Plebe Rude

Plebe Rude :: Para Sempre
Artist
Track title
Listen
Preferência Nacional
1 - Até Quando Esperar
ate_quando_esperar.mp3
6-preferencia_nacional-1998.jpg
Até Quando Esperar
Música: Philippe Seabra, André X e Gutje / Letra: Philippe Seabra e André X
Letra

Não é nossa culpa
nascemos já com uma benção
mas isso não é desculpa
pela má distribuição

Com tanta riqueza por ai
onde é que esta, cadê sua fração?

Até quando esperar?

E cadê a esmola
que nos damos sem perceber
que aquele abençoado
poderia ter sido você

Até quando esperar?
A plebe ajoelhar esperando a ajuda de Deus

Posso, vigiar o seu carro, te pedir cigarro, engraxar o seu sapato?

Até quando esperar?
A plebe ajoelhar esperando a ajuda do divino Deus

História

Feita em cima da frase do André X "com tanta riqueza por aí, onde é que está, cadê sua fração?" Philippe completou a letra em 84. Nesta época o grupo ensaiava debaixo da piscina do centro Olímpico em Brasília, numa sala que conseguiram através da Camila, primeira empresária do grupo, indiretamente iluminada pela luz que vinha dos vidros sub-aquáticos. Na verdade a música, que virou hino, era uma espécie de auto crítica, pois falava de justiça social enquanto o grupo morava na ilha da fantasia que era Brasília. "Não e nossa culpa, nascemos já com uma benção..." Mas também foi um dos protestos mais fortes da má distribuição de renda no país jamais feito.

A primeira vez que ela foi tocada foi num festival no Ginásio de Esportes em Brasília junto com a Legião Urbana e o Ultraje a Rigor. Legião ainda não havia gravado o primeiro disco, mas quem viu o show (a Plebe foi a banda de abertura no Ginásio com mais de 5 mil pessoas; o maior público até então da Plebe - apesar de que poucos estavam ali por causa da banda e da Legião, Ultraje estava no auge), viu que o rock de Brasília estava prestes a estourar.

Quando foi gravado, 16 canais foram suficientes para essa música simples, mas foi o poder dela que fez que as rádios naturalmente escolherem-na para tocar primeiro. A música escolhida para ser a música de trabalho foi A minha renda, com direito a clipe do Fantástico. Mesmo assim Até Quando virou sucesso e o rock de Brasília passou a ter a fama que tem, ainda mais com o Capital Inicial, morando em São Paulo, também estourado. Um clipe, na mesma casa aonde foi tirado a foto da capa do Concreto Já Rachou, foi filmado, com direção do José Emilio Rondeau.

A idéia do cello foi de Herbert, que chamou Jaques Morelembaum, então arranjador de Tom Jobim. Numa sessão rápida, foi gravado o que é considerado um dos 'riffs' mais reconhecíveis do rock Brasil. Mas a música não tinha o cello no começo sozinho. Só quando a música estava sendo mixada e o Renato Luiz, o fenomenal técnico de gravação, 'solou' o canal do cello para poder equaliza-lá, e a banda sugeriu que fosse gravado numa fita separada do resto dos instrumentos, e colada na frente. Dito e feito. Mas se os 'headphones' do Jaques estivessem um pouco mais alto, não seria possível isolar o som do cello e o começo da música seria como fora intencionada. A banda deixou-o solar um pouco na parte do meio, e ele até complementa o solo de guitarra do Philippe, considerados um dos mais fortes gravados do Rock nacional.

Foi a primeira vez que o Herbert vestiu seriamente a camisa de produtor, e fez um belíssimo trabalho. O Herbert recebeu um disco de ouro por sua participação e até hoje este é considerado um dos seus melhores trabalhos.

Lulu Santos, Paralamas, Cólera, Tantra e Capital Inicial, sem mencionar inúmeras bandas 'cover,' já tocaram a música ao vivo. É um clássico. A Universidade de Brasília usava a música para ilustrar a desigualdade social no Brasil para os alunos de certas matérias.

Preferência Nacional
15 - Valor
valor.mp3
6-preferencia_nacional-1998.jpg
Valor
Música: Jander Bilaphra / Letra: Jander Bilaphra e André X
Letra

Há vidas que por vontade eu canto
Há vidas que por vontade eu conto
por muitos lugares andei
em muitos lugares morei
Muitas vidas vi passar
por isso lhe conto meu amigo
preste atenção, uma coisa vou cantar

A gente só dá valor à juventude
quando estamos na meia idade
a gente só dá valor à natureza
quando moramos na cidade
a gente só dá valor às amizades
quando estamos na solidão
a gente só dá valor à frieza
quando perdemos à razão

Quem não da valor ao que tem
não merece ter nada de valor

Há vidas que por vontade eu canto
Há vidas que por vontade eu conto
por muitos lugares andei
em muitos lugares morei
Muitas vidas vi passar
por isso lhe conto meu amigo
preste atenção, uma coisa vou cantar

A gente só dá valor às alegrias
quando estamos na tristeza
Só damos valor ao dinheiro
quando estamos na dureza
A gente só dá valor às máquinas
quando não funcionam mais
só damos valor à tranquilidade
quando tanto fez, tanto faz

Quem não da valor ao que tem
não merece ter nada de valor

História

Sem sombra de dúvida, Valor foi o primeiro "forró-core" já feito, do qual o Jander é tido como o pai. Numa música ambiciosa de cinco minutos, a Plebe misturou batidas de baião com guitarras distorcidas, algo inimaginável por uma banda de rock da década de 80. Também foi a primeira vez que eles usaram teclados, com participação do diretor musical da Elba Ramalho, Zé Americo, e o diretor musical da cantora Joana, Victor Chicri. Philippe não estava muito entusiasmado com idéia, mas Jander, André X e Gutje estavam há muito tempo querendo 'modernizar' a Plebe. O trabalho de baixo do André foi fenomenal. E o Gutje fez um belíssimo trabalho de bateria, feito repetido na gravação do mais longo ainda Repente.

O Jander convidou o Alceu Valença para fazer o backing vocal, mas este disse não estar interessado, então quem fez foi o Philippe. Consequentemente, a música foi escolhida a ser a segunda música de trabalho, e com ela, até fizeram o programa 'Milk Shake' da Angélica com Philippe irônicamente nos teclados. Eventualmente Philippe tocava teclados em Valor nos shows ao vivo. O teclado passou a ser usado pela banda, mais como efeito de fundo e cama de cordas. Ele vinha de fábrica com um som que simulava o som de um chicote. Nos shows mais descontraídos, o Philippe dava uma "chibatada", gritando no microfone "Olha a chibatada no Sarney!" E a platéia vinha abaixo.

