Plebe Rude

The Categories
R ao Contrário (2006)
Musical genre: R ao Contrário (2006)
Total tracks: ( 12 )
"R ao contrário" marca a volta da Plebe Rude 

A edição 16 da Revista Outracoisa, de Lobão, chega às bancas em 13 de setembro, trazendo o novo disco de uma das mais importantes bandas da história do rock nacional.

Desde a gravação de Enquanto a Trégua Não Vem, o álbum ao vivo que marcou a volta da Plebe Rude, em 2000, um disco de inéditas vinha sendo aguardado pelos fãs. Pois a espera acabou com R ao Contrário, o novo álbum, lançado pela Revista Outracoisa e que marca a estréia, em disco, da formação que vem tocando pelo Brasil desde 2004. Além de Philippe Seabra (vocal e guitarra) e André X (baixo), remanescentes da Plebe original, estão na banda Clemente (guitarra e vocal), também integrante do Inocentes, outra lenda do punk rock nacional, e o baterista Txotxa, ex-Maskavo Roots.

R ao Contrário foi produzido pelo próprio Philippe Seabra, no Daybreak Studios, montado por ele em Brasília, e traz 12 músicas com tudo o que a Plebe Rude tem de melhor: as melodias rebuscadas e inspiradas no pós-punk, a verve política que deu ao mundo "Proteção", o hino da abertura política brasileira dos anos 80, e o clássico duelo vocal hoje complementado por Clemente. Ao mesmo tempo, apresenta uma banda madura e consciente do papel que representou em sua época e daquilo que ainda pode oferecer, em tempos de mensalão e outras mazelas que ainda persistem na política brasileira.

A nova formação começou a se moldar em 2003, quando Philippe Seabra e Clemente se viram dividindo o mesmo palco num tributo à banda inglesa The Clash. Quase um ano mais tarde acontecia o primeiro show, no Circo Voador, no Rio. Para a bateria foi recrutado o potente Txotxa, que fez parte da formação clássica do Maskavo Roots, grupo de destaque no cenário brasiliense dos anos 90. Com o repertório pronto, composto majoritariamente por Philippe e André X, e o estúdio de Daybreak já todo concluído, foi só iniciar a gravação das 12 músicas que estão em R ao Contrário.

E que músicas. "O Que Se Faz", o primeiro single, abre o disco com acordes grandiloqüentes que homenageiam o Big Country, grupo escocês contemporâneo da Plebe que teve o líder Stuart Adamson morto em 2001. Na introdução foram usadas até gaitas de foles. Outra faixa inquieta é "Mil Gatos no Telhado", cuja letra instiga o ouvinte a se indignar, de uma forma menos didática e mais inteligente. A faixa-título, por sua vez, é quase uma incitação pública para que se "pense ao contrário", onde o rádio e a TV – e a mídia em geral - continuam na berlinda. Mas fica para o final a cereja do bolo, com a gravação da "inédita" "Vote em Branco". A música foi responsável pela detenção da banda no histórico show de Patos de Minas, em 1981, junto com o pessoal da Legião Urbana, que tocou "Música Urbana 2" e também foi em cana. O charme a mais foi dado pela interpretação de André X, que pela primeira vez gravou os vocais, e pela participação de Fê Lemos, do Capital/Aborto Elétrico, que usou a mesma bateria dos primeiros ensaios da Plebe.

Uma das mais importantes bandas do afamado rock de Brasília da década de 80 que revelou, entre outros, Legião Urbana, Capital Inicial e Paralamas do Sucesso, a Plebe Rude foi certamente a que atingiu maior sucesso logo na estréia, com o EP "O Concreto Já Rachou", do qual nada menos que seis das sete músicas se transformaram em hits nas FMs de todo o País. Puxado por "Até Quando Esperar", o disco superou as 250 mil cópias, e é considerado uma das melhores estréias de uma banda nacional em todos os tempos.

Marcos Bragatto
11 de setembro de 2006

Para Sempre (2001)
Musical genre: Para Sempre (2001)
Total tracks: ( 14 )
A EMI Music supreendeu a Plebe mais uma vez lançando a coletânea Para Sempre no mercado no mês de agosto de 2001 sem consultar a banda, nem para escolha da capa e muito menos repertório. Mais um momento desperdiçado para lançar a versão inédita do "Nunca Fomos tão Brasileiros ll".

 

EMI 2001

Musical genre: Enquanto a trégua não vem - Ao vivo (2000)
Total tracks: ( 18 )

Produção: Herbert Vianna

Gravação: Leo Garrido

Mixagem: Vitor Farias e Plebe Rude

Gravado dias 15 e 16 de novembro, 1999 no Espaço Odeon no Rio de Janeiro.

2000 - EMI

Musical genre: Preferência Nacional (1998)
Total tracks: ( 16 )

Depois de anos de negociações, foi lançada em 1998 os melhores sucessos da Plebe Rude, com as músicas mais representativos da banda, escolhidas a dedo pelos membros da banda. Infelizmente os Plebeus não foi consultados sobre a foto da capa, provavelmente a pior foto ja tirada da Plebe, para uma matéria da revista Bizz de 1987, que parece que foi recortado com tesoura.

EMI 1998

Musical genre: Mais raiva do que medo (1992)
Total tracks: ( 11 )

Produção: Paulo Junqueiro

Gravação e mixagem: Paulo Junqueiro

1993 Natasha - EMI

Quarto LP da Plebe, Mais Raiva do Que Medo é também foi o primeiro álbum lançado simultaneamente em CD. Isso tem uma explicação simples. Só depois que o terceiro disco da banda saiu foi que os CDs ficaram populares no Brasil. Mas antes de falar do disco propriamente dito é preciso contar como a banda demoraria quatro anos para registrar novamente suas músicas.

Estamos em 1990. A pré-produção do disco começava ali e se desdobraria em inúmeras fases. Antes do fim do contrato com a EMI, a Plebe grava várias músicas na EMI, incluindo Pressão Social, e uma que nunca chegou a ser regravada, O Muro. O problema que a banda enfrenta é de fato com a gravadora. A relação com a EMI vinha se esgarçando, mesmo depois de quase 300 mil discos vendidos pelo grupo. A gravadora optou por não renovar o contrato.

O disco Plebe Rude III beirou as 50 mil unidades vendidas, um número excelente para aquele difícil 1989, quando a economia deteriorou-se rapidamente. Mesmo assim, a EMI não chegou a perceber que o cenário econômico piorara. E ainda seria pior, nos próximos anos. Da inflação quase zero do Plano Cruzado, quando o Concreto Já Rachou foi lançado em 1986, até chegar aos 90% registrados mensalmente, com a falência do Cruzado II, quando o terceiro disco da Plebe foi lançado, a vendagem de todos os artistas nacionais estava abaixo que o normal.

Alguns músicos e grupos que vendiam até menos que a Plebe na época, continuavam com as respectivas gravadoras, que mantinham a política de dar força aos artistas de seu cast. Houve quem conseguisse lançar discos de capa dupla, privilégio que a Plebe nunca conseguiu.

Philippe Seabra e André X reconhecem que a reputação da Plebe era de ser um grupo de músicos difíceis, que dificultavam as coisas. O quarteto sempre foi apontado como uma banda única e singular, que nunca fez qualquer tipo de acordo com o mercado. Os quatro nunca colocaram música em novela ou mesmo participaram de coletâneas de sucesso.

Não liberavam nem mesmo músicas para karaokê - uma coisa usual na época. "E muito menos puxávamos o saco de ninguém", ressalta André X. Recusavam-se a fazer certos programas de tevê e nunca deixavam de dizer o que pensavam de outros artistas e da própria gravadora. Quando ainda estavam sob contrato com a EMI, os quatro plebeus foram a um programa de televisão e rasgaram o selo da EMI da contra capa do disco Plebe Rude III. Por isso mesmo pagaram um preço alto.

A banda estava mais sintonizada com o movimento de rock em São Paulo. E estando lá, sempre que podiam, tocavam com os Inocentes e o Ira! O vocalista Nasi sempre subia ao palco da Plebe para cantar Should I Stay or Should I Go, do The Clash. E Philippe somava-se ao Ira! para tocar guitarra com Edgard Scandurra. Morando no Rio, a Plebe, apesar de conhecer todo mundo, não se identificava muito com as grandes bandas cariocas. "Sempre fomos, até por vontade própria, os outsiders da turma", reconhece Philippe. O Rio era uma "panela da galera que se deu bem". E era assim que a banda via alguns artistas do rock carioca: pessoas com mais contatos que talento.

Ruptura

Um ano após o termino do contrato com a EMI, Jander parecia se distanciar ainda da banda. Preferia permanecer em Mendes, cidade do interior do estado do Rio, aonde mantinha uma casa. Como começara a deixar o grupo em segundo plano, freqüentemente faltando aos ensaios e mostrando menos interesse na banda, Jander é convidado a sair.

Maryton Bahia, produtor da Legião Urbana e então diretor artístico da Polygram, cedeu os estúdios da Barra para a banda, agora um power trio. Ali, Philippe, André e Gutje gravam mais de dez músicas inéditas. Apesar da aproximação, tanto a banda quanto a Polygram não pareceram ficar satisfietas com o resultado. Com exceção de uma canção, Quando a música terminar, nenhuma das outras nove faixas foi regravada pela banda.

Tendo que assumir definitivamente os vocais, Philippe sente o peso da responsabilidade, ainda que André acabe fazendo as partes das músicas antigas que eram destacadas por Jander e Gutje complemente o backing do baixista. Sentindo-se um pouco inseguro diante do desafio, o guitarrista
e vocalista sugere que os três montem o Clash City Rockers, uma noite de tributo ao Clash, cujo disco London Calling tinha acabado de receber o título de melhor disco da década de 80 da revista Rolling Stone. Philippe raciocinaba que a banda-homenagem seria um jeito dele mesmo se acostumar ao formato de power trio, sem diretamente comprometer a imagem da Plebe. Inspirados no sucesso do Midnight Blues, com intregrantes do Kid Abelha e do Barão tocando versões de blues e soul, os plebeus decidem fazer duas datas no Circo Voador.

A primeira noite tinha como convidados os amigos Dado Villa-Lobos, da Legião, George Israel, do Kid, e Bruno Gouveia, do Biquini Cavadão. "É claro que o bis foi só Plebe", recorda-se André. A banda fica convencida que pode atuar como trio, mesmo tendo que mudar um arranjo aqui e acolá. A noite fez tanto sucesso, com fãs agradecendo a banda pela experiência, que os três plebeus voltaram semanas depois, dessa vez com o Fernando Magalhães, do Barão Vermelho, e Serginho Serra, recém saído do Ultraje a Rigor. O amigo Herbert Vianna também era aguardado. Mas teve que viajar de última hora e acabou não tocando. Os três ainda contaram com o tecladista Marcelo Lima, ex-músico de apoio do Kid Abelha, e o percussionista Nego Beto. Ambos haviam excursionando com a Plebe pouco antes.

A noite foi casa cheia também, com mais de 1.500 pessoas. Philippe se recorda que, durante um dueto de solos na música Brand New Cadillac, teve que chutar a bunda de Serginho Serra. "Ele simplesmente não parava de solar", relata. O plebeu-mor chegou a ir ao microfone, em seguida, e provocou Serginho Serra: "Pô, isso aqui não é o Ultraje!" . Fernando, do Barão, tocou Clampdown, que ele acabaria gravando com a banda justamente em Mais raiva do que medo, e Lost in the Supermarket, um dos pontos altos do show. Mais uma vez, deu Plebe no bis. "Foi uma noite muito especial e até hoje tem gente que fala a respeito", comenta André.

Ainda sem produtor para tocar o que viria a ser o novo disco, a Plebe entrou em contato com Herbert Vianna, produtor dos dois primeiros discos do grupo. Mas, devido a limitações de tempo por causa do lançamento de um disco novo dos Paralamas, Herbert pôde ao menos assumir a pré-produção. Ele é apontado por André e Philippe como foi fundamental para incremantar as arranjos de Este ano, Aurora, Quando a Música Terminar, Sem Deus sem lei e uma música fortíssima da Plebe, com letra de Gutje, chamada Roda Brasil, que nunca foi gravada em disco.

Na demo de Mais raiva, registrada no estúdio caseiro de oito canais de Herbert no Rio, o paralama gravou o solo na primeira música da Plebe, composta ainda em 1981, chamada Pressão Social. Renato Russo pedia há anos que os plebeus a gravassem.

O quarto disco da banda começava a tomar forma. Herbert leva a demo ao ex-presidente da EMI Beto Boaventura, agora presidente da WEA. O paralama coloca-a no volume máximo no escritório de Boaventura. Mas, mesmo com o líder dos Paralamas por trás da empreitada, a Warner não se manifesta. O presidente da gravadora sabia muito bem o que poderia esperar da banda.

Com o disco bem mais estruturado, os três plebeus entram em contato com Ezequiel Neves, jornalista dublê de produtor, que trabalhou com o Barão Vermelho e Cazuza. Zeca Jagger, como o jornalista assinara suas matérias sobre rock ainda nos anos 70 e 90, topou na hora. Ele sempre manifestara simpatia pelo grupo. Tanto que, sempre que encontrava com algum membro da banda, não se cansava de dizer qua adorava a Plebe.

Zeca ajudou estruturar a letra de Ação, Solidão, Adeus - que ele queria chamar de On the Road, inspirado no livro homônimo de Jack Kerourac, a cara do Zeca. Mas tampouco Ezequiel Neves não podia se dedicar muito mais do que isso. No disco, os plebeus agradeceram a Herbert e a Zeca pela força. O álbum já estava pronto para ser gravado e o trio saiu para a estrada, a fim de testar a receptividade do público a algumas das canções. Este Ano, especialmente, já parecia hit. No Aeroanta, em Curitiba, a recepção foi tão boa que multidão pulava como se fosse uma música do primeiro disco. Aurora também causava a mesma reação.

Além da Plebe

Nessa mesma época, André estava com o badalado programa de rádio, junto com o jornalista do Globo, que assinava uma coluna dominical na Rio Fanzine, Tom Leão. O programa se chamada HellRadio e era único no dial brasileiro, com dois dos maiores experts de música alternativa no país trocando impressões e tocando o que havia de melhor no rock. O programa se estabeleceu como o mais ouvido da Rádio Fluminense, a mesma estação que, anos antes, ajudou a estourar a Plebe e quase todo mundo da geraação 80 - a rádio tocava demos da banda em 1983 dois anos antes deles serem contratados.

André também havia recém-fundado o selo e loja de discos Rock It!, junto com Dado Villa Lobos. A pequena gravadora lançou os discos das bandas cariocas Second Come, Gangrena Gasosa e dos Sex Beatles, além da banda de heavy metal brasiliense Dungeon, fundada por Feijão, ex-guitarrista da Escola de Escândalo. Alguns anos depois, o selo lançaria ainda o primeiro álbum da carreira solo de Dinho, do Capital Inicial.

Paralelo a banda, Philippe estava perseguindo a sua segunda paixão, trilhas sonoras de filmes. Ele faria a trilha original para o curta metragem O Vendedor, primeiro filme do ator Roberto Bomtempo, do mesmo diretor de A Menina do Lado, filme com Reginaldo Farias e a estréia de Flávia Monteiro. Também trabalha na música original de Manobra Radical - com exceção da música-tema -, o longa metragem da diretora Elisa Tolomeli. O filme foi o último a ser financiado pela Embrafilme, estatal extinta pelo então presidente Fernando Collor de Mello.

O guitarrista e vocalista da Plebe viajaria com as equipes dos dois filmes para os festivais de cinema de Natal, Brasília e Gramado. Foi a primeira vez, em anos, que Philippe conseguia tirar algum tempo de folga da banda. No festival de Natal, cidade aonde a Plebe tocaria pela primeira vez em 1992, era a semana do CarNatal, a festa carnavalesca fora de época nas da capital potiguar com trios elétricos baianos. A banda Mel convida o guitarrista para tocar uma música no trio elétrico. Ele mesmo diz que, entre os seguidores do caminhão que levava o trio elétrico, não havia sinal de nenhum plebeu. "Também, né?", brinca.

Em Gramado, a mais nova emissora do país, a MTV, que estava começando no Brasil, convida Philippe para cobrir uma das festas para o programa semanal Cine MTV. Com o microfone nas mãos e uma equipe de filmagem ao seu dispor, o guitarrista não tem dúvidas. Saia a fazer entrevistas com atores coadjuvantes e alguns travestis que participavam de um curta-metragem. Era isso em vez de artistas de renome. E a MTV não se incomodou. Numa parte da matéria, Philippe perfilava-se ao lado do buffet com a boca cheia de salgadinhos, dizendo que "se soubesse que o cinema nacional era assim, teria trabalhado com trilha muito antes." O plebeu, entretanto, soube tirar com elegância ao fato de, apesar de concorrer seis vezes a melhor trilha sonora original em todos os festivais, não ganhou um prêmio. "Foi uma honra ser nomeado", repetia.

Nessa mesma época, no Programa Livre de Sérgio Groisman, transmitido ao vivo de São Paulo, a banda gravou várias vezes a ainda inédita Este Ano. O trio agitou a platéia, preparando o público para o que viria a seguir. Na hora do bate-papo com a molecada, um jovem fã perguntou aos três como era iniciar uma banda. Os plebeus responderam, quase em uníssono: "vai estudar Direito para evitar aborrecimentos."

No final de outra apresentação no mesmo programa, então apresentado por Serginho no SBT, ao lado de Luiza Erundina, recém-eleita para a prefeitura de São Paulo, Philippe a cumprimentou beijando sua mão. O plebeu surpreendeu a prefeita, que havia ganhado a disputa de ninguém menos que Paulo Maluf, afirmando que, se o título eleitoral dele não fosse do Rio, teria votado nela. Erundina agradeceu.

Inspirado, ao final da última música, Philippe se dirige à platéia do Programa Livre e presenteia um fã com sua preciosa Gibson Les Paul, uma modelo custom prateada, a mesma guitarra com que gravou todas as músicas da Plebe. Sérgio Groissman fica sem entender nada: "Não acredito. Ele deu a guitarra", balbuciou no encerramento do programa. Atrás do palco, Philippe se dá conta da loucura e pede a um dos roadies que vá atrás do instrumento.

Power duo

Apesar do fim de ano cheio de boas vibrações, pouco antes do grupo entrar em estúdio para começar a gravação deste que seria o quarto disco da Plebe, Gutje Woorthman declara abertamente sua discordância sobre os rumos da banda em termos de gravadora. Em razão disso, acaba sendo da banda. Por causa disso, o grupo acaba cancelando uma apresentação do Clash City Rocker no Aeroanta de São Paulo. Já estavam confirmadas as presenças de Nasi, do Ira!, dos Inocentes e de Max Cavalera, do Sepultura. Até hoje tem paulista reclamando disso.

A Plebe estava reduzida a um duo agora, com Philippe Seabra e André X. Jander havia saído da banda dois anos antes, e agora era a vez do baterista. Mas os dois amigos estão dispostos a peitar tudo e manter a banda viva. Philippe e André são contatados por Connie Lopes, ex-diretora internacional da WEA, presidente da Natasha, selo recém-fundado. Seria o primeiro trabalho do selo, fundado por Connie junto com seu marido, Felipe Lerena. Connie faz a mesma pergunta que todas as gravadoras dirigiam à Plebe quando a conheciam: "Por que vocês têm a fama de ser tão dificeis?" A Plebe conseguira, a um preço muito alto, ser a banda mais punk do mainstream brasileiro. Por uma ironia do destino, Mais raiva... seria eventualmente distibuído pela EMI, a ex-gravadora que dispensara a banda três anos antes. Bruno Gouveia, do Biquíni Cavadão, chegou a ligar para Philippe, felicitando-o: "O bom filho à casa torna." Bom filho?

Para a produção do disco a gravadora Natasha chama Paulo Junqueiro, técnico de quase todos os discos dos Titãs, que mais tarde viraria diretor artístico da WEA. Foi a primeira vez que o grupo gravou fora do estúdio I da EMI, optando pelo Nas Nuvens. O álbum demorou dois meses para ser gravado, muito por que bastante da responsabilidade pela produção caiu sobre os ombros de Philippe, que gravou as guitarras, violões, teclados e ainda a voz. Coube a André gravar o baixo e fazer todos o backing vocais.

Aqui outro parênteses de uma peça que o grupo pregou durante as gravações do quarto disco. Philippe se recorda que, durante o dia, o estúdio Nas Nuvens estava sendo usado por um grupo de hard rock do sul, chamado Rosa Tatoada, com produção de Thedy Corrêa, vocalista da banda Nenhum de Nós. Como era de se esperar da Plebe, a banda trocou os rótulos das fitas deles, escreveram instrumentos não existentes no track sheets das fitas de 24 canais. Ainda rabiscaram um poster de uma mulher pelada que estava colado na parede. "É claro que deu a maior merda, ainda mais depois que descobrimos que o poster era o mascote da banda, que era pendurado em todos os estúdios e palcos em que passavam". relata o plebeu. "Todo mundo ficou puto com a banda, especialmente o Paulo Junquerio". Não era à toa que a Plebe tinha a reputação que tinha. Voltando à produção do álbum...

No lugar de Gutje, dois bateristas assumiram o desafio das baquetas no disco. Kadu, que estava tocando com Kid Abelha na época, e Márcio Romano, que era o baterista ao vivo da Plebe. Curioso que outros nomes chegaram a ser cogitados para assumir o posto, quando a banda precisou de um baterista para a estrada. Ronaldo Pereira, ex-Finis Africae, que depois seria empresário do Planet Hemp e dos Autoramas - foi um dos cotados. Assim como Eduardo Raggi, o Balé, ex-baterista do extinto Escola de Escândalo, cujo vocalista Bernardo é irmão de André. Balé era candidato ideal, mas estava morando em Brasília.

Por isso mesmo a banda optou por Márcio Romano, mas com um certo receio. Como ele havia sido roadie de bateria da banda por um bom tempo, conhecia bem o repertório, mas a sua formação era jazzísistica. "E o rock que ele ouvia era progressivo, sendo sua banda prediteta, o Rush", relata André. "A primeira audição foi terrível. A música escolhida era Até quando, mas Marcio não conseguia dar swing à batida quatro por quatro extremamente forte, mas simples". Os dois plebeus ainda se olharam pensando que achar o substituto de Gutje seria mais dificil do que imaginavam. Felizmente, depois de várias fitas punks dadas a Marcio, o baterista fã de Rush conseguiu captar a energia necessária para as músicas mais simples, mas longe der ser fáceis. "As complicadas ele tirava de letra", jura André.

A primeira música gravada para o disco foi Este Ano, com o Kadu nas baquetas. Dado Villa Lobos emprestou um amplificador Marshall da década de 60 e, executando um arranjo lindo, Philippe juntou vários canais de microfonia de guitarra com sons de cordas, que se mantém durante a música toda. Este Ano - depois de Se Lembra, com três acordes, no mesmo disco - é a música mais simples da banda, com quatro acordes somente. Philippe confessa que a banda chegou a gravar uma versão em espanhol de Este Ano, mas ficou horrível. Ele ainda fez uma demo de cinco músicas deste disco em inglês. Mas este material foi engavetado.

Com o sucesso do Clash City Rockers, os Plebeus chamaram Fernando Magalhães e o percussionista Peninha, ambos do Barão Vermelho para gravar uma versão de Clampdown, do disco London Calling. Philippe e Fernando fizeram um dueto de guitarras memorável na música, cuja versão em português ganhou o nome de Mundo Real. No disco foi identificado que lado do estéreo está cada guitarra: Philippe toca no canal esquerdo e Fernando, no canal direito.

O líder da Legião Urbana, Renato Russo, que há anos pedia a Plebe que gravassem Pressão Social, a primeira música da banda, foi convidado para cantar nela. Renato apareceu no estúdio Nas Nuvens pronto para gravar e pediu para ver a letra. André X, autor da letra, explicou a ele que faria o backing vocal. O final terminaria num dueto entre Philippe e o legionário. Mas quando Renato leu o verso "que a minha vitória é a derrota de alguém", levantou a cabeça e falou: "Mas a minha vitória NÃO é a derrota de alguém." Demorou um pouco para a banda convencer Renato que a ironia da letra era bastante aparente. Mas quando o legionário leu outro verso - "que meu lucro é a perda de alguém" - confessou que seria difícil cantar aquilo com convicção. A Plebe finalmente o convenceu a cantar, afinal - insistiam -, só estavam gravando a música por insistência dele.

Renato foi a microfone e começou a cantar coisas aleatórias em inglês, de Doors a Nirvana. Meio sem jeito, a banda começou a rodar a fita e o vocalista da Legião manteve os mesmos versos em inglês. Paulo Junqueira não se fez de rogado. Deixou a fita rolar e, eventualmente, Renato passou a seguir a letra. A cada passada, Paulo abria um canal novo e, depois de muita gritaria e alguns momentos brilhantes de lucidez, o vocalista terminou a sessão e sumiu na noite. O produtor teve o trabalho cuidadoso de edição. E o vocal ficou surpreendente. Para terminar a música, Dado Villa-Lobos veio e pôs a guitarra solo em outro dueto com o Philippe. Chegou a ser cogitado, mas a banda acabou não chamando o baterista da Legião, Marcelo Bonfá. "Mas aí seria a Legião, e não a Plebe", diz o plebeu-guitarrista.

A banda decidiu dar um presente e tanto para o fã carioca número um da Plebe, Alexandre "Plebeu". Ele foi convidado a gravar o backing vocal de Mundo Real, junto com o baterista Kadu - apesar da versão final ter sido gravada por Márcio Romano, com a bateria completamente depenada, só com um prato, caixa e bumbo - e Fernando Magalhães. André apelidou o trio vocal de "coro comendo solto." Quando Alexandre Plebeu chegou ao Nas Nuvens, Philippe e o André estavam gravando o teclado de Quando a música terminar. O fã chorou de emoção. Era a pessoa mais feliz do mundo.

Um punho fechado

Várias idéias para a capa foram consideradas. A banda escolheu uma foto close do punho do André com vários anéis - por coincidência, os mesmos que ele comprou quando foi com Philippe para Nova Iorque antes do lançamento de Nunca fomos tão brasileiros. Dentro de um dos anéis, uma foto minúscula da dupla.

O clipe de Este Ano, como era de se esperar da Plebe, causou controvérsia. Até a foto de uma cena de André, com uma armação de ferro na boca, foi capa do jornal carioca O Dia - e olha que, cinco anos depois, Marylin Manson fez a mesma coisa. O diretor do clipe foi Marcelo Dantas, da produtora Magnetoscópio, que dirigiu o vídeo numa garagem infestada de baratas em Copacabana. André teve que passar descalço por corredores imundos e ser amarrado por correntes. O trabalho do Philippe foi bem mais leve: quebrou as janelas de um carro e limitou-se a cantar a música. "O clipe não teve nada a ver com a música", conta Philippe, até hoje insatisfeito com o resultado. Ninguém entendeu direito o clipe, que foi ao ar na MTV devido à estranheza inicialmente causada. Mesmo com uma música tão bela, o vídeo de Este Ano não rodou muito. Mais uma vez, a Plebe fazia tudo da maneira mais difícil.

O próximo videoclipe seria dirigo por Jodele Larcher para a música Mais raiva do que medo, que foi responsável pelo primeiro clipe da banda, gravado sete anos antes. O vídeo de Mais raiva foi registrado ao vivo em frente a 4 mil pessoas na sede da UERJ, no Rio. "Num puta show, com os Plebeus gritando antes 'playboy tem que morrer', o clipe mostrava a Plebe em casa, fazendo o que mais gostava", recorda-se André. Como Jodele teve que viajar, Philippe acabou assumindo a edição do material.

A reação da critica ao álbum Mais raiva do que medo, outra vez mais, foi dividida. Houve quem ficasse feliz com a volta ao disco do grupo, que já estava há mais de três anos sem gravar. Outros chamaram a banda de "os dinossauros do rock." O grupo baiano Camisa de Vênus, que estava lançando um disco na época, também depois de muito tempo, foi alvo de reportagens. As matérias na imprensa as duas bandas mais antigas em atividade do rock nacional sairam juntas. Algumas delas, não muito elogiosas. Philippe tinha apenas 26 anos e já estava sendo chamado de dinossauro. E começou a pensar se isso tudo valia a pena. Mesmo assim, com a estréia do disco e show novo em cidades como Belo Horizonte e Goiânia, a banda seguiria. Este Ano e Aurora eram hits locais. "Exceção da Regra abria o show e o porradão sonoro era muito bem vindo", conta Philippe.

Fim da linha?

Um ano depois do lançamento de Mais raiva do que medo, no final de 1993, durante uma excursão pelo Nordeste, o pais começou a sentir o mau momento econômico. E a Plebe tambem. Mesmo com casas cheias, inclusive com público excelente em tempos de crise na Concha Acústica do Teatro Castro Alves, em Salvador (BA), os ventos pareciam ter mudado mesmo de direção. Para o Brasil e a Plebe. O país passaria pela pior crise dos últimos 20 anos, com a inflação passando dos 3.500 % ao ano. Naquele ano, o presidente Collor afundara o país na lama e, conseqüentemente, Mais raiva do que medo foi o disco que menos vendeu da banda.

Nessa época, o pai de Philippe caiu doente e o plebeu teve que voltar a Brasília para ficar com a família. Vários shows foram cancelados. Ainda assim, o guitarrista voltou brevemente ao Rio para um show na UERJ, onde o clipe ao vivo da música Mais Tempo Que Dinheiro foi gravado. Imediatamente retornou a Brasília. Depois de três longos meses em coma, o pai de Philippe falece. Para dar um tempo, o vocalista da banda decide ir para Nova Iorque passar o mês com o irmão.

O que seria apenas um refresco para a cabeça, acabou ganhando cara de opção de vida. Philippe gostou da cidade e viu que poderia viver lá. Para o guitarrista foi uma novidade ser apenas o Philippe, não "o
Philippe da Plebe", como era conhecido desde os 14 anos. Ele queria dar um tempo de tudo, ainda mais depois da morte do pai. Como tinha passaporte americano e falava inglês fluentemente - ele nasceu em Washington, DC - cidadania não seria problema.

Mas havia uma coisa a fazer: conversar com André sobre o futuro da banda. O baixista tinha acabado de virar pai e, já há algum tempo, estava cogitando a possibilidade de voltar a viver em Brasília. Quando Philippe regressou ao Brasil em maio de 1994, André sugeriu que diminuíssem as atividades da Plebe. A proposta fazia sentido. Philippe também queria fazer outras coisas, algo que a banda não deixava há muito tempo. Mas, adiantou, seria muito difícil manter o grupo assim.

O último show da Plebe Rude ocorreu na praia de Ipanema para 3 mil pessoas, com a banda dividindo o palco com o Ira! Nasi ainda cantou uma das canções do Clash com o grupo. E Philippe, Pobre paulista, clássico de Edgard Scandurra. Como era de se esperar, a Plebe convidou os fãs a subirem no palco, causando a maior confusão com os seguranças do espetáculo. Philippe quase apanhou.

Dois meses depois, em junho de 1994, Philippe Seabra rumava para Nova Iorque. Sua velha Gibson Les Paul foi parar em um armário, por onde permanece por quase dois anos. Apenas em 1996, o músico tirou-a do armário, ainda com as mesmas cordas enferrujadas do último show da Plebe. Decidira montar o seu projeto solo, a banda Daybreak Gentlemen.

André permaneceu no Rio cuidando do selo e da loja de discos Rock It!, que dividia com Dado Villa-Lobos. Ele ainda tocou com o Dash e continuou com o seu programa na Rádio Fluminense. Pouco depois, André - que sempre foi considerado um dos nomes mais importantes da cena brasiliense e que, por ter morado durante quatro anos na Inglaterra "abastecia" as bandas com novidades - voltou para Brasília. Assumia um cargo no Banco Central.

Tudo seguiria assim, em fogo brando, até 1999. Um ano antes, o lançamento do box set com os três primeiros discos da banda, a Plebe Rude voltou a aparecer na mídia. A edição limitada do material esgotou-se rapidamente em poucos dias. Finalmente, meses depois, toda a obra da Plebe seria relançada em CD. Tudo começava a conspirar em favor da banda. Até que veio o convite para um show. A cidade? Brasília. O palco? O Porão do Rock.

Musical genre: Plebe Rude III (1989)
Total tracks: ( 10 )

Produção: Renato Luiz, Armando Telles e Roberto Reis

Gravação e mixagem: Renato Luiz

1989 EMI

Na verdade, Plebe Rude III, como é conhecido, não tinha título. Metade da banda queria A Serra como nome, e a outra metade, O Plebiscito. O único consenso foi nome nenhum. Foi nesse disco que as famosas 'diferênças musicais' começaram a aparecer. Cada um apareceria com músicas já prontas que as vezes causava desentendimentos no estúdio.

A concepção do disco já começou mal. Os dois técnicos de som de estrada, que viajaram com a Plebe, acabaram se envolvendo, e a banda, ingênuamente achou que seria legal juntar o 'know-how' deles com o técnico de gravação dos dois primeiros discos, o Renato Luiz, para produzir o disco. Foi um desastre. A banda já estava acustomada a trablhar com O Renato Luiz. Ele sem dúvida é um dos melhores técnicos de gravação no Brasil, e tem um ouvido com poucos. Uma vez, durante as gravações de bateria, com a banda inteira tocando ao vivo num esporro daqueles, ele pediu ao assistente que parassem para ajustar o microfone de um dos tambores. Tinha saído um centímetro do lugar.

Demorou três longos mêses a completar o disco. O André, durante o fim das gravações e depois de ter acabado todos os baixos, voltou a Brasília para se casar com a Marta Brenner, mais conhecida como a Marta Detefon no breve período em que cantou backing vocal na Plebe entre os anos de 82 e 83. Junto com Ana Galbinski, conhecida na época como Ana XYZ, ex-namorada do Philippe, as duas eram chamadas de as Plebetes. Mas com a banda ficando mais conhecida em Brasília, e correndo o perigo de parecer com a Blitz do Rio, as duas foram gentilmente convidadas a sair.

O Plebe Rude III estava muito atrasado e a EMI já estava impaciente, pois agora dependia só dos vocais. O André se despediu da banda e antes de ir embora, pediu ao Philippe que tentasse ir, mesmo entendendo a necessidade dele ficar no Rio para terminar as gravações.Philippe não poderia deixar de participar do casamento de um de seus melhores amigos, que considerava como um irmão mais velho. Pegou um avião no dia seguinte e pouco antes do André subir ao altar, apareceu de supresa.

A seca em Brasília estava terrível, quase 7% de húmidade, quase tanto quanto o deserto do Sahara, e quando Philippe voltou ao Rio no dia seguinte, estava quase sem voz. Mesmo assim penaram muito, e terminaram o vocal de O traço que separa, uma das últimas a ser mixada. Graças a genialidade do técnico de gravação e produtor Renato Luiz, ninguém reparou a precariedade das vozes em certos trechos.

A banda chamou o fotógrafo de moda paulista Chico Aragão para fazer as fotos de divulgação, do encarte e da capa. A banda ficava brincando com ele perguntando se ele era irmão do Renato Aragão. O Gutje chegou a trazer uma serra a diesel para a sessão de fotos para a capa, mas somente poucas fotos foram tiradas com ela. Quando foram tirar as fotos individuais do encarte, eles foram ao Tívoli Park, um parque de diversões na Lagoa, no Rio de Janeiro. O Gutje tirou uma foto classica tocando caixa com uma banda de marcha do parque. O Jander tirou uma no Morro da Urca fazendo 'surf de pedra.' O André X tirou uma de cima de um morro carioca, com o topo dos prédios de fundo. O Philippe queria tirar uma foto no seu apartamento com o seu gato siamês, Pituca. Mas chegando lá, o Chico começou a espirrar e ficar todo vermelho. O fotógrafo era extremamente alérgico a gatos, e teve que sair para recuperar o fôlego. Só poucas fotos foram tiradas lá e uma foto do Tivoli foi usada.

A arte gráfica ficou por conta do Ricardo Leite, que fazia as capas para quase todas os grupos da época. Mas o elaborado trabalho gráfico não teve muito a ver com a banda.

A relação com a EMI não poderia estar pior. Mas os sinais não eram tão evidentes ainda. A primeira vez que Philippe reparou que tinha algo de errado, uma coisa que ele só comentou anos depois, foi durante a bateria de entrevistas para promover o terceiro disco. O grupo estava no terceiro andar do prédio da EMI, e enquanto a banda dava uma entrevista ao telefone, ele percebeu um desenho na parede, junto com os posters de artistas da EMI. Era um desenho de um rolo compressor amassando alguma coisa com 'concorrência' escrito em cima. No rolo gigante, o nome de todos os artistas nacionais da EMI, menos o da Plebe. Era 4 de novembro de 88, o 22 aniversário de Philippe. E isso depois de quase 250 mil discos vendidos. Feliz aniversário.

A EMI adiou o lançamento do Plebe Rude III alguns mêses, provávelmente na tentativa de dizer a banda que não estava satisfeita com o disco, chegando ao ridículo de sugerir que a banda usasse uma letra do Cazuza (por pouco não gravava uma música do Raul Seixas, algo que não teria absolutamente nada a ver com a banda), mas intensas negociações conseguiram manter o lançamento para pouco depois da data inicial.

Plebe lançou o disco no Circo Voador num show fantástico, com a casa cheia as duas noites, mas ninguém da EMI estava presente. As críticas ao disco foram muito divididas. Alguns acharam muito ousado a tentativa de incorporar elementos brasileiros, outros a acharam um disco perdido. Sem dúvida foi muito a frente de seu tempo. Somente anos depois no rock brasileiro começou a aparecer bandas com um sotaque mais 'brasileiro.' O crítico curitibano, Abônico Smith chamou o disco de "Plebe Rude, 2o grau" com aulas de geografia (Repente), gramática (Modifique o verbo), moral e cívica (Valor e Um outro lugar) e geologia (A serra). Quem era fã da banda se deleitou, e quem não era ficou menos ainda...

Plebe Rude III foi o disco mais controvertido da banda, provavelmente o mais controvertido de uma das bandas de Brasília. Mas era isso que a banda queria.

Musical genre: Nunca fomos tão Brasileiros (1987)
Total tracks: ( 11 )

Produção: Herbert Vianna

Gravação e mixagem: Renato Luiz

1987 EMI

1987-1988

Nunca fomos tão brasileiros

Muitas das músicas do disco Nunca fomos tão brasileiros teriam entrado no Concreto já rachou. Mas isso se não fosse pela decisão da EMI de incluir a Plebe Rude no pacote de mini LPs, que tinham menos faixas que um disco normal. As sobras do repertório constituíram grande parte deste disco, com apenas três novas compostas ainda em 1987: A Ida, Mentiras Por Enquanto e Nada — cuja letra era uma das primeiras compostas pela banda. Mesmo assim, era um grande disco.

Herbert Vianna, convocado novamente pelos plebeus para a produção, tinha terminado um romance muito intenso e, em razão disso, descoberto o álcool recentemente. Ele não participou tanto quanto no primeiro disco. Mas, quando apareceu, ajudou a tornar o disco um clássico. O conceito de gravação era o de valorizar baixo e bateria e, na mixagem, isso realmente ocorreu. Mas, em certas músicas, o volume das guitarras ficou baixo demais. Pelo menos na avaliação de Philippe.

Gravado em 24 canais, Nunca fomos... deixou os plebeus aliviados em termos de espaço. Lembre-se que Concreto foi gravado apenas em 16 canais. Cada música do novo disco veio com a data de composição para mostrar quais eram as velhas e quais as novas, como se fosse uma antologia do resto do repertório da banda.

Musicas como a Censura, Códigos e Bravo Mundo Novo, apesar de já terem alguns anos de existência, mostravam um caminho mais denso da Plebe, tanto em termos de letra quando em harmonias, já mais sofisticadas. As inéditas A Ida e Nada, cuja letra era de uma música dos primórdios da Plebe, mostravam o trabalho ímpar de tambores que a Plebe estava fazendo. Jaques Morelembaum, mais uma vez foi chamado para reger uma pequena orquestra de 22 músicos para Bravo Mundo Novo. Também é dele o arranjo para a belíssima A Ida, inspirado em I am the walrus, dos Beatles.

Escolha da capa

Várias capas foram propostas para este disco. Dentre elas, uma foto com o close de uma bota com um copo quebrado ao fundo. Os plebeus chamaram um artista de Brasília, o ____ ? para pintar um quadro, que seria fotografado para a capa. André dividiu a tarefa de supervisionar o resto da arte gráfica com Fernanda, mulher de Dado Villa Lobos, da Legião. O encarte duplo, que a EMI deu à banda pela excelente vendagem do primeiro disco, vinha cheio de fotos da banda e da equipe — ironicamente, quase todos foram despedidos nos meses seguintes. As letras no encarte foram todas escritas à mão por André.

Para as fotos individuais, cada membro do grupo escolheu a sua. André escolheu uma foto estourada em vermelho, que lhe dava um aspecto ameaçador, mas o resto do grupo escolheu fotos preto e branco, e ele teve que encontrar outra em preto e branco para manter a coesão do projeto. Acontece que ele se esqueceu de trocar o nome que ira embaixo da foto, André "Diablo" X e até hoje ele tem que explicar o por que do apelido.

Para a foto coletiva, a banda recrutou a fotógrafa de moda Isabel Garcia, a fim de realizar uma sessão de fotos no Centro do Rio. Essas talvez sejam os fotogramas as mais conhecidos da banda: André X vestindo um chapéu de cowboy, Jander com o cabelo curto trançado e Gutje em uma de suas melhores fotos. Philippe era — e é — o menos fotogênico da banda. Muitos fãs acharam que as fotos foram tiradas em Nova Iorque. Que nada. Todas foram feitas perto do Circo Voador, lendário espaço da cena musical carioca e local do primeiro show da banda no Rio.

A "tira" de balas

Depois da mixagem e das fotos, André e Philippe foram a Nova Iorque comprar equipamentos para a banda. André comprou vários baixos, dos quais acabou ficando com nenhum — Renato Rocha, da Legião, e Neto, do Finis Africae comprando dois. Philippe comprou duas caixas de alto falantes Marshall, dois amplificadores Hiwatt, e um sistema sem fio, que melhorou muito seu desempenho nos palcos. Jander pediu um processador de efeitos de guitarra GP 8 da Roland. E Gutje, uma caixa prateada Pearl 14 X 8 de bateria, que depois apelidaram de canhão.

Todo esse equipamento não chegou a tempo de ser usado no show de estréia, realizado no Canecão. Uma correia de baixo, uma imitação muito convincente e pesada de cinto de balas tipo 'Rambo' causou problemas na alfândega, que estava de olho em tudo. Foi nessa época que uma banda paulista falou abertamente numa entrevista que já molhou a mão da alfândega para trazer equipamento contrabandeado para dentro do país. Em resposta, a polícia baixou em cima do grupo, enfurecida com a declaração, apreendeu todo o equipamento e ficou mais atenta.

André e Philippe voltaram para o Rio poucos dias antes do lançamento de Nunca Fomos no Canecão, uma temporada no projeto Alternativa Nativa que duraria cinco dias. Assumindo uma atitude punk, talvez um pouco irresponsável da parte deles, a banda não ensaiou muito e a equipe técnica, de acordo com a impressão colhida pelos plebeus, não era de primeira. O som ficou muito ruim no primeiro dia. Justamente isso serviu de pretexto para a crítica que saiu nos jornais no dia seguinte. Os jornalistas, contudo, deram o benefício da dúvida à banda. Os shows seguintes foram ótimos, com bom público toda noite, que acabou rendendo um especial para a TV Manchete.

O disco foi bem recebido pela crítica e pelos fãs. Mas era consenso que faltaram mais músicas inéditas. Todo o repertório do começo da banda estava registrado, exceto Pressão Social, que seria gravada no quarto disco da Plebe, que seria lançado em 1992, com a participação de Renato Russo, e Voto em Branco, que foi gravada no sexto disco da banda, com a participação de Fe Lemos, do Capital Inicial, na bateria, e tendo André nos vocais.

A censura censura Censura

Logo de cara, a faixa Censura teve sua execução pública proibida pela Censura Federal, mas ao contrário do que aconteceu em 1981 com o disco da Blitz, artista também do cast da EMI, a faixa não foi arranhada. A imprensa noticiou o fato, chamando mais atenção para a musica.

Foi nessa época que o filme de Jean Luc Godard, Je Vous Salue, Marie, tinha sido censurado. Avalia-se, hoje, que o um filme normalmente passaria desapercebido pelo grande publico. Mas acabou tendo ampla repercussão, principalmente em função da famosa declaração de dom Helder Câmara: "Não vi e não gostei".

Mas numa mostra que o pais estava no caminho da abertura democrática, a musica tinha sido vetada não pelo seu cunho social, mas por causa da palavra "porra" no verso "Porra meu papai, deixe-me falar". Eventualmente, a música foi liberada. E não só virou single, como foi executada pela banda várias vezes no programa de Chacrinha, que era exibido nos sábados à tarde pela TV Globo.

A canção A Ida foi escolhida como música de trabalho do disco. A EMI promoveu um clipe superproduzido para o Fantástico, mas que beirava o ridículo. No roteiro do clipe, André e Gutje eram líderes de gangue num estaleiro abandonado no Rio de Janeiro. Com a participação de 20 extras, cada líder tinha sua tropa em torno de si, enquanto ambos brigavam com facas. Jander fez o papel de um andarilho que sempre passava nos momentos de tensão. Philippe, que se recusou a atuar na música que tinha feito para um amigo morto em um acidente de barco anos atrás, só aparecia tocando violão e cantando a música. Um segundo videoclipe da mesma canção foi feito no auditório, em que a banda surgia tocando em frente ao cenário, um imenso telão reproduzindo a capa do disco.

Pé na estrada

A banda saiu em excursão pelo interior de São Paulo sem ter nenhuma música ainda sendo veiculada nas rádio de alcance nacional. Os quatro foram passados para trás pelos produtores. Amargaram, por conta disso, um imenso prejuízo. Nos shows que fizeram em seguida, a casa estava sempre cheia e a banda pôde então investir em mais equipamentos.

Philippe começara a viajar com quatro guitarras, além do um violão de aço. Andre também estava na excursão com duas caixas de baixo, uma de cada lado da bateria. Jander passou a viajar com um amplificador Fender, o mesmo que viera de Brasilia e que todos da "turma" usavam nos shows do Aborto Elétrico a da Blitz. Um presente que Philippe dera para ele. Gutje também importou mais peças para a Tama prateada, contando os roto tons — usados nas viradas agudas de Johnny — e sete tambores.

O disco foi lançado em várias capitais do país. Em Brasília, os quatro se apresentaram para um público recorde. E foi exatamente aqui que a banda começou a mostrar falhas dentro da estrutura. Os dois guitarristas se afastavam cada vez mais, do ponto de vista musical e instrumental. Sem muita técnica vocal desenvolvida ate então, Philippe perdia o fôlego facilmente e, devido à sua movimentação no palco, penava para ficar parado ao microfone a fim de articular as palavras de cada canção.

Remixes

A Plebe sucumbiu neste ano à febre dos remixes. Na época, o lançamento de faixas remixadas era uma maneira que as gravadoras encontraram para estender a vida útil das músicas de trabalho. Depois do êxito de A Ida, que sofreu boicote por parte de Philippe, que se recusava a apresentar a música no Programa do Chacrinha, por não suportar a idéia de tocar uma música tão pessoal com o Velho Guerreiro jogando bacalhau para a platéia, e de Censura, a EMI queria um terceiro single.

Impulsionados pelo sucesso da regravação de Proteção, a antológica versão Proteção II, a missão — uma brincadeira em cima da continuação de Rambo II, a missao, que havia sido recém-lancada — os quatro plebeus entraram de novo nos estúdios da EMI para a gravação de uma nova versao de Nunca Fomos Tão Brasileiros, com uma introdução em fade tendo no meio um solo de bateria e outro de guitarra inspirado em Yngwie Malsteem, músico que estava fazendo a cabeça de Philippe na época.

Essa versão continua inédita em CD. O lançamento só ocorreu em disco promocional, apesar da insistência da banda de incluir a faixa nos inúmeros relançamentos da Plebe feitos à revelia da banda. Só que a Direção Artística da EMI ficou irritada com o fato da música começar com o volume baixinho que subia aos poucos, perdendo o impacto, que era justamente o motivo pela qual estava sendo regravada.

Na estréia desse remix no Chacrinha, houve um fato curioso. Quando o apresentador apresentou a banda, houve um silêncio de dez segundos ate que a música apareceu aos poucos. O fato é que este episódio, aliado à recusa da banda em apresentar A Ida no Chacrinha abalou a já não muito saudável relação entre a banda e a Direção Artística da EMI. A Plebe começava a ter a fama de "banda difícil".

No final da excursão, a banda esta exausta. O último show da fase Nunca fomos ocorreu no Circo Voador, onde os fãs mais ardorosos os aguardavam. O show foi bom e a platéia respondeu com entusiasmo. Afinal, as músicas Até quando esperar, Proteção, Minha Renda, Johnny, A Ida, Censura e Nunca fomos tão brasileiros eram sucessos de rádio.

Mas isso não fazia muita diferença. Quem freqüentava o Circo Voador na época era o tipo de público raro no Brasil, que conhecia o disco inteiro. Mas quem viu aos primeiros shows da banda no Circo Voador, pôde notar o desgaste interno na banda.

Tom Leão, então crítico do jornal O Globo escreveu no dia seguinte que a Plebe não era mais a mesma. Foi a primeira crítica negativa que a banda tivera até então. Philippe ficou arrasado.

A banda precisava de férias. Mas, como o mercado no Brasil não permitia descanso e a EMI estava pressionado, a Plebe voltou ao estúdio em novembro de 1988 para gravar o terceiro disco.

Musical genre: O concreto ja rachou (1985)
Total tracks: ( 7 )

Produção: Herbert Vianna

Gravação e mixagem: Renato Luiz

Disco de Ouro

1986 EMI

1981 — 1986

Do nascimento à gravação de O Concreto Já Rachou

Provavelmente uma das estréias mais importantes do rock brasileiro, o primeiro disco da Plebe Rude continha os mega hits Até Quando Esperar, Proteção, Johnny vai à Guerra, Brasília e Minha renda. O trabalho rendeu um Disco de Ouro quase que da noite para o dia. O jornalista Arthur Dapieve escreveu na antologia BRock, O Rock Brasileiro dos Anos 80: "O Concreto já rachou é sério candidato a melhor disco da história do Rock Brasileiro."

Nascimento

Plebe Rude. O grupo que é apontado como um dos mais importantes e influentes da cena musical de Brasília dos anos 80, nasceu meio que ao acaso. Quer dizer, nem tanto assim. Philippe Seabra se recorda que, numa tarde de julho de 1981, quando voltava para casa vindo do colégio, encontrou-se com André Mueller no ônibus. Ambos eram vizinhos no bairro do Lago Norte, em Brasília. Poucas semanas antes, André tinha convidado o vizinho para assistir a uma apresentação do grupo Os Metralhas, da qual era o baixista, na lanchonete Foods, na 111 da Asa sul.

Philippe tinha então 14 anos. Claro que tinha aceitado o convite. "Foi a primeira vez que vi um show punk ao vivo, mas o estilo já conhecia", recorda-se. Dois anos antes, quando André morava na Inglaterra, ele mandara uma fita K7 para o irmão mais velho de Philippe, Alex. O conteúdo da fita eram as músicas do explosivo movimento que estava acontecendo por lá. Philippe descobriu então músicas de Stiff Little Fingers e do Clash. E a sua vida mudou para sempre. André foi quem abasteceu a turma em Brasília com as últimas novidades de Londres.

Mas, voltando ao encontro dos dois no ônibus, naquela tarde seca, característica de Brasília em julho, André perguntou a Philippe se ele queria montar uma banda. O jovem Seabra estudava na Escola Americana e tocava guitarra na banda Caos Construtivo, que fazia versões de músicas do Stiff Little Fingers, Clash, Buzzcocks, Ramones e Undertones, junto com mais três amigos iugoslavos. Era André quem emprestava seu baixo Fender Precision para a banda — o único instrumento de verdade a que tinham acesso. Mas Philippe já estava querendo começar a tocar material original. E aceitou o convite. No dia 7 de julho, nascia a banda, ainda sem nome.

O baterista Gutje Worthmann, já era conhecido de Philippe — "mas só de vista". Ele o tinha encontrado no show dos Metralhas, banda que tinha Marcelo Bonfá, futuro Legião Urbana, na bateria. Gutje tinha recém saído da Blitz64 e foi chamado para um ensaio na casa de Fê Lemos, também no Lago Norte. "Era na casa de Fê que rolavam os ensaios do Aborto", lembra Philippe. O Aborto Elétrico tinha Renato Manfredini — futuro Russo — nos vocais, André Pretorius, como guitarista, além do próprio Fê, futuro Capital Inicial, na bateria. Pretorius era sul-africano, amigo de André, e considerado por todos como "o primeiro punk de Brasília".

O nome da banda

O grupo tinha surgido, mas ainda não nome. Estavam entre Os Zulus — do qual o logotipo seria o desenho de um africano cheio de anéis no pescoço esticado, que eles tirariam do rótulo do álcool Zulu — ou Plebe Rude. Os dois nomes haviam sido sugeridos por André. Optou-se, claro, pelo último. A origem do nome é interessante. Quando morava em Curitiba, André era acintosamente chamado por um tio, junto com irmão, de "plebe ignara". O termo vinha do lendário jornalista Stanlislau Ponte Preta.

Uma das características da Plebe — a irreverência e o sarcasmo — já podia ser notada. Desde que começou, a Plebe sacaneava todo mundo. Os três plebeus sabotavam os ensaios do Aborto, desligando a chave geral de energia do lado de fora da casa, para acender um minuto depois.

Depois dos primeiros ensaios, a banda de Philippe, André e Gutje podia pensar em fazer seus primeiros shows. Jander Bilaphra, o "Ameba" só entraria no ano seguinte. Gutje e André dividiram os vocais nesse período, mas queriam alguém permanente na posição de vocalista. Foi então que chamaram Jander, que começava a andar com a turma.

Mas a primeira apresentação ocorreu ainda sem Jander. Foi no Clube da Imprensa, ainda em 1981. A Plebe dividiu o palco com o Aborto Elétrico. Todos na banda estavam nervosos. Sem um afinador eletrônico — que nem existia na época — o trio acabou afinando o baixo muito mais alto, e a guitarra fora do tom normal. O resultado não foi dos melhores, mas mesmo assim, para as poucas pessoas que viram, a semente estava plantada.

A seguir, a Plebe começaria a tocar por toda a cidade. Os shows geralmente eram compartilhados com o Aborto e a Blitx. A mídia começou a perceber que havia um movimento em Brasília quando as três bandas tocaram na Sala Funarte, hoje Sala Cássia Eller. Era final de 1981. E a TV Globo local cobriu o evento.

Pouco tempo depois, quando o Aborto Elétrico encerrou suas atividades, em 1982, Renato começaria a tocar sozinho. Fazia os shows com voz e violão. Quando se apresentava com a Plebe, muitas vezes num espaço cultural no Lago Norte, que a mãe de Philippe, prefeita comunitária, organizava, os três plebeus se divertiam jogando moedas na frente de Renato, como esmola. Posteriormente, o cantor e compositor montaria a banda Legião Urbana. Nessa época, os dois grupos dividiam uma sala de ensaio, no Brasília Rádio Center, situado na Asa Norte.

Depois de inúmeros shows nas ruas, em bares, e festas do Departamento de Arquitetura da UnB, onde André estudava, a Plebe se firmou como banda de respeito na cidade. Nessa época começaram a aparecer os primeiros fãs.

Sem o Aborto Elétrico, André X, Philippe Seabra, Jander Bilaphra e Gutje assumiam o lugar de banda punk da cidade. ''A Plebe Rude era a melhor banda da época. Em 1982 era ela quem mandava'', afirmou Fê Lemos, em 1998. ''Era a minha favorita'', disse Renato Russo, em entrevista ao Correio Braziliense, em 1996.

Ascenção e Queda de Quatro Rudes Plebeus

A Plebe Rude foi a primeira banda de Brasília a ter o registro de um filme sobre si mesma. Isso só foi possível porque Gutje havia conseguido o patrocínio de uma loja de material fotográfico para um dos hoje lendários shows do Espaço Cultural do Lago Norte. Em troca de uma faixa atrás do palco com seu nome, a loja deu inúmeras caixas de filme Super-8.

O baterista dirigiu então o média-metragem Ancensão e Queda de Quatro Rudes Plebeus, filme de 40 minutos que narra, em tom ficcional e irreverente, "a trajetória" da banda. A abertura do filme tinha takes individuais dos membros do grupo. O primeiro era Ameba. Helena, mulher de Gutje na época, aparecia no topo de uma escada perto da Catedral de Brasília, toda vamp, empurrando um corpo escada abaixo. A câmera se aproximava e em close revelava que o corpo era de Jander. André X surgia depois, numa construção abandonada ao lado do Venâncio 2000, vestindo uma capa preta. Gutje era apresentado saindo de um teatro cercado por fãs e dando autógrafos. E, para dar um toque menos sério, Philippe era apresentado saindo de uns arbustos, dançando balé num estacionamento.

Narrado por Renato Russo, numa gravação feita em um take na sala de ensaio que os plebeus dividiam com a Legião, o filme tinha como trilha a própria Plebe tocando suas músicas. O processo de registro sonoro do filme consistiu na exibição do filme, que a banda assistia enquanto Renato, de improviso, narrava a história ao lado de um gravador.

***

Uma curiosidade. Quando o filme foi mostrado ao público pela primeira vez, o projetor não tinha a mesma velocidade do projetor que a banda usou na gravação. O resultado: as imagens estavam fora de sincronia do áudio. Mesmo assim, Ascensão... ganhou o prêmio melhor filme experimental do Primeiro Festival de Cinema Super-8 de Brasília. Infelizmente, a cópia original da fita de áudio está perdida.

***

Depois das apresentações individuais, o filme seguia com dois dos integrantes da banda se encontrando pela primeira vez com Jander. No TL velho — um primo da Variante, carro da Volkswagen dos anos 70 — de André, o baixista e Philippe surgiam numa tentativa de encontrar um vocalista. O cenário: a barragem de Brasília. Nesse momento, os dois vêem Jander. No banco da frente do carro, o cachorro de André, Shakey. Era ele quem, na ficção dos plebeus, segundo o roteiro do filme, fazia os vocais da banda. Shakey, contudo, logo seria substituído por um humano. Enquanto os três conversam do lado de fora do carro, Gutje aparece com um extintor de incêndio e descarrega um jato em cima de todo mundo. Com uma certa liberdade poética, nascia, aos olhos do espectador dessa versão cinematográfica, a banda Plebe Rude.

Na seqüência do filme, a banda surgia em takes tocando ao vivo. Logo depois, surgia Renato Russo. Ele aparecia na casa de Philippe durante um ensaio, vestindo terno. Para esta cena, a banda, na fita original, gravou uma versão de A garota de Ipanema, mas cantando "Manfredo, Manfredo..." — uma brincadeira em cima do verdadeiro sobrenome de Renato: Manfredini. Usando óculos de aros grossos, Renato entra para assistir ao ensaio. Nas mãos, um cartão: "Manfredo, caçador de talentos".

Meio desconfiados, os integrantes da banda recebem o cartão, mas não se fazem de rogados e mandam algumas músicas. São surpreendidos pela reação do "caçador de talentos". Renato começa a tremer com a música. E não pára. Fica tão envolvido com o som, que parece sofrer um ataque epilético, jogando-se no chão. Debatendo-se na sala de ensaios — na verdade, o quarto de Philippe — empresário rola no chão, cobrindo o corpo com um tapete. Quando a música termina, Renato se levanta, arruma o terno e sai, dando um contrato à banda.

Pelo filme, descobre-se que a banda fica milionária. Os plebeus lêem a notícia que venderam um milhão de cópias do disco, comemorando com um banquete no gramado da casa de Philippe. Os quatro estão maquiados. Numa bandeja, é servida uma cabeça — que André chama então de "Cabeça de Lemos" — uma sacaneada nos irmãos Fê e Flávio, do futuro Capital Inicial. A cena corta para o final do banquete com a banda lambendo uma caveira, e com a mesa toda desarrumada, com garrafas de bebida vazias.

O clímax, contudo, ainda estaria por vir. Enquanto a banda dorme, depois da comemoração, dentro da sala da casa de Philippe, Bernardo — irmão de André e vocalista do grupo XXX (pronuncia-se xisxisxis) e futuro líder da Escola de Escândalo — entra pela janela com uma máscara nos olhos. Um larápio que roubaria tudo. A banda acorda numa sala vazia. Para sobreviver, os quatro plebeus passam a trabalhar como garis no Eixão da Asa Sul. E assim encerra o filme.

Sobre as gravações, na lembrança de Philippe, está a falta de paciência de Gutje, que perdeu a cabeça com o resto do grupo inúmeras vezes. "A gente não tinha saco para filmar", recorda-se o guitarrista. Mas foi graças à insistência do baterista que Ancensão e Queda de Quatro Rudes Plebeus ganhou vida e tornou-se um documento que registra um dos momentos mais prolíferos da música pop brasileira.

O rock de Brasília

A estréia da Legião Urbana nos palcos aconteceu em Minas Gerais. O grupo de Renato Russo abriu para a Plebe em 1982, num festival de música em Patos de Minas, uma cidade que fica a várias horas de ônibus de Brasília. A grande banda alternativa da capital era a Plebe.

Renato tinha sido chamado para fazer um show em Patos de Minas pelo produtor local Shaolin, mas como o Aborto tinha acabado, o cantor sugeriu que a Plebe fosse a atração, desde que a nova banda dele, a Legiao Urbana, abrisse o show. Assim, com apenas um ano de idade, pela primeira vez a Plebe tocava fora da capital.

A contundência política das músicas Pressão Social e Vote em Branco, da Plebe, e de Música Urbana II e Que país é esse, da Legião, assustou a polícia local. Após o show, os integrantes das duas bandas foram detidos e interrogados. Como Philippe era menor de idade, com apenas 15 anos, a polícia queria saber por que ele estava ali. Depois do interrogatório, as bandas foram liberadas com a seguinte condição: teriam que partir no primeiro ônibus. Foi o começo de uma série de esbarros que a banda teria com a policia.

Com o fim do Aborto, nesse meio tempo, os dois ex-integrantes Fê e Flávio Lemos, além de Loro Jones, ex-Blitx, montaram a banda Capital Inicial. Mais adiante, depois de algum tempo, os três chamaram Dinho Ouro Preto para cantar. Ele tomaria o lugar da simpática Heloísa.

Em 1983, a Plebe Rude, a Legião Urbana e o XXX — a primeira banda de ska da cidade, formada por Gerusa, irmão de Loro Jones, e Bernardo Mueller, irmão de André, ambos futuros integrantes do Escola de Escândalo — e o Capital Inicial eram as quatro grandes bandas da cidade.

"É claro que tinha bandas de mpb e pop — na linha da Cor do Som —, mas as quatro bandas detonavam essas fora do palco sempre que tocavam nos mesmos shows", lembra Philippe. De fato, as bandas que conviviam em meio ao furacão punk brasiliense eram bem mais comportadas. Como o Mel da Terra, que tinha produzido um disco independente e ganhado as rádios locais com um hit — Estrela Cadente. A outra banda com projeção local era a Pôr do Sol. Bem, o nome de ambas já dizia tudo.

Essas bandas passaram a se recusar a tocar com as punk por causa dos públicos, que não se cruzavam. Houve muitas vezes que a reação do público era tão sincera que saía porrada. Os grupos também reclamavam dos músicos punks, que os sacaneavam. Nem mesmo os metaleiros escapavam.

"Uma vez, uma banda de heavy chamado Rock Fusão tocou depois da Plebe", relata Philippe. "A gente queria ir embora, mas não podia, pois a banda estava usando o amplificador de baixo". Durante o habitual solo de bateria dos metaleiros, a Plebe, na moita, desligou o amplificador e o levou embora, mas ficou para ver a cara espantada do baixista, quando a banda entrou de novo na música.

Por um breve período, entre 1982 e 1983, na época da lendária temporada na ABO, a Plebe tinha duas meninas fazendo backing vocal. Uma era Marta Brenner, mais conhecida como Marta Detefon, com quem André iria se casar cinco anos depois. E a outra era Ana Galbinski, conhecida como Ana XYZ, namorada de Philippe, na época. As duas eram chamadas de plebetes.

E não permaneceriam na banda. Há uma explicação para isso. Como a Plebe estava ficando mais conhecida em Brasília, e não queria correr o risco de parecer com a Blitz, banda carioca que já tinha estreado com o compacto Você não soube me amar, Marta e Ana foram "gentilmente" convidades a sair do grupo. Logo em seguida, a Plebe começou a tocar em São Paulo e eventualmente, em 1984, fez a sua estréia fulminante no Circo Voador no Rio.

"Rumores falam em guerrilha"

A primeira vez que a Plebe desceu para São Paulo, foi para tocar na última noite no antro punk, o Napalm, que estava a beira da falência. Fernanda Pacheco, na época empresária da Legião e que hoje é mulher de Dado Villa-Lobos, marcou o show e conseguiu encaixar a banda na noite anterior no lendário Rose Bom Bom. Um cartaz espalhado pelos locais especializados em rock, em São Paulo, anunciavam o show da Plebe como uma banda "new wave" de Brasília.

Na noite seguinte, no show do Napalm, João Gordo, dos Ratos do Porão, e Clemente e Ronaldo, dos Inocentes, que já haviam ouvido a falar da banda, estavam lá para ver qual era. Anos mais tarde, João confidenciou à banda que eles eram o único grupo do mainstream brasileiro que respeitava. Com a rivalidade entre os punks e playboys em SP, naturalmente depois do show houve um quebra. A briga foi tão grande, que até o valente Jander se abrigou atrás do palco. Houve rumores que alguém tinha sido morto. A reação do público assustou os plebeus. Tal confusão era muito distante do movimento benigno que caracterizava a cena de Brasília. (André X fala mais sobre esta ida a São Paulo - leia aqui – link)

Alguns meses depois, numa noite que talvez entrará para a história do rock nacional, na casa noturna Village, a Plebe abriu para o grupo Ira!, que estava lançando o seu primeiro compacto, Pobre Paulista. Charles Gavin, hoje baterista dos Titãs, ainda era membro do Ira!, e emprestou a bateria ao Gutje. O plebeu nunca tinha tocado com tantos pratos, mas não hesitou em usar todos. Um mês depois, a banda tocou com os Inocentes (a banda paralela de Clemente) e rodou todo o underground paulista, tocando várias vezes no Rose Bom Bom, no Madame Satã e até na Danceteria Tifon.

Como todos estavam no colégio, e André na faculdade, era preciso regressar a Brasília de ônibus comercial, logo em seguida aos shows. Uma viagem de 16 horas. "Não existia cachê nem perspectiva de gravar sequer um compacto, e a banda ficava na casa de amigos", lembra Philippe.

Em 1983, a Legião foi tocar pela primeira vez no Rio no mesmo final de semana do show intitulada 1984, em que Plebe, Capital e Escola de Escândalos montaram no Sesc, na Asa Sul. No Rio, Os Paralamas do Sucesso já tocavam a música Química. Talvez, por isso, a Legião foi muito bem aceita. Pouco tempo depois, quando surgiu a primeira oportunidade para a Plebe tocar no Rio, não pôde ir. Em julho daquele ano, no segundo aniversário da banda, Philippe foi passar um mês nos Estados Unidos com seus irmãos. Iria para ver se gostava, na perspectiva de se mudar para lá depois de concluir o segundo grau, o que os seus dois irmãos fizeram. Alex, Philippe e Ricky nasceram lá. Só que Philippe não gostou muito. Foi a primeira vez que tinha voltado desde que se mudou de Washington para Brasília aos 8 anos de idade. Em 1983, ele estava com 16 anos e não conseguia se ver morando lá. Ainda mais sem a banda. Na volta, a Plebe desceu para o Rio.

Foi uma noite histórica no Circo Voador, no Rio. A casa estava cheia e os Paralamas estavam curtindo o recém sucesso de "Óculos". A Legião, ainda sem disco, estava começando a arregimentar fãs. E todos na platéia pareciam ter ouvido falar da Plebe. Uma demo tocava na Rádio Fluminense, com a música Dança do Semáforo, com os vocais das Plebetes ainda e nunca regravado pela banda, além de Sexo e Karate. O até então desconhecido repertório do Concreto já rachou foi tocado na íntegra, mais as músicas Censura, Vote em Branco (só regravada pela banda no disco Erre ao contrário), Tá com nada (gravado pelo Detrito Federal, nunca pela Plebe) e uma versão de Electric Co., do primeiro disco do U2, que havia sido recém lançado. A Plebe foi muito bem aceita. Logo após a apresentação, Philippe saiu pela arquibancada distribuindo folhetos, com letras, fotos e informações sobre a banda. A Plebe comecou a transitar entre o eixo Rio-São Paulo chamando muita atenção e, conseqüentemente, os shows lotavam cada vez mais.

A Legião finalmente chegou ao primeiro disco e com o seu sucesso, Renato Russo, Dado Villa-Lobos, Renato Rocha e Marcelo Bonfá se mudaram para o Rio de Janeiro, abrindo as portas para a Plebe. Enquanto isso, o Capital Inicial foi para São Paulo. Em Brasília a turma continuava a crescer com as bandas Finis Africae, Detrito Federal, Elite Sofisticada — uma brincadeira em cima do nome da Plebe Rude — e Escola de Escândalo.

Para ler em detalhe sobre essa época, clique aqui na matéria do Correio Braziliense, A turma da Colina. Para ver fotos raras da Plebe clique aqui.

O disco

Depois de muita insistência de Herbert Vianna e de Renato Russo, a EMI contratou a Plebe Rude para gravar um disco. A promessa é que, se a banda tivesse êxito, o contrato seria estendido. Foi um investimento sem risco algum para a gravadora, que também tinha os Paralamas e Legião como artistas contratados.

Com produção do Herbert, a primeira dele, a Plebe foi incluída no pacote de novos artistas, junto com Zero e Musak, ambas de São Paulo, e uma banda deplorável do Rio: Lado B. O conceito estratégico brilhante da EMI era este: para testar bandas, a gravadora lançaria, sem investimento nem divulgação especial, um mini LP. Era o tamanho de um disco normal, mas com apenas seis músicas. Por conter menos faixas, o preço seria mais barato. Mas como o Brasil é o Brasil, os lojistas, sem hesitação, venderam os discos pelo mesmo preço de álbuns convencionais.

Por causa do nome que a Plebe Rude tinha no Rio antes de ser contratada, após inúmeros shows no Circo Voador, Mamão com Açucar, Danceteria Metrópolis, Morro da Urca e Mistura Fina, as músicas começaram a tocar na rádio. Mais pela demanda popular. E o disco começou a vender.

Como o título do disco foi tirado da música Brasília, que originalmente não estaria entre as seis músicas escolhidas, a banda conseguiu que a gravadora a incluísse. Foi o único Mini LP com sete faixas. A banda teve que lutar para conseguir um encarte simples. Com a intervenção de Herbert, os plebeus conseguiram convencer os executivos da EMI que as letras das bandas de Brasília eram importantes. Mas, claro, o encarte foi impresso no papel mais vagabundo. A foto da capa foi tirada numa casa abandonada, que alguém na EMI conhecia de um video clip de um artista brega. A banda foi lá com o fotógrafo Flávio Colker. Pouquíssimas fotos foram tiradas. Por sorte e pelo talento de Colker, uma delas ficou genial e virou a capa. Pouco tempo depois, a Plebe voltou para o mesmo local para gravar o clip de Até Quando Esperar.

O bochicho começou. E a EMI começou a perceber que a Plebe Rude era um nome forte. Marcelo Nova, do Camisa de Vênus, falou bem do disco na TV Globo. Herbert sempre falava em entrevistas sobre as super bandas de Brasília. Apesar dos Paralamas não terem começado em Brasília, o Herbert e o Bi moraram lá e as vezes são incluídos como músicos da cidade. A Legião, já tomando o país de assalto com a música Será e Geração Coca Cola, não só falava sempre da Plebe, como o próprio Renato assinou o press release do disco.

O show de lançamento ocorreu no Teatro Ipanema, no Rio, junto com Zero. Foi fulminante. Depois, em fevereiro de 1986, o grupo fez o seu primeiro show solo, em duas noites lotadas no Morro da Urca, na casa Noites Cariocas, onde já tinham tocado dois anos antes. A Plebe veio para ficar e, eventualmente, os plebeus tiveram que se mudar para o Rio, durante a Copa de 1986. Na verdade, a mudança veio um pouco contra a vontade da banda, mas a distância do Rio e de São Paulo estava irritando a EMI.

A Plebe apareceu em todos os programas de TV obrigátorios da época: Fantástico, Chacrinha, Clip Clip e até concedeu uma entrevista com o Clodovil. Aqui, vale a pena contar o episódio.

***

Os quatro estavam extremamente sem graça na presença do costureiro, coisa rara para os plebeus sem medo de dizerem o que pensavam. Clodovil começou a brincar com o grupo, dizendo que eles eram tão punks, mas na verdade eram umas "graçinhas". A banda ficou mais sem graça ainda. Clodovil virou-se para Philippe e perguntou: "Sua família é do Pará?" Ele reconheceu um sotaque indireto paraense debaixo do leve sotaque americano que o guitarrista tinha — e tem até hoje. Aí, olhou para os Plebeus, e perguntou: "Porque vocês estão tão quietos? Vocês acham que eu sou uma bicha velha?" Todos da banda se seguraram para não explodir em risos, mas ninguém falou nada. Bem comportados, afinal.

***

Os quatro plebeus botaram o pé na estrada e passou a se equipar. Gutje comprou uma bateria Tama e Philippe, o amplificador Marshall de Herbert, o mesmo que usou durante a gravação do disco. Jander mandou fazer uma guitarra em Brasília. E André comprou um amplificador Marshall de baixo de Bi Ribeiro, do Paralamas.

Polêmica no rádio

A Rádio Transamérica chamou a Plebe para tocar no primeiro programa "Chá das Cinco", que juntava várias bandas tocando ao vivo. Junto com os plebeus, a banda Zero. Banda de São Paulo liderado por Guilherme Isnard, chamou Philippe e Gujte para fazerem o backing vocal do hit Agora eu sei, mais precisamente a parte de Paulo Ricardo, que dividia os vocais na música.

Cantando roucos, imitando o vocalista do RPM, quando chegaram na parte "O que me traz de dor", Philippe cantou no ar ao vivo para todo o Brasil "Isso atrás, que dor..." Guilherme ficou possesso e queria bater no guitarrista, alegando que a vó dele estava ouvindo.

Mas o que chamou mais atenção daquele apresentação foi a versão funk de Proteção, a primeira de inúmeras versões da música, que a banda tocaria nos anos subseqüentes com a inclusão de Bichos Escrotos, música do recém-lançado disco Cabeça Dinossauro, dos Titãs. A música tinha sido censurada por causa do palavrão no refrão. Foi a primeira vez que a musica foi ao ar em cadeia nacional, e quando chegou a hora do refrão, com toda a executiva da Transamérica e os divulgadores da EMI com os cabelos em pé, assustadíssimos, Philippe, de improviso, mudou "Vão se fuder" para "Vão tomar banho". Esta versão de Proteção estourou e alavancou em muito as vendagens do disco O Concreto Já Rachou.

Depois do show de lançamento do disco Cabeça Dinossauro, Philippe foi para o Baixo Leblon de carona com várias pessoas, entre elas Branco Mello, vocalista dos Titãs. De repente, a versão tocou na rádio e ele deu a maior bronca em Philippe, dizendo que eles peitaram a censura e não era para modificar.

Philippe acabou pagando por aquele instante de decisão de não causar um tumulto, multa ou até notificação pela Polícia Federal para a rádio Transamérica, mas pouco tempo depois, a musica foi liberada e virou um dos maiores sucessos dos Titãs. A Plebe tocou essa versão, com o palavrão — devidamente bipado — numa apresentação para a TV Globo, no programa "Clip Clip". A música tomou as rádios de assalto.

As criticas elogiosas ao lançamento de O Concreto Já Rachou se acumulavam e o disco vendeu cem mil cópias. A Plebe tinha um Disco de Ouro, nas mãos. As rádios executavam de maneira maciça Até quando, Minha Renda e agora, Proteção.

Shows lotados ocorreriam em capitais como São Paulo e Salvador, no lendário Teatro Salvador, onde o público chegaria a derrubar o portão de entrada.

Tudo corria bem, mas numa ação, sem dúvida punk, a banda se recusou a receber o Disco de Ouro no Chacrinha. Isso era comum a todos os artistas nacionais, naquela época. A Plebe Rude preferiu receber o disco das mãos de Faustão, que então apresentava o programa semanal na TV Bandeirantes "Perdidos na Noite", que tinha mais status de cult do que Ibope.

A EMI não gostou nem um pouco. As apresentações da Plebe no programa, sempre exibido de São Paulo ao vivo para todo o país, eram fenomenais. O próprio Faustão, longe de ter a fama e poder que tem hoje, confidenciava à banda que eles eram um dos artistas preferidos de sua platéia. Conseqüentemente, poucas pessoas viram a entrega do disco. E menos ainda sabiam que a Plebe conseguiu um Disco de Ouro. Começava a difícil relação da Plebe Rude com a EMI.

Herbert Vianna disse à banda, anos depois, que eles realmente eram punks, mas eram burros. O ano era 1987. O concreto tinha rachado.