do arquivo dos estúdios da EMI.

A Serra foi escolhida como música de trabalho e consequentemente virou clip do Fantástico. Foi muito engraçado ver o Sergio Chapelin apresentando o clip dizendo "Agora com vocês, o protesto ecológico da banda de Brasília, Plebe Rude..."

A direção do clip foi do Boninho, fã da banda. (A primeira direção dele foi para o Clip Clip, programa semanal de clips da Globo, da música Proteção numa versão ao vivo no estudio II da EMI. Batizada Proteção II, a missão, a banda entrava numa levada funk inserindo trechos de Bichos escrotos dos Titãs; foi a primeira vez que a música do grupo paulista, então censurada, foi ao ar). Gravado na Barra da Tijuca no Rio num terreno com uma pequena floresta, de propriedade da Globo, o clip mostrava o grupo tocando primeiro na floresta, para depois acabar num terreno de construção, que semelhava um deserto.

Mas quando o clip foi ao ar, os editores da Globo cometeram um erro gritante. A guitarras e a parte narrada do Jander (tropical - húmida... que o Philippe compilou de um livro de cursinho antigo) foi gravado em estéreo total. Mas quando a música foi editada, alguém esqueceu de mudar o estéreo para mono-duplo, para que o som saisse completo quando fosse escutado em mono, ou em um dos lados somente (mesmo assim não existia no Brasil transmissão de TV em estéreo ainda). Os editores editaram a música em cima de um lado da música e os arranjos de guitarra soavam incompletos e o vocal, sem metade da voz de Jander.

O grupo não continuou os protestos ecológicos depois disso. Depois que a música começou a tocar bastante na rádio, Herbert confidenciou a banda que a letra do refrão não era o que ele esperava do grupo, e se ele tivesse produzido o disco, não teria a deixado passar.

Mas A serra era um grande hit nos shows ao vivo. Esta música não era a preferida do André, e ele eventualmente queria tira-la do repertório, mas como era um hit, ela sempre foi exigida pelos fãs.

Mas a Serra não resistiu o teste do tempo. Não foi incluído no disco ao vivo "Enquanto a trégua não vem" e com a exceção de dois shows já na formação nova com o Clemente, a música nunca mais foi tocada.

Plebe Rude III
6 - O Traço que Separa
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O Traço que Separa
Música: Philippe Seabra / Letra: André X e Philippe Seabra
Letra

Sem teoria, sem razão
agindo apenas por intuição
por vontade própria sigo em frente
caminhando sem objetivo passo rente

Entre dois pontos: a linha reta

Sem ajuda, nem motivação
superando as imposições
uma voz interna persistente
me faz continuar sempre em frente

Entre dois pontos: a linha reta

O traço que separa
a menor distância
sempre foi a linha reta

Traços que se cruzam
espirais que circulam
me tiram da linha reta

Durma agora, sonhe tranqüilo
tente achar algum sentido

Vá seguir a linha reta
sem garantir que é a certa
parece tão simples...

Qual é a força e inspiração?
De onde vem tanta determinação?
Quando caio me levanto sempre
bem mais forte sigo em frente

Entre dois pontos: a linha reta

O traço que separa
a menor distância
sempre foi a linha reta

Traços que se cruzam
espirais que circulam
me tiram da linha reta

O paradoxo entre o certo e errado
escolha as armas e o seu lado

Vá seguir a linha reta
é só querer e será a certa
parece tão simples...

História

Esta letra passou por muitas encarnações até o André e o Philippe optarem por essa. O Traço Que Separa foi uma das músicas preferidas do Plebe Rude III segundo plebeus mais ortodoxos. Depois do quarto disco da banda, o Mais raiva do que medo, ela ganhou uma versão nova ao vivo, com uma batida mais simples e piano, pois por um breve período, a Plebe excursionou com um tecladista.

Plebe Rude III
5 - Tempo ao Tempo
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Tempo ao Tempo
Música e Letra: Gutje
Letra

Sei que em busca do futuro
podemos fazê-lo mudar
Mas como eu saberia?
Que decisão seria?

Qual caminho pela frente devo tomar?

Só que o tempo corre
e batidas marcadas
não sicronizam mais com o coração

Riscos são aceitos em vão
como os riscos de criança
pintando seus desenhos à mão
não há limitação

Assim a sorte emana
a coragem da natureza humana
o amor nos consome
e muitos não sabem
o que é amar

História

Seguindo o conceito de 'cada um apresenta uma música' para o terceiro disco, esta foi a música do Gutje, e a única vez que ele assumiu o vocal. Inicialmente uma música instrumental, ela foi composta quase que de improviso dentro do estúdio 1 da EMI, no Rio de Janeiro, para o terceiro disco, aonde a Plebe, Legião e Paralamas gravaram a maioria de seus trabalhos. Plebiscito também saiu da mesmo 'jam session.' Gutje tinha essa letra há muito tempo e no disco anterior, Nunca Fomos Tão Brasileiros, ele a sugeriu para A Ida, mas a banda achou que não funcionaria na música. Tempo ao tempo, ainda sem título, foi gravada e mixada instrumentalmente, mas na fase de masterização do Plebe Rude III, Gutje gravou o vocal, com backing vocal do Jander. Philippe e André só ouviram a versão, agora intitulada Tempo ao tempo, juntos com os fãs, quando receberem o disco já prensado.

Muitos fãs que compraram a fita original desse disco ou o box set lançado em 1997, ouviram a versão que foi mandada para prensagem antes que o vocal foi colocado.

A Plebe tocou a versão instrumental da música no trio elétrico Tiéte Vips na Bahia, com direito a percussão extra dos músicos baianos, já que Gutje gravou timbales nela. Foi uma das poucas vezes que a música foi tocada em público. A Plebe se apresentou duas vezes em shows de meia hora, no meio do set longo do grupo Tiéte Vips, em frente ao Farol da Barra, em Salvador no carnaval de 1989. Depois dos Paralamas, a Plebe foi uma das primeiras bandas de rock a tocar de cima de um trio elétrico. No meio da apresentação, a banda sentiu um cheiro de fumaça. Logo em seguida ouviram um estouro e todo o trio elétrico se apagou, som e luz. A Plebe já passou por isso uma vez, mas não num trio elétrico. Normalmente quando o som se apaga, o som da bateria pode ser ouvido acústicamente. Mas não nesse caso, pois o Gutje estava usando a bateria do grupo baiano, uma bateria eletrônica. Foi a primeira, e última vez que ele usou uma. O gerador, que tinha força suficiente para gerar energia para uma cidade pequena, não suportou a porrada da Plebe! Mas, dez minutos depois, o gerador voltou a funcionar, e a porrada continuou, mas a um volume um pouco mais baixo.

Plebe Rude III
4 - Longe
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Longe
Música e Letra: André X
Letra

Acenda as tochas
deixe iluminar
uma noite sem luar

Pra que de longe
possamos ver
onde um dia foi nosso lar

Os nativos, eles gostam de mim
É como se eu fosse
uma espécie de Deus

Mas se um dia minha magia falhar
eles voltam a ser ateus

Toque os sinos
deixe ressoar
esperança pelo ar

Pra que de longe
possamos ouvir
e saber por onde voltar

A noite chega e faz muito frio
e esperamos o inimigos chegar

Quando amanhece enterramos os mortos
e continuamos a avançar

História

O André X queria algo mais sombrio para o disco, e como neste disco cada um apresentava uma música, esta foi a sua. Uma das mais belas do disco, com a batida tribal já característica da banda, Longe se diferenciava do resto do repertório da banda porque a música foi estruturada em cima de um piano.

O arranjador Victor Chicri foi chamado para tocar piano, um Steinway de 9 pés de comprimento que ficava dentro do estúdio I da EMI. Foi o mesmo piano de cauda que Ray Charles usou quando passou no Brasil e que os Paralamas gravaram "Quase um Segundo" com Charlie Garcia. A banda perdeu muito tempo tentando convencer o exímio pianista a simplificar o arranjo, e de não solar.

No final, usaram muitos efeitos na bateria e ecos em estéreo típo Pink Floyd nas guitarras, apesar de não serem inspirados pela grupo.

Longe é considerada uma das melhores performances vocais do Jander, mas devido ao arranjo de piano, mesmo com um teclado na estrada, foi apresentada ao vivo poucas vezes. Era difícil passar o peso dela com uma guitarra somente, pois o Philippe estava ocupado ao teclado.

Plebe Rude III
3 - Valor
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Valor
Música: Jander Bilaphra / Letra: Jander Bilaphra e André X
Letra

Há vidas que por vontade eu canto
Há vidas que por vontade eu conto
por muitos lugares andei
em muitos lugares morei
Muitas vidas vi passar
por isso lhe conto meu amigo
preste atenção, uma coisa vou cantar

A gente só dá valor à juventude
quando estamos na meia idade
a gente só dá valor à natureza
quando moramos na cidade
a gente só dá valor às amizades
quando estamos na solidão
a gente só dá valor à frieza
quando perdemos à razão

Quem não da valor ao que tem
não merece ter nada de valor

Há vidas que por vontade eu canto
Há vidas que por vontade eu conto
por muitos lugares andei
em muitos lugares morei
Muitas vidas vi passar
por isso lhe conto meu amigo
preste atenção, uma coisa vou cantar

A gente só dá valor às alegrias
quando estamos na tristeza
Só damos valor ao dinheiro
quando estamos na dureza
A gente só dá valor às máquinas
quando não funcionam mais
só damos valor à tranquilidade
quando tanto fez, tanto faz

Quem não da valor ao que tem
não merece ter nada de valor

História

Sem sombra de dúvida, Valor foi o primeiro "forró-core" já feito, do qual o Jander é tido como o pai. Numa música ambiciosa de cinco minutos, a Plebe misturou batidas de baião com guitarras distorcidas, algo inimaginável por uma banda de rock da década de 80. Também foi a primeira vez que eles usaram teclados, com participação do diretor musical da Elba Ramalho, Zé Americo, e o diretor musical da cantora Joana, Victor Chicri. Philippe não estava muito entusiasmado com idéia, mas Jander, André X e Gutje estavam há muito tempo querendo 'modernizar' a Plebe. O trabalho de baixo do André foi fenomenal. E o Gutje fez um belíssimo trabalho de bateria, feito repetido na gravação do mais longo ainda Repente.

O Jander convidou o Alceu Valença para fazer o backing vocal, mas este disse não estar interessado, então quem fez foi o Philippe. Consequentemente, a música foi escolhida a ser a segunda música de trabalho, e com ela, até fizeram o programa 'Milk Shake' da Angélica com Philippe irônicamente nos teclados. Eventualmente Philippe tocava teclados em Valor nos shows ao vivo. O teclado passou a ser usado pela banda, mais como efeito de fundo e cama de cordas. Ele vinha de fábrica com um som que simulava o som de um chicote. Nos shows mais descontraídos, o Philippe dava uma "chibatada", gritando no microfone "Olha a chibatada no Sarney!" E a platéia vinha abaixo.

Talvez a escolha de Valor como segunda música de trabalho não foi a mais sabia da parte da EMI, pois era muito diferente não só do que era esperado da Plebe, mas do que era esperado de qualquer banda de geração 80. Mas, com esse disco, a Plebe queria mesmo confundir todo mundo. E conseguiram. A banda foi massacrada pela tentativa. Perderam muitos fãs, e algumas pessoas escreveram ao fã clube dizendo ter quebrado os discos com raiva da traíção. Os críticos não entenderam nada, e quem não gostava da Plebe, passava a gostar menos ainda. Será que pagaram o preço do pioneirismo? Só a história dirá...

Mas que quebraram a regra número um de concordância, quebraram.

Plebe Rude III
2 - Um Outro Lugar
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Um Outro Lugar
Música e Letra: Philippe Seabra
Letra

Ontem fez cem anos
hoje comemoramos
e esta tudo igual

Tem um outro lugar
isso eu tenho certeza
lá, não tem disso não

Ninguém pode calar
o silêncio fala
bem mais alto que gritar

Tire a mordaça
ergue a tua taça
Mas a dúvida ainda é

Demoraria mais de cem anos
para aprender a boa lição?
que toda raça de mãos dadas derruba discriminação

Mas existe um outro lugar

Esse retrocesso
chamam de progresso
não, não é bem assim

Tem um outro lugar
isso eu tenho certeza
lá, não tem disso não

Um ideal que se agarra
o laço que se amarra
E isso ninguém tira não

Ontem fez cem anos
aonde chegamos?
Que isso sirva de lição

Tem um outro lugar
com um pouco de fé fará sentido
mais justo que o nosso lar
aonde esse canto será ouvido

Demoraria mais de cem anos
para aprender a boa lição?
que toda raça de mãos dadas derruba discriminação

Mas existe um outro lugar

História

Na véspera dos cem anos da abolição da ecravidão no Brasil, Philippe escreveu esta canção, inspirado na canção "Biko" do Peter Gabriel. A música tinha acabado de ser regravada para a trilha do filme "Cry Freedom", narrando a trajetoria do ativista anti-apartheid Stephan Biko, morto pela policia sul-africana.

Por pouco não foi escolhida como música de trabalho, mas os programadores de rádio, que as gravadoras começavam a convidar para ajudar na escolha de músicas de trabalho, acharam a introdução longa demais. A influência dos programadores provávelmente foi uma das piores coisas que poderia ter acontecido à música brasileira, e foi nessa época que a prática foi consolidada.

Mais uma vez, os Plebeus chamaram Jaques Moremlembaum para tocar, mas desta vez o arranjo era simples, acentuando o dedilhado de violao de nylon do Philippe. O instrumental do meio foi usado como introdução do show durante a excursão inteira e nao volta da Plebe em 1999.

Plebe Rude III
10 - Modifique o Verbo
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Modifique o Verbo
Música e Letra: Philippe Seabra
Letra

Sei que na língua que aprendi
há um termo para o que ainda não vivi
Será que a ocorrência da ação é
diretamente subordinada ao acaso ou não

Sim, existe mais de uma opção
o que mudaria o verbo da oração?
Logo se vê, advérbio indicando a situação
define aí, a validade da ação

Modifique o verbo
analise orações
Indique circunstâncias
sem classificação

Necessita significado
e respectivamente
Sujeito indeterminado
sujeito inexistente

A valdade da ação; por acaso ou não?

Mas oração sujeito a modificação
só no caso de ter mais de uma opção
Seja como for, advérbio sem classificação
A ocorrência da ação, por acaso ou não?

Advérbio por acaso é integrante
ocorrência e validade ele define
pode ser, dada a a circunstância de que
e se estamos aqui, foi por acaso sim

História

Num uso bastante peculiar de analogias gramaticais, Modifique o verbo é basicamente sobre o destino, talvez refletindo dúvidas sobre o destino dos Plebeus. O Jander narra a mesma letra que o Philippe estava a cantar, e com um instrumental belo no meio, com uma suavidade não muito característica da banda, a música fecha o disco Plebe Rude III. Foi a última vez que os quatro membros da banda gravaram juntos até o "retorno temporário" de 1999, 11 anos depois.