Talvez a escolha de Valor como segunda música de trabalho não foi a mais sabia da parte da EMI, pois era muito diferente não só do que era esperado da Plebe, mas do que era esperado de qualquer banda de geração 80. Mas, com esse disco, a Plebe queria mesmo confundir todo mundo. E conseguiram. A banda foi massacrada pela tentativa. Perderam muitos fãs, e algumas pessoas escreveram ao fã clube dizendo ter quebrado os discos com raiva da traíção. Os críticos não entenderam nada, e quem não gostava da Plebe, passava a gostar menos ainda. Será que pagaram o preço do pioneirismo? Só a história dirá...

Mas que quebraram a regra número um de concordância, quebraram.

Preferência Nacional
14 - Brasília
brasilia.mp3
6-preferencia_nacional-1998.jpg
Brasília
Música e Letra: Plebe Rude
Letra

Capital da esperança
Asas e eixos do Brasil
Longe do mar, da poluição
mas um fim que ninguém previu

Carros pretos nos colégios
em tráfego linear
Servidores Públicos ali
polindo chapas oficiais

Brasília tem centros comerciais
Muitos porteiros e pessoas normais

As luzes iluminam
os carros só passam
A morte traz vida
e s baratas se arrastam

O concreto já rachou!
Brasília, Brasília, Brasília

Os prédios se habitam
as maquinas param
as árvores enfeitam
e a polícia controla

Os comércios só vendem
os porteiros só olham

E essas pessoas
elas não fazem nada
mas essas pessoas elas não fazem nada
Nada! Nada!

Brasília tem luz
Brasília tem carros
Brasília tem mortes
Tem até baratas

Brasília tem prédios
Brasília tem máquinas
Árvores nos eixos
a polícia montada

 

Utopia na mente de alguns
Utopia na mente de alguns

 


Utopia na mente de alguns
Utopia na mente de alguns

 

 

Brasília, Brasília...

História

Marca registrada das 'duas vozes' da Plebe, Brasília virou um clássico instantâneo, de aonde saiu o título do primeiro disco, O Concreto já Rachou. Para alguns, a música mais poderosa que a Plebe já fez. A música tinha duas linhas melódicas, com o Jander cantando coisas diferentes ao mesmo tempo que o Philippe e fazia menção aos privilégios de alguns servidores públicos com a frase "carros pretos nos colégios," um retrato forte do que movia a cidade.

A Capital Federal tinha apenas 25 anos na época em que a música foi feita e as obras públicas da cidade já mostravam sinais de fadiga, passarelas de pedestres com o azulejo caindo e viadutos com sinais de stress evidentes. Isso, para a Plebe simbolizava a decadência da utopia forjada que era Brasília, toda a corrupção que desviava dinheiro da obras públicas para Deus sabe aonde.

O Concreto já Rachou inicialmente teria 6 músicas, mas o Herbert conseguiu convencer os executivos da EMI que Brasília era fundamental ao disco, e que a Plebe merecia a exceção. Senão, teria que ficar para o Nunca Fomos tão Brasileiros, egundo disco da banda.

Marca registrada das 'duas vozes' da Plebe, Brasília virou um clássico instantâneo, de aonde saiu o título do primeiro disco, O Concreto já Rachou. Para alguns, a música mais poderosa que a Plebe já fez. A música tinha duas linhas melódicas, com o Jander cantando coisas diferentes ao mesmo tempo que o Philippe e fazia menção aos privilégios de alguns servidores públicos com a frase "carros pretos nos colégios," um retrato forte do que movia a cidade.

A Capital Federal tinha apenas 25 anos na época em que a música foi feita e as obras públicas da cidade já mostravam sinais de fadiga, passarelas de pedestres com o azulejo caindo e viadutos com sinais de stress evidentes. Isso, para a Plebe simbolizava a decadência da utopia forjada que era Brasília, toda a corrupção que desviava dinheiro da obras públicas para Deus sabe aonde.

O Concreto já Rachou inicialmente teria 6 músicas, mas o Herbert conseguiu convencer os executivos da EMI que Brasília era fundamental ao disco, e que a Plebe merecia a exceção. Senão, teria que ficar para o Nunca Fomos tão Brasileiros, egundo disco da banda.

Preferência Nacional
13 - A Ida
a_ida.mp3
6-preferencia_nacional-1998.jpg
A Ida
Música e Letra: Philippe Seabra
Letra

Quem tem a razão?
um burocrata ou um padre com o envangelho em mãos
Um momento instante então
palavras não justificam a ida em vão

Esclarece por favor
o que é tão temido só acontece com os outros
O que você faria?

Justiça é tão bela
se funcionasse só uma vez
a lei não ressuscita
burocratriza o que eu já sei

Eu só sei... adeus

Quem escutar então?
Delegado ou jurista, relatório em mãos
ou um padre e seu sermão
um toque divino não é explicação

Esclarece por favor
o que é tão temido só acontece com os outros
me mostre então, a ida sem razão

Uma crença ajudaria
se amenizasse só uma vez
se ter fé for a saída
quem sempre teve foi embora de vez

Eu só sei... adeus

Aceitar ou não?
Crença nenhuma justifica a ida em vão
sua papelada então?
Do que adianta tantas folhas sem conclusão

Esclarece por favor
o que é tão temido só acontece com os outros
me mostre então, a ida sem razão

História

Ao contrário da crença popular, A Ida não tem nada a ver com a ópera Aida. Esta música foi feita para um amigo do Philippe, Alexei Farias, que foi atropelado por um barco na Barra da Tijuca, no Rio, acidente que lhe causou a morte. Estudante de oceonografia numa faculdade carioca, ele estava mergulhando dentro da faixa de segurança imposta pela guarda costeira. Um barco em alta velocidade a menos de cem metros da praia, o atropelou. Um amigo que estava com ele conseguiu puxar o Alexei até a praia, mas ele não sobreviveu aos ferimentos.

Esta música foi um parto para o Philippe, que não estava se acostumando com a vida no Rio. Ele não estava se adaptando à cidade e se sentia muito sozinho. Tinha a idéia básica da música por mêses, mas não conseguia expressar o seu pesar pela primeira pessoa próximo a ele que faleceu, três anos antes.

No encarte duplo do disco, a letra de A Ida é dedicada ao Alexei. Num show em Nitéroi, no estado do Rio, a irmã do Alexei foi ao show e a música foi dedicada à sua família.

Violão, tambores, e uma orchestra de 22 pessoas. É a favorita de muitos críticos. Um critico paulista chegou a confidenciar à banda que ele achou a música uma das mais bonitas que tinha ouvido em toda sua vida. Durante a gravação das cordas, o Herbert e o Philippe se enfiaram no canto da sala imensa do estúdio 1 da EMI e ouviram a orquestra com lágrimas no olhos.

A Ida virou música de trabalho e teve dois clips gravados, sendo um para o Fantastico. Até hoje é uma das mais requisitadas em shows.

Preferência Nacional
12 - Códigos
codigos.mp3
6-preferencia_nacional-1998.jpg
Códigos
Música: Philippe Seabra / Letra: Philippe Seabra e André X
Letra

Eu decido o seu futuro
eu e os meus fuzis
minhas normas determinam
seus direitos civis

Estou rindo de você
Estou rindo de você
o seu direito me obedecer

Artigo 93
Regra geral emando de autoridade competente
Artigo 96
Normas se distinguem em regras congentes ou de ordem pública
Artigo 156
Sua classificação tendo em vista a sua força obrigatória

O que você faz escondido diverte, me faz rir
você pode me subestimar, mas vou te punir

Estou rindo de você
Estou rindo de você
você não é ameaça para mim

Faça o que você bem entender
mas esteja a par do que vai acontecer
depois acerto as contas com você

Você acha que é livre para agir como quer?
Mas o seu futuro foi traçado antes de nascer

Estou rindo de você
Estou rindo de você
Aqui está escrito como podes ver

Artigo 93
Regra geral emando de autoridade competente
Artigo 96
Normas se distinguem em regras congentes ou de ordem pública
Artigo 156
Sua classificação tendo em vista a sua força obrigatória

Se eu largar a tua mão você vai se perder
eu já estou até aqui de corrigir você

Estou rindo de você
com pena de você
E rindo de você

O seu direito é me obedecer

História

Uma das músicas mais poderosas da Plebe, Códigos tem a cara de uma banda vivendo perto do poder. Philippe abriu o Código Penal e escolheu três artigos alheatóriamente, mas retórica é retórica e as frases adicionaram ainda mais dramaticidade a música.

Tão importante para repertório da banda, Códigos foi incluída na colêtanea de melhores sucessos lançado em outubro de 1998, na série Preferência Nacional, da EMI.

Preferência Nacional
11 - Um Outro Lugar
um_outro_lugar.mp3
6-preferencia_nacional-1998.jpg
Um Outro Lugar
Música e Letra: Philippe Seabra
Letra

Ontem fez cem anos
hoje comemoramos
e esta tudo igual

Tem um outro lugar
isso eu tenho certeza
lá, não tem disso não

Ninguém pode calar
o silêncio fala
bem mais alto que gritar

Tire a mordaça
ergue a tua taça
Mas a dúvida ainda é

Demoraria mais de cem anos
para aprender a boa lição?
que toda raça de mãos dadas derruba discriminação

Mas existe um outro lugar

Esse retrocesso
chamam de progresso
não, não é bem assim

Tem um outro lugar
isso eu tenho certeza
lá, não tem disso não

Um ideal que se agarra
o laço que se amarra
E isso ninguém tira não

Ontem fez cem anos
aonde chegamos?
Que isso sirva de lição

Tem um outro lugar
com um pouco de fé fará sentido
mais justo que o nosso lar
aonde esse canto será ouvido

Demoraria mais de cem anos
para aprender a boa lição?
que toda raça de mãos dadas derruba discriminação

Mas existe um outro lugar

História

Na véspera dos cem anos da abolição da ecravidão no Brasil, Philippe escreveu esta canção, inspirado na canção "Biko" do Peter Gabriel. A música tinha acabado de ser regravada para a trilha do filme "Cry Freedom", narrando a trajetoria do ativista anti-apartheid Stephan Biko, morto pela policia sul-africana.

Por pouco não foi escolhida como música de trabalho, mas os programadores de rádio, que as gravadoras começavam a convidar para ajudar na escolha de músicas de trabalho, acharam a introdução longa demais. A influência dos programadores provávelmente foi uma das piores coisas que poderia ter acontecido à música brasileira, e foi nessa época que a prática foi consolidada.

Mais uma vez, os Plebeus chamaram Jaques Moremlembaum para tocar, mas desta vez o arranjo era simples, acentuando o dedilhado de violao de nylon do Philippe. O instrumental do meio foi usado como introdução do show durante a excursão inteira e nao volta da Plebe em 1999.

Preferência Nacional
10 - A Serra
a_serra.mp3
6-preferencia_nacional-1998.jpg
A Serra
Música: Plebe Rude / Letra: Gutje
Letra

Quero ver a serra
que por tempos encantou
mas o homem e sua serra
veio e desmatou

Quero verde perto
se o encanto acabou
só pedra no caminho
e olha o que sobrou

Nada mais crecse
só a lama desce

Tropical, húmida
Hetero-gênea
Latifo-liada
Mata de-vastada
Higrófita, Caduca
Perêne, Encosta

Nada mais crecse
só a lama desce

Todos reclamando
só quero conscientizar
madeira acabando
até quando esperar?

O verde da mata
a serra desmatou
o verde da bandeira
também desbotou

Tropical, húmida
Hetero-gênea
Latifo-liada
Mata de-vastada

História

Com letra do Gutje, A Serra foi uma das primeiras músicas compostas para o terceiro disco da Plebe. A letra foi inspirada quando o Gutje conheçeu um grupo de ativistas ecológicos preservacionistas da Mata Atlântica, na gravação de uma entrevista em São Paulo, e lhe deram uma camiseta que mostrava a bandeira brasileira começando a desbotar de um dos lados. O instrumental da música beira o progressivo, com arranjos de guitarra bastante complicados. A linha do baixo tem um pouco de jazz no 'feeling' com uma batida, brilhantemente arranjada pelo Gutje, um bate-estaca que o torna bastante acessível e dancante. Provávelmente é a música mais complicada que a banda já fez. E sim, aquilo é um 'sample' de uma àrvore sendo derrubada no meio do instrumental, tirado de um disco de vinil de efeitos sonoros do arquivo dos estúdios da EMI.

A Serra foi escolhida como música de trabalho e consequentemente virou clip do Fantástico. Foi muito engraçado ver o Sergio Chapelin apresentando o clip dizendo "Agora com vocês, o protesto ecológico da banda de Brasília, Plebe Rude..."

A direção do clip foi do Boninho, fã da banda. (A primeira direção dele foi para o Clip Clip, programa semanal de clips da Globo, da música Proteção numa versão ao vivo no estudio II da EMI. Batizada Proteção II, a missão, a banda entrava numa levada funk inserindo trechos de Bichos escrotos dos Titãs; foi a primeira vez que a música do grupo paulista, então censurada, foi ao ar). Gravado na Barra da Tijuca no Rio num terreno com uma pequena floresta, de propriedade da Globo, o clip mostrava o grupo tocando primeiro na floresta, para depois acabar num terreno de construção, que semelhava um deserto.

Mas quando o clip foi ao ar, os editores da Globo cometeram um erro gritante. A guitarras e a parte narrada do Jander (tropical - húmida... que o Philippe compilou de um livro de cursinho antigo) foi gravado em estéreo total. Mas quando a música foi editada, alguém esqueceu de mudar o estéreo para mono-duplo, para que o som saisse completo quando fosse escutado em mono, ou em um dos lados somente (mesmo assim não existia no Brasil transmissão de TV em estéreo ainda). Os editores editaram a música em cima de um lado da música e os arranjos de guitarra soavam incompletos e o vocal, sem metade da voz de Jander.

O grupo não continuou os protestos ecológicos depois disso. Depois que a música começou a tocar bastante na rádio, Herbert confidenciou a banda que a letra do refrão não era o que ele esperava do grupo, e se ele tivesse produzido o disco, não teria a deixado passar.

Mas A serra era um grande hit nos shows ao vivo. Esta música não era a preferida do André, e ele eventualmente queria tira-la do repertório, mas como era um hit, ela sempre foi exigida pelos fãs.

Mas a Serra não resistiu o teste do tempo. Não foi incluído no disco ao vivo "Enquanto a trégua não vem" e com a exceção de dois shows já na formação nova com o Clemente, a música nunca mais foi tocada.

Preferência Nacional
9 - Plebiscito
plebiscito.mp3
6-preferencia_nacional-1998.jpg
Plebiscito
Música e Letra: Plebe Rude
Letra

Um pouco além de notícias de jornal
um pouco aquém da situação atual
este absurdo já é tão constante
se você para por um instante

O que tens que evitar é se acustomar

O poder do sim ou não
as letras em negrito
quem cala consente, isso não
proponho um plebiscito

O absurdo e essa indecisão
tanto esforço para dar uma opinião
a plebe incita uma chance
se você para por um instante

É o caminho ao voto popular

O poder do sim ou não
as letras em negrito
quem cala consente, isso não
proponho um plebiscito

História

Plebiscito abria o terceiro disco da banda com uma porrada logo de cara, uma temática do que era de se esperar de uma banda de Brasília: simples e honesto. Sem muita imaginação, quase todos os críticos que escreviam sobre a Plebe usavam os termos "direto à jugular" ou "metralhadora giratória," mas convenhamos, Plebiscito nao os dava muita escolha.

Preferência Nacional
8 - Sexo e Karatê
sexo_e_karate.mp3
6-preferencia_nacional-1998.jpg
Sexo e Karatê
Música: André X / Letra: André X e Jander Bilaphra
Letra

Sexo e karate na minha TV
me deixa tao doente que liguei pra voce
e atendeu um chinês que me falou em inglês
"que você não gosta mais de mim."

Então eu volto pra TV
pra ver sexo e karatê
Lembrei de você
Liguei para um chinês que me lembrou outra vez
"que você não gosta mais de mim."

Que você não gosta mais de mim?

Sexo e karatê, Sexo e karatê, Sexo e karatê

Sexo e karatê, não quero mais ver
um uísque sem gelo e voltei pra TV
telefonei, falei com você
Está passando na Globo sexo e karatê

Pois eu também não gosto de você!

Sexo e karatê, Sexo e karatê, Sexo e karatê

História

Sexo e karatê, uma das primeiras músicas da Plebe, tinha o tempo metade da velocidade da gravação. O clima era bem 'The Cure' na sua primeira fase e se chamava "Gritos no escuro." Mas como os amigos da banda de Brasília não hesitavam em procurar semelhanças com grupos estrangeiros, dobraram o tempo, e mudaram a letra.

Foi a única musica da Plebe com um gongo, que soa na introdução. A Fernanda Abreu, da então Blitz, gravou o "que você não gosta mais de mim" a convite do Herbert, o produtor do disco.

Preferência Nacional
7 - Nunca Fomos Tão Brasileiros
nunca_fomos_tao_brasileiros.mp3
6-preferencia_nacional-1998.jpg
Nunca Fomos Tão Brasileiros 
Música e letra: Plebe Rude
Letra

Sou brasileiro, vocês dizem que sim
mas importações não deixam ser assim
Pra que tudo isso na região tupiniquim?

Nasci aqui, mas não só eu
você está neste barco também (também)

Pensam que é um paraíso
parece que eles vivem aqui
Nunca fomos tão brasileiros

Do que adianta vocês viverem assim?
Ser prisioneiros dentro do seu próprio jardim
Pra que tudo isso na região tupiniquim?

Nasci aqui, mas não só eu
você está neste barco também (também)

Não temos identidade própria
copiamos tudo em nossa volta
Nunca fomos tão brasileiros

Pra que tudo isso na região tupiniquim?
Eu não sei, eu não sei

História

O título da música, que também deu nome ao segundo disco, foi inspirado na obra Nunca Fomos tão Felizes, de Nelson Rodrigues.

Com uma introdução de bateria poderosa, Nunca Fomos era um hit certo nos shows. A música começou a tocar tanto, que a banda resolveu gravar uma versão melhor, chamado Nunca Fomos II, a Missão (brincadeira em cima de Proteção II, versão do primeiro disco da Plebe, inspirado na sequência do filme Rambo: Rambo II, a missão). Para também evitar um 'remix' mal feito (prática comum na época, feito a revelia da banda), re-gravaram a canção, mas com a introdução em 'fade in,' onde o volume demora para entrar. Os Plebeus gravaram o Chacrinha com ela e o velho guerreiro não soube o que fazer com os quase 15 segundos de 'fade in' enquanto a Plebe entrava para o programa.

Inspirado no guitarrista Yngwie Malsteem, Philippe solou mais rápido do que jamais solou, mas felizmente voltou a se concentrar nas guitarras base.

Preferência Nacional
6 - Censura
censura.mp3
6-preferencia_nacional-1998.jpg
Censura
Música: Philippe Seabra / Letra: Philippe Seabra e André X
Letra

Unidade repressora oficial

A censura, a censura
unica entidade que ninguém censura

Hora pra dormir
hora pra pensar
Porra meu papai
deixa me falar

Unidade repressora oficial

A censura, a censura
unica entidade que ninguém censura

Contra a nossa arte está a censura
abaixo a postura, viva a ditadura
Jardel com travesti, censor com bisturi
corta toda música que você não vao ouvir

Unidade repressora oficial

A censura, a censura
unica entidade que ninguém censura

Nada para ouvir, nada para ler
nada para mim, nada pra você
nada no cinema, nada na TV
nada para mim, nada pra você

Unidade repressora oficial
Unidade repressora oficial

História

A censura não era uma novidade para a Plebe. Na época da ditadura, toda música tinha quer ter permissão da Polícia Federal para ser apresentada ao vivo. Duas cópias de cada música tinham que ser enviadas ao Departamento de Censura Federal, que as vezes demorava meses para aprovação. Mas é claro que a Plebe não mandava as letras mais subversivas.

No verão de 83, Philippe passou um mês nos Estados Unidos com os seus irmãos, para ver se ele gostaria de se mudar para lá depois de se formar do segundo grau. Por causa disso, a Plebe perdeu a oportunidade de tocar no Rio pela primeira vez, junto com a Legião. Em Washington D.C., no porão da casa do seu irmão mais velho Alex, que tocava bateria, gravaram uma demo instrumental de uma música que o Philippe estava trabalhando, que viraria Censura. O André Pretorius, o primeiro punk de Brasília, guitarrista do Aborto Elétrico, na época morando em Washington, também tinha um quarto na casa e o porão era o seu estúdio. O Philippe e o seu irmão usaram o seu equipamento, mas não colocaram vocal. Foi o irmão do Philippe que apareceu com a ideia dos tambores nas partes de "unidade repressora oficial".

Philippe nasceu em Washington e se mudou para o Brasil com 9 anos de idade, e foi a primeira vez desde que saiu, que voltou a América. Ele não gostou muito dos EUA, estava com 16 anos e não conseguia se ver morando lá. E ele tinha a banda. Na volta, quando o avião fez escala no Rio, ele leu num jornal carioca uma entrevista com Nelson Motta ou o Caetano Veloso, que falou "ninguém censura a censura." Num outro caderno do mesmo jornal tinha uma materia sobre a polícia, que tinha subido um morro no dia anterior. Era chamada de unidade repressora oficial.

Poucas pessoas perceberam a menção do falecido ator Jardel Filho, "Jardel com travesti, censor com bisturi," que na época participava de um cena erótica com um travesti no filme Rio Babilônia, de Neville D'Almeida. O filme foi censurado e a cena teve que ser cortada, causando muita polêmica e a ameaça da volta da censura ao país. Anos depois, o Philippe conheceu o polêmico diretor no festival de Gramado, na epoca em que fazia trilha sonora para Cinema.

Censura foi a próxima música de trabalho depois de A Ida. Foi sucesso e por muito pouco não levou o Nunca fomos a disco de Ouro também. Mas, como era de se esperar, a música foi censurada. Ironicamente, num bom sinal que a abertura democrática estava acontecendo, não foi o tema da música que chamou a atenção dos censores, foi a palavra 'porra.' A banda não chegou a se assustar com isso, até tiveram mais exposição na imprensa. Logo foi liberada para execução e até tocaram a música várias vezes no Chacrinha, aonde uma vez o Jander passou uma rasteira no Russo, o 'curinga' do Abelardo 'Chacrinha' Barbosa e o Philippe foi até o mesa de jurados e beijou a mão da Luiza Brunet, lhe confessando que era seu maior fã.

Em noites de show mais descontraídos, o Jander as vezes cantava 'a fisura, única vontade que ninguém segura.' O André cantou o refrão errado durante anos sem saber, inserindo 'identidade' no lugar de 'entidade.'

Preferência Nacional
5 - Bravo Mundo Novo
bravo_mundo_novo.mp3
6-preferencia_nacional-1998.jpg
Bravo Mundo Novo
Música: Philippe Seabra / Letra: Philippe Seabra e André X
Letra

Se eu lhe dissesse olhe além do horizonte
será que você olharia?
Bravo mundo novo está nascendo
pelo visto vai te surpreender um dia

Conselho ou sermão, não aprendemos a lição
de que com insistência ou não
nos protegemos e lutamos contra o que?

Bravo mundo novo

Se eu lhe dissesse
as coisas não são como parecem
será que você escutaria?

Bravo mundo novo está nascendo
pelo visto vai te surpreender um dia

Herdamos do passado velhos erros e idéias
que só servem de exemplo para os demais
que já há muito tempo

Bravo mundo novo

Não pergunte então
se os sinos dobrarão
se dobrarem não será por você

Bravo mundo novo, decadente nosso cativeiro
mas se tão jovem mais parece que já há muito tempo.

História

Bravo mundo novo, uma das músicas mais sérias da Plebe, era a favorita do Renato Russo. Uma vez ele perguntou ao Philippe porque não repetiam a parte do meio, que aparecia uma vez, que ele achava tão legal. Philippe respondeu justamente porque era a parte que as pessoas mais gostavam. Alex Antunes, crítico paulista, também a achava uma das melhores músicas da Plebe. É um belo exemplo do trabalho de duas vozes contrastantes, o agudo do Philippe com o grave do Jander.

Quando foi gravado, o Herbert sugeriu que aproveitassem a orquestra de 22 pessoas que gravaria A Ida, sob regência do Jaques Morelembaum, o mesmo cellista de Até Quando. O Jaques então apareceu com a orquestração praticamente dobrando a guitarra do Philippe, que adicionou uma dramaticidade à música e a transformou em umas das mais requisitadas entre àquelas que não tiveram tanta execução de rádio. Apesar da semelhança com a obra de Aldous Huxley, Admirável Mundo Novo, o livro não chegou a influênciar na letra.

A EMI chegou a cogitar que fosse uma música de trabalho, mas não sabiam como trabalhar uma música considerada, pela empresa, tão diferente. Realmente a Plebe não se encaixava nos moldes brasileiros de 'parada de sucessos.' Nunca apareceram no programa Globo de Ouro, nunca tiveram uma música em novela e não eram incluídos em coletâneas de sucesso. Não por escolha da banda, que até apreciaria a exposição, mas pelos moldes do mercado.

Pela segunda vez na história da música brasileira, Ernest Hemmingway é citado numa canção. Raul Seixas tinha uma música chamada "Por Quem os Sinos Dobram".

Preferência Nacional
4 - Johnny Vai à Guerra
johnny_vai_a_guerra.mp3
6-preferencia_nacional-1998.jpg
Johnny Vai à Guerra
Música e Letra: Plebe Rude
Letra

Go Johnny, go!

Johnny vai à guerra outra vez
diversão que ele conhece bem
Johnny vai à guerra outra vez
enquanto que a trégua não vem (não vem...)

Ele era apenas uma pequena ilha de luz na escuridão
sentado debaixo de um poste somente a pensar
Quem está lá fora? Ele queria saber.
O que a noite lhe espera? Ele procura saber. Saber!

Festa cheia de soldados que insistem em batalhar
por ausentes generais
Eles atacaram por trás com tapinhas na costas
ja se conheciam há muito tempo mas tinham que disfarçar
Trocarem papéis, informações falsas
Se esconderam atrás de sorrisos procurando vitórias. Vitórias!
Todos sabem a procedência, mas não seu destino
Vão para todos os lugares

Ele não teme o interrogatório, mas as drogas podem fazê-lo falar
revelar segredos sobre ele mesmo
que o tornaria vunerável demais

Johnny vai à guerra outra vez
diversão que ele conhece bem
Johnny vai à guerra outra vez
enquanto que a trégua não vem (não vem...)

Você os ouve? Estão lá fora!
Você os vê? Estão lá fora!
Seus aliados, estão lá fora!
Contra você!

E a trégua quanto tempo que eu espero
E a trégua quanto tempo que eu espero e não vem (não vem...)

Agora a noite terminou
mais uma batalha foi ganha
Mas ainda restam outras guerras
outros fins de semana
outros fins de semana

E a trégua não vem nunca!

História

Talvez a musica mais poderosa que a Plebe já fez, é a faixa preferida dos 'plebeus' mais ardorosos. Gravado com apenas uma guitarra, baixo e bateria (assim como Brasília e Sexo e karatê) pois o Jander só cantava quando a música foi feita, Johnny se tornou obrigatório nos shows. Até quando Philippe Seabra estreou o seu Daybreak Gentlemen em Nova Iorque em 1997, os Plebeus que habitavam lá a exigiram. É claro que a banda nova de Philippe estava preparada, mesmo não entendendo o que ele estava cantando, e a platéia veio abaixo. Depois do show, Philippe brincava com os amigos americanos dele "Viu? Não te falei que eu era um rock star no Brasil!"

A letra da música faz uma comparação a uma saída noturna de um adolescente com uma batalha. Indo para a guerra, no sentido de lutar contra suas frustrações, sua timidez e, também, os preconceitos contra ele pos se vestir diferente. Nessa "batalha" também está incluído o esforço para ser aceito como é, fugir das drogas, fazer parte de grupos, etc.

Preferência Nacional
3 - Minha Renda
minha_renda.mp3
6-preferencia_nacional-1998.jpg
Minha Renda
Música: Philippe Seabra / Letra: Plebe Rude
Letra

Você me prometeu um apartamento em Ipanema
Iate em Botafogo, se eu entrasse no esquema
contrato milionário, grana, fama e mulheres
a música não importa, o importante é a renda!

Ambição - grana, fama e você
Ambição - grana, fama e você

Tenho fazer sucesso antes que seja tarde
Eles acham que eu vendo, eu tenho uma boa imagem
o meu produtor, ele gosta de mim
grana vale mais que a minha dignidade

Tocar no Chacrinha ou na televisão
tudo isso ajuda pra minha divulgação
isso quer dizer mais grana pra produção - e pra mim!

Você me comprou, pôs meu talento a venda
você me ensinou que o importante é a renda
contrato milionário, grana, fama e mulheres
a música não importa, o importante é a renda!

Ambição - grana, fama e você
Ambição - grana, fama e você

Ele trocam minhas letras, mudam a harmonia
no compacto esta escrito que a música é minha
ja sei o que vou fazer pra ganhar muita grana
vou mudar meu nome para Herbert Vianna

Estar no Chacrinha ou na televisão
tudo isso ajuda pra minha divulgação
isso quer dizer mais grana pra produção - e pra mim!

Grana, fama e você!

Um lá menor aqui, um coralzinho de fundo (fundo!)
minha letra é muito forte? Se quiser eu a mudo
e tem que ter refrão (sim!) um refrão repetido (repetido!)
pra música vender, tem que ser accessivel!

Ambição - grana, fama e você
Ambição - grana, fama e você

Não sei o que fazer, grana tá difícil
tenho que me formar e nem escolhi um ofício
Você é músico, não é revolucionário!
Faça o que eu te digo que te faço milionário!

Estar no Chacrinha ou na televisão (a minha renda)
tudo isso ajuda pra minha divulgação (a minha renda)
isso quer dizer mais grana pra produção - e pra mim!

A minha renda!

História

Composta em 83, a música na verdade começou como um protesto sobre falsos punks. No lugar do que viraria "Você me prometeu,'" Philippe e o André escreveram "a sua ideologia, não está na cabeça, a sua ideologia, está na tua camiseta..." E no lugar do futuro "Grana - fama - e você," escreveram "Eu não - quero - me vender." Esta versão nunca foi apresentada ao resto da banda, por motivos óbvios. A letra de Minha Renda era muito mais madura, mas foi o mais 'irreverente' que a Plebe já chegou.

O tema saiu da raiva da Plebe de ver grupos como os Paralamas, que todo mundo adorava em BSB, gravando só porque estavam no Rio. Brasília era o maior fim de mundo e a letra refletia esse sentimento de isolamento, mas foi justamente por causa disso que Plebe, Legião e Capital soavam tão únicos.

Composta em 83, em cima de uma peça instrumental do Philippe, a música começou a chamar atenção. Através de amigos em comum, os Paralamas ouviram a respeito, e quando a Plebe foi tocar pela primeira vez no Rio, no lendário Circo Voador, eles abriram para a Legião (curiosamente, o primeiro show da Legião foi abrindo para a Plebe em Patos de Minas) que estava abrindo para os Paralamas, curtindo o recém sucesso de Óculos. Na passagem de som, o Herbert esperava de braços cruzados no meio do Circo para escuta - lá. Foi a segunda vez que os Plebeus se encontraram com o ele. A primeira vez foi na sala de ensaio no Brasília Rádio Center, que dividiam com a Legião e o XXX. O Herbert usou um pedal Flanger do Philippe e ligou acidentalmente na tomada sem transformador (Brasília é 220 Volts), mas não falou nada. A primeira coisa que o Herbert disse ao Philippe, antes de escutar a música foi "que papo é esse que queimei o seu pedal?" O Philippe ficou sem graça. Eles subiram ao palco para passar o som e tocaram a Minha renda... "Vou mudar meu nome para Herbert Vianna." Desceram do palco sem saber a sua reação e o Herbert estava todo sorridente. Viraram amigos e ele acabou produzindo os dois primeiros discos da banda. Ele também cantou esta frase no disco, e participou do clipe do Fantástico. Anos depois o Herbert admitiu que foi ele quem queimou o pedal e pediu desculpas. Esse tempo todo, o Philippe pôs a culpa no Iko Ouro Preto, irmão de Dinho do Capital, e guitarrista do extinto Aborto Elétrico. Coitado.

A partir daí, dependendo de qual Paralamas estava num show da Plebe, cantavam "Já sei o que vou fazer pra ganhar muito dinheiro, vou mudar meu nome para o Bi Ribeiro" ou "Já sei o que vou fazer pra ter fama e um nome, vou mudar meu nome para o João Barone."

Ironicamente, a EMI queria que essa canção fosse a primeira musica de trabalho para apresentar a Plebe ao público brasileiro. Primeira faixa do lado B do disco (não existiam CDs no mercado brasileiro ainda), é curioso a menção de um compacto na letra, pois quando o Concreto foi lançado, as gravadoras já não imprimiam mais compactos para venda. Plebe Rude nunca teve um.

O clipe do Fantástico, dirigido pelo Jodele Larcher, foi apresentado no programa pelo Herbert. Este clip, mesmo no formato da Globo, ficou bem feito. Herbert, de terno com aquele fundo habitual que aparece atrás dos apresentadores do programa, falou do explosivo movimento de bandas de Brasília, e de um grupo que ele produziu. O clipe abre com o André ouvindo um fictício produtor musical que o manda, com "Take Um, valendo," a subir no palco, aonde o resto do grupo o esperava. O produtor então pega um rapaz e tenta o moldar num artista comercial. Ele mudava o figurino dele, de punk a sertanejo a brega repetidas vezes enquanto que o grupo tocava num palco de frente de uma parede de tijolos falsos. Antes da gravação, a banda foi dado tinta spray para tornar o set mais 'rude' e picharam um grande 'A' de anarquia. (Ironicamente, na semana seguinte, a Tetê Espindola apareceu com um clip no Fantástico usando o mesmo cenário!) O Philippe tocava um violão Ovation emprestado e o André X estava tocando com o baixo pendurado na altura dos joelhos.

No meio da música, quando o rapaz canta "Já sei o que fazer para ganha muita grana..." a câmera dá um close nele. O rapaz vira o Herbert que canta "vou mudar meu nome para Herbert Vianna!" Anos antes do vídeo do Michael Jackson "Black and white," a Plebe inventou o efeito 'morphing.'

O clip termina com o rapaz se revoltando e descendo o cacete no produtor, que no final diz "Não Valeu!" e para a surpresa da banda que não sabia que iria ao ar esse detalhe, o Herbert aparece com o mesmo fundo do Fantástico do começo e respondeu "Valeu sim!" Foi assim que o Brasil foi introduzida a Plebe.

Ironicamente, nenhum dos integrantes da banda, quando mudaram para o Rio, morou em Ipanema. E muito menos compraram iates.
Mas apresentaram a música no Chacrinha...

Anos mais tarde, fã confesso da banda, Marcelo D2 usou trechos da letra sem dar credito a banda na música “Em busca da batida perfeita” no disco homônimo de 2003:

“João e Maria, cheio de regalia
Entrou no conto do canalha que fazia e acontecia
Agora é artista não se mistura cá plebe
Domingo no Faustão Terça-feira na Hebe

Iate em Botafogo, apartamento em Ipanema
Uma vida de bacana se eu entrasse pro esquema
Mas eu busco na raiz e o natal que eu sempre quis
Não é um saco de dinheiro que me deixa feliz”

Preferência Nacional
2 - Proteção
protecao1.mp3
6-preferencia_nacional-1998.jpg
Proteção
Música e Letra: Philippe Seabra
Letra

Será verdade, será que não
nada do que posso falar
e tudo isso prá sua protecao
nada do que posso falar

A PM na rua, a guarda nacional
nosso medo suas armas, a coisa não tá mal
a instituição esta aí para a nossa protecao

Pra a sua proteção

Tanques lá fora, exército de plantão
apontados aqui pro interior
e tudo isso para sua proteção
pro governo poder se impor

A PM na rua, nosso medo de viver
um consolo é que eles vão me proteger
a unica pergunta é: me proteger do que?

Sou uma minoria mas pelo menos falo o que quero apesar da repressão

Tropas de choque, PM's armados
mantêm o povo no seu lugar
Mas logo é preso, ideologias marcadas
se alguém quiser se rebelar

Oposição reprimida, radicais calados
toda a angustia do povo é silenciada
Tudo pra manter a boa imagem do Estado!

Sou uma minoria mas pelo menos falo o que quero apesar da repressão

Armas poilidas, os canos se esquentam
esperando a sua função
exército brabo e o governo lamenta
que o povo aprendeu a dizer não

Até quando o Brasil vai poder suportar?
Código penal não deixa o povo rebelar
Autarquia baseados em armas não dá
E tudo isso é para a sua segurança

Para a sua segurança

História

A emenda Dante de Oliveira para as Diretas Já tinha acabado de ser recusada pelo Congresso. Quando o país inteiro ligou a televisão a noite para ver o tão esperado resultado, o Cid Moreira apareceu no Jornal Nacional com uma reportagem sobre o aniversário da ocupação Soviética no Afeganistão, que durou 15 minutos. E só. Estado de sítio, pela primeira vez em anos, foi decretado. Jornalistas apanharam e foram presos. Brasília foi isolada do resto do país com o exército na rua.

Philippe tinha uma canção sem letra, e estava tentando fazer uma letra de 'amor' pois estava apaixonado pela primeira namorada, mas nada saía. Não teria jeito, a Plebe nunca conseguiu fazer uma letra de amor, com a exceção, anos mais tarde , de Quando a música terminar, do Mais raiva do que medo, e de talvez uma parte de 2a feriado, do Plebe Rude III. A letra de Proteção veio num instante, e foi um feito e tanto gravar a música dois anos depois e apresenta - lá no Chacrinha várias vezes sem a intervenção da censura federal. Anos antes, uma música da Blitz (também artistas da EMI) não só foi censurada para execução em rádio, como todos os discos, e não eram poucos, já prensados, foram recolhidos. A faixa foi aranhada manualmente, disco por disco, para evitar que o público a ouvisse de qualquer maneira. Mas ao contrário de Proteção, seu conteúdo era sexualmente explicito, não político. Os Plebeus não sabiam o que esperar. Muito menos o sucesso estrondoso da faixa, que não só dominou a rádio por meses, mas levou a Plebe ao disco a Ouro.

O sucesso da música foi tanto que, para evitar um 'remix' ridículo, pratica comum na época para prolongar a vida útil de rádio de uma faixa, a Plebe Rude entrou mais uma vez em estúdio para gravar a versão que a banda estava atualmente tocando ao vivo, Proteção II, a missão (uma brincadeira em cima de Rambo II, a missão, do filme recém lançado). Uma versão 'remix' de Até Quando foi feita sem o conhecimento nem aval da banda, mas para o seu alívio, poucas pessoas a ouviram. Anos mais tarde, Proteção II foi incluída no Nunca fomos tão brasileiros que vinha dentro do box set da Plebe Rude, o Portfólio, lançado em 1997, sem nenhuma menção.

O clipe, o que é considerado o melhor da banda, foi feito num galpão no centro do Rio. A banda tocou a música, intercalado com imagens de repressão policial e militar. No fundo, sombras de soldados e de monumentos de Brasília eram projetadas num fundo branco. No final, um par de algemas eram jogadas no chão e até o Partido Socialista brasileiro, com o slogan 'Tortura Nunca Mais' queria usar a música para a sua campanha. Mas a única vez que a banda autorizou algum partido a usar uma de suas obras foi quando o Partido Comunista foi legalizado e tiveram o seu primeiro horário gratuito televisionado nacionalmente em 87, com um minuto da faixa Brasília, última faixa do Concreto já rachou.

Preferência Nacional
16 - Repente
repente.mp3
6-preferencia_nacional-1998.jpg
Repente
Música e Letra: Philippe Seabra
Letra

De repente distância
diferença regionais
de repente ignorância
o estado das capitais

No nordeste a terra descansa em paz
longe da Fortaleza não está mal
João é uma Pessoa comum e feliz
no horizonte tem as luzes de Natal

Dona Terezina vira pro lado
e pergunta se seu São Luiz está bem
Olhando na mesma direção cristã
vendo o meninozinho de Belém

Eu procuro além dos Recifes
eu só quero uma visão melhor
Se não der de ver, de Aracajú
vou ver se a vista é boa em Maceió

A negligência vem mais de cima
Estado, Deus, país, tanto faz
a esperança é o que sustenta
e o improviso é um dito popular

A festa da raça e da tradição
da cidade baixa subo de elevador
Senhor do Bonfim, por favor olhe por mim
vai ver me entendo em São Salvador

Em nome do pai e do Espirito Santo
de Vitória ganho Minas Gerais
terra fértil eu quero, mas um horizonte belo
o sol nascente se põe em Goiás

De Cuiabá, Campo Grande
posso ouvir tiros da caça animal
mas o que vejo é a ameaça
refletida nas águas do Pantanal

De repente um repentista
a rima de improvisar bem
sem querer um repentista
faz prosa com o pouco que tem

Na Amazônia, Roraima, Acre, Rondônia
índio faz canoa com poucos paus
então alguma coisa errada, floresta devastada
mas francamente que zona perto de Manaus

Pra atingir em cheio nosso coração
Eu chego no Distrito Federal
Uma vista honrada e privilégiada
entendo agora porque o país esta mal

Passo por Curitiba e Floripa
e navego o Rio Grande do Sul
nas margens do lado, terra abençoada
que diferença faz água e dinheiro

De repente um repentista
espremida em uma nação
por mais óbvio que for a rima
unísono na mesma canção

Vasto e cinza e olhos ardendo
por Congonhas entro em SP
sei que há magia, mas não estou vendo
por Guarulhos saio sem explicar porque

Aporto no Rio, fico observando
tá apertado entre a serra e o mar
o que São Sebastião, não tinha noção
já previa o Estáçio de Sá

O problema que é muito grande
tanto contraste não tem igual não
do alto do morro e desse tamanho
me deixe dar a minha observação

Meus brasileiros, minhas brasileiras
hoje eu me dirigo a toda essa nação
depois de toda a minha andança
ví que o importante é manter o pé no chão

O que eu quero é o porque do improviso
fiz a promessa do que eu vou encontrar
com esperança a gente vai levando
e o improviso...

É um dito popular!

De repente um repentista
espremida em uma nação
por mais óbvio que for a rima
unísono na mesma canção

De repente um repentista
a rima de improvisar bem
sem querer um repentista
faz prosa com o pouco que tem

História

Uma das músicas mais ambiciosas, ou pretensiosas, do rock nacional, Repente é uma das mais longas também. Com mais de 6 minutos de duração, Philippe a mostrou pela primeira vez à banda num ônibus no meio de uma excursão em Minas. Numa letra imensa, que mencionava toda capital e estado brasileiro ao mesmo tempo observando as injustiças e contrastes do Brasil através dos olhos de um repentista, os plebeus teriam que passar por todos os estilos musicais e ritmos dos estados mencionados. Gutje topou o desafio.

O conceito foi em cima da observação de que o brasileiro, para sobreviver, tem de improvisar. A banda já tinha tocado em quase toda capital brasileira, e inspiração para a letra não seria problema.

Foi difícil gravar tantos instrumentos diferentes em 24 canais somente (O concreto ja rachou foi gravado em 16 canais) e Gutje se sobressaiu com os impressionantes arranjos de bateria e percussão. O seu nome figurou entre os melhores bateristas brasileiros na revista Bizz naquele ano. Mais uma vez, Zé Americo, que tocou o teclado de Valor, na mesma sessão de estúdio gravou safona para a parte do sul. Os Plebeus ficaram impressionados com ele, e realmente, o arranjo de sanfona no meio da canção é lindo.

A Plebe tocou a música várias vezes, mas como era quilométrica, Philippe tinha que ter a letra no chão no palco a sua frente. Uma vez em Curitiba, quando a banda não estava com a música ensaiada, alguns estudantes de direito começaram a cantar o refrão música para chamar a banda de volta para o bís. O Philippe voltou ao microfone com um violão e chamou os plebeus ao palco, que cantaram a música inteira com ele, cantando partes da letra que nem ele lembrava.

Poucas pessoas perceberam através da frase "o sol nascente se põe em Goiás" a menção da radiação nuclear que foi fatalmente encontrado num centro urbano em Goiás na época, causando muita discriminação contra produtos Goiânos e reacendendo a polêmica sobre o programa nuclear brasileiro. Pouco tempo depois, o Governo apareceu com a constrangedora campanha de TV Nacional, "Eu amo Goiânia."

Atenção para o 'riff' de guitarra da música Brasília, do Concreto Já Rachou, que rola por trás da parte que passa pelo Distrito Federal. No final da parte, a guitarra começa a falhar a lá Gang of Four, propositalmente.

Mas como era de se esperar, ninguém entendeu Repente, e com a música Valor também no repertório, tinha pessoas dizendo que o grupo tinha virado um grupo de baião. Por causa do tamanho da letra e da diversificação de estilos, comparações com Faroeste Caboclo foram inevitáveis. O Renato Russo confidenciou ao Philippe que apesar de ser fã número 1 da banda, não gostou da música.

Anos depois, Daniela Mercury gravou uma música que passava pelo Brasil inteiro e grupos de rock com um sotaque regional apareciam mais na mídia. A Plebe sem dúvida esteve à frente do seu tempo. O jornalista Arthur Dapieve chamou Repente de "um inteligente passeio póli-rítmico pelo Brasil," mas só quem era plebeu gostou